
A morte de J.D. Salinger me fez repensar nas leituras de adolescência. De vez em quando recebo emails de leitores que querem que seus filhos sejam iniciados no mundo dos livros, me pedindo listas e propondo que os acompanhe, e sempre me lembro de uma linda crônica de Gerardo Melo Mourão sobre convite semelhante, na qual descreveu suas próprias leituras. Bem, Mourão era seminarista e com 14 anos já sabia grego e latim e já tinha lido os grandes clássicos, de Homero e Horácio a Dickens e Proust; então não espanta que não tenha aceitado a sugestão de ser uma espécie de preceptor do filho do amigo. Já cometi minhas listas, traduzi ficções como A Máquina do Tempo, de H.G. Wells, e escrevi um livro inteiro sobre o que a descoberta de autores como Machado de Assis, Edgar Allan Poe, Joseph Conrad e Kafka causou em minha vida juvenil. Mas, na verdade, tenho muitas dúvidas de que um esquema funcione.
Ler, como viver, não tem receita, e se tiver causa efeitos colaterais indesejáveis, contaminando até mesmo a liberdade e o desprendimento que deveria tonificar, como nesses “meninos da bolha” que põem o livro entre eles e a realidade. Não digo que Mourão fosse assim; mas o exagero pró-erudição pode atrapalhar e iludir. O mais difícil de explicar para quem não teve o estalo de Vieira – o clarão que parece acontecer no cérebro quando artesãos verbais abrem portas e janelas da nossa percepção, até então embotada pelos lugares-comuns moralistas e reducionistas que a educação de pais e escolas nos inculcou – é o prazer trazido por calhamaços supostamente difíceis. Para quem ama e relê sempre com afeto Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, ver alguém desistir dele não causa indignação ou desdém, mas um lamento; não é um “Que idiota” e sim um “Não sabe o que está perdendo”.
De qualquer modo, nos livros que Mourão citou estavam alguns de aventura, como se diz, que não cabem na gôndola dos “chatos”, isto é, dos clássicos que supostamente seriam obrigatórios sob pena de estupidez eterna. Ele citou Karl May e Rudyard Kipling. May, ao contrário de Dumas ou Verne, quase não é mais lido; Kipling ainda é, por seu extraordinário talento narrativo (O Livro da Selva), mas menos do que foi, e sobre ele pesa a acusação consistente de racismo colonialista. Cada geração, de fato, tem seus escritores preferidos que a posteridade deixará em segundo plano. Dizem que Victor Hugo uma vez interrompeu uma festa gritando “Eu não acredito em Deus” e um jovem autor respondeu de primeira: “Como assim, um Deus não acreditar em Deus?” Digamos que Hugo ainda tem muitos admiradores, mas já não encima nenhum altar.
Logo, se seu filho estiver lendo autores como Dan Brown, J.K. Rowling ou Stephenie Meyer, que tomaram o lugar de Paulo Coelho nos rankings, melhor assim do que só vendo TV e game. Todo mundo passa por isso, ainda que alguém possa alegar que May e Hugo dão de dez a zero neles. Lembro que líamos histórias como O Mistério do Cinco Estrelas, de Marcos Rey, best-sellers melosos como Meu Pé de Laranja Lima e, claro, pilhas e pilhas de gibis. Ao contrário do que alguns sugerem, ter lido livros de Monteiro Lobato na infância não nos fez partir em seguida para o tal cânone literário. Mas como passar desses enredos de bruxos e conspirações, que cai melhor na pré-adolescência (12, 13 anos), para leituras mais agudas, menos aguadas?
Um caminho seria começar do mesmo universo temático e estendê-lo para autores que entretêm muito sem precisar enviar “mensagens de esperança” ou apelar a “mistérios sobrenaturais”. Os contos de Poe e alguns de Machado e as frases e o Dorian Gray de Oscar Wilde são exemplos. No quesito aventura, poucos superam Conrad em livros como Juventude, Swift em Viagens de Gulliver e Defoe em Robinson Crusoe. E – como não? – há versões em prosa da Odisseia e da Ilíada de Homero que dão toda a adrenalina e mais um pouco… Já O Apanhador no Campo de Centeio, de Salinger, é neto de uma das mais poderosas narrativas já escritas, Huckleberry Finn, de Mark Twain. Não está no mesmo nível, e o melhor de Salinger são os contos; mas a revolta de Holden contra o mundo “phoney” (fajuto) dos adultos, depois da morte de seu irmão, usa os mesmos recursos, como a coloquialidade do texto e a inteligência do protagonista – inteligência quase “adulta” cujo contraste com o escapismo é o segredo do livro.
