Não sei quanto a vocês, mas quando leio as matérias sobre o acelerador de partículas me deixo fascinar. Digo isso como leitor leigo de notícias e livros científicos. Muitas pessoas ficam assustadas, algumas falam em “partícula de Deus” como se temessem a comprovação da existência do bóson de Higgs (possível elemento que constitui a matéria escura, da qual 90% do universo seria composto; nada a ver com um “criador” ou “força superior” do cosmos), mas eu não. A inteligência e a engenhosidade investidas ali reafirmam os dotes humanos, nossas faculdades, e não a soberba ou destrutividade de outros marcos da história da ciência e tecnologia. Há quem diga que sem a religião o homem tem uma imagem pequena e egoísta de si mesmo e não produz a grandeza de Bach, Dante e Michelangelo. Eu acho que não precisamos da religião para admirar a riqueza da natureza, para ter ética e para apoiar a capacidade humana de buscar sua compreensão – eternamente condenada a ser parcial, mas não paroquial.
Vivemos tempos em que supostos craques são anunciados a cada semana, mas também em que os verdadeiros craques são depostos com igual rapidez. É verdade que “futebol é momento”, como diz o chavão, e que, por exemplo, não faz sentido convocar para uma Copa do Mundo um jogador em longa má fase. E também é verdade que os melhores devem ser mais cobrados, pois afinal é deles que se espera sempre o lampejo redentor, a ruptura dos esquemas, e que o passar dos anos apaga essa centelha, reduz esse brilho. Mas não vejo lógica em endeusar qualquer moleque capaz de um truque ou dois com a bola (você se lembra do Kerlon, o “foquinha”, que seria expressão do futebol-arte?) e simultaneamente demonizar craques que venceram a mais difícil das partidas, o teste do tempo, e acumularam títulos merecidos.
Nome e passado não ganham jogo, mas exigem respeito. A seleção de 2006, apesar de eu sempre ter desconfiado do oba-oba que antecedia a Copa, me deixou chateado com seu futebol modorrento, caranguejo; mas também me chateou o tratamento que imprensa, torcida e CBF dispensaram a alguns jogadores – como Cafu, que num país sério já teria sido homenageado com uma despedida de gala. Outro é Roberto Carlos, um dos que pagaram a conta da expiação nacional depois que a TV o mostrou arrumando meião no lance do gol da França. Estou dizendo que eles fizeram uma boa Copa? Não. Estou sugerindo que deveriam ter continuado na seleção? Também não. O que lamento é que não sejam reconhecidos à altura pelo que fizeram em tantos anos – do mesmo modo como lamento que Paulo Henrique e Neymar não tenham chances com Dunga.
No caso de Roberto Carlos, há o adicional de que continua com grande capacidade física e técnica. Teve um recomeço complicado, com expulsões e tudo, mas agora está bem, com gols e tudo. No clássico contra o São Paulo, foi quem mais vezes pegou na bola, como ocorria com André Santos. E se entendeu muito bem com Danilo, outro jogador que, apesar de não ter a mesma sala de troféus, voltou sob desconfiança e agora já começa a provar seu talento. Imagine, então, se Ronaldo voltar a jogar o que jogou em abril e maio do ano passado… Sim, ele também merece crédito, apesar de continuar sem acertar dribles e chutes. Pode e deve ser criticado, mas não entendo que o mesmo comentarista que pede para ele ser substituído em todos os jogos – todos – não peça nunca para um Souza ser substituído… Técnica é técnica. A parte física está melhorando.
Por falar em Corinthians, muitas críticas às contratações já se mostraram precipitadas, principalmente se comparamos com as dos outros times. Mesmo que não chegue à final, o clube tentou fazer o que tinha que fazer. Acho Tcheco lento e Iarley irregular, mas a vitória sobre o São Paulo, depois de três meses de indefinições e contusões, mostrou que o time está mais consistente e tem mais opções táticas. Com Ralf e Jucilei no desarme, Danilo na criação e Elias como apoiador, aparecendo de surpresa para tabelar com atacantes (Ronaldo e Dentinho ou Jorge Henrique), Mano achou o meio-campo titular. Foi criticado por tirar Elias, mas Elias, que precisa aprender a poupar energia, pediu para sair porque estava cansado. “A impaciência talvez seja o único pecado capital”, escreveu Kafka. Sejamos mais pacientes, jamais complacentes.
