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Daniel Piza

Se a seleção brasileira for campeã, não sentirei a menor surpresa. O time de Dunga é competitivo, entrosado e, como notou Juan outro dia, tem bons atacantes, como o artilheiro Luís Fabiano. Ele, Robinho e Kaká formam um trio que qualquer técnico do mundo gostaria de ter, com a possível exceção da Argentina (Messi, Milito, Tevez e ainda Aguero e Higuaín). Só que a Argentina não tem uma defesa tão boa, a começar pelo goleiro Júlio César, e nem laterais como Maicon. O equilíbrio tático do Brasil é maior. Mas isso não é tudo, em especial numa Copa.

O meio-campo formado por Gilberto Silva, Felipe Melo e Elano carece de velocidade e criatividade; por isso mesmo, Daniel Alves deveria ser titular no setor, onde já fez boa dobradinha com Maicon. Kaká é um craque, mas gosta de conduzir a bola e precisa de alguém para dividir a tarefa de armação. E no banco são poucas as opções que não sejam “trocar seis por meia-dúzia”. Esses são os motivos por que Dunga obteve melhores resultados contra quem dá espaço para contra-ataque. Em seu elenco falta um criador de espaços, um saltador de etapas. O conjunto só consegue envolver o outro quando lhe rouba a bola, não quando está com ela.

Como em 2002, a força dos adversários na primeira fase é crescente, com a diferença de que Portugal, com Cristiano Ronaldo, pode complicar mais. Se jogar o que sabe, o Brasil segue adiante e só tem a temer os que estão no mesmo nível técnico, como Inglaterra, Espanha e Holanda, ou os que têm muita tradição, como Alemanha e Itália – e, claro, a Argentina, que tem o melhor do mundo e está bem acima do que estava um ou dois anos atrás. Não haverá surpresa, tampouco, se o Brasil não for campeão. A única surpresa será se ele jogar realmente bem.

(Texto publicado no caderno especial da Copa em 28/5)

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31.maio.2010 08:55:04

Pescando no Pacaembu

O Corinthians jogou com autoridade ontem no Pacaembu contra o Santos. Movido pela vontade de dar o troco e renovado por jogadores como Bruno César, o time soube se comportar quase o tempo todo. Fez o gol logo no começo e deu a impressão de que mais uma vez recuou demais, dominado pelo Santos, que chegou a fazer um gol com Marquinhos, anulado por duvidoso impedimento. No segundo tempo, ao contrário do que fez contra o Flamengo, o dono da casa não se esqueceu de atacar. Tomou o gol e deu a resposta logo em seguida. Depois ampliou, sempre em contra-ataques rápidos. Bruno César parece ser o canhoto organizador que o time procurava desde a saída de Douglas (embora Danilo tenha feito boa partida também), a dupla Ralf e Jucilei anulou bem Ganso e Neymar, Roberto Carlos teve outro desempenho impecável, Paulinho entrou com personalidade e fez seu gol. Dentinho não tem estatura para ser o homem de referência lá na frente, mas o time soube jogar pelo meio e pelas pontas.

Este é meu primeiro post depois das férias e preciso registrar que vi grandes jogos de clubes brasileiros nestas três semanas. A dupla vitória do São Paulo contra o Cruzeiro, o duelo entre Grêmio e Santos, etc. Sou contra esse calendário que deixou para depois da Copa do Mundo as semifinais da Libertadores e a final da Copa do Brasil. Os times estavam embalados e os jogos prometiam. Com uma parada tão grande, muita coisa pode mudar, sem necessidade. Mas as regras do futebol são mais e mais feitas de acordo com os interesses de televisões e federações, não de jogadores e torcedores.

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10.maio.2010 08:39:27

Férias!

Estou em férias a partir de hoje. Este blog volta no dia 31/5, às vésperas de embarcar para a África do Sul. Até lá.

