
O filme Brideshead Revisited, que em português ganhou o beócio complemento Desejo e Poder, não acrescenta nada à famosa série da TV Granada, com Jeremy Irons, Anthony Andrews e Laurence Olivier, feita em 1981 e depois exibida pela TV Cultura (bons tempos em que a TV Cultura exibia séries assim e outras como O Choque do Novo e Civilização). Até o elenco tem extrema semelhança física, mas não, claro, o mesmo talento, a mesma percepção para as sutilezas em jogo, para os modos aristocráticos. É um filme correto e fluente, mas em nenhum momento sentimos o fascínio de Charles Ryder pelo palácio de Brideshead e pela família Flyte, fascínio que no romance de Evelyn Waugh é uma mistura de esteticismo e materialismo, de afeto, afetação e ambição. O décor, mais uma vez, tomou o lugar da ambivalência.
As comemorações aos 50 anos de Brasília foram recheadas de ufanismo, preocupadas sobretudo em dizer que a cidade já se distanciou da maquete, para o bem e mesmo para o mal. Mas pouco se falou sobre esse urbanismo que põe o Estado no topo da pirâmide social, como eixo determinante de tudo que se faz e fará ao redor. Juscelino Kubitschek acreditava que plantar os monumentos líricos de Niemeyer no planalto central faria a economia avançar Brasil adentro. Meio século depois, o desenvolvimento que tomou o cerrado pouco teve a ver com ações públicas – exceto o apoio técnico de uma Embrapa –, e sim com as forças de produção dirigidas ao mercado; e ainda há muita desigualdade regional, muita diferença de IDH entre litoral e sertão. Brasília é uma ode arquitetônica ao poder, não a musa do Brasil moderno.
A tal “superquarta” não foi tão notável em termos técnicos, embora com muitas emoções. O jogo entre Flamengo e Corinthians no Maracanã foi prejudicado pela chuva (nem deveria ter iniciado, pela quantidade de poças), mas no segundo tempo algo mais parecido com futebol se mostrou. O Flamengo tinha um a menos que o Corinthians, mas parecia o contrário. Ninguém do meio para a frente do Corinthians jogou bem, e Ronaldo jogou especialmente mal; só fez uma boa jogada, pouco antes de ser substituído por Souza (se seu reserva fosse melhor, hoje o Fenômeno teria de amargar o banco). O Flamengo usou suas melhores armas, os dois laterais, e Adriano deu trabalho, embora só tenha feito o gol de pênalti e pouco mais. O Corinthians perdeu a chance de voltar com um empate ou até uma vitória, mas agora precisa ganhar no Pacaembu na próxima quarta.
Antes vi Universitário e São Paulo, um empate chocho em 0 a 0. O São Paulo criou algumas chances, mas depois que Richarlyson foi expulso recuou para aguentar a pressão, o que fez graças a mais uma grande noite de seus zagueiros Alex Silva e Miranda. No final, ainda teve mais duas chances, o que mostra que é tecnicamente bem superior ao adversário, a bater no Morumbi na terça.
Antes ainda vi a vitória do Barcelona sobre a (ou o?) Inter de Milão no Camp Nou, 1 a 0. Foi um jogo de um campo só, principalmente depois da expulsão de Thiago Motta. Mas a defesa brasileira e argentina jogou à italiana, com um eficaz “catenaccio” (retranca). Messi tinha marcação na sobra e Ibrahimovic mais uma vez não foi bem entre os zagueiros. Faltou pouco, mas deixou gosto ruim. Corinthians, Universitário e Barcelona não souberam se valer de um jogador a mais. Futebol, decididamente, está além da contabilidade.
É fato que nem sempre o melhor time vence e que há muitos que ficaram na história sem conquistar o título que almejavam, como a Holanda de 1974 e o Brasil de 1982. Mas que há partidas no futebol que põem à prova o estilo de uma equipe, separando a glória e a decepção, não resta dúvida. Pergunte a qualquer jogador se ele não preferia uma taça a qualquer elogio. Ainda que raramente as explicações que vêm depois da derrota crucial façam justiça a todos os fatores, a mácula não se apaga. E não apenas para times, mas também para craques. O grande barato do futebol é o que está acontecendo agora: a expectativa em torno de jogos decisivos, que porão conjuntos e atletas no céu ou no inferno, de 90 minutos que poderão nos fazer dizer “Eu vi, eu estava lá”.