(“Boleiros”)
Uma lágrima para Armando Nogueira, morto aos 83 anos. Sua maior contribuição foi ter dado dignidade à crônica esportiva em si mesma, num momento em que os melhores do gênero vinham da literatura, como Nelson Rodrigues e José Lins do Rego. Influenciado por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, adotou um estilo lírico, embora às vezes deslizasse para o sentimental, banhado em adjetivos e hipérboles. Simplesmente escolheu exaltar os ídolos, como Pelé (“Até a bola do jogo pedia autógrafo a Pelé”), Garrincha (“Para Garrincha, a superfície de um lenço era um latifúndio”) e Zico (“A bola é uma flor que nasce nos pés de Zico, com cheiro de gol”), na linha de Nelson – ainda que este antes o criticasse por se deslumbrar com os húngaros em detrimento dos brasileiros. Hoje a crônica anda fora de moda, mas a capacidade de admiração, de olhar o esporte de modo afetivo, não precisava ter ido junto.
O clássico entre Corinthians e São Paulo foi jogado na bola quase o tempo todo, sem muitas faltas e com muitos gols. (O “quase” é por causa do lance entre Washington e Dentinho, os dois corretamente expulsos, o primeiro pela agressividade mesmo depois da falta marcada, o segundo pela proteção com o cotovelo.) O Corinthians foi melhor, principalmente no primeiro tempo, porque a dupla Ralf e Jucilei permite que Elias apoie mais e porque Danilo fez grande partida, caindo para os dois lados do campo. Ronaldo se mexeu mais e deu a bela assistência do primeiro gol, mas ainda está longe do que pode; os dribles e os chutes não estão saindo. Escrevi que faltava lateral direito reserva, mas Moacir parece já ter tomado a vaga de Alessandro. E Roberto Carlos calou os que desconfiavam de suas condições. Já o São Paulo tem um bom elenco, mas Ricardo Gomes ainda não lhe deu identidade tática. A ausência de Jorge Wagner foi sentida, Hernanes tem errado mais, há carência de criatividade ou surpresa na ligação. Os goleiros falharam demais nas cobranças de bola parada e o gol da vitória foi num azar do bom Alex Silva, que errou alguns centímetros ao tentar desviar o cruzamento de Iarley. Mesmo assim, a partida foi jogada com técnica e emoção – e isso sempre se deve comemorar.
Corinthians, São Paulo e qualquer outro clube brasileiro precisam de um Paulo Henrique Ganso, que ontem fez dois gols pelo Santos contra o Monte Azul. Ele tem estilo clássico, mas não é lento; é completo, mas não é previsível. Numa época em que quase todos jogam de cabeça baixa, tem tudo para ser um craque.

Em dia de aniversário a gente pode quase tudo: pode ganhar café na cama, sair mais cedo do trabalho, pegar a primeira fatia do bolo. Ou pode até pensar como aquela personagem da peça Três Mulheres Altas, de Edward Albee, e dizer que nesta idade estamos entre a imaturidade e a decadência, num platô de cima do qual podemos ver tudo – e quem viu Nathalia Timberg rugindo essa fala não esquece jamais. Mas a gente também pode acreditar nessas classificações da psicologia e matutar sobre a meia-idade, um termo que sugere outros igualmente melancólicos: meia-boca, meia-bomba, meia-sola… Uma vez escutei no rádio um desses sujeitos que dão conselhos para a vida profissional desaconselhando um ouvinte de 40 anos a mudar de carreira, na linha “agora é tarde, amigo” (ou então, “a vida começa aos 40: começa a terminar”). E isso numa época em que as sociedades envelhecem e a expectativa de vida não para de subir.