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Baptistão

As propagandas e reportagens que antecedem o Dia das Mães só competem em pieguice com o Natal, quando as revistas repetem a velha capa sobre o significado de ser cristão, etc e tal. Tudo soa como anúncio de margarina, que idealiza a família perfeita como aquela em que a mãe sorridente prepara o café da manhã para o marido de gravata e o casal de filhos que ele vai deixar na escola a caminho do trabalho. Fala-se muito no carinho, no instinto maternal, no “sexto sentido” das mães – assim como no Dia dos Pais a ênfase é na projeção, na consciência, na tal lição de vida. Os séculos se passam e isso não muda: o homem é tido como o que dá exemplo, a mulher como a que dá colo. Isso nunca foi exato, e é menos exato ainda nos tempos atuais.

É claro que os comunicadores tentam se adaptar às modernidades, e então vemos algumas iniciativas que tentam dar conta dos novos arranjos familiares. Mas veja o tratamento de termos como “madrasta”. Depois de incontáveis histórias em que elas encarnam bruxas ou usurpadoras, desde os contos infantis até filmes de Hollywood e novelas da Globo, essa palavra ainda tem salvação? Em realidade, seu significado é mais associado à mulher que assumiu o lugar da mãe que morreu. Para identificar, por exemplo, a segunda mulher do pai, que tantas e tantas vezes hoje em dia tem ótima relação com a filha do primeiro casamento, “madrasta” não soa bem, soa? “Enteada” é menos mal. Temos que cunhar nova designação, apesar de algumas brincadeiras que conheço ou fazemos (“mãe de fim de semana”, “boadrasta”, etc).

O que está por trás da dificuldade é essa carga de preconceitos que trata sempre as mães como santas, dotadas do “dom divino” da gestação, de uma espécie de condição biológica que obrigatoriamente leva à noção de que ela está sempre certa, sabe o que faz, só pensa no bem dos filhos… Talvez porque a sociedade lhes reserve esse papel, muitas mulheres confundem a maternidade com uma dessexualização, por assim dizer; cortam os cabelos, mudam as roupas, não se permitem experiências; algumas nem sequer transam durante a gravidez. Não que os homens também não parem de cuidar do visual, engordando ano a ano; mas sobre eles não pesa a premissa de que sejam contidos ou discretos. E isso se soma às pressões sobre a mulher moderna, que sofre para combinar vida profissional, amorosa e maternal sem sair da forma nem da moda.

As artes estão cheias de representação das mães, ao contrário do que ocorre com os pais. Desde a “madonna con bambino” que é tema de salas e mais salas dos museus, principalmente na arte bizantina e renascentista, até a canção Mother de John Lennon, os exemplos se multiplicam. A literatura brasileira tem algumas grandes personagens como a dona Glória, em Dom Casmurro, de Machado de Assis, que por promessa obriga o coitado do Bentinho a ser padre, mas não disfarça que gostaria que não fosse embora, o que a aproxima de Capitu. Ou como a mãe de Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, que Luiz Fernando Carvalho filmou como a luz essencial e insubstituível da memória afetiva. E como a Zana de Dois Irmãos, de Milton Hatoum, uma matriarca libanesa em Manaus, que numa das melhores cenas vai ao cais resgatar o filho rebelde dos braços da ninfa.

Mães são assim, intensamente apegadas às crias mesmo que flertando com a irracionalidade, e não é preciso assistir a séries como Vida, do Discovery Channel, para relembrar como nós, mamíferos, somos tão parecidos. Mas também sabem ir bem além do papel que querem lhes destinar – um “destino” que estaria escrito na carne e no espírito, como se mãe nunca rejeitasse ou preferisse um filho. Neste Brasilzão que tenho percorrido, o que mais vejo são mães solteiras, muitas jovens demais, abandonadas por levianos que acham que a obrigação da prevenção é exclusiva delas. (Ou será que, se a mulher tem inveja do pênis, segundo Freud, o homem tem inveja do parto?) E elas são mães e dublês de pais e extraem sua determinação da certeza de que aquele vínculo não se vai com o vento. A essas mães, que não estão nas propagandas, dou parabéns.

(“Sinopse”)

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Quem viu J.M. Coetzee quando veio à Flip, em 2007, o descreveu como uma figura seca, fria, que apenas leu sua palestra e foi embora sem mal deixar um sorriso. Pois é assim que sua literatura frequentemente é vista também: seus livros seriam contidos demais, vibrantes de menos. O primeiro a reconhecer e brincar com isso é o próprio Coetzee, cuja trilogia que poderíamos chamar de “pseudoautobiográfica” se completa agora com Verão. Antes vieram Infância e Juventude, todos com o subtítulo balzaquiano “cenas da vida na província”.