Adolescentes também podem reagir bem a relatos erótico-amorosos como O Diabo no Corpo, de Radiguet, ou, sim, Romeu e Julieta, de Shakespeare. Os ataques saturninos que são característicos da idade podem ser contemplados em O Estrangeiro, de Camus, ou A Metamorfose, de Kafka. O livro que primeiro me balançou todas as certezas não foi Quincas Borba nem Crime e Castigo, como já declarei em entrevistas, mas outro de Dostoievski, Notas do Subterrâneo (ou Memórias do Subsolo). Essa é uma dica útil: certos autores devem ser abordados antes pelos livros mais curtos; a noção de que as obras-primas devem ser longas é besteira. Sair de cara lendo Dom Quixote, Guerra e Paz, A Educação Sentimental, Ulisses e Dr. Fausto – em vez de Novelas Exemplares, A Morte de Ivan Ilich, Três Contos, Dublinenses e Morte em Veneza – nem sempre dá certo. Formas breves obviamente ajudam. Muitos devem se lembrar da coleção Para Gostar de Ler, com crônicas de Drummond, Clarice, Braga e outros, não?
Deixei para o final, até porque pretendo voltar ao assunto, algo em que venho pensando muito nos últimos tempos: por que só falamos em ficção quando se trata de querer estimular menores de idade a ler? Isso é uma baita injustiça com dois gêneros de especial apelo: a poesia e a filosofia. Não esqueço as horas que passei lendo e decorando de tanto ler (quando possível, no original) os poemas de Shakespeare, Pessoa, Drummond, Augusto dos Anjos, Baudelaire, Verlaine, Auden… Quase todos sei recitar ainda. Recentemente reencontrei na estante meu exemplar da History of Western Philosophy, de Bertrand Russell, todo sublinhado e anotado, com várias observações até hoje incrustadas em meu modo de pensar. E como descrever o que é ler o Humano, Demasiado Humano de Nietzsche pela primeira vez? Ensaístas e críticos muito inteligentes, frasistas provocadores como Bernard Shaw, Mencken, Orwell, Millôr, Paulo Francis e Edmund Wilson, também aceleraram as sinapses e, como disse A.J. Liebling sobre Mencken, aumentaram a vontade de viver. E as cartas, os diários, os livros de viagem, as memórias e biografias!
Há, enfim, um amplo repertório de aventuras, reflexões e lirismos para chacoalhar o leitor adolescente. Nem tudo é símbolo perdido.
(“Sinopse“)

In On It, do canadense Daniel McIvor, 47 anos, é uma peça sobre uma peça – sobre um dramaturgo em meio às dúvidas do trabalho –, mas a metalinguagem não é tratada de forma pós-moderna, como jogo alusivo, e sim para envolver ainda mais o público em suas questões, intelectual e emotivamente. Fernando Eiras e Emílio de Menezes atingem uma riqueza de estados de espírito que raramente se vê em palcos brasileiros, sem recorrer a passagens exageradas ou didáticas; entre tantas, não esqueço uma cena impressionante em que o primeiro faz aquele olhar parado-no-horizonte dos velhos doentes. Os recursos são poucos, mas perfeitos: as conversas travadas sem que um olhe diretamente o outro; o momento escolhido para que o dramaturgo enfim dialogue com a plateia; a ocupação do palco-dentro-do-palco. “Uma tábua e duas paixões.” A peça é um elogio e uma demonstração da energia única do ator teatral.