A sensação de idade tem a ver com o modo como se usa o tempo. A pergunta que mais me fazem, por sinal, é como arranjo tanto tempo para ler, escrever, etc. Menosprezam o fato de que esse é meu trabalho, ou seja, que as oito horas que passam trabalhando são, para mim, oito horas que posso passar lendo e escrevendo. É claro que sinto falta de tempo: queria jogar mais futebol, morar um período fora, retomar minhas aulas de alemão e piano, escrever um romance. Mais falta ainda sinto do que não pude ser: em outra encarnação, não tenho dúvida, tentaria ser cientista (biólogo, neurologista, físico?). Mas não acredito em encarnação e acho que tenho tempo para realizar boa parte daquelas vontades. Se posso repetir o chavão do “tudo passa tão rápido”, digo com mais convicção que, até aqui, eu soube aproveitar bastante bem. Corri atrás das coisas; não fiquei esperando que me dessem ou me deixassem.
Para quem ama a mulher que tem e o trabalho que faz – duas coisas raras, ainda mais simultâneas –, a vida nunca parece que está sendo desperdiçada. Os erros do passado pesam, como errar de faculdade e casar muito cedo, mas o problema não é errar, é demorar para reconhecê-los; foi por isso que dei a volta por cima em ambos. Aqui vem um ponto importante. Essas duas decisões, ou melhor, essas duas “correções de rota” aconteceram contra a opinião da maioria dos que me cercam – inclusive os amigos mais queridos, com as intenções mais altruístas. Ouvir a voz própria, sabendo arcar com as consequências, é fundamental nesses assuntos. A cultura latina, a meu ver, põe ênfase excessiva nos laços pessoais; por medo de magoar os outros, todos terminam muito mais magoados do que se tivessem uma conversa franca, educada, mas sem concessões. As questões existem em si mesmas, não são apenas projeções de nossos temperamentos e interesses, e a objetividade possível deve ser buscada.
Atribuo a isso o fato de que me dizem indiferente demais ao que os outros pensam de mim. Não é verdade. Sei meus defeitos, mas sei também que as críticas nem sempre chegam com as palavras adequadas – ser petulante não é ser arrogante, e gostar de mulheres é o contrário de gostar de enganá-las – ou com boa-fé. Quase 20 anos de prática me ensinaram a identificar quando uma resenha negativa faz questão, por exemplo, de identificar se você é jornalista, paulista, jovem… E sei que é minha cabeça que deito no travesseiro, não a dos outros. A propósito, muitas pessoas de poder na cultura e na política brasileira – produtos e produtores da mentalidade oligárquica que ainda nos governa – têm o péssimo costume de imitar a rainha de Alice e pedir as cabeças dos que as contestam. Conseguiram aqui e ali, mas sobrevivi a todos.
Qualquer um que trabalhe em comunicação, por supuesto, quer ser bem entendido. Mas não existe comunicação sem ruído. Quando comecei, me diziam que os leitores não querem saber de muito senso crítico e de assuntos supostamente sérios. A maioria só quer saber de celebridades e diversões, e mesmo os que se interessam pelos temas leem com desatenção e palpitam com furor. (Até familiares me perguntam por que não escrevo um “best-seller”, como se fosse uma fórmula e, mais importante, como se eu quisesse.) Os que não me conhecem, portanto, imaginam que sou rabugento, que não dou gargalhada vendo Didi na TV, que não sei chutar bola, etc. Estão acostumados com “intelectuais” que não sabem dirigir, só escutam música erudita e olham os outros de cima para baixo. Ou com jornalistas que não falam mal da imprensa, paulistas que não falam mal de São Paulo (afora trânsito e violência) e jovens que acham que o mundo começou quando nasceram.