Revi recentemente na TV a derrota para a Itália em 1982, a célebre “tragédia do Sarriá”, que muito marcou minha geração, já que Zico, Sócrates, Falcão e companhia eram ídolos de qualquer menino que chutasse bola em qualquer canto do Brasil. A vitória da Itália passou aos registros – ou pelo menos à maioria deles – como o fim do futebol-arte, do futebol de toques e gols bonitos. Agora veja a partida com olhos livres. Aquele time da Itália não tinha o mesmo número de craques, mas contra o Brasil não jogou na retranca, fazendo faltas, dando chutão, apostando em bola parada: nada disso! Foi para cima, concentrada em roubar a bola e partir para a área, com Antognoni dando dribles, Paolo Rossi se movimentando, Conti procurando o ataque. Houve marcação individual em Zico e o goleiro Zoff fez belas defesas, mas não foi um jogo de um campo só. E o Brasil pagou por seus erros pontuais, como a saída de Cerezo e o posicionamento de Júnior. Não foi a antiarte que determinou o placar.
O Santos dos meninos Neymar e Ganso tem experimentado esse equívoco de ambos os lados. Se perdesse (ou ainda perder) para o Santo André, não seriam poucos os que diriam “Tá vendo, não adianta nada jogar bonito”, como se até aqui o time não tivesse se destacado por ganhar bonito, apenas por firulas ou criancices. Há apagões e oscilações, naturalmente, sendo uma equipe jovem, ousada e irregular, e no primeiro tempo foi o Santo André que se mostrou criativo e ofensivo. Mas o talento se impôs e a blitz do início do segundo tempo acuou o adversário e trouxe a virada, mesmo que posta em risco depois e com um jogador a mais. Neymar se machucou e Ganso foi fundamental, mas seria injusto determinar por isso quem deve ir para a seleção e quem não deve. No entanto, há jogos que terminam tendo esse valor. É duro, mas é assim.
Que o digam Adriano e outros hoje no único duelo brasileiro da Libertadores, Flamengo x Corinthians, no Maracanã. A torcida e a imprensa – mais parecidas do que pensam – já antecipam o que será dito caso um ou outro vença. Uns dizem que o Flamengo está em pior fase e com técnico interino, com muitos atletas em crise; mas joga em casa e às vezes a saída de um técnico provoca os jogadores a mostrar serviço. Outros lembram que o Corinthians teve a melhor campanha e por isso faz a segunda partida no Pacaembu, onde costuma perder pouco; mas Ronaldo ainda não brilhou neste ano e o time mostrou carências na criação. Se Adriano marcar, dirão que ele é ou está melhor que Ronaldo; se Ronaldo marcar, dirão que mesmo gordo é um craque com uma história que Adriano jamais replicou. Mas a narrativa do jogo pode ser bem menos óbvia e depender bem mais de acasos e distrações. Isso não significa que não possa ser um marco na carreira de ambos.
A hora da verdade chamada Copa do Mundo está chegando também. Messi, que hoje tem a missão de liderar o Barcelona para vencer a Inter de Milão por dois gols; Kaká, que voltou no domingo fazendo o gol da vitória do Real Madrid; Ganso, mais cotado para a convocação de Dunga, pois o Brasil não tem armadores – todos eles sabem que no futebol, sim, às vezes se jogam quatro anos em quatro partidas.
Saiu ontem a notícia de que a Comissão Nacional de Jardins Botânicos enquadrou dois de seus 34 parques na categoria A: os jardins botânicos do Rio e de São Paulo. Recentemente a editora Metalivros fez um livro belíssimo sobre eles, Jardins Botânicos do Brasil, com texto de Evaristo Eduardo de Miranda e fotos de Fábio Colombini. A foto acima me fascinou: é o lendário diretor do Botânico do Rio, Barbosa Rodrigues, em seu gabinete, pé apoiado em casco de tartaruga, cadeira rococó, espadas, crânios, estantes, livros abertos com espécimes da flora sobre banquetas – uma encarnação romântica do naturalista que eu sonhei ser na adolescência. O do Rio é o maior e mais bonito, com 143 hectares e 3.200 espécies, com bromélias e orquídeas que encantaram Burle Marx, Rubem Braga e Tom Jobim. Mas me lembro com carinho das vezes em que fui ao de São Paulo (36 hectares, 1.430 exemplares), com outros amigos de colegial que estudavam Biológicas, e me divertia vendo as vitórias-régias, palmeiras, bambus e também orquídeas, a Mata Atlântica ao redor do portão histórico e da trilha suspensa, a estufa. Não há nada como andar nas sombras úmidas da mata e a ideia de jardim botânico é ótima porque ao mesmo tempo preserva e estuda a natureza. No entanto, a visitação ao vizinho Jardim Zoológico é muito maior. Quem sabe agora, com a classificação “cinco estrelas”, a coisa mude.
