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Daniel Piza

03.maio.2010 07:09:14

Que jogo!

Que jogo! Apesar do excesso de lances de violência e nervosismo. O Santo André venceu o Santos jogando muito – e ainda teve um gol erradamente anulado. O Santos fez dois belos gols, com o trio Neymar, Robinho e Ganso, mas pagou um preço pelos erros de sua defesa e imaturidade. Mesmo assim, o melhor time é o campeão – e como pode alguém querer acabar com os estaduais? Ganso jogou muito e ainda mostrou personalidade quando disse ao técnico que tolamente queria substituí-lo: “Não, não, não. Eu vou ficar aqui.” Alô, Dunga, câmbio.

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Baptistão

Boa parte da formação cultural é um trabalho de desmontagem do que os parentes e professores nos ensinaram. Cultura não é apenas acúmulo de informações e domínio de conceitos; é um processo longo, conflituoso e não-linear, em que lutamos para retirar as cascas com que o senso comum – “a trama ideológica fundamental”, na frase de Jacques Ellul – nos embota desde que nascemos, em osmose contínua. Ao contrário do que se diz, uma biblioteca não é um lugar silencioso, aonde vamos colher saberes como se fossem frutos; é uma arena de combate, onde pensamentos de várias épocas e lugares se digladiam, não raro causando mortes. Não há conhecimento sem conflito; e isso lhe dá vida.

Nada então pode ser mais estimulante do que a leitura dos grandes críticos, que se conhecem pela capacidade de ver diferente. A tradução de livros como O Projeto de Rembrandt, de Svetlana Alpers, e A Arte Moderna na Europa, de Giulio Carlo Argan, embora tardia (ambos são dos anos 80), é um exemplo. Nos últimos anos esse atraso editorial tem sido tirado, mas ainda há muito o que fazer até que pelo menos uma minoria maior entenda que arte não se mede pela imitação da realidade, que artista não trabalha só com intuição ou emoção, que o prazer de ver arte não é o mesmo de beber uma cerveja. A grande arte reflete sobre a história e o grande artista cria objetos de inteligência.

O livro de Svetlana Alpers mostra que o gênio não é esse bicho indomável que o cinema romanticamente reforça. Como Shakespeare, Rembrandt era um homem de negócios, que tentou mudar o patamar dos artistas no diálogo com os mecenas, que aceitava as encomendas e as adaptava às suas pesquisas e inquietações. Não foi incompreendido pela sociedade, não chocou a burguesia, não via conflito entre lar e rua; não fez, em suma, nada do que as pessoas ainda acham que um grande artista faz. Mas primeiro dominou a tradição e depois criou sua obra original. Só perdeu prestígio quando o gosto de seu tempo mudou, e ele foi considerado antiquado justamente no momento em que atingia seu apogeu. A posteridade se encarregou de ver que nenhum contemporâneo o igualou.

Se você acha que ser moderno é ser o oposto disso, leia o que Argan tem a dizer. É claro que ele mostra que a arte moderna, nascida no contexto do Iluminismo, é bem diferente da legada pelos “old masters” como Rembrandt. Fala muito sobre isso em seus artigos sobre Turner, o pintor inglês, finalmente ressurgindo em outros livros e exposições. Há uma velha disputa pela condição de “primeiro pintor moderno”, que inclui Goya e Delacroix; certamente Turner está entre eles. Mas, se o papel do artista moderno se definiu pelo desafio às convenções academicistas, isso não significa que fosse suficiente para produzir grande arte. Argan descreve como Picasso era clássico e romântico ao mesmo tempo, como assimilou a tradição para poder reinventá-la com liberdade. Se chocou os conservadores de sua época, também ganhou muito dinheiro e fama – e hoje se formam filas para vê-lo em qualquer canto do planeta. O que não o faz fácil.

Esqueça tudo que lhe ensinaram sobre genialidade, modernidade, inspiração, cultura. A história é uma colagem de aprendizados e rupturas, não um arquivo morto. É isso que Rembrandt ou Picasso nos ensinam, e o senso comum não.

(“Sinopse”)

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01.maio.2010 07:35:55

Alice na Burtonlândia

Cartaz do filme

Tim Burton, cuja exposição no MoMA tem formado filas imensas, percebeu em Alice o que nem mesmo alguns críticos perceberam: que Lewis Carroll não estava apenas contando histórias para agradar às crianças, mas satirizando a sociedade de seu tempo e lugar. Às vezes leio que Carroll teria feito uma obra para exaltar a fantasia, o inconsciente, etc. Mas convém lembrar que ele era um fã da lógica, dos jogos que revelam seus paradoxos, e um adversário do moralismo, da pretensão de trancafiá-la em retidões comportamentais. Foi por isso que Burton uniu os dois livros (Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho) e fez sua Alice começar com 19 anos, à beira de ser empurrada pela sociedade para um casamento obrigatório. E mostrou naqueles adultos a mesma fauna que ela via nos sonhos, com seus formalismos, hipocrisias e covardias. O que Alice enfrenta é a tirania puritana.

O filme é muito sofisticado na direção de arte, figurino e fotografia, com atores como Johnny Depp e Helena Bonham-Carter e efeitos incríveis na distorção das escalas entre os personagens. O 3-D é quase acessório, servindo apenas para aumentar o impacto das cenas de ação, como a luta contra o Jaguadarte. (“Era briluz. As lesmolisas touvas roldavam e relviam os gramilvos”… Eu já soube de cor esse poema na tradução de Augusto de Campos.) Só que a leveza de Carroll se perdeu, suas digressões e brincadeiras com as palavras, sua narrativa episódica. Tim Burton fez um filme um tanto pesado e, como se precisasse garantir a audiência, convergindo no final para uma batalha entre bem e mal, num xadrez high-tech. Mas de uma beleza única.

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