ir para o conteúdo
 • 

Daniel Piza

O maior dos escândalos brasileiros é o menos comentado: os resultados da educação. Na semana passada o Ipea divulgou que apenas metade dos brasileiros de 15 a 17 anos está cursando ou concluiu o ensino médio. Temos, portanto, 5 milhões de jovens que estão muito atrasados ou então abandonaram a escola. E o que eles fazem? Muitos trabalham, mas com baixa probabilidade de chegar a empregos melhores, de subir na vida. Outros vão parar no crime. E muitas engravidam precocemente, uma das tendências sociais mais fortes do Brasil contemporâneo. Essa geração pode ou está prestes a votar, mas mal consegue entender conceitos mais abstratos e se expressar coerentemente e mal tem o direito de sonhar em ir além do que os pais foram em bem-estar e felicidade. Outra notícia calamitosa da educação brasileira, nos últimos dias, diz que quase metade dos professores da rede paulista não passou nas provas, ou seja, não tem domínio sobre o conteúdo que deveria transmitir aos alunos. O brasileiro médio, enfim, fez pouca escola e fez uma escola ruim.

Se você acha que isso tem pouco a ver com a economia, afinal estaríamos crescendo a quase 5% ao ano, está enganado. O PIB não é tudo. Gerar empregos é fundamental, e algumas medidas ajudaram a aumentar um pouco a formalidade (empregos de carteira assinada); mas é preciso gerar mais empregos qualificados, que formem cidadãos mais críticos e criativos, com mais perspectivas de melhora, e que sejam capazes de competir com os estrangeiros, de oferecer vantagens relativas. E isso não tem acontecido no ritmo necessário. Há uma relação direta entre a baixa qualificação e o fato de que o Brasil ainda vive de exportações baseadas em commodities, com participação cada vez menor dos bens industriais e dos produtos com densidade tecnológica. Alguém pode objetar que a soja e a carne que vendemos são frutos de ganhos de produtividade obtidos pelo conhecimento divulgado por instituições como a Embrapa. Bem, a afirmação seria apenas mais uma demonstração de como é importante ter a informação e o método. No semiárido, na serra gaúcha ou no cerrado central, vi numerosos exemplos disso, da diferença que fez a educação de muitos jovens em escolas técnicas e faculdades de agronomia.

Essa educação rarefeita, que mesmo nas exceções tende a padecer do esquema “decoreba” (em que datas, nomes e fórmulas são memorizadas mecanicamente, com escassa relação com a observação da vida real), cria outros problemas que me parecem subestimados. Um deles é a custosa demora em explorar nichos que até seriam de bom potencial, como a chamada “indústria criativa” (que envolve mídia, turismo, informática e outros serviços que em países como a Alemanha já pesam mais no PIB do que a indústria automobilística) e diversos campos científicos novos, como a nanotecnologia. Como a cultura brasileira é conservadora, supõe-se sempre que o progresso é inercial; se estamos melhores em anos recentes, estaremos melhores nos próximos também… Mas a história, essa dama ardilosa, não anda em linha reta. De repente um setor que parecia menor do mundo produtivo se torna um divisor, e quem não fez esforço consciente em aderir a ele tomará um susto do futuro. Já imaginou se tivéssemos continuado com a reserva de mercado da informática que PMDB, PT e os militares defendiam nos anos 80? A revolução digital teria passado ao largo, ou ainda estaríamos usando computador TK 3000.

Por falar em cultura, são valores propagados pela nossa vida cultural – em produtos menos sofisticados ou mais, de telenovelas a ensaios acadêmicos, e no cotidiano das conversas entre pais e filhos, professores e alunos, chefes e subordinados – que atrapalham a percepção desses problemas. Informação e método não fazem apenas o trabalhador ser mais produtivo; fazem o indivíduo enfrentar a existência com mais ética, menos desperdício e mais espírito coletivo. E, no entanto, o que temos? Temos cronistas que morrem de medo do progresso e chegam a dizer que “não nascemos” para coisas como ciência e tecnologia. “Nosso negócio” é jogar futebol moleque, cantar canções para as morenas, fazer festa… Os mesmos que se dizem nacionalistas são os que desdenham bolsões de excelência como Embrapa, Embraer, Projeto Genoma, etc. E são os mesmos que nas aulas diziam para o professor “não levar tão a sério”, forçando a inclinação para o comodismo e a palpitagem, para a discussão de vaidades e futilidades em vez de ideias. Para essa gente, ler é chato, matemática é chato, arte é feita apenas de espontaneidade. E esperto é quem sonega, quem se dá bem sem precisar gastar os olhos em cima dos livros.

