(Escute aqui o comentário na rádio Eldorado)
O título não atrai muito, História do Brasil com Empreendedores, mas o novo livro de Jorge Caldeira (editora Mameluco) volta a um tema da maior importância e o aprofunda: como o Brasil antes da vinda de dom João em 1808 já era uma economia maior que a da matriz? Isso não bate com a velha tese da economia colonial como um sistema baseado principalmente no latifúndio exportador escravista. Contrariando o marxista Caio Prado Jr., em cuja obra mostra irônicas semelhanças com o conservador Oliveira Vianna (em conceitos como “ideias fora do lugar”), Caldeira mostra o contingente de empreendedores que davam início ao mercado interno, homens livres que não tinham escravos em sua grande maioria (e mesmo o tráfico negreiro era dominado por brasileiros).
O biógrafo do Barão de Mauá aponta corretamente para o campo de pesquisas e debates ainda mal explorado: o atraso brasileiro no século 19. Enquanto os outros países aboliram a escravidão e aderiram à industrialização, gerando uma classe média crescente, o Brasil hesitou demais, sob a oligarquia monarquista. Com parcas universidades, ferrovias e bancos, e sem ouvir apelos de homens como Euclides da Cunha e Joaquim Nabuco – de quem comemoramos o centenário de morte – sobre a necessidade de multiplicar a posse de terras, perdeu o trem do capitalismo, o qual só começaria a acelerar no século 20. As distorções, sofremos na pele até hoje.
Quando a desgraça é tanta, é comum buscar explicações sobrenaturais, divinas ou diabólicas, e ontem houve quem falasse em “maldição” sobre o Haiti. Num momento em que o país, cuja história é tão marcada por banhos de sangue e descalabros políticos, parecia começar a retomar algo parecido com uma normalidade institucional, a caminho de eleições, com apoio da missão de paz da ONU comandada pelo Brasil, vem esse terremoto e devasta cidades e milhares de vidas. Os trabalhos de reconstrução, pelo que se vê nas fotos, serão enormes, e é preciso pensar em ir além do ciclo de solidariedade que se instala nessas ocasiões – ações humanitárias que chegam de todas as partes em caráter de urgência – e evitar que os avanços recentes caiam também por terra.
Para os brasileiros, o luto é maior porque entre os mortos estava Zilda Arns, médica que ajudou a consolidar o Terceiro Setor, indo além de noções como caridade ou paternalismo, agindo na solução duradoura dos problemas de mortalidade infantil e saúde em geral, com independência política e inovações como o soro caseiro. Que ela, com esse conjunto de qualidades, seja um símbolo para o próprio Haiti – para que de novo recomece a remover os escombros de seu destino geográfico e histórico.
O repatriamento continua em alta. Como os destaques de 2009 foram Ronaldo, Petkovic e Adriano, além de bons momentos de Fred, neste ano parece que muitos clubes brasileiros decidiram buscar veteranos no exterior. O futebol local, assim, parece cada vez mais dividido entre eles e os jovens recém-saídos das bases; na faixa intermediária, de 21 a 29 anos, encontramos apenas os que não deram certo no exterior ou tiveram algum problema na carreira, como o próprio Adriano, ou escolheram destinos inexpressivos no futebol e expressivos na conta, como Valdívia e Douglas, ora sondados para retornar. E o caminho mais rápido é bater na porta do clube onde já se foi ídolo. Giovanni, por exemplo, está de volta ao Santos, embora haja dúvidas de que sua técnica ainda possa compensar a falta de mobilidade e poder decisivo que o marcou nos últimos anos.
O Corinthians não foi atrás de antigos ídolos, afora Edu no ano passado, mas investiu alto em jogadores com experiência em Libertadores. Repatriou Roberto Carlos, que já não corre todo o lado do campo, mas tem, como Ronaldo, um currículo de títulos e prêmios na Europa que merece muito mais respeito. O clube também repatriou outro ídolo de clube adversário, Danilo, depois de vencer disputa financeira com o São Paulo, e espera que ele jogue o que jogava antes de ir para o Japão. Trouxe ainda Tcheco, que já trabalhou com Mano Menezes no Grêmio, e Iarley, que participou de cinco Libertadores. Desse modo, com exceção da lateral direita e da zaga, tem dois bons jogadores para cada posição. Há comentaristas que já têm certeza de que não vai dar certo, mas o clube e o treinador fizeram o que tinham a fazer. Agora é calibrar a competição interna para que jogadores como Jorge Henrique, Defederico e até Dentinho cresçam com ela em vez de se sentirem desprestigiados.