Um aspecto pouco avaliado do futebol é o tempo. Um time pode jogar de modo aberto e em ritmo elétrico, mas não pode mantê-lo por 90 minutos contínuos. Primeiro, porque não há fôlego e os tempos lentos são necessários para organizar, repensar estratégias. Segundo, porque há adversários que vão se valer das oscilações, seja por ter o mesmo estilo, seja por serem mais frios e precisos. Ontem, no primeiro jogo da final do Paulista, o Santo André surpreendeu o Santos no primeiro tempo, com respostas rápidas, lances hábeis, mais finalizações. Neymar mostrou mais uma vez que precisa administrar os nervos, e o time sentiu falta de alguém que saiba atuar entre os zagueiros. No segundo tempo, com André no lugar de Neymar, a blitz dos primeiros quinze minutos resultou em virada, com Wesley aproveitando bem os espaços pela direita, nas tabelas com Robinho. Mesmo assim, o Santos com um atleta a mais voltou a dar espaço. No Santo André, jogadores como Rodriguinho, Bruno César e Rômulo mostraram que também têm técnica e ofensividade. O conjunto do Santos, porém, prevaleceu: 3 a 2. Sim, há adversários que dignificam uma vitória.

É curioso como a maioria das pessoas se comporta anticientificamente, por assim dizer, no dia a dia. Mesmo em assuntos como o aquecimento global, que de fato ocorre, segundo a medição de um painel que reuniu centenas de cientistas, um banzo espiritualista – ou aquilo que Freud chamou de “sentimento oceânico” – é recorrente. Sua característica é fazer associações emocionais entre fatos semelhantes na aparência, mas não necessariamente ligados de forma comprovada ou comprovável. É por isso que diante de uma série de eventos cataclísmicos, como terremotos e a erupção do vulcão islandês, que lançou uma grande, bela e terrível nuvem de cinzas por sobre a Europa, muita gente reage na base do “a natureza está em revolta”. Ou, a cada enchente metropolitana ou seca rural, “o tempo está louco”.
É o pecado do conhecimento, alegorizado no mito grego de Pandora ou na parábola cristã do Paraíso: a humanidade há de pagar por interferir tanto na natureza, por se meter a decifrá-la e dominá-la. Nem mesmo a modernidade se livrou dessa culpa, como se vê nos movimentos romântico e expressionista, no pensamento de Nietzsche ou Heidegger, nos filmes de Hollywood, Disney ou James Bond que sempre fazem do vilão um pervertido pela tecnologia, nas crônicas nostálgicas da literatura brasileira, etc. Eis o que está por trás da exaltação da “sabedoria dos povos da floresta”, tão comum nesta Era Digital. Por certo, a experiência deles com plantas medicinais, por exemplo, não pode ser menosprezada. Mas pergunto: se são tão sábios, por que não inventaram o soro antiofídico?
Comentei no blog outro dia que o experimento do LHC, o acelerador de partículas na fronteira franco-suíça, do qual se esperam informações sobre o que seria a chamada matéria escura do universo, mal foi comentado por sua engenhosidade e beleza; causou antes medo ou arrogância. A natureza é tão intrincada e capciosa, tão complexa, que não precisa de crenças em forças “mágicas” para ter validade, para inspirar e ensinar. O mesmo vale para programas de TV como esse Vida, do Discovery (ou Nosso Planeta, Nossa Casa, que vi no GNT, mais pelas imagens aéreas do que pela abordagem “tudo está ligado”, como se nenhuma espécie pudesse ser extinta), e livros recentes como os de Marcelo Gleiser e Fernando Reinach. Já há ali entusiasmo suficiente para não se enfadar da existência.
Conservadores, no momento preocupados em ressalvar o papa dos escândalos de pedofilia ou lotando as salas de cinema para ver a história de Chico Xavier, costumam dizer que sem religião o homem perde grandeza, se amesquinha em valores utilitários. São os mesmos que não toleram que a Teoria da Evolução de Darwin implique conclusões diferentes sobre o funcionamento e a história da natureza, porque acham que elas ofendem a humanidade, quando em realidade a põem na trama natural como nenhum dogma consegue. E tampouco entendem que o agnóstico (aquele que não crê em nada sobrenatural, nem milagres nem forças ocultas) ou o ateu (que não crê em Deus, o que não precisa significar que tenha certeza de que Ele não existe) possam querer e fazer o bem. Com as guerras tecnológicas do século 20, a demonização do sujeito “materialista” – a qual não via que nazismo e comunismo tinham fortes componentes religiosos na fixidez dos valores e na pretensão salvacionista – se reinstalou na cultura moderna.