Os alunos estão desistindo, os professores também começaram a desistir, mas o Brasil está quase lá… Automaticamente aprovado a cada ciclo.

(“Sinopse“)

comentários (31) | comente

30.janeiro.2010 08:04:26

Amor por conforto

Mais uma vez há boa distância entre o que lemos ou ouvimos a respeito de um filme e o que ele de fato é. Sobre Amor Sem Escalas, do mesmo diretor do badalado Juno, Jaison Reitman, li que seria sutil, crítico e sei lá mais o quê. Trata-se de um filme competente, conduzido em bom ritmo, com boa atuação de George Clooney, que não precisa fazer caretas para mostrar as dúvidas debaixo de sua aparente serenidade. Só isso. Como tantos outros filmes que vemos, americanos ou não, o que ele quer mesmo é confortar as pessoas, manter a fábrica de “esperanças” em funcionamento contínuo, e não cutucar seus defeitos e ilusões.

Por alguns momentos achei que o enredo poderia ganhar uma força nova. Clooney, afinal, faz um sujeito que não tem chão, não tem casa, não é casado – e parece plenamente seguro dessa opção, a tal ponto que o noivo de sua irmã diz invejá-lo por ser mais livre e feliz. Mas ele logo encontra alguém que seria seu espelho, “mas com uma vagina”; e ele cai no mais antigo conto de fadas da humanidade, aquele da alma gêmea, da metade da laranja, etc. Essa ingenuidade insuspeitada fica evidente a seguir, e seu discurso ao final é de falso triunfo; ou seja, ser solteiro não era uma opção tranquila, apenas algum trauma do passado. E aí todo mundo vai para casa confiante em que é melhor estar mal acompanhado do que só.

comentários (25) | comente

29.janeiro.2010 15:05:56

Livro da semana

Escute comentário sobre a biografia de Chagall.

comentários (7) | comente

Ronaldinho Gaúcho quer voltar aos bons tempos, Luís Fabiano é goleador, Adriano e Ronaldo ainda sonham com o protagonismo da amarelinha… mas o diapasão da seleção neste ano muito provavelmente será dado por Kaká. Nascido em 22 de abril de 1982, ele estará na Copa da África do Sul com 28 anos, idade considerada o apogeu por fisiologistas. Já participou de duas Copas e foi o melhor jogador do mundo em 2007, depois de atuação determinante na Liga dos Campeões, com dez gols – três deles contra o Manchester de Cristiano Ronaldo, com quem atualmente divide o palco no Real Madrid. Em sua carreira, sempre se destacou: no São Paulo, apesar de vaias tolas da torcida, já mostrava sua capacidade de combinar qualidade técnica e presença física; no Milan, foi príncipe.

Ou seja: Ricardo Izecson dos Santos Leite chegará à Copa como um atleta maduro e vitorioso e, depois dos desentendimentos com Dunga, como a peça principal do Brasil, na tática e no moral.

É verdade que não está em seus melhores dias. Nos dois últimos anos teve lesões e perdeu espaço para Cristiano Ronaldo e Messi, que o superam na média de gols (ambos oscilam em torno de 0,5 por partida; Kaká, 0,35) e na habilidade – no dom de resolver situações em pequenos espaços, conduzindo a bola muito próxima ao pé e aplicando dribles inesperados. Kaká se distingue mais por seus arranques de largas passadas, cabeça erguida, porte ereto em seu 1m86. Mas sabe driblar, principalmente dando um corte ou um leve “tapinha” lateral, e chutar em seguida com força e precisão e com as duas pernas; seu sonho sempre foi unir a técnica sul-americana e a disposição europeia. Mais completo que brilhante, é um jogador que, apesar de precisar de excelente forma física para render o melhor, não costuma se esconder nas grandes ocasiões.

Os rivais não são tão eficientes como ele nos grandes espaços e nem tão bem acompanhados em suas equipes. Para o jogo de Kaká é fundamental um centroavante, uma referência na área, e ele tem feito boa parceria com Luís Fabiano, embora precise recobrar o prazer de fazer gols como em sua melhor fase. Além disso, vem superando os problemas e tem tudo para crescer de produção no Real Madrid até o mês da Copa. Se ele for bem, o Brasil vai também.