Os outros times brasileiros na Libertadores – São Paulo (que contratou, por exemplo, o jovem Fernandinho e o rodado Marcelinho, outro repatriado e ex-ídolo), Internacional, Cruzeiro e Flamengo (que conseguiu manter Adriano e ainda pensa em Vagner Love, o repatriado do Palmeiras) – não investiram tanto, mas isso não significa que não tenham chances equivalentes, até porque o Corinthians pode sofrer com desentrosamento. Seja como for, o torneio promete, ou melhor, o ano promete, com a Copa do Mundo. A corrida para entrar na convocação final de Dunga começa agora, e isso fará Adriano, Ronaldo, Fred e muitos outros, como Ronaldinho Gaúcho (jogando bem de novo, no Milan, depois de três anos de brilho empanado), darem o melhor no primeiro semestre. Um reserva talentoso e um título prestigioso animam mais que muitas torcidas.
OUT OF AFRICA
A Copa Africana de Nações, em Angola, começou com a tragédia de um atentado contra seleção de Togo. Jogadores de outros times, como Drogba, da Costa do Marfim (que a imprensa brasileira trata como grande obstáculo para o Brasil na primeira fase, mas apenas empatou com Burkina Faso), teriam sido ameaçados. Fazer ilações a partir disso, condenando a ideia de realizar uma Copa do Mundo no continente africano, não ajuda em nada; apenas demonstra a ignorância sobre ele. Há um deserto da Namíbia e muitas diferenças entre um país e outro. Toda precaução de segurança já era necessária antes mesmo do ocorrido e, assim como Munique em 1972, o evento já ficou marcado por esse fato não esportivo. Mas não chutemos para fora o bom senso. Evitemos repetir o festival de estereótipos e hipocrisias que vimos na cobertura da Olimpíada de Pequim.
(“Boleiros”)
Em Paraty, onde passei o réveillon, choveu nos dois primeiros dias, uma chuva bonita e aromática para quem está na Mata Atlântica, mas trágica para quem construiu em encostas sem licença ambiental ou para cidades que não cuidam de bocas de lobo e da permeabilidade do solo. Nos outros cinco dias pegamos sol quase constante, sem chuva, e sair de barco pela Costa Verde é comprovar o que Rubem Braga escreveu sobre a “intimidade entre serra e mar” que em regiões como o Saco do Mamanguá – ao sul da baía de Paraty – produz belas perspectivas, molduras de colinas para o mar, a mata e suas cores.
No Lago Azul, apesar do nome, a água esmeralda convida ao mergulho entre peixes e anêmonas (desta vez não vimos golfinhos nem tartarugas), e o olhar se detém nas cascatas de árvores e nos paredões de pedras, onde avistamos saguis, calangos e capivaras.

Comemos muito bem em endereços como a ilha do Catimbau e na cidade. A 10 km de Paraty a caminho de Cunha, perto de uma cachoeira de pedra que funciona como tobogã, descobrimos o Villa Verde, um restaurante no meio da mata com uma jardinagem que pedia para ser fotografada.




Flores de dois metros de altura, avencas, bromélias, orquídeas, riachos, patas-de-elefante, bananeiras, palmiteiros, helicônias – nâo à toa Burle Marx e Tom Jobim eram apaixonados pela Mata Atlântica, que hoje se diz reduzida a 7%. Há medições que falam em 16%, mas isso não autoriza nem um metro a mais de ocupação desordenada e destrutiva.