A plataforma do PT para Dilma Rousseff revelada hoje não surpreende, mas diverte. Prevê ampliação do Estado cada vez mais intensa, por meio do fortalecimento de empresas e bancos estatais, a começar pelo BNDES, caixa forte do desenvolvimentismo. Isso já vem acontecendo no segundo mandato de Lula, que começou a bancar Dilma já no começo de 2007. E, como se sabe, vem acontecendo à custa do salto na dívida pública, da multiplicação dos cargos de confiança e do atropelamento de instituições como TCU, MP e Ibama, esses atrasadores de obras… Mas o documento explica que a crítica ao inchaço da máquina pública é coisa dos que promoveram o “desmantelamento” do Estado. Por isso, promete a “constituição de uma burocracia de alta qualidade, selecionada e promovida por critérios meritocráticos e republicanos”. Bem, se tem algo que o governo não fez, e até o mais fanático lulista concorda, foi ocupar as estatais com critérios de mérito e de “coisa pública”; só se privilegiaram grupos de poder, como o mensalão deixou claro. O mais engraçado foi a declaração do presidente do partido, Ricardo Berzoini, de que o programa é “mais à esquerda, mas não mais esquerdista”. É com essa riqueza de conceitos que o PT ainda pensa: esquerda é mais Estado, direita é menos; aquela pensa nos pobres, esta pensa nos ricos. Como o mundo fica fácil assim, não?
O Corinthians foi sonífero e quase patético ontem. Sem titulares como Jorge Henrique, Ronaldo, Elias, Roberto Carlos e Tcheco, não tinha criatividade nem agressividade. Para ter ideia, o gol veio de um lance “proibido” pelo treinador, em que Jucilei saiu da função de primeiro volante, avançou, driblou e chutou com força, ganhando ajuda do goleiro. A Ponte reagiu pouco depois, quando Escudero cometeu mais um de seus desatinos, um pênalti claro, e logo em seguida Finazzi virou a partida. Quem jogou bola foi o São Paulo, que tem Hernanes e Jorge Wagner na transição, Marcelinho e Dagoberto abrindo espaços com habilidade e velocidade e Washington como referência, perdendo mas fazendo gols e também assistências. Corrijo: quem realmente jogou bola foi o Cruzeiro, que fez sete no Real Potosí, com um time leve e ofensivo. E o Flamengo contou de novo com Vagner Love e Adriano. A Libertadores promete.
A volta de Robinho ao Santos fez muita gente achar que essa onda de repatriamento já significa uma reação consistente do futebol brasileiro ao êxodo que o marcou dos anos 90 para cá. Mas ela mesma emite todos os sinais de alerta necessários. Pois Robinho voltou depois de ter sido a maior frustração da história recente de craques brasileiros que saíram para conquistar o mundo. Em 2004, afinal, era chamado de “Robinho Arantes do Nascimento” e, para nove entre dez comentaristas, era apenas uma questão de tempo que se tornasse o jogador número 1 do planeta. Cada vez mais irregular e marrento, ele falhou no Real Madrid e até no Manchester City. E agora voltou para jogar apenas quatro meses, garantir sua ameaçada vaga na Copa e tentar o estrelato de novo.
Seu caso não tem nada a ver com os de Ronaldo e Adriano. Ronaldo voltou para encerrar uma carreira cheia de títulos e lesões, com o desafio de jogar no centenário de um clube de massa que deseja a Libertadores acima de tudo. Adriano voltou porque entrou numa série de confusões e depressões. A cultura da mitificação brasileira, em especial a carioca, tratou logo de mascarar a situação como “nostalgia da origem”, embalando videoclipes de seus gols com a canção “Eu só quero é ser feliz/ Morar tranquilamente na favela onde eu nasci”, como se ele morasse em favela. E seu fracasso europeu pelo menos pode ser mitigado pelo fato de que na temporada 2004-05 ele chegou muito perto dos melhores do mundo, tanto na seleção como na Inter de Milão.
O que se passou com Robinho é mais parecido com o que se passou com Fred e, num campeonato ainda mais fraco, Vagner Love: nunca se tornou o principal jogador do time e, afora alguns gols e lances de efeito, aos poucos sumiu do noticiário principal. Há quem diga que não teve as devidas chances, sofrendo preconceito por seu modo de jogar; ou então que foi submetido a um fortalecimento muscular que empanou seu brilho técnico; ou que também passou por contusões. Mas é difícil dizer que Robinho aproveitou as chances que teve. “Talento não pede passagem, talento se impõe”, dizia Monteiro Lobato, e não ganhamos nada ao fornecer desculpas para seu fiasco.
