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Daniel Piza

03.março.2010 15:05:46

O imperador instável

adriano

Em 9 de abril de 2009, o melhor jogador do Campeonato Brasileiro disse que iria “dar um tempo” no futebol. Alto, forte e artilheiro, tinha feito uma carreira que todo jogador sonha fazer, jogando por clubes como Flamengo, Parma, Inter de Milão, São Paulo e pela seleção brasileira, com a qual foi campeão da Copa América em 2004 e da Copa das Confederações em 2005. Neste mesmo biênio, 2004-05, chegou a ficar entre os cinco melhores jogadores da Fifa. Era chamado de Imperador pela torcida italiana. Sua camisa 10 vendia em todas as esquinas de Milão. Grande e famoso, atraía as mulheres de diversos tipos. Era rico e admirado no mundo todo. E era infeliz.

A exemplo de outro astro dos anos 2004 e 2005, Ronaldinho Gaúcho, o ano de 2006 não foi nada bom para Adriano. Foi o ano em que sua participação na Copa da Alemanha, como a de quase toda a equipe, foi lamentável. Um lance no jogo contra Gana teve simbologia especial. Ronaldo recebeu um lançamento, pedalou para cima do goleiro e marcou um belo gol. Poucos minutos depois, Adriano recebeu a bola nas mesmas condições, ensaiou gingar na frente do goleiro e… perdeu o domínio da bola. Conhecido como o ídolo Fenômeno pelo porte físico (ambos estavam com peso bem acima de 90 quilos), pelas arrancadas e pelo faro de gol, Adriano não tem igual habilidade, o que explica em parte porque não foi tão longe.

Ronaldo continuou às voltas com o problema do peso, tentou recuperação no Milan, sofreu outra contusão séria e voltou para renascer no Corinthians em 2009. Mas em Adriano bateu outra coisa: bateu depressão. “Eu não estava feliz na Itália”, declarou em coletiva, depois de ficar vários dias desaparecido, o que não está claro até hoje; chegaram a dizer que teria sido morto por traficantes no Complexo do Alemão. Oficialmente, segundo seu empresário Gilmar Rinaldi, estava na casa de parentes na Vila Cruzeiro, onde nasceu em 17 de fevereiro de 1982. Foi o que bastou para que a imprensa começasse a embalar reportagens sobre seu momento com a canção que diz: “Eu quero é ser feliz/ Morar tranquilamente na favela onde eu nasci”.

Adriano não mora em favela, mas ficar no Rio de Janeiro era tudo que queria naquele momento. Menos de um mês depois, voltou ao futebol pelo Flamengo. No início, acima do peso, jogava mais parado, esperando sobretudo o cruzamento para o cabeceio – o fundamento que domina muito melhor que Ronaldo, além da força do chute de esquerda que pode fazer a bola atingir até 100 km/h. Embora fazendo gols, chegou atrasado aos treinos em muitas ocasiões e, como o time ia mal, era duramente criticado por isso. Foi então que o técnico Andrade, ele mesmo ameaçado de perder o emprego, ganhou crédito da diretoria e o craque Petkovic para articular a criação de jogadas. De julho em diante, só deu Flamengo. Adriano, que ao longo dos meses emagreceu e ganhou velocidade e mobilidade, foi campeão e artilheiro do Brasileiro. Na temporada toda, fez 24 gols em 34 partidas, muitos com sua marca: trombadas com os pobres zagueiros, impulsão, “biabas” de canhota a 30 metros de distância – recursos que compensam sua dificuldade em usar a perna direita e em fazer dribles mais curtos e lisos.

Ainda assim, o Tanque – outro de seus apelidos, usado carinhosamente para descrever o modo como se choca com os adversários sem cair nem sequer se desequilibrar, além de disparar chutes como tiros letais – quer campanhas maiores. Neste ano, disputa a Libertadores e, acima de qualquer outra coisa, quer disputar a Copa do Mundo da África do Sul. Por enquanto, a seleção de Dunga tem um centroavante titular, o eficiente Luís Fabiano, outro jogador trombador e goleador, mais ágil que Adriano, porém sem a mesma força no chute e no choque. Como as outras vagas de ataque devem ser reservadas para jogadores leves e habilidosos como Robinho e Nilmar, a chance no momento é que Adriano seja reserva. Mas ainda pode acontecer muita coisa.