Os três livros formam um conjunto de memórias ficcionais ou ficções memoriais que não apenas ironiza o gênero biográfico, mas também o discute. Como nos outros romances desse premiado escritor sul-africano radicado na Austrália, que ganhou o Nobel e foi o único a receber dois Booker Prizes, o ensaio tem presença forte. Em A Vida dos Animais e Elizabeth Costello, por exemplo, sua militância pelo vegetarianismo tomou tal conta da narrativa que afugentou os que discordam de suas ideias. Já em O Mestre de Petersburgo o mergulho em Dostoievski deu ânimo ao enredo.

Sua melhor obra continua sendo Desonra, justamente porque seu argumento tem alta voltagem (a história de uma mulher engravidada em estupro numa fazenda sul-africana e da reação de seu pai ao fato) e, por mais “objetiva” que soe a escrita de Coetzee, toda a complexidade da situação é desenvolvida na rede de eventos. Na verdade, a diferença entre a história e a escrita – diferença mais flaubertiana que balzaquiana – é um trunfo de Coetzee nesse livro, pois obriga o leitor a duvidar da própria comoção. Em Vida e Época de Michael K e À Espera dos Bárbaros, Coetzee como que se preparara para chegar à plena maturidade de Desonra. E depois?

Na sexta parte de Verão, uma colega de John Coetzee, Sophie, professora e crítica literária, responde sem eufemismos: “Depois de Desonra eu perdi o interesse. No geral, eu diria que o trabalho dele é desprovido de ambição. O controle dos elementos é muito estrito. Em nenhum ponto você tem a sensação de um escritor que deforma sua mídia a fim de dizer o que nunca foi dito, o que, para mim, é a marca da grande literatura.” Muitos leitores e críticos pensam o mesmo sobre os livros mais recentes de Coetzee. Da mesma maneira, duas outras personagens, Margot e Adriana, descrevem o homem de modo semelhante: respectivamente, “autista” e “de madeira”. E é dessa confusão entre obra e autor que o livro trata.

Afinal, John Coetzee é e não é o consagrado J.M. Coetzee. O primeiro está morto, não teve filhos, passou o final da vida cuidando do pai doente. O segundo está vivo, acaba de completar 70 anos, tem filhos e já era casado nos anos 70, quando as histórias se passam. Mas ambos são escritores, viveram a infância na Cidade do Cabo, moraram nos EUA e optaram pela cidadania australiana, desconsolados com o apartheid em seu país. O que mais há em comum, ponto a ponto, talvez nunca saibamos; e não é isso que importa, pois o livro se faz ler por si próprio. E essa estrutura heterodoxa não deixa de ser resposta à acusação de Sophie.

Sua maior força está nas personagens femininas. Julia, Margot, Adriana e Sophie estão entre as cinco pessoas escolhidas por um biógrafo para serem entrevistadas a respeito de John Coetzee; Martin é o único homem. O quinteto conviveu com o falecido escritor quando era um pedreiro de modos rudes (o que o verdadeiro Coetzee também nunca foi) que começava a escrever suas primeiras obras, como Dusklands (nome real de seu primeiro livro, publicado em 1974). O biógrafo diz estar interessado apenas nessa fase inicial de sua carreira e é constantemente contestado por seus entrevistados sobre a insistência em detalhes íntimos.

São esses detalhes, porém, que dão a vitalidade que o título Verão pode sugerir. No primeiro e no último capítulo, lemos páginas dos cadernos de anotação de John, onde faz comentários mais genéricos sobre a situação da África do Sul (“Essa conversa de salvar a civilização, ele tende a pensar agora, nunca foi nada além de um blefe”), encerrados com a expressão “A desenvolver”. Mas nas entrevistas o que aprendemos são as diferentes maneiras como aquelas pessoas o viam no período. É como se Coetzee alertasse para a imperfeição de qualquer biografia, já que elas se baseiam no que os outros pensaram de alguém, sem perspectiva de tempo e sem capacidade de distanciamento.