Me divirto muito com tudo isso e, principalmente, me sinto satisfeito quando me dizem que leram livros como Dois Irmãos, de Milton Hatoum, Desonra, de Coetzee, Reparação, de Ian McEwan, ou que “redescobriram” Machado porque instigados pelo que comentei. Ou que gostam justamente da mistureba de assuntos que faço aqui. Todo convite que recebi foi porque leram o que escrevi, não por indicação ou “amizade”. E estou certo de que, apesar do que sempre ouço, ou do que leio na revista Brasileiros, muitos percebem que sou diferente de ídolos de juventude como Paulo Francis e H.L. Mencken. Gosto de futebol, MPB e Obama, gosto de pesquisar e não exagerar, sou ateu sem culpa, não sou preconceituoso nem engraçado. Mas aprendi com Francis e Mencken a tratar a cultura como prazer e a dizer o que penso sem medo de patrulha.
Essa curiosidade sem ansiedade, essa inquietude sem amargura, é um dos prazeres da maturidade, para os quais, talvez porque também raros, não tinham me alertado – e felizmente, pois a vantagem de não ser muito otimista é que as boas notícias são mais bem desfrutadas… Quando completou 80 anos, Bernard Shaw começou uma palestra assim: “Quando eu era mais novo, diziam que quando chegasse aos 80 iria ver. Bem, cheguei aos 80 e não vejo nada.” O discurso de autoridade pela idade é ridículo. Do alto do platô vemos muita coisa, não tudo, e vemos também que as rugas e as dobras se acumulam. Mas o que se vive é o presente, e presente melhor o tempo não nos dá. O tempo não voa nem se arrasta: é o indivíduo que escolhe seguir em pé. Agora, ao café e ao bolo.
(“Sinopse”)

George Bernard Shaw viveu 94 anos (1856-1950) escrevendo e falando sem parar. Nascido em Dublin, chegou a Londres aos 20 anos disposto a se tornar um romancista e a satirizar sem dó a cultura vitoriana. Os romances não vingaram, mas Shaw se vingou: foi crítico de arte, de literatura, de teatro e de música – analisando agudamente artistas modernos como Richard Wagner – e tornou suas iniciais G.B.S. tão conhecidas quanto temidas no decadente Império Britânico, além de fazer discursos em convenções socialistas. A dramaturgia veio em seguida, com a mesma energia: ele fez mais de 50 peças. Escolha um tema, enfim, e Shaw terá escrito sobre ele – com gafes graves, como os elogios a Hitler e Stalin por seu anticapitalismo, mas quase sempre com estilo e brilho.
O livro se chama Quatro Peças Curtas, com boa tradução de Domingos Nunez, e não chega a 170 páginas, mas essas características de Shaw estão todas ali, em versão “pocket show”. A primeira é Como Ele Mentiu para o Marido Dela, de 1904, que tem a forma de uma peça de salão e ao mesmo tempo reverte as peças de salão: a infidelidade não é vista aqui como um pecado a ser condenado no desfecho da trama. A próxima peça é A Dama Negra dos Sonetos (1910), um “divertissement” em torno de Shakespeare, que pede de presente à rainha Elisabeth um teatro, mas ela recusa por suas “obscenidades”. Em O Recruta Dennis (1915) temos outra obsessão de Shaw, a questão do patriotismo. É a melhor de todas. “O mundo está desmoronando à minha volta”, diz Dennis, durante a 1ª Guerra Mundial, e foi isso mesmo que aconteceu, segundo os historiadores. A última é Um Quê de Realidade (de 1910, mas publicada só em 1926; o título também poderia ser Um Lampejo de Realidade), uma diatribe do “discípulo do diabo” Shaw a respeito de um frade que, digamos, tem uma certa queda por dinheiro.
Inéditas no Brasil, essas peças fizeram parte da pesquisa da Companhia Ludens, fundada em 2003 para encenar obras de autores irlandeses (como Brian Friel). A trupe não montou esses textos; apenas os utilizou como material para Idiota no País dos Absurdos (The Simpleton of the Unexpected Isles), peça de 1935 que também não havia sido traduzida, e que recebeu direção do próprio Domingos Nunez. Mesmo assim, com esse caráter mais ligeiro e quase experimental, a publicação dessas peças serve para manter vivo o nome de Shaw. Nem todo grande autor é grande até nos momentos menores.