Afinal, por duas vezes contra a Argentina, na Copa América de 2004 e na Copa das Confederações de 2005, Adriano foi decisivo, marcando gol e sendo eleito o melhor do torneio. Além disso, a imprensa começou a dizer que aquela seleção tinha um “quadrado mágico”, formado por ele, Robinho, Kaká e Ronaldinho Gaúcho. Mas a sombra de Ronaldo continuava presente e em 2006 formou parceria com ele, a qual ganharia o triste apelido de “torres gêmeas”. Quando imaginava que fosse realizar seu sonho, o baque foi duro. O moral de Adriano despencou como se um avião tivesse atravessado suas ferragens. E seu futebol, bem mais dependente do estado físico e psicológico, derreteu junto. Na temporada 2006-07, em 30 jogos, fez meros seis gols.

Carente de um artilheiro, já que seu titular da camisa 9 era Aloísio, bom pivô e mau finalizador, o São Paulo deu a Adriano ótima chance de recuperação em 2008. Ele veio para jogar Libertadores e Paulista, entrou em forma e fez 17 gols em 28 partidas. Um deles, comemorou arrancando a camisa, exibindo a forma física e aproximando os braços como um Hulk para mostrar nos músculos a vontade de vencer. Não foi brilhante nem conquistou título, mas provou que tinha tudo para jogar em alto desempenho de novo e voltou para a Itália. A alegria durou pouco. O técnico já não era Roberto Mancini, que fizera a Inter de Milão jogar em torno de Adriano três anos antes. Foram apenas cinco gols em 19 jogos. Flagrado bebendo em festas, faltando a treinos e sem render em campo, foi afastado do clube, que terminou rescindindo seu contrato em 23 de abril de 2009. Parecia ser o fundo do poço. Para um jogador de sua qualidade, não deveria ser fácil ser “quase”: quase um melhor do mundo, quase um campeão do mundo, quase um Ronaldo.

Ao observar a carreira toda de Adriano, os anos de 2004 e 2005 parecem ser exceções, com todos aqueles títulos, inclusive o “scudetto”, o título nacional da Itália. Ele sempre foi um atleta instável. Nos dois primeiros anos como profissional do Flamengo, 2000 e 2001, ele tinha altos e baixos bem pronunciados, tendo sido até vaiado algumas vezes pelo Maracanã. Fez 12 gols em 46 jogos. No primeiro ano na Itália, dividiu a temporada entre Inter e Fiorentina e aproveitou mal as poucas chances que teve, com apenas sete gols ao todo. Por isso, a Inter o emprestou ao Parma e foi nesse time pequeno que seu futebol começou a aparecer, com 26 gols em 44 partidas – número que superaria apenas na Inter de 2004-05, com 28 gols em 42 partidas –, mas o clube foi rebaixado. Adriano, no geral, nunca fez mais que 16 gols num mesmo campeonato europeu; e sua média histórica (185 gols em 392 jogos, cerca de 0,47) é bem inferior a de outros “matadores” contemporâneos.

Essa instabilidade de sua carreira é, antes de mais nada, a instabilidade de sua cabeça. Adriano é capaz de numa mesma partida marcar um golaço com potência e técnica e, logo depois, dar dois murros simultâneos na cara de um adversário, como aconteceu quando jogava na Inter de Milão. Depois da morte do pai, em 2004, afogou boa parte da tristeza em álcool; o apogeu dentro de campo era contraposto pelos problemas crescentes com a bebida, a tal ponto que precisou ficar internado em clínicas. Mais tarde, mesmo vitorioso no Flamengo e próximo de seus familiares, e de certa forma protegido por uma imprensa bem menos sensacionalista que a italiana, de vez em quando ele ainda se parece com aquele jovem perdido que andava na garupa de uma moto de amigo e sem capacete, como fotografado no início de 2009, ou que volta e meia aparecia sem camisa nos batidões do funk ao lado de muitas mulheres. Seus casos, a propósito, são também rumorosos, como o que teve com Joana Machado, “personal trainer” e modelo da Playboy.