Ao mesmo tempo, muito do que as pessoas têm a dizer a respeito de John seria relevante para ele, caso estivesse vivo, pois mesmo que discordasse poderia ver consistência ou ao menos material para autocrítica. Julia, em especial, tem personalidade forte, que trai na própria capacidade de articulação – tem explicação para tudo que aconteceu entre eles – o resquício de desconforto, a sugestão de que não é tão bem resolvida a respeito daquilo. Fala argutamente sobre a infantilidade dos homens, que querem uma esposa fiel e ao mesmo tempo se orgulham de que seja desejada por outros. Conta como o caso extraconjugal com o pedreiro-escritor reanimou seu casamento. Mas o critica pela inabilidade nas preliminares, pelo egoísmo em relação aos sentimentos femininos.

Outra grande personagem é Adriana Nascimento – sim, uma brasileira. O biógrafo faz entrevista com ela, em São Paulo, por supostamente ter tido um caso com John quando ele dava aulas de inglês para sua filha, Maria Regina. Adriana, uma ex-bailarina cujo marido sofreu acidente em Angola antes de ir para a África do Sul, nega o caso, alegando que o biografado não parecia ter muita masculinidade e parecia “não feito para a vida conjugal”. Depois deixa claro que ele estava apaixonado por ela e que, se ele tivesse ajudado (a driblar a burocracia local, por exemplo), aí sim teria tido alguma coisa, “poderia ter me permitido ser fraca”.

Isso dificilmente pode ser visto como elogio à cultura brasileira. A latino-americana que quer um marido forte que tome conta dela, ao mesmo tempo ciumenta da filha com o professor mais velho, parece um estereótipo. Mas seu retrato dele como um falso libertino é bastante plausível no contexto do romance. “Como se pode ser um grande escritor quando não se sabe nada de amor?”, ela ainda pergunta. É possível, porém, e não foram poucos na história da literatura. Coetzee talvez seja apenas mais um.

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Evan Rachel Wood e Larry David

Cada novo filme de Woody Allen, que sempre retratou as mães (e até pôs uma gigantesca no céu ralhando com ele abaixo), é analisado como “mais do mesmo”, tanto por críticos como pelos fãs. Não é diferente em Tudo Pode Dar Certo, sua volta a Nova York, mas pense em alguém que nunca viu um filme de Woody Allen: no mínimo ele levará consigo algumas risadas e a lembrança de algumas tiradas e situações. Boris, personagem representado por Larry David, é muito parecido com os que Woody costuma fazer: neurótico, hipocondríaco, engraçadamente mal humorado. Mas é mais misantropo e esnobe, um tipo que acha que a humanidade é composta de imbecis e, claro, não se inclui. Não é o homem frágil, instável e viciado em psicanálise que Woody normalmente encarna.

Até que, clichê dos clichês (que Woody trata de defender, quando põe na boca do protagonista o comentário de que alguns são a melhor forma de expressão), ele descobre uma jovem inculta, ingênua e linda (Evan Rachel Wood) e cede a seus encantos. Ela passa a repetir suas opiniões e expressões, mas não sua incapacidade de assumir os afetos. Ele pouco muda e, em consequência, a perde para um bonitão. (Atenção, não estou contando nada que o trailer já não conte.) Mas o mais divertido vem no meio tempo: os pais caipiras da moça chegam à cidade e se transformam. Patricia Clarkson, que faz a mãe, rouba a cena. Ed Begley Jr., o pai, tem um dos diálogos mais engraçados, aquele sobre Deus como um decorador. Woody, mesmo num filme menor, celebra a moral livre e a estética moderna das grandes cidades. E isso anda fazendo falta.

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Ontem fui ver Patty Ascher no Blue Bar. Finalmente São Paulo tem um bar de jazz bacana, ao estilo novaiorquino, e ela é um dos melhores nomes (como seriam Rosa Passos ou Luciana Souza, digamos) para marcar o fato. O repertório foi quase todo um diálogo entre as músicas brasileira e americana, inclusive com composições da própria Patty Ascher. Ela alternou Duke Ellington, Pixinguinha, Burt Bacharach, Roberto Menescal, Cole Porter, Tom Jobim, Janet de Almeida e foi até Jorge Ben. Cantou ainda Michel Legrand, Quizás e James Brown. Sua voz tem um vibrato natural e um timbre límpido e ela sabe soltá-la, improvisando com classe (e fez uma divertida sessão de scat com o pianista). Boa música, gin tônica e mulheres bonitas – quer mais?