Há outras questões envolvendo seu retorno, como a financeira, que não parece ser tratada como a de Ronaldo ou Roberto Carlos no Corinthians. Por que vai ganhar salário tão alto? Quem vai bancar? Como será o esquema de participação em patrocínio? Vale o custo para um clube que só tem o Paulistão a disputar no primeiro semestre? A equipe tem um elenco homogêneo ou apenas um par de novos talentos (Neymar e Ganso)? Há ainda o risco do estrelismo que parece ter afetado Petkovic no domingo. Craques são muito ciosos de seu talento e muitas vezes merecem crédito adicional mesmo que fora de forma ou mal comportados. Outra coisa é não aceitarem que estão jogando mal, acharem que não devem ser profissionais e produtivos ou desdenharem os colegas.
A manutenção de craques nos campeonatos nacionais não é fácil. Por enquanto, a maioria desses festejados retornos tem motivos circunstanciais, não estruturais. A mudança verdadeira implica pensar diferente – abandonar essa tola oposição entre ser alegre e ser eficiente, por exemplo – e a longo prazo. Dito tudo isso, confesso que estou ansioso para ver como Robinho se dará com os parceiros e assistir aos próximos clássicos do Paulista. Só um isopor não se emocionaria ao vê-lo com Pelé na Vila. E acredito que pelo menos no começo ele vai encontrar o ânimo que precisa para jogar bem. Mas paro por aqui.
Muitas pessoas vêm comentar comigo Caro Francis, o documentário de Nelson Hoineff em cartaz nos cinemas. O filme é declaradamente afetivo e nem por isso deixa de ouvir as pessoas com quem Francis brigou de modo virulento. Peca ao dar tanto espaço para as cenas de gravação, em que Francis soltava palavrões ou cantarolava; causam muitas risadas, pelo que me contam, só que também reforçam seu lado folclórico, quase anedótico. Por isso há uma diferença entre imitar Francis e ter sido influenciado por ele, ainda mal entendida 13 anos depois de sua morte: Francis era inimitável e incontornável. Converter-se em personagem foi uma maneira de sobreviver, não uma decisão sem dores, cínica; ele queria ter sido um grande ficcionista, por exemplo, e é um dever afirmar que não foi. Mas o que ele tinha a dizer está lá, e com o filme Hoineff ajuda a apresentá-lo a novas gerações.

A primeira coisa que clama atenção quando se entra na casa do escritor Edson Nery da Fonseca, em Olinda, é o cheiro de gato. São nada menos que 21 felinos, deitados no chão ou trepados em sofás, e nos raios de sol do entardecer que atravessam diagonalmente a janela vemos incontáveis pelos flutuando. “Herdei o gosto por gato da minha mãe”, conta. “Quando ela morreu, a gata dela morreu três dias depois. Isso me deixou encantado com os gatos.” Nery, como todo mundo o chama, também herdou da mãe a religiosidade. Durante as quase três horas em que falou ao Estado, ele interrompeu a entrevista apenas duas vezes. Uma foi para servir às visitas baba de moça, um doce típico de coco e ovo. A outra foi para receber a bênção do diácono, que todos os dias às 18 h vem rezar uma oração e lhe oferecer uma hóstia.
“Sou oblato beneditino”, diz com orgulho, referindo-se ao fato de pertencer à comunidade do Mosteiro de São Bento. “Tenho até a chave do claustro, mas não consegui ser monge.” Nery entoa sua prece, convicto e comovido, e afirma que foi por isso que decidiu passar os últimos anos de vida aqui, na Rua São Bento, 90, no centro antigo, a meros cem metros do mosteiro célebre por seu suntuoso altar barroco. É uma rua de casario colonial colorido e paralelepípedos, na qual caminhar é hoje para ele um ato de sacrifício. Aos 88 anos, completados em 6 de dezembro, Nery precisa recorrer a um andador de metal para locomover seu corpanzil de 1,89 m.
