Acabo de saber da morte de José Mindlin e senti muito. Escrevi um breve perfil dele há dois anos: era um homem amabilíssimo e a doação de sua extraordinária biblioteca para a USP foi um gesto raro neste país de pseudomecenas, de ricos arrogantes que dominam nossa cultura. R.I.P.

Baptistão
É uma tremenda ironia que Brasília chegue aos 50 anos sob risco de intervenção federal. A corrupção é tanta que o governador, o vice e o interino (até quinta, quando escrevo) não têm a menor condição de seguir no poder. As acusações são graves, calcadas em provas contundentes, e a permanência deles no cargo poderia obstruir o trabalho de investigação. Felizmente alguns membros da Justiça não concordam com a tese da maioria dos nossos políticos de que denúncias veiculadas na imprensa são insuficientes para afastar os denunciados de suas funções. A prisão do governador Arruda, porque continuou a praticar os atos ilegais mesmo depois de sua revelação, e a possível intervenção do STJ, que terá de convocar eleições indiretas (por que não diretas? “Recall” neles!), são boas notícias e tomara se confirmem. Se corrupção tem em todo lugar, tamanha impunidade não existe em países sérios. E é isso que muitos brasileiros querem – que o Brasil seja mais sério.
***
O DEM, ex-PFL, partido do falecido Antonio Carlos Magalhães – aquele mesmo que, entre outras confusões, esteve envolvido no esquecido e impune episódio da violação do painel de votação do Senado –, vai de mal a pior. PSDB e PT justificam suas alianças com partidos como PFL e PMDB pela tal governabilidade, já que sem elas não conseguiriam aprovar seus projetos mais progressistas. Pergunta: que projetos progressistas? Estabilidade monetária e assistência social são importantes, mas progresso é muito mais que isso; implica, antes de mais nada, romper com essa velha cultura oligárquica, que carrega um quindim numa mão e um açoite na outra, que adora exaltar a alegria do brasileiro enquanto transforma seus impostos em pó. A administração do prefeito de São Paulo, Kassab, mais um com suspeitas contas de campanha, é exemplo. Cobra multas e taxas cada vez maiores, muito acima da inflação, e o dinheiro não volta em ruas seguras, escolas boas e infraestrutura eficiente.
***
Não há virtualmente nenhum político brasileiro que possa sustentar um lema como “menos impostos e mais educação” ou “menos impunidade e mais liberdade” de tal modo que nos convença de que realmente vá avançar nisso. O Estado brasileiro é um Leviatã, um monstro centralizador e voraz, que não quer ser questionado em hipótese nenhuma. E esse é o fermento básico da corrupção, como atestam as diversas denúncias recentes. Vide o caso de José Dirceu, que como Arruda perdeu poder por causa de um esquema que alimentava parlamentares em troca de licitações, com panetones recheados de propinas. O ex-comissário-mor do PT confessa ter trabalhado para a empresa de Nelson dos Santos, a qual vale R$ 1 e teve acesso a um contrato de R$ 270 milhões para bombar a Telebrás com as fibras da Eletronet. Mas diz que foi apenas uma consultoria política, como se ele tivesse algum conselho bom para dar a um empreiteiro falido. Será que ele também fez consultoria para Fidel Castro ganhar um dinheiro do BNDES – ou seja, do contribuinte brasileiro – para investir no porto cubano?
***
Na entrevista a este jornal, na sexta retrasada, o presidente Lula exerceu mais uma vez seu talento de Zelig e deitou um discurso moderado sobre o papel do Estado, que seria indutor e não executor, sobre não voltar em 2014, etc. Mas defendeu criação de mais estatais, confirmou que não compreende a liberdade de expressão ao defender seu aliado José Sarney e, mais uma vez, se recusou a dizer quem supostamente o traiu no episódio do mensalão. Prometeu ainda que vai “investigar” o caso depois de deixar o cargo. Para meu espanto (uso a expressão como retórica, sei muito bem o país onde estou), não ouvi ninguém reclamar: como assim, investigar depois? Não está entre suas obrigações presidenciais a de zelar por transparência e probidade? Reclamar da corrupção seria udenismo, coisa de pequeno-burguês. Mas toda vez que vejo um político defendendo uma estatal vejo dinheiro público indo para festas particulares e reformas democráticas para o lixo de Brasília.
(“Sinopse“)
Vi o DVD de Gustavo Dudamel, o jovem maestro venezuelano, debutando na Filarmônica de Los Angeles. Algumas críticas começam a aparecer para, saudavelmente, cortar o oba-oba, como a do excelente Alex Ross, da New Yorker, que viu em sua interpretação da primeira de Mahler muita influência de Karajan, ou seja, romanticamente datada, com muitos exageros de expressão. Mas ele tem vigor raro nos maestros de hoje e sua interpretação da peça inédita de John Adams, City Noir, foi muito boa, captando as pausas e sombras desse que é o maior compositor americano.