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06.maio.2010 08:59:06

Outono no Pacaembu

Depois de um primeiro tempo quase perfeito, ontem no Pacaembu, o Corinthians voltou com a postura errada. Quando vi o goleiro Felipe fazendo cera nos primeiros minutos, caminhando com a bola num canto da área até vir Adriano e ele pegar com as mãos, pressenti problemas. Logo em seguida a defesa não saiu numa retomada de bola, o volante Ralf ficou alinhado com os zagueiros, o Flamengo avançou sem marcação até a área e Vagner Love fez o gol. Dali em diante eles passaram a jogar fechados, arriscando bem os contra-ataques, e alguns jogadores do Corinthians passaram a errar muito com a pressão, como Danilo e até Roberto Carlos, ou então sumiram, como Dentinho e Jorge Henrique. Como terá sido a conversa no vestiário no intervalo? Se Mano Menezes veio com “vamos administrar a vantagem” ou algo parecido, como Felipe deu a entender com seu comportamento, dá para entender parcialmente a diferença entre os tempos.

O primeiro foi recheado de bom futebol, com roubos de bola e ataques principalmente pela esquerda (na direita Alessandro ficou sem companhia o jogo todo), e Ronaldo chutou cinco vezes a gol, com muita técnica, e fez o seu de peixinho. No segundo tempo ele apareceu menos por causa dos espaços, mas deu trabalho, acertou a trave num grande lance e, em outro, sofreu uma falta que Chicão cobrou e Bruno defendeu lindamente. Com essa regra de que o gol fora de casa vale como critério de classificação, bastou meio minuto de desatenção da defesa para que o Flamengo esfriasse a noite. E o Corinthians, mais uma vez, embora aplaudido pela torcida, viu seu outono na Libertadores.

Vi os gols e lances dos demais jogos. O Santos calou os secadores mais uma vez, ganhando do Atlético de Luxemburgo por 3 a 1. O Palmeiras perdeu do Atlético Goianiense, desperdiçando pênaltis, e quem dizia que o problema do clube era Muricy – como se Antonio Carlos fosse bom técnico – e que o elenco é melhor do que o do ano passado, como ouvi de Belluzzo, também se calou. E o Cruzeiro continua a jogar o melhor futebol entre os brasileiros na Libertadores e agora vai enfrentar o São Paulo, que passou com dificuldades pelo Universitário anteontem. Mas tudo pode acontecer; e é por isto que gostamos tanto do futebol.

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05.maio.2010 07:03:19

Saudações à técnica

Muito já se falou sobre a final do Paulista – sobre como o Santo André valorizou a conquista do Santos, jogando melhor que nunca, sobre o gol mal anulado pela bandeirinha, sobre as expulsões de veteranos, sobre o merecimento da campanha dos “meninos da Vila”, sobre a personalidade demonstrada por Paulo Henrique Ganso ao se recusar a sair (e a compreensão de Dorival Júnior, que não viu no gesto nenhuma insubordinação), sobre o modo como ele segurou a bola quando o adversário tinha dois jogadores a mais. Mas, em contraste, pouco se falou sobre a beleza eficiente dos dois gols do Santos e alguns lances de grande refinamento; arbitragens e profecias ocupam mais tempo e espaço do que a leitura do prazer que o futebol nos dá quando une plasticidade e produtividade. Se ele fosse plenamente justo, aqueles gols valeriam quatro.

Há quem não goste dos estaduais (eu gosto, embora ache que deveriam ser mais curtos), mas seus clássicos e suas decisões teimam em fazer história… No ano passado, Ronaldo mostrou o verdadeiro futebol-arte – não a firula, mas a surpresa; não o enfeite, mas o feitiço – quando fez dois gols na Vila e deu o título ao Corinthians. Neste ano, foi a vez da nova geração. Neymar e Ganso, com Robinho de coadjuvante (um ótimo coadjuvante, um Peter Lorre dos gramados), jogaram muito. São marrentos, e Neymar em especial tem pavio curto; e precisam aprender um com o outro, o apolíneo Ganso a ser frio diante do goleiro e o dionisíaco Neymar a ficar esperto o tempo inteiro. Mas não podem ser culpados pela vulnerabilidade da defesa. Fizeram sua parte, e mais que ela. Quem não gosta de futebol que faça força para ignorar esse fato límpido, luminoso.