Está bonita a exposição de Andy Warhol na Estação Pinacoteca. Ele tinha talento, sem dúvida, e isso fica claro em séries de retratos como as de Jackie Kennedy (toda em “blues”, como realçando sua elegância em meio ao luto) e Marilyn Monroe (cosmética em versões variadas, sugerindo que aquele rosto tão conhecido não é um rosto que conhecemos). Há uma frase de Warhol se queixando de como a mídia “programava os sentimentos” no dia da morte de John Kennedy, e é sobre isso que suas serigrafias pretendiam falar. Mas muitos outros artistas da segunda metade do século trataram desse tema com crítica mais clara (Rauschenberg, por exemplo) ou foram melhores pintores (De Kooning, Francis Bacon) – e Warhol, para os milhares de visitantes, faz parte desse mesmo mundo de famosos e marqueteiros entre os quais vivia.
Do lado de fora, sob a marquise do futuro centro de dança à frente da Sala São Paulo, uma multidão de mendigos ocupava a calçada. Essa imagem se repete cada vez mais, mas as pessoas preferem não ver.

Revi nesta semana o filme Os Vivos e os Mortos, de John Huston, baseado no conto The Dead, de James Joyce (será que Os Mortos era um título muito simples ou muito mórbido para os tradutores brasileiros?). Depois de 23 anos, finalmente o DVD sai aqui, graças à ótima Coleção Cultclassic. Quando Gabriel (Donal McCann) vê sua mulher, Gretta (Anjelica Huston), se perder na memória ao ouvir uma velha canção irlandesa, e depois ela conta que estava pensando num jovem amor, ele se dá conta de como não conhecemos nem a pessoa mais íntima e, entre ciumento e melancólico, medita sobre si próprio, sobre um tipo de paixão que nunca sentiu, em sua sóbria meia-idade.
John Huston, que sabia o que era adaptar uma grande obra, colocou esses sentimentos no rosto de Gabriel no momento em que vê Gretta no alto da escada. No conto de Joyce, que o escreveu aos 25 anos (maledetto!), ele primeiro se alegra com a emoção dela e só depois sente o baque. Para resolver a mudança, Huston mudou um diálogo da festa para o coche, onde o casal está sozinho. E assim deslizamos com os personagens até o monólogo final, cuja linha mais inesquecível eu traduziria assim: “Sua própria identidade estava se apagando num impalpável mundo cinza: o próprio mundo no qual um dia os mortos haviam trabalhado e vivido estava se dissolvendo e definhando.”
Foi uma noite de futebol brochante a de ontem, para os times grandes paulistas. Vi a derrota do São Paulo para o Bragantino. O elenco é bom, mas está desencaixado, com jogadores como Hernanes e Jorge Wagner rendendo bem abaixo. André Luís é um zagueiro sem categoria, Marlos e Fernandinho não cumprem as promessas de suas estreias, Dagoberto continua fazendo uns poucos bons jogos por temporada. Na transmissão inteira não se notou a falta que, na escalação inicial, fez um homem de área. Tanto é que o Bragantino ficava menos com a bola, mas chegava com perigo mais vezes.
Do Corinthians só vi os melhores lances, quer dizer, os piores. Ronaldo deu furadas e perdeu gols. Os outros jogadores de frente não apareceram. As boas oportunidades foram chutes de longe de Roberto Carlos. E o goleiro Felipe falhou mais uma vez no gol. Alguém pode dizer que São Paulo e Corinthians estão desinteressados do Paulista (embora o São Paulo já esteja virtualmente classificado, enquanto o Corinthians caiu do G4), mas os torcedores têm todo o direito de vaiar. Uma coisa é se poupar, outra é jogar mal. Que desânimo.
