Feliz 2011 para todos! Este blog volta a ser atualizado diariamente a partir de 17/1.
Uma das coisas curiosas nesses oito anos de governo Lula foi a ginástica