As cortinas do primeiro gol foram abertas num toque de primeira e de letra de Robinho. Neymar tirou um zagueiro e – no momento em que um atacante trivial encheria o pé – tirou mais um e então concluiu com espaço. O segundo também começou a virar realidade com uma rolada de calcanhar de Ganso, que deixou Neymar à frente do gol. Ele primeiro olhou para o goleiro, em seguida engatilhou a esquerda e guardou a bola no mesmo canto. Vi muita gente chiando contra as declarações de Neymar à repórter Débora Bergamasco, aqui neste jornal, sobre seu desejo de comprar carrões, escolher mulher só pela beleza, ir à Disney e não votar – tudo que, infelizmente, a grande maioria dos garotos de 18 anos quer. É com a bola nos pés que ele não é nada comum.

Ganso não fez gol, mas colaborou demais com o resultado. “Pragmático” virou palavrão no mundo do futebol, como se fosse sinônimo de “burocrático” ou “medíocre”. Pois quer algo mais pragmático do que a criatividade de Ganso? Passes, chute de meia distância por cobertura, desarmes, escanteio propositalmente cobrado para ninguém, chapéu inesperado no zagueiro quando parecia que só pretendia proteger a bola, lançamentos – foi um recital no segundo tempo. Recentemente no SporTV perguntaram a Romário se os jogadores de hoje não têm mais a personalidade que ele, Pelé, Zico e Ronaldo tiveram em suas carreiras. Romário foi direto como em seus gols: “Não.” Ganso parece ser a exceção a confirmar essa regra. Talento não implora licença.

Liberta… dores?

O jogo entre Flamengo e Corinthians foi muito prejudicado pela chuva no Maracanã, mas no segundo tempo parecia que o Flamengo é que tinha um jogador a mais. Hoje no Pacaembu o segredo é o time se deixar empurrar pela torcida sem cair no abismo da desorganização e do desespero. E torcer para que Ronaldo, o rei dos retornos, volte mais uma vez a ser Ronaldo. Não foi só ele que esteve mal; mas é dele que sempre se espera o melhor.

Inté

A partir da próxima semana descanso e tomo fôlego para a Copa. Esta coluna volta em 2/6.

(“Boleiros”)

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Passei o dia ontem em São José do Rio Preto, a 450 km de São Paulo, e participei da Bienal do Livro, falando sobre Joaquim Nabuco, numa bela ex-fábrica de óleo da Swift, à beira da represa. O evento estava vazio, ao contrário do que ocorreu no fim de semana, e achei os estandes fracos, com predomínio de HQs e didáticos. Há também essa moda de destacar as celebridades: atores e apresentadores da Globo, padre cantor, etc. Mas sempre há alguns leitores de verdade e, como tenho um primo que mora lá há três anos, Vinicius Polonio, pude dar uma boa volta pela cidade, que é maior e mais desenvolvida que muitas capitais brasileiras.

São 420 mil habitantes, não há favelas, o comércio atrai toda a região norte do estado, há uma boa cerveja artesanal, Riopretana, e bons restaurantes de comida árabe (Haddads e Kfouris são sobrenomes comuns ali), as faculdades privadas se multiplicam, os hospitais são referências. Há problemas, claro, como as enchentes, e tendências das cidades de médio porte, como o boom de condomínios de alto padrão. Mas não há como negar que se trata de uma cidade com qualidade de vida incomum.

Terminamos a noite num bar, Zero Grau, onde conhecemos italianos que representam marcas importantes como Versace e estão descobrindo o mercado interno brasileiro, desconsolados com a crise europeia. “A China é governada pelos comunistas, a Índia tem uma cultura muito diferente, a Rússia ainda não se soltou”, disse um deles, Domenico, um calabrês muito divertido, pensando nos Brics. “O Brasil não. O Brasil é… ocidental.” Com mais cidades como Rio Preto e melhor nível de leitura, a diferença teria bem mais peso.

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