As cartas escritas por Van Gogh (1853-1890) já foram editadas muitas vezes e em diversas formas, mas nenhuma como Vincent Van Gogh – The Letters em caixa de seis volumes pela editora Thames & Hudson. O subtítulo explica o porquê: The complete illustrated and annotated edition. Além de completa, ilustrada e anotada, a edição é belíssima: todos os volumes são grandes, em capa dura, e a caixa em que são embutidos é também firme e ilustrada. Com preço mínimo de US$ 480 (cerca de R$ 840, sem frete) para importar nas livrarias virtuais, faz um presente de fim de ano único, como uma jóia de palavras e cores. Para quem não pode ou não quer gastar tanto, criou-se um site: www.vangoghletters.org.
O pintor holandês deixou mais de 800 cartas escritas ao longo da vida, além de 80 outras que recebeu de parentes e amigos. Os estudiosos Leo Jansen, Hans Luijten e Nienke Bakker se debruçaram sobre elas durante 15 anos para produzir o recém-lançado compêndio. Como se sabe, essas cartas formam um dos maiores testemunhos de criação artística da história, porque esse é o assunto central de Van Gogh, além de questões financeiras e práticas. Principalmente para o irmão Theo, ele explica detalhadamente o que está pesquisando e produzindo, envia esboços nos quais assinala a cor que usará em cada área das figuras, comenta outros grandes artistas – como Rembrand e Millet, em destaque, e também as estampas japonesas (“ukiyo-e”) – e faz referências culturais, sobretudo literárias, de Homero a Zola, passando por Balzac, o qual mal termina de ler já começa a reler.
Embora sejam tão conhecidas, reler as cartas sempre tem a utilidade de lembrar alguns fatos que destoam de certas imagens convencionadas a seu respeito. Van Gogh não era um artista “maldito” ou “intuitivo”, mas extremamente lúcido e disciplinado, concentrado em sua busca de uma arte completa, que conteria – e contém – a profundidade dramática de um Rembrandt com as luzes solares de um Millet, numa composição que renova a relação entre figura e fundo como no “ukiyo-e”. Quando vemos uma tela de Van Gogh, os traços febris, as cores vivas, as pinceladas breves e a oleosidade espessa dão a sensação de algo feito num surto de inspiração, mas na realidade há um plano e um processo extremamente elaborados, conscientes.
Reler as cartas numa edição tão visual e minuciosa, em que cada informação ou alusão é explicitada (se ele conta que está pintando um quadro, vemos esse quadro ao lado; se remete a alguma obra de outro artista, idem), acentua algumas observações. Primeiro, a tolice que é dizer que Van Gogh não era grande desenhista. Só o diz quem supõe um ideal renascentista de desenho, em que o traço busca a mímese exata daquilo que retrata, e ignora que a Van Gogh não interessava isso, mas uma síntese objetiva do que lhe interessava numa paisagem ou pessoa; seu desenho é tão bom que já sugere o que o pincel fará, como a direção de seus gestos e os pontos de sombra ou densidade. Segundo, tanto na cópia de telas alheias que visita em museus ou vê em livros como na forma metódica com que deseja se corresponder com outros artistas, há em Van Gogh o zelo de quem queria ser reconhecido em larga escala.
Mesmo que tenha escrito esses textos sem pensar em publicação e posteridade, Van Gogh lhes deu um raro caráter reflexivo e confessional ao mesmo tempo. Em Arles, nas cartas de 1888-89 reunidas no volume 4 (o volume 6 é todo dedicado ao aparato editorial: contexto histórico, mapas, índices), ele escreve passagens como: “Quando vim para cá esperava que fosse possível criar amantes da arte – até agora não fiz nem um centímetro de progresso no coração das pessoas. (…) Mas até agora a solidão não me incomodou muito; encontrei um pôr-do-sol mais forte e seu efeito na natureza mais interessante.” Esse contemporâneo de Rimbaud que não o conheceu nem o leu, mas com quem tem datas e questões tão próximas (nasceram e morreram jovens quase nos mesmos anos; fugiram de suas origens, mas nunca perderam contato com elas por cartas; combateram os sentidos regrados ou embotados da arte convencional, etc.), também precisou enfrentar a solidão para chegar aos corações “ad aeternum”.
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