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Daniel Piza

Por ter vencido a Eurocopa há dois anos, ter como base o time do Barcelona e contar com alguns jogadores entre os melhores da Fifa, a Espanha chegou à África do Sul como uma das seleções favoritas, apesar de não ter título. Começou perdendo para a fraca Suíça, se recuperou diante de Honduras e fez bom jogo contra o Chile titular. Contra Portugal, ontem, mais uma vez se bastou num placar magro, 1 a 0. Mas jogou como pretendia desde o início: mantendo a posse de bola por meio de passes próximos (só de vez em quando tenta bolas longas), ditando o ritmo no campo do adversário, esperando os momentos para incisão. Sem ainda jogar o que pode, veio melhorando. Agora o adversário é o compacto Paraguai, que ganhou nos pênaltis de um Japão mais ofensivo.

O espanhol é um estilo de atuação arriscado, porque às vezes é lento e isso permite que o adversário se organize na marcação. Ontem, depois do gol, nitidamente procurou “administrar o resultado”, como se diz, e quase levou o empate português. Quem tem feito a diferença é David Villa, um atacante que sempre quer partir para cima. Destro, fica na esquerda para avançar em diagonal e tentar o corte para o chute, mas também sabe sair pela esquerda e tentar o cruzamento para trás. Dele é a maioria absoluta das finalizações da equipe, até porque o outro atacante, Torres, não se acertou.

Portugal saiu da Copa tendo tomado apenas um gol, dado uma goleada sobre a Coreia do Norte e mostrado talentos como Coentrão e Tiago. Mas a má fase de Deco lhe tirou inteligência e, acima de tudo, a expectativa em Cristiano Ronaldo novamente se frustrou. Como pode um craque assim render tão pouco numa Copa? Você vai alegar que ele não tem parceria no time português ou lembrar que Rooney, por exemplo, tampouco brilhou. Mas Cristiano Ronaldo, como Ronaldinho em 2006, não fez uso de seus vários recursos e pareceu mais preocupado em se admirar no telão. Mesmo na vitória sobre a Coreia, só apareceu quando já estava equacionada.

Quanto ao Brasil, não fiquei surpreso com o entusiasmo de muita gente aí depois da vitória sobre o Chile, ainda que fosse muito previsível que a seleção passaria sem grandes problemas pelos quatro primeiros jogos. Toda Copa traz esse patriotismo e as TVs o fomentam a todo custo. Só que eu estou com Robinho, eleito o melhor do jogo: melhorar é preciso, acomodar não é preciso. O grupo, muito competitivo, está mais ciente de seus problemas do que a maioria da torcida e, ao mesmo tempo, sabe que adversários melhores extraem atuações melhores. E a Holanda não é uma França de Zidane; deixa espaços para jogar e não tem a tradição da canarinho. Se o Brasil jogar o que jogou contra o Chile, não passa. Mas, felizmente, a equipe sabe que pode bem mais.

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29.junho.2010 17:17:38

‘Fúria’ paciente

A Espanha fez seu jogo: toque de bola contínuo, aproximação, paciência, tudo regido por Xavi e Iniesta. A defesa portuguesa, até então não vazada, resistiu bem, mas o time carecia de poder de fogo, com Cristiano Ronaldo mais uma vez apagado. E a Espanha tinha Villa, sua opção mais aguda, ousada, inquieta (pois Torres de novo se mostrou fora de ritmo) – e quase todo perigo nascia de seus pés. Foi assim que o gol veio e premiou o melhor time em campo, embora a partida não tenha tido a qualidade técnica que se esperava. Sem brilhar, a Espanha vem melhorando e agora pega o Paraguai.

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29.junho.2010 13:45:29

Mais um sul-americano

Confesso que tive dó dos japoneses. Eles fizeram uma boa Copa e estiveram mais perto do gol do que o Paraguai. O jogo terminou empatado por 0 a 0 e vimos a primeira definição em pênaltis. Mas o Paraguai também merece, desde sua campanha nas Eliminatórias, e agora são quatro sul-americanos entre os oito finalistas, apenas três europeus.

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Num dos jogos mais feios da Copa, o Brasil venceu com apenas duas jogadas e meia. Como pode um time não ir bem e mesmo assim ganhar por 3 a 0? Basta que o outro time vá muito mal. O técnico Bielsa fez jus à fama de louco e escalou o Chile com quatro jogadores de ataque, que não sabem marcar, e pôs no banco Valdívia, único que sabe reter a bola. O resultado foi um vazio no meio-campo que o Brasil, mesmo com Ramires e Daniel Alves, que gostam de apoiar, aproveitou pouco. O primeiro gol demorou e veio num escanteio. O segundo foi típico da gestão Dunga: Robinho e Kaká puxaram contra-ataque, Luís Fabiano concluiu. O terceiro teve novidade, o avanço de um volante, Ramires, que deixou a Jabulani redonda para Robinho arrematar. De resto, foram lambanças de ambos os lados.