A altura também foi herança do lado materno: a avó, Elisa Herlich, nasceu em Newcastle. Fisicamente, Nery parece em muitos aspectos um inglês; além de alto, tem os olhos azuis e a pele rosada dos anglo-saxões. Mas, na cabeça e sobretudo no coração, é um pernambucano tradicional – tão tradicional quanto era seu melhor amigo, Gilberto Freyre (1900-87). Foi apresentando um documentário de Nelson Pereira dos Santos sobre o mestre de Apipucos que Nery passou a ser conhecido de um público mais amplo, que logo se encantou com seu charme de contador de histórias, dono de memória impecável que vai de detalhes quase frívolos a citações de toda espécie, em particular os versos.
Foi lendo versos, por sinal, que Nery encantou mais jovens na Festa Literária de Paraty (Flip) no ano passado; suas lembranças e declamações de Manuel Bandeira (1886-1968) foram o ponto alto da homenagem. “Eu tinha tudo que foi escrito por e sobre Bandeira”, diz. “Só de um outro poeta posso assegurar o mesmo: Fernando Pessoa.” (Na próxima Flip, que homenageia Freyre, Nery não acredita que poderá estar, devido a suas condições de saúde.) Sobre Bandeira, conta que as alunas gostavam tanto dele que cantavam: “Olê, Manuel Bandeira/ Olê, Manuel Bandá/ Tu me ensinas a fazer verso/ Que eu te ensino a namorar.”
Essas histórias e amizades foram narradas por ele num livro lançado no fim do ano, Vão-se os Dias e Eu Fico (Ateliê Editorial, 224 págs., R$ 39,90), título – não à toa – derivado de um poema, Le Point Mirabeau, de Apollinaire (“Les jours s’en vont, je demeure”). Nery conta sua vida mais ou menos cronologicamente, intitulando quase todos os capítulos com a locução “Por que” (“Por que não sou monge beneditino”, “Por que passei a residir em Olinda”, etc), e apenas falha em ser breve demais, sem o mesmo colorido e humor de sua conversação oral – para a qual, de resto, muitos acreditam que apenas o escritor e jornalista Otto Lara Resende (1922-92) foi páreo.
Pois nomeie um grande intelectual ou escritor brasileiro e Nery o terá conhecido: Drummond (que só teria tido a felicidade sexual fora do casamento), João Cabral, Guimarães Rosa, José Lins do Rego (com quem almoçava aos domingos), Carlos Lacerda (“Me visitou várias vezes”), Bandeira, Otto Lara… De Álvaro Lins (1912-70), o excelente crítico literário, jornalista e diplomata pernambucano, foi aluno no colégio, e a ele dedica muitas páginas do livro de memórias. “Ele era um grande professor, que inspirava os estudantes”, recorda. “Sua interpretação de Eça de Queirós me marcou para sempre.” Para o seminarista que desistiu de ser padre porque se revoltou com o autoritarismo dos professores jesuítas, a literatura se tornara devoção.
Nery cursou a Faculdade de Direito do Recife, mas não a concluiu, sob desculpa de servir ao Exército; e depois a trocou pela Biblioteconomia no Rio de Janeiro, onde se formou em 1946, período em que assinou resenhas literárias. Por estes caminhos teve contato com outro ídolo, Otto Maria Carpeaux (1900-78), crítico austríaco radicado no Brasil, que o indicou para estágio na biblioteca da FGV do Rio. No lado esquerdo da grande sala de Nery, nota-se um vazio com marcas paralelas no chão. É que ali estava até há poucos meses sua lendária biblioteca de 15 mil volumes, adquirida – para felicidade de Nery – pelo mecenas Ricardo Brennand (irmão do escultor Francisco Brennand), a qual incluía uma “freyriana” de 500 volumes.
Freyre, afinal, foi de todos eles aquele com quem Nery mais conviveu; e, afora alguns textos didáticos sobre Biblioteconomia, foi o tema da maioria dos livros – como Gilberto Freyre de A a Z (Topbooks) – escritos por Nery, que, apesar de sua paixão pela poesia e prosa, jamais fez um livro à altura de seu talento com as palavras. Uma coletânea de Freyre, por sinal, deve ser o próximo trabalho publicado de Nery: a Fundação Gilberto Freyre pretende lançar os ensaios do autor de Casa-Grande & Senzala que tratam de Joaquim Nabuco, cujo centenário de morte ocorre este ano. Nery conta que certa vez visitou o Engenho Massangana, onde Nabuco viveu até os 8 anos, a cerca de 50 km de Recife, e decidiu reler no local o famoso capítulo de Minha Formação, em que o abolicionista evoca a infância de uma suavidade perdida. “Cheguei a chorar ao reler essas páginas ali”, diz Nery.
Quanto a Freyre, Nery o chama de “um sedutor”, justamente por seu modo de lidar com as pessoas, carismático e conciliatório. “Era muito vaidoso também”, acrescenta, especulando que um dos motivos para ele ter apoiado o regime militar de 1964 era o desejo de ser governador de Pernambuco. Também confirma, na qualidade de “confidente” do sociólogo, que Freyre teve experiências amorosas com rapazes quando foi estudar na Alemanha, conforme relato a ser lançado em livro neste ano. “Ele nos seduzia tanto por suas ideias originais como por seu estilo muito pessoal”, diz Nery. “Era um cavalheiro.”
Mas nem tudo na vida de Nery foram rodas literárias. Como organizador de bibliotecas, trabalhou em diversos Estados, deu aulas na Universidade de Brasília e atuou na Fundação Joaquim Nabuco. Talvez por isso foi parar em Guiné-Bissau, em 1976, a convite da Unesco, e lá sofreu muito com o fracasso de sua missão e com a visão dos africanos subnutridos. (Em compensação, a Unesco também o mandou aos EUA, país que aprendeu a admirar exatamente pelo respeito à arte da Biblioteconomia.) No livro, Nery conta que antes, na juventude, pensou seriamente em servir ao Exército, mas igualmente não se deu bem com “os excessos da hierarquia”. Diz, por sinal, que o outro autor de quem e sobre quem leu tudo não era um poeta: T.E. Lawrence. “Sou obcecado por Lawrence da Arábia. Mas não sei bem o porquê.” Não é difícil desconfiar.
O livro revela ainda a inclinação sexual de Nery, mantida sempre em recato. Num dos capítulos, “Por que nunca me casei”, ele relembra seus amores homossexuais, as rejeições que fez mulheres sofrerem e as rejeições que sofreu de homens mais novos. Em seguida, na série de “Evocações”, começa por sua mãe, Maria Luísa, e faz a reafirmação de sua fé católica – a qual diz que Álvaro Lins perdeu porque “sua formação religiosa não teve profundidade”. Aqui, entre gatos e memórias, entre doces e livros (estava lendo e aprovando a biografia de Clarice Lispector por Benjamin Moser), à mercê de sua “propensão à melancolia”, já livre de desejos aventureiros, ele parece viver quase como monge. Mas os monges não viveram tanto.
Sem Ronaldo e Diego Souza, o clássico Corinthians x Palmeiras não teve grande nível técnico, mas foi muito interessante. O Corinthians marcou com 6 minutos, num gol que teve mérito de Tcheco, que achou Jorge Henrique às costas de Edinho, e três minutos depois Roberto Carlos cometeu uma daquelas suas lambanças, ao dar rasante nas pernas do adversário e ser expulso. Dali em diante o Corinthians recuou e o Palmeiras fez pressão, naturalmente, mas a falta de experiência e pontaria – mais até que as belas defesas de reflexo de Felipe – não conseguiram nem arrancar um empate. O alviverde precisa de contratações, mas Muricy continua querendo que o time seja o São Paulo, isto é, que jogue à força de chuveirinhos e chutes distantes, sem tabelas nem profundidade. Para o alvinegro, a vitória foi daquelas que formam grupo, pois mostrou comprometimento geral; Danilo, Tcheco e sobretudo Jorge Henrique ajudaram e bem na marcação, Elias recusou sair e correu mais que nunca, Alessandro e a zaga fizeram valer seu entrosamento. Ainda precisa de um reserva para Ronaldo, mas o elenco é consistente e Mano Menezes um bom técnico. Nem só de estrelas vive o céu.
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