Em muitos sentidos Adriano é diferente dos outros jogadores com fama planetária, que gostam de mulheres do mundo “fashion”, magras e pretensamente chiques. Tampouco é visto em restaurantes finos ou eventos de gala. “Adriano não tem essa fome de fama”, afirma Carlota Romanelli, sua tradutora na Itália. “O ego dele não é tão grande.” Adriano seria um anti-Beckham, um ídolo pouco preocupado em fazer propagandas ou em se comunicar bem com a imprensa. “A frase que eu sempre ouvi dele foi ‘dinheiro não traz felicidade’.” Carlota também diz que Adriano se sentia muito sozinho na Itália, apesar das farras todas, morando numa casa com boate e uma piscina que muda de cor, além da garagem cheia de carros, um guarda-roupa cheio de relógios e “um iate maravilhoso”. Ela o descreve como um sujeito simples e carente, que já tem dois filhos e agora pretende se casar. Recentemente foi visto de novo com Joana Machado.

Mas nem todo mundo pensa que o problema de Adriano seja apenas a saudade de casa. “A imagem que se tem do Adriano na Itália é a do talento desperdiçado”, diz Alberto Cerrutti, cronista do jornal Gazzetta dello Sport. “Ele mesmo destruiu tudo isso por problemas de personalidade. Cada hora era um problema. Todos na Inter de Milão perderam a confiança nele.” O superintendente de futebol do São Paulo, Marco Aurélio Cunha, confirma que o jogador voltou da Europa “desmotivado e com problemas físicos”. Mas diz que o jogador cometeu apenas um deslize – “chegou atrasado, mas foi punido pela presidência do clube e tudo se resolveu” – e que a “mudança de ares” lhe fez muito bem, tanto que voltou à seleção brasileira.

Quem convive hoje com Adriano garante que ele quer ter a “sua” Copa, como Romário em 1994 e Ronaldo em 2002. Quer superar tudo na África do Sul, aonde chegará com 28 anos, idade considerada apogeu por muitos fisiologistas do esporte. Esse foi um dos motivos por que continuou no Flamengo em 2010. O clube estava tão preocupado com sua saída – e no dia seguinte à conquista do título ele chegou a dizer que não estava decidido sobre seu futuro – que Vagner Love, em baixa no Palmeiras, foi procurado para assumir a função de centroavante. Mas, com jogadores como Ronaldo, Fred, Roberto Carlos e outros de volta para mostrar serviço a Dunga (aos quais Robinho também se juntaria), Adriano optou pelo “fico”. A julgar pelas primeiras semanas do ano, a dupla com Vagner Love fez bem aos dois.

O imperador sempre esteve mais para gladiador: é um lutador na vida e no gramado, e sua luta mais difícil é consigo mesmo. Se for à Copa e se fizer uma boa participação, é bem possível que Adriano aceite voltar a um grande clube europeu. Mas também é possível que, como dizem os brasileiros, ele “sossegue o facho”. E se contente em continuar sendo o rei da Gávea.

(Fonte)

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03.março.2010 07:01:18

Rumo ao hexa?

O jogo com a Irlanda foi anunciado como “último teste da seleção antes da Copa”, mas no máximo era um teste para alguns jogadores que não garantiram vaga ou titularidade, como Michel Bastos, Ramires e Adriano. Dunga afirma que o grupo está fechado, mas há vários pontos em aberto até para ele mesmo. Para nós, espectadores, sobrevivem ainda as dúvidas sobre Felipe Melo e Gilberto Silva, que não estão bem nos clubes. Além disso, talvez mais importante: o amistoso contra a Irlanda não deixou de confirmar que o estilo Dunga continua a se dar melhor quando sai no contra-ataque, pois falta criatividade para romper defesas um pouco mais fechadas.

A Irlanda chegou com perigo algumas vezes, principalmente quando os lançamentos eram às costas dos defensores brasileiros, e Júlio César mostrou seu reflexo num dos cabeceios. Pouco a pouco o Brasil foi dando o troco, puxado por Kaká e Maicon, mas não houve nenhuma chance clara de gol. O placar só mudou no final do primeiro tempo, quando Robinho recebeu em condição de impedimento, cruzou por baixo e o zagueiro irlandês fez o gol contra. Michel Bastos parecia ansioso para aparecer, o que em alguns momentos permitiu que os adversários usassem seu setor. Ramires perdeu muitas bolas, coisa que um meia não pode fazer. Adriano trombava, mas não abria espaço para sua esquerda. E Felipe Melo se limitava a tentar parar Keane com faltas.