O que explica o futebol antiburocrático e altamente eficaz do Barcelona e do Santos? A causa é o efeito: o gol. Não é por acaso que em sua melhor temporada Messi já fez 34 gols em 38 jogos. E gols de tudo que é jeito, assim como o amor pede variadas maneiras, alternados ritmos e posições. Quando o cineasta Pier Paolo Pasolini se encantou com a seleção brasileira de 1970 e falou dos momentos em que o futebol era como a poesia, se referiu aos gols e aos dribles; jamais tratou o resultado como detalhe, o “avanço numérico” como mera preocupação de estatísticos. O que pode ser mais bonito do que um arranque com dribles que culminam com o filó estufado? O gol é a cantárida, o guaraná, a catuaba do futebol. A rede é Afrodite tentando.
Veja Messi partindo com a bola: note sua energia intensa, sua ansiedade hábil, sua obsessão esperta pelo clímax. É a comprovação de que o futebol é ao mesmo tempo individual e coletivo: Messi precisa da equipe para fazer uso de sua liberdade e talento; a equipe precisa dele para ganhar os jogos. Com apenas 1m69, compactados e apurados pela moderna fisiologia esportiva, ele une vigor e técnica como poucos. Maradona era ainda mais surpreendente, ainda mais inventivo, mas Messi tem mais velocidade e um domínio de bola igual ou até superior, por isso faz mais gols em média – e numa época em que é difícil artilheiros superarem 0,7 ao longo de muitas temporadas.
Ele usa as duas pernas para conduzir, driblar e finalizar. É capaz de se livrar de um marcador em dois palmos de grama. Chuta cada vez melhor, de perto ou de longe, com força ou sem força, e também tem feito muitos gols de cabeça. Ao contrário de outro virtuoso, Ronaldinho, não precisa receber a bola no pé e aí brilhar: sua movimentação é constante, numa excitação que não parece ter fim. É verdade que tem preferência por um movimento, o deslocamento diagonal da direita em direção à área, pelo motivo óbvio de que pode cortar os zagueiros para dentro e concluir com sua melhor perna, a esquerda. Mas ai do zagueiro que achar que pode antecipar o momento exato da ação…
O que impressiona nele, e que é algo que o incomparável Pelé também tinha, assim como Ronaldo nos bons tempos, é que a rapidez não obscurece o pensamento; ao contrário, parece estimulá-lo. Tanto é que aprendeu agora, com meros 22 anos, a decidir com grande grau de acerto o momento de tentar o enfileiramento de adversários e o momento de passar, buscar tabelas, deixar o companheiro na cara do gol ou mesmo recuar ou dar um toque de lado à espera de outra ocasião para o bote. Se for simplesmente para esbarrar a testa na bola, ele esbarrará; se tiver três zagueiros em volta, criará um caminho para sair dali. Ok, ele precisa fazer o mesmo na seleção – desde que seus companheiros o ajudem a ajudá-los – e brilhar numa Copa para ser comparado definitivamente aos nomes que citei aqui. Mas o que já faz só merece entusiasmo.
A propósito: deve haver algo no tempero que inspira tanto os homens do Barcelona. Cruyff, Maradona, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, agora Messi: todos tiveram ali temporadas encantadas e marcaram mais gols bonitos do que Tiger Woods acumulou mulheres. E ganharam taças e, mais importante, entraram na antologia dos melhores momentos do esporte. O pênalti convertido por Ibrahimovic era para ter sido mais um, pois Messi deu chapéu, cortou duas vezes o zagueiro e só não marcou porque foi derrubado.
E o que será que tem nas brisas de Santos? Os meninos da Vila, como o mais completo Messi, só pensam “naquilo”. Todos querem fazer gol, sem abrir pé da organização e da solidariedade. Neymar disse claramente que seu avanço em relação ao ano passado se explica pela busca de meter bola na meta. Há sempre o que melhorar, principalmente contra times mais consistentes ou experientes, mas a demonstração de que a criatividade recompensa não tem preço. Viva o gol, que move o sol como as estrelas.
(“Boleiros”)
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