Sim, a vitória é o que importa e o Brasil vai para as quartas de final. Mas não dá mais para jogar nesse padrão; é preciso melhorar muito. Os três atacantes deixaram a dever ontem, inclusive Robinho, eleito o melhor jogador da partida. Kaká foi quem mais errou, embora tenha buscado os arranques e tentado os chutes; o fôlego parece estar voltando, mas de novo ele perdeu bolas demais e ficou sem fazer gol. Luís Fabiano só apareceu quando trombou e tropeçou, afora o gol que Kaká lhe deu de presente. Daniel Alves ainda não jogou 50% do que joga no Barcelona. Se Michel Bastos ousou mais, Maicon foi muito contido. Só a zaga Juan & Lucio foi, mais uma vez, praticamente impecável.

Não concordei, aliás, quando classificaram o grupo do Brasil na primeira fase como “grupo da morte”. Com Coreia do Norte na estreia e Costa do Marfim em seguida, a presença de Portugal não complicaria a situação. De fato, não complicou. Além disso, o Brasil caiu no lado oposto da tabela em relação aos times mais fortes, como Alemanha, Argentina e Espanha, e só cruzará com um deles se forem à final. No primeiro jogo do mata-mata teve sorte de pegar o Chile, que não trouxe nenhum problema. Mas na sexta-feira vem um time que, apesar de nunca ter vencido uma Copa, pode realmente atrapalhar o roteiro fácil do Brasil: a Holanda.

A Holanda é um time leve, que talvez não escape da pegada brasileira, mas é também criativo, capaz de enganar a marcação. Sua medula é a linha formada por Robben, Sneijder e Kuyt, com Van Persie como referência na frente. Contra a Eslováquia ontem, Robben fez um belo gol: driblou para dentro e chutou com a esquerda rasteiro (ao contrário de Messi, que sempre tenta a cobertura ou a curva). Cabe aos volantes brasileiros impedir o trabalho desses armadores e aos meias (Kaká e Elano) aproveitar o espaço atrás deles, procurando errar pouco. Não se pode desprezar a defesa da Holanda, como os números demonstram, mas o Brasil tem uma combinação de técnica e força que o adversário não tem. Resta ver se cada uma será usada em seu devido momento.

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28.junho.2010 17:14:15

Nem precisou jogar bem

O Brasil nem precisou jogar bem para vencer um Chile fraco, mal escalado e errando muito. Notas:

Julio Cesar – Sem trabalho. 7
Maicon – Subiu menos. 5,5
Juan e Lucio – Como sempre. 7
Michel – Desta vez tentou mais. 6,5
Gilberto Silva – Firme no desarme. 7
Ramires – Deficiente na marcação, arranque no terceiro gol. 6,5
Daniel Alves – Muita energia e pouca luz. 5,5
Kaká – Fisicamente melhor, mas errando mais que deveria. 6,5
Robinho – Participou de um, fez outro. 7.
Luís Fabiano – Mal, mas fez o seu. 6

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28.junho.2010 16:13:40

Intervalo

Até os 34 minutos era o pior jogo da Copa, com os dois times desfilando lambanças e chutões. Ao Brasil bastava roubar uma bola no meio e encaixar uma tabela, pois El Loco Bielsa entrou com uma formação suicida. Mas foi com um gol de bola parada: Juan desviou escanteio de cabeça. O Chile se desorganizou ainda mais e o segundo gol veio no velho contra-ataque puxado por Robinho e Kaká e concluído por Luís Fabiano, que até então estava mal. Ficou fácil demais.

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28.junho.2010 14:27:53

Mudanças de novo

Felipe Melo e Elano realmente não jogam. Dunga vai de Ramires (e não Josué, que foi a opção das outras vezes) e Daniel Alves, o que pode dar saída mais veloz ao meio. Já o Chile vem com quatro atacantes: Sanchez, Suazo, Gonzalez e Beausejour. Jogo aberto favorece o Brasil?

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28.junho.2010 12:44:58

Alerta laranja

A Holanda ganhou com certa facilidade da Eslováquia no primeiro tempo, mas não “matou” o jogo e por isso sofreu no segundo. Se o Brasil passar pelo Chile, será o próximo adversário. A linha formada por Robben, Sneijder e Kuyt é muito criativa, com Van Persie à frente, e a defesa é uma das menos vazadas da temporada e da Copa. No gol, Robben dominou na direita diante de dois marcadores, trouxe para a esquerda, driblou um e bateu firme rasteiro no mesmo canto. No segundo tempo deu um belo passe para Sneijder, que carimbou o zagueiro. Mais tarde, em contra-ataque comandado por Kuyt, Sneijder fez o 2 a 0. Nos acréscimos, Vittek diminuiu de pênalti. Mesmo assim, para a próxima sexta-feira, acende-se o alerta laranja.