No segundo tempo, a Irlanda se recolheu à sua inferioridade técnica e física. Dunga pôs Daniel Alves – que já deixou claro que merece ser titular no meio, em vez de Ramires ou Elano – e tirou Adriano por Grafite. Daniel e Robinho perderam um gol feito cada um, mas os espaços e erros da defesa irlandesa permitiram mais troca de passes e foi numa delas que saiu enfim o belo gol de Robinho. A defesa foi segura como sempre, com Lúcio e Juan, e raramente a Irlanda se aproximou com algum perigo até o final. A torcida, mesmo assim, pediu por Ronaldinho, que certamente é e está melhor do que um Kleberson ou Julio Baptista e também deu saudade na hora da cobrança de faltas.

Mas e a Copa? Acho que o Brasil tem, sim, time para ser campeão. Dunga, porém, precisa entender a importância de um jogador que se movimenta muito e sabe driblar, como Daniel Alves; e imagino que ainda haverá uma dependência grande da interação e inspiração de Kaká e Robinho. Que os deuses conspirem a favor.

EVOÉ, JOVENS À VISTA

Sim, Neymar e Ganso precisam tomar cuidado para não ficarem marrentos demais, à la Robinho, e lembrar que a arte se mostra com o jogo correndo. Mas vi muito menos linhas dedicadas ao fato que o próprio Neymar assinalou: a diferença entre seu desempenho neste ano e o do ano passado, quando foi igualmente exaltado e terminou tendo uma temporada medíocre, foi aprender que buscar o resultado é a motivação primeira e última de todo jogador de talento. Repare na simplicidade de seu gol contra o Corinthians: dominou de costas para o zagueiro, protegendo a bola, e virou batendo no canto sem precisar muita força. Eles estão no caminho certo, desde que não se deslumbrem.

Os dois mais Fernandinho, Wellington Silva e Caio encheram os olhos dos admiradores do ludopédio brasileiro no fim de semana. Eles não querem saber de ficar empinando bola como focas, a exemplo de alguns falsos brilhos que andaram aparecendo nos últimos anos. Como notou Luiz Zanin, é uma pena que só veremos seu amadurecimento à distância. Mas, por ora, aplausos.

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nabucoex

Num país onde a palavra “liberalismo”, com ou sem o prefixo “neo”, virou quase palavrão ou sinônimo de alguém a favor da ganância desmedida do mercado financeiro, a reedição do livro de Marco Aurélio Nogueira, O Encontro de Joaquim Nabuco com a Política, pela editora Paz e Terra, tem muito valor. Ainda mais porque estamos no Ano Joaquim Nabuco, em comemoração ao centenário de morte do grande escritor e abolicionista nascido em 1849. Há 25 anos, quando publicado pela primeira vez, o livro foi um marco nos estudos nabuquianos ao mostrar como sua trajetória intelectual ziguezagueou de acordo com as curvas da história brasileira daquele período fundamental – jamais por oportunismo, sempre por honestidade.

O livro nasceu de uma tese de doutorado apresentada na USP em 1983, diante de uma banca que tinha nomes como Raymundo Faoro, o autor de Donos do Poder, que assinou o prefácio da primeira edição. Embora utilize métodos e conceitos associados ao pensamento marxista, como os de Antonio Gramsci (ao definir Nabuco como um misto de “intelectual orgânico” e “tradicional”) e Roberto Schwarz (“ideias fora de lugar”, originalmente uma expressão do conservador Oliveira Vianna), o ensaio de Nogueira quase sempre se concentra no esforço de compreender o pensamento de Nabuco, vendo nele uma consistência rara em intelectuais e sobretudo homens públicos brasileiros de qualquer tendência. Nogueira não esconde sua admiração pela figura.

O desafio era entender as diversas fases das opiniões de Nabuco sem deixar de ver suas continuidades. Essa recusa ao esquematismo abriu caminhos para estudos posteriores, com destaque para o de Ricardo Salles em 2002, Joaquim Nabuco – Um Pensador do Império. Na apresentação da segunda edição, Nogueira se refere a uma divergência entre eles: Salles vê Nabuco mais como intelectual autônomo em relação às posições de classe; Nogueira o considera “orgânico” por ter articulado um movimento da sociedade que se modernizava em torno da campanha abolicionista. Mas ele também é o primeiro a diminuir o peso dessa divergência: os dois estudos observam Nabuco como um intelectual interessado na questão da cidadania e das reformas para a consolidação da nação.