Dando largada às comemorações dos 200 anos de Chopin, também vale muito a pena comprar Horowitz – The Legendary Concert, que o pianista fez em Berlim em 1986, tocando uma polonaise e duas mazurcas – além de Scarlatti, Schumann, Liszt, Rachmaninoff e Scriabin. Ou então opte por (ou acrescente) Horowitz Plays Chopin, também da Sony, em que faz a segunda sonata e quatro polonaises. O piano tem uma dívida enorme com Chopin – em breve sai o novo de Nelson Freire dedicado a ele – e a MPB também, de Tom Jobim a Roberto Carlos.
E recomendo com atraso o CD Brillante, que já é o mais vendido em música erudita no Brasil desde o final do ano. Outro de nossos maiores músicos, Antonio Meneses, em companhia de Rosana Lanzelotte e Alberto Kanji, toca três peças para violoncelo do século 18 (Boccherini, Bréval e Graziani) e uma obra linda de Haydn originalmente escrita para cello e viola.

Escute aqui o comentário sobre coleção de clássicos que se inicia com Crime e Castigo, de Dostoievski.

Veja aqui um simpático vídeo sobre Mario de Andrade, do qual participo. O tema é o seguinte poema:
QUANDO EU MORRER
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.
Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.
No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.
Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.
O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade…
Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade…
As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

Inicio amanhã um curso sobre a adaptação de clássicos da literatura para o cinema: Hamlet, Madame Bovary, Vidas Secas (ainda sem DVD no Brasil, por incrível que pareça) e O Leopardo. Informações aqui.
P.S. 26/2 – Acabo de saber que o curso foi adiado para sexta que vem, 5/3.
Muitas vezes os jogadores em campo estão mais conscientes do que nós, torcedores e comentaristas ansiosos para que o time da casa pressione e resolva logo a partida. Ontem o Corinthians tomou um gol do Racing no primeiro minuto, numa dessas casualidades do futebol, e obviamente o grau de tensão aumentou ainda mais. O empate veio, num brilhante passe de Tcheco para Elias, mas havia o compromisso de vencer. Mano Menezes pôs Souza e poucos entenderam, mas ele queria ter alguém alto e forte para dividir com Ronaldo a preocupação dos zagueiros e tabelar com ele, o que Defederico não estava conseguindo fazer. (Isso põe uma questão para o técnico: quando Danilo voltar, quem jogará ao lado de Ronaldo? Talvez Jorge Henrique, que ontem ficou muito recuado, seja a melhor opção.) Num ritmo contínuo mas não acelerado, tocando bola diante de um adversário retranqueiro e catimbeiro (tanto que terminou tendo um expulso), o time passou a alternar jogadas pelos lados, usando Alessandro e Roberto Carlos, com tabelas pelo meio, com Ronaldo – flagrado orientando Souza no início do segundo tempo – fora da área para fazer o pivô. Justamente quando esta opção era criticada, foi por meio dela que o gol da vitória saiu, de novo com Elias, o nome do jogo. Ronaldo, que sentiu falta de ritmo mas participou dos dois gols, começou então um show particular, como num lance em que deu duas “canetas” seguidas e foi derrubado ao driblar o terceiro uruguaio. Apesar de momentos de nervosismo, acho que na média a equipe mostrou controle, experiência, a frieza que nem sempre os observadores têm.
Flamengo venceu por 2 a 0, em dois belos lances de Leonardo Moura (e Vagner Love ainda perdeu um pênalti), e o Cruzeiro fez quatro gols, dois do gladiador Kleber. Por ora, a impressão é mesmo a de que essa será uma Libertadores com brasileiros em destaque.
Por mais que disfarce, o Corinthians começa hoje a enfrentar um desafio que envolve muita pressão real e simbólica. Disfarçar faz parte do jogo: diretores, técnicos e jogadores declaram que o título da Libertadores “não é uma obsessão” justamente para que a obsessão não pese tanto. O caso é que o maior clube da maior cidade brasileira faz cem anos e não tem um título desse porte. Sei que muitos torcedores levam a sério o torneio mundial de 2000, mas não é a mesma coisa que chegar lá depois de conquistar um troféu continental a duras penas e catimbas.