(Caderno especial ‘Copa 2010′)

comentários (20) | comente

28.janeiro.2010 17:54:03

Uma lágrima para J.D. Salinger

Uma lágrima para J.D. Salinger, um tremendo escritor, morto aos 91 anos. A fama alcançada com O Apanhador no Campo de Centeio o afugentou, por motivos que talvez nunca saibamos com certeza; talvez ele tenha rejeitado ser tratado como um defensor da adolescência contra o “mundo dos adultos”. Mas qual o problema de não ter escrito muito mais? Sua obra, pequena como é, tem uma prateleira especial no século 20, como a de Rimbaud no século 19. Suas Nove Histórias são formidáveis na fusão de ironia e lirismo, com uma espécie de realismo sugestivo que só ele e poucos mais – como John Cheever, mas mais amargo – sabiam fazer. Lê-lo é vê-lo.

comentários (17) | comente

28.janeiro.2010 07:51:56

Destaques entre bocejos

Vi o jogo do Palmeiras ontem, contra o Monte Azul, lutando contra os bocejos. Pierre e Cleiton Xavier deram a estrutura do time, muito desfalcado (inclusive de Marcos e Diego Souza), e Muricy aproveitou para observar novatos como o lateral Gabriel Silva e o meia-atacante Joãozinho, que ao menos parecem saber lidar com a bola, e promover a estreia de Edinho, que ainda está fora de forma. O time precisa de contratações, em especial de um atacante para disputar com Robert, sem muita qualidade técnica. Vi também os lances do Corinthians, com alguns bons passes do estreante Danilo e o destaque de Ronaldo, que mais uma vez ensinou aos outros como não ficar impedido e como não se afobar diante do goleiro. Infelizmente, sentiu a lesão da coxa e não deve jogar contra o Palmeiras no domingo; se os desfalques alviverdes continuarem, o clássico perde muito. Mas quem jogou bola ontem foi o Santos, que passeou contra o Barueri, no ritmo da leveza de sua molecada. O melhor foi Neymar, menos egoísta e marcando um gol de classe depois de corte afiado no zagueiro. Também me diverti com o gol de Vagner Love pelo Flamengo, culminando tabela com Adriano desde o meio campo, como se estivessem jogando uma pelada de final de tarde. Aos poucos os times grandes vão se acertando e os craques se candidatando.

comentários (12) | comente

27.janeiro.2010 09:07:56

Corrida para a Copa

Faltam cerca de quatro anos e quatro meses para a Copa do Mundo no Brasil. Alguém já viu alguma coisa ser feita ou iniciada, com uma ou outra exceção? Nos estádios a que vou ou vejo pela TV, tudo continua igual: os assentos são desconfortáveis e não há respeito à numeração; a visibilidade e a segurança são insuficientes; a organização das bilheterias não existe; os gramados são altos e irregulares, mesmo em obras recentes como o Engenhão; os acessos, principalmente por transporte público, tratam os torcedores como quadrúpedes; faltam lanchonetes, lojas, estacionamentos. Aqui e ali houve melhora, mas estamos bem abaixo do padrão necessário para uma Copa.

E a Copa não deveria servir apenas para pegar o dinheiro da Fifa e dos patrocínios e reformar os estádios: assim como a Olimpíada, deveria ser um excelente pretexto para dar um salto na infraestrutura de vários sistemas, como o viário, o aeroviário e o turístico. Fala-se muito, por sinal, que se a África do Sul está conseguindo, aparentemente, organizar uma Copa, não há motivo para o Brasil não conseguir. Embora a frase tenha lá seu teor de preconceito, é correta em termos práticos: não é por ser economia “emergente” que não se pode fazer um belo evento. Mas a África do Sul tem vantagens comparativas como a rede hoteleira. Na mais importante cidade turística do Brasil, o Rio de Janeiro, a carência de vagas é evidente há anos. E a culpa de tudo isso é dos tribunais de contas e dos relatórios ambientais?

A Copa também deveria motivar uma verdadeira estruturação do futebol brasileiro. Sim, o repatriamento atual de bons jogadores pode dar a impressão de que nossos clubes estão ficando mais sólidos e o negócio mais rentável a longo prazo. Nos últimos dias, a propósito, soubemos dos retornos de Alex Silva e Cléber Santana, ambos para o São Paulo, e muito se tem falado sobre a volta de Robinho ao Santos, que acaba de reincorporar Giovanni. Com isso, boa parte da seleção brasileira da Copa de 2006 estará em atuação no Brasil: Roberto Carlos, Ronaldo, Adriano, Robinho, Fred… Mais ainda, depois do tricampeonato do São Paulo na fórmula dos pontos corridos os outros clubes começaram a ver a importância de centros modernos de treinamento, relações de marketing com o torcedor, salários em dia para os jogadores, etc. Só que as mudanças ainda são incipientes e quase sempre inconsistentes.