Essa é a grande virtude de seu livro. Nabuco não é lido simplesmente como um escritor que crê no livre mercado, nas ideias econômicas de um Adam Smith, mas como um liberal no sentido mais amplo da palavra, com suas implicações filosóficas e políticas. Nabuco criticava o excessivo intervencionismo estatal na vida brasileira e o fazia pelo ângulo das preocupações sociais. Sua luta pela abolição tinha em primeiro lugar uma dimensão ética, humanista (“dignidade humana”); em segundo, procurava o tempo todo ressaltar a importância de não ser apenas uma lei, mas um processo de integração de todas as camadas ao processo civilizatório (“expansão da democracia”). Daí o subtítulo do livro, As Desventuras do Liberalismo, que bem poderia ser o título. Para dizer o mínimo, Nabuco não viu seu projeto se realizar na íntegra.

Nogueira enfrenta também as oscilações intelectuais de Nabuco. Republicano quando jovem, monarquista quando abolicionista e conservador quando diplomata, ele foi uma personalidade complexa; não por acaso, como seus contemporâneos Machado de Assis e Euclides da Cunha, tem sido apropriado por interpretações de tendências díspares, não raro nos extremos do espectro ideológico. Nogueira o define corretamente como um “liberal conservador”, ou seja, alguém que defende a democracia capitalista temendo rupturas e zelando pela moral estabelecida, de base católica e esteticismo aristocrático, à qual dá vazão em livros como Minha Formação e Pensamentos Soltos. Por isso optou por defender a monarquia no momento em que mais era atacada pelos republicanos. Como tantos em sua época, achava que só o regime de Dom Pedro II poderia manter a unidade nacional de tamanho território.

O livro, de certo modo, dá pouca ênfase aos aspectos conservadores de Nabuco. Por usar conceitos como “revolução burguesa”, que no Brasil teria ocorrido sem burguesia nem democracia (então o que era?), tende a ver em Nabuco um representante da classe média moderna que ainda demoraria a tomar conta do curso histórico. Mas ele era uma voz ambígua nesse ponto. O problema dessa “elite” não era se dizer liberal num regime de oligarquias; era não ver que seu discurso sobre “ordem” e “conciliação”, sem confronto claro e direto com as forças da Igreja e do Exército, traía um medo da modernidade. Veja os protagonistas de Machado: sua mentalidade é tudo menos liberal; é paternalista e religiosa à toda prova.

É isso também o que explica que no fim da vida Nabuco tenha se entendido com a República Velha e, como embaixador em Washington, aderido ao “pan-americanismo”, que na visão de Nogueira era uma submissão à doutrina imperialista dos EUA. A tônica de Nabuco era no “pan”, era na harmonia continental. Em seu liberalismo conservador não havia muito espaço para grandes atritos e saltos; tudo deveria ser gradual, por meio da persuasão, sem ousadias estruturais, à maneira de tantos líderes brasileiros até o presidente Lula. Mas Nabuco tinha ouvidos apurados para o chamamento da história, e em tudo que fazia prezava sempre em primeiro lugar a liberdade dos indivíduos.

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01.março.2010 13:33:30

Chopin segundo Guiomar

O Santos jogou melhor. A garotada, algo marrenta, deu canseira na veterana defesa corinthiana e Neymar, apesar de ter perdido pênalti, foi o nome do jogo, com um gol e uma assistência. O juiz não foi bem: marcou faltas inexistentes e deu cartões demais (o primeiro de Moacir e o segundo de Roberto Carlos são contestáveis). Mas o Corinthians jogou mal. Entrou com a proposta de fazer uma linha de impedimento avançada, para reduzir os espaços do adversário, porém Roberto e Alessandro falharam na sincronia e o meio deu espaço para jogadores como Ganso. O Santos precisava de meia dúzia de passes para chegar à área do visitante; o Corinthians não tinha incisividade, com Ronaldo levando pouco perigo.

O Palmeiras perdeu do Rio Claro e a lua de mel com Antonio Carlos tende a acabar rápido. No São Paulo, Fernandinho fez quatro gols em sua estreia; por mais que tenha sido contra o fraquíssimo Monte Azul, Washington não deve ter dormido direito.

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