Pode-se dizer que ler o horóscopo, por exemplo, seja inofensivo; pode-se lembrar que a maioria das pessoas acredita em religiões e nem por isso deixa de usar pílula ou camisinha para se prevenir; pode-se pensar em argumentos como os de um Jonathan Swift, Edmund Burke ou T.S. Eliot, para citar três gênios do conservadorismo, sobre o peso depositado no indivíduo, como se ele fosse tão racional assim. Mas o que não se pode é ignorar que a boa ciência é investigativa, não doutrinária, e que dela se podem extrair focos de luz insubstituíveis, como brasas nas cinzas.
(“Sinopse”)
Se meu iPod tivesse apenas 50 canções, quais seriam? Ensaiei uma lista básica, para convidar os mais jovens:
Love for Sale, de Cole Porter (com Billie Holiday)
Night and Day, de Cole Porter (com Frank Sinatra)
Cheek to Cheek, de Irving Berlin (com Ella Fitzgerald e Louis Armstrong)
He Loves and She Loves, de Gershwin (com Fred Astaire)
Summertime, de Gershwin (com Janis Joplin)
My Funny Valentine, de Rodgers & Hart (com Chet Baker)
Mack the Knife, de Weill e Brecht (com Lotte Lenya)
La Vie en Rose, de Edith Piaf
O Bem do Mar, de Dorival Caymmi
Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa
Feitiço da Vila, de Noel Rosa e Vadico
Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro (com Orlando Silva)
Luz Negra, de Nelson Cavaquinho
Luar do Sertão, de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco (com Luis Gonzaga)
As Rosas não Falam, de Cartola
Mano a Mano, de Carlos Gardel
Always on My Mind, de Christopher, James e Thompson (com Elvis Presley)
Stand By Me, de Ben E. King (com John Lennon)
Georgia on My Mind, de Carmichael e Gorrell (com Ray Charles)
Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá e Antonio Maria (com João Gilberto)
Águas de Março, de Tom Jobim (com Tom e Elis)
Retrato em Branco e Preto, de Tom e Chico Buarque (com João)
Joana Francesa, de Chico Buarque
Beatriz, de Chico e Edu Lobo (com Milton Nascimento)
Sinal Fechado, de Paulinho da Viola
As Curvas da Estrada de Santos, de Roberto Carlos
Coração Vagabundo, de Caetano Veloso
Mas que Nada, de Jorge Ben
Você, de Tim Maia
Veinte Años, de Maria Teresa Vera (com Omara Portuondo)
Maria, de Stephen Sondheim e Leonard Bernstein
A Day in the Life, dos Beatles
Simpathy for the Devil, dos Rolling Stones
Like a Rolling Stone, de Bob Dylan
Heart of Gold, de Neil Young
Space Oddity, de David Bowie
Walk on the Wild Side, de Lou Reed
Let’s Get it On, de Marvin Gaye
How Can You Mend a Broken Heart, dos Bee Gees (com Al Green)
Bille Jean, de Michael Jackson
I Wish you Were Here, do Pink Floyd
Bohemian Rhapsody, do Queen
Stairway to Heaven, do Led Zeppelin
Psycho Killer, dos Talking Heads
Hallelujah, de Leonard Cohen
Alice, de Tom Waits
This House is Empty Now, de Burt Bacharach e Elvis Costello
Creep, do Radiohead
Crazy, de Gnarls Barkley
You Know I’m no Good, de Amy Winehouse
Controversas e prematuras, ainda assim as pesquisas eleitorais mostram curvas de comportamento. Antes mostravam que Dilma Rousseff crescia no embalo da inauguração de obras e nos discursos de Lula; depois do lançamento oficial de José Serra, mostram que ela ainda tem o que andar. Se ficar somente com o tom continuísta, sem cintura, não vai longe. A campanha dele se inspirou na de Barack Obama e tenta apontar para a frente, mas convenhamos que o Brasil não é essa nação dividida e que Serra não comunica renovação. É o primeiro ano depois de muitos em que teremos uma eleição sem Lula e uma Copa sem Ronaldo. Só vai se dar bem quem não tiver medo de fantasma.
Vi o São Paulo ontem, 1 x 0 no Once Caldas, no Morumbi. O time não jogou grande coisa, mas pelo menos desta vez Ricardo Gomes escalou o meio-campo com o trio Hernanes, Jorge Wagner e Marlos, que têm qualidade e versatilidade sem ser craques. Fernandinho fez o gol, mas não jogou bem e o time sentiu falta da referência na área, até porque tem bons cruzadores, embora Washington tenha e cause problemas. De qualquer modo, está classificado, ainda que não inspire tanta esperança.
2012
2011
2010
2009
2008
2007
2006