A maioria dos clubes tem dívidas que só conseguem rolar porque contam com a benevolência do poder público e não são transparentes em sua contabilidade; a Timemania, como previsto, foi um fracasso rotundo. Cartolas oligárquicos, que se acham maiores que a instituição, seguem dando o tom. E, como dito no primeiro parágrafo, o público ainda não tem ciência do que é entrar num estádio moderno e confiável. No Brasil, como se sabe, em todos os campos, um pouco de melhora já é visto como um “estamos quase lá”. Os craques que voltaram, porém, foram os que tiveram problemas ou estão em fim de carreira. Eles estão de olho na Copa, mas na próxima, não na de 2014.

Quanto a esta, responda rápido: você quer que os jogos ocorram sem maiores problemas (colapsos de serviço ou escândalos de violência) ou prefere que ela se reverta em benefícios diversos para o Brasil? Do jeito como as coisas já estão, só restará a primeira alternativa – justamente a preferida dos corruptos e oportunistas. Por que será, não?

(“Boleiros”)

comentários (18) | comente

26.janeiro.2010 16:53:48

O caos segundo William Kennedy

“Os escritores brasileiros não sabem bater escanteio”, teria dito um que sabia, Nelson Rodrigues. O que o dramaturgo e cronista de futebol quis dizer é que uma literatura precisa de autores que saibam desempenhar as funções práticas, que saibam dar continuidade aos lances narrativos, em vez de apenas empilhar confissões ou fantasias. William Kennedy, com os livros dessa que ficou conhecida como “a série Albany”, é tão eficiente no escanteio quanto um Zico. Põe a bola onde quer, na cabeça do leitor, com o gol à frente.

Talvez por causa da adaptação feita por Hector Babenco em seu período hollywoodiano, com Jack Nicholson, Ironweed se tornou o livro mais conhecido de Kennedy, especialmente no Brasil. Mas este O Grande Jogo de Billy Phelan – que compõe com Legs e Ironweed uma trilogia que se passa em sua cidade natal, Albany, capital do estado de Nova York – é considerado o melhor romance do escritor americano nascido em 1928, roteirista de filmes como Cotton Club, de Francis Ford Coppola.

Publicado em 1978, o livro flui como um jogo tenso, num encadeamento vigoroso de cenas, sem tempos mortos nem firulas. Billy é um jogador, viciado em pôquer, boliche, turfe e tudo que envolva sorte e emoção forte, e atravessa os anos da Depressão americana com uma mistura de energia e resignação, entre vitórias e derrotas, como se quisesse um resgate da criança em si e ao mesmo tempo não visse salvação. Cenas de violência se sucedem, nunca como apelo superficial, mas para se opor aos que querem, como na gravura de Maxfield Parrish, “impingir a idéia de que a vida era organizada”.

Já a abertura, com a sequência do boliche, é um retrato do caos. Billy Phelan, como o “motorcycle boy” de Coppola, poderia ser tudo, mas não quer ser nada. Kennedy, ex-jornalista esportivo, conseguiu ser o que quis. Escreve como digno herdeiro de grandes nomes como Ernest Hemingway e Dashiel Hammett. Tudo é direto, seco, construído com descrições breves e ótimo ouvido para diálogos. O leitor segue Billy Phelan como ao craque em ação.

(Texto de quarta capa para “O Grande Jogo de Billy Phelan”, editora Cosac Naify)

comentários (9) | comente

26.janeiro.2010 09:38:59

Um brinde e uma lágrima

Cem anos de Django Reinhardt:

comentários (8) | comente

São Paulo faz aniversário com as ruas tomadas por rios. O prefeito Gilberto Kassab, naufragando nas pesquisas, vem a público e diz que a causa dos alagamentos “não foi só o excesso de chuva, mas também o crescimento desordenado da cidade e a impermeabilização excessiva”. Um avanço, sim, afinal não faz muito tempo que ele botou toda a culpa no clima… Mas não é curioso como ele fala do crescimento desordenado e impermeável como se não tivesse nada a ver com a administração municipal? Como se ele e José Serra não tivessem sido eleitos para melhorar a infra-estrutura, ampliar a área verde e conter a especulação imobiliária? Se meu bairro piora a cada dia – há literalmente assaltos diários na avenida Angélica, e no fim de ano tentaram invadir meu apartamento –, devo culpar o crescimento também?

comentários (33) | comente

Arquivo

Tags

Blogs do Estadão