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As livrarias de Johannesburgo têm pilhas e pilhas de livros sobre Nelson Mandela. Biografias, reportagens, depoimentos; todas as faces e fases da sua história são abordadas. Mas há também um bom número de livros sobre a África do Sul pós-Mandela, sobre os inúmeros problemas políticos, econômicos e sociais que ainda afligem o país.

O mais ácido é R.W. Johnson em South Africa’s Brave New World, um catatau que centra fogo sobretudo na política de cotas, conhecida como “Black Economic Empowerment” (BEE), que estipula mínimo de 50% de funcionários negros para empresas nacionais. Muitas empresas se dividiram e foram vendidas para estrangeiros. Johnson, jornalista inglês radicado em Cape Town, alega que isso fomentou a desindustrialização da economia, ainda sustentada pela exploração de minérios, e criou a ilusão de que na educação é possível dar saltos, já que a baixa qualificação tirou também competitividade dessas empresas.

Outro jornalista inglês, Alec Russell, que hoje vive em Londres e foi correspondente do Financial Times em Johannesburgo, também destaca a questão racial em seu After Mandela. Conta histórias de conflitos significativos, como em greves e crimes, mostra a dificuldade de políticos brancos liberais em angariar o voto dos negros, critica o governo Zuma por sua demagogia centralizadora. Mas não é pessimista: “Essa é a principal esperança para a África do Sul: que o veneno do apartheid possa ser constantemente diluído com o passar dos anos e que, depois de um período de cooperação séria, futuras gerações possam de algum modo crescer livres dos preconceitos que dividiram o país por tanto tempo. Mas vai levar muito tempo até que isso aconteça.”

A Copa do Mundo tem mostrado que existe uma disposição para o convívio, calcado no símbolo de Mandela, mas um evento esportivo não muda um quadro social. Muitos acham que, quando Mandela morrer, as minorias ressentidas vão causar problemas. O próprio Mandela fez a frase definitiva sobre isso, que serve de alerta para qualquer sociedade que acha que tudo está bem e o paraíso logo ali: “A única coisa que se encontra depois de escalar uma montanha são mais montanhas para escalar.”

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A jornada de ontem foi marcada por dois erros absurdos de arbitragem, mas, desculpe, vou começar celebrando o nível técnico dos dois primeiros dias de oitavas-de-final. Gols bonitos, táticas abertas, lances de categoria – enfim, vemos futebol na Copa! No sábado o Uruguai bateu a Coreia do Sul com mais uma bela atuação de Suarez; mais tarde, Gana impôs sua determinação aos EUA, e no segundo gol Gyan se equilibrou e disparou o chute em grande ação. Já os jogos entre Alemanha e Inglaterra e Argentina e México foram muito diferentes em estilo e semelhantes em ânimo: o primeiro foi mais metódico e coletivo; o segundo, mais caótico e individualista. Os vencedores uniram em doses distintas os dois atributos. E agora vão se enfrentar no sábado, para sorte das demais seleções.

A Alemanha foi superior desde o primeiro minuto. Tocando de primeira e se movimentando muito, segundo sua melhor tradição, contou novamente com grande partida de Özil (até aqui a revelação da Copa), o retorno de Podolski (que finalmente marcou seu segundo gol) e a competência de Klose e Müller dentro da área. A Inglaterra chegou como uma das favoritas, por causa de seu elenco, mas o símbolo de sua decepção foi Rooney, que pouco fez e voltou para casa sem ter balançado as redes. A Alemanha mostrou mais uma vez um futebol bonito, que busca sempre o caminho mais rápido sem perder a paciência. Vide o arranque de Özil no segundo gol e o modo como espera Müller para servi-lo.

O começo da partida foi complicado para a Argentina. O ritmo era acelerado e o México investiu nos chutes de meia distância; Salcido chegou a acertar o travessão. Aos poucos, porém, a Argentina teve a posse de bola, organizou sua distribuição em campo e a dupla Messi e Tevez fez uso de seus arranques, dribles e finalizações – Tevez desta vez mais feliz que Messi. O gol de Higuaín foi grande porque ele pisou sobre a bola, como no futebol de salão, para recolhê-la do goleiro e concluir. O de Tevez no início do segundo tempo, um chute de fora da área com força e colocação, foi mais uma prova de que é possível dar ordens à Jabulani. A Argentina joga no limite da desordem, mas por enquanto tem dado certo, tanto é que sua defesa sofreu apenas dois gols em quatro jogos.

Quanto aos erros dos juízes, tudo poderia ser evitado se a Fifa permitisse uso de imagem (que o quarto árbitro acompanharia para dirimir dúvidas depois de gols suspeitos) e um auxiliar na linha de fundo. Sim, os dois lances – a bola que pingou dentro do gol da Alemanha e o impedimento de Tevez – foram claríssimos e poderiam ter sido observados sem esses apoios. Mas haveria tempo para os juízes reverem as decisões.

Os dois melhores times da Copa até o momento jogam com três atacantes e não querem saber de esperar o adversário. Como dizia a canção, quem sabe faz a hora. Que o Brasil saiba fazê-la hoje contra o Chile.

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