O clube está ciente disso, tanto é que tratou de investir alto para montar a equipe. A história já começou com a vinda de Ronaldo no final de 2008, quando o Corinthians superou o trauma da Série B e em 2009 ganhou o Paulista e principalmente a Copa do Brasil, que já lhe garantiu o lugar na Libertadores – e ainda permitiu que vendesse jogadores como André Santos, Douglas e Christian, comprometendo o desempenho no Brasileirão. Agora tentou suprir essas faltas com Roberto Carlos, Danilo, Tcheco, Iarley e Ralf. Se não quisesse muito a Libertadores, não teria ido atrás dessa experiência.
Mas como chega ao primeiro jogo, contra o Racing do Uruguai, hoje no Pacaembu? Há certa dose de desconfiança na torcida. O time que se imagina titular ainda não jogou junto. Ronaldo deve estar sem ritmo, depois de mais uma lesão, ainda que ritmo e entrosamento não costumem ser um problema muito grande para ele fazer diferença. Faltam substitutos para ele, embora Souza tenha marcado dois gols há alguns dias. E há um número acima do desejável de jogadores que ainda não estão jogando o que sabem.
Edu não parece mais ser o volante clássico, com marcação limpa e bom apoio, de chute eficiente, que foi no passado. Iarley é conhecido por apenas alguns momentos especiais em que foi decisivo, mas na maior parte do tempo em campo é “muita energia e pouca luz”. Tcheco melhorou em relação às primeiras partidas, mas não há como negar que é lento, sem o mesmo “timing” para o passe que Douglas tinha, a não ser em bola parada. Danilo trabalha bem em seu setor, mas teve lesão e ainda não mostrou se continua o mesmo. Marcelo Mattos e Morais também não deram muita segurança e não existe reserva para a lateral esquerda. Falta, em suma, homogeneidade ao elenco.
Mesmo assim, é obviamente um time forte. Apenas Adriano pode se comparar com Ronaldo em termos de artilharia, mas não na técnica e na percepção dos momentos certos para desequilibrar. Roberto Carlos sobe menos que antes e seus chutes têm sido menos certeiros, mas é sem dúvida um jogador forte, hábil e vivido. Alessandro e Elias são maquininhas, Ralf parece ser um primeiro volante combativo e a zaga Chicão & William se complementa, um melhor nos pés e o outro no jogo aéreo. Jorge Henrique tem sido o mais regular do time, ajudando na marcação, armação e finalização; erra pouco e faz lances de muita categoria. Danilo pela esquerda e Tcheco pela direita garantem boa qualidade média nos passes, lançamentos e cobranças de bola parada.
Outros auspícios são a falta de grandes concorrentes argentinos e o fato de que os outros quatro brasileiros também têm problemas – ou semelhantes (Flamengo e Internacional não têm muitos reservas à altura) ou distintos (São Paulo e Cruzeiro não têm craques como Ronaldo e Adriano). Mas que o clube não se iluda com o “bando de loucos” que tanto o apoia, mas que também tem surtos de revolta como aquele contra o time de Tevez, Nilmar e companhia na Libertadores de 2005. Equilibrar vontade vencedora e controle emocional será a chave. O torneio não tem um segredo, a não ser esse que é o mais antigo do futebol.
Vim a Campo Grande a trabalho e, como em quase todas as capitais, me surpreendi com o tamanho da cidade mais de 20 anos depois que a visitei numa viagem pelo Pantanal. Há muito mais prédios e avenidas, os habitantes dizem que as favelas foram todas deslocadas para conjuntos habitacionais, dois shoppings surgiram e a loja das Casas Bahia na Barão do Rio Branco é imensa, na toada do crescimento da classe C desde o Plano Real. Mas há pouco o que visitar, fora algumas casas de artesanato e acervo indígena, e apesar dos 800 mil habitantes a sensação é a de estarmos numa cidade média do interior de São Paulo. Como Cuiabá, aqui ainda é um ponto de passagem para os turistas que vão pescar e passear por estas águas lindas. Por sinal, como em Cuiabá, fomos comer um rodízio na Casa do Peixe, de propriedade de uma família das muitas que compõem a colônia japonesa local; filés de pintado e pacu caíram muito bem. Os jornais tratam de assuntos como os conflitos entre fazendeiros e índios (o presidente Lula estaria mandando comprar terras para aumentar as reservas), a epidemia de dengue (anúncios na TV ensinam a não armazenar água descoberta e também a lavar as mãos) e, claro, futebol. Ao contrário do que ocorre na maior parte do Brasil, aqui se torce pelos clubes paulistas e não cariocas. Deve ser porque a cidade é relativamente nova, já que a primeira casa de alvenaria, a Morada dos Baís (Bernardo Baís era um mercador italiano que veio para estes cafundós no final do século 19), é de 1915. O Brasil, como se sabe, é um país novo conduzido com mentalidade velha.
2012
2011
2010
2009
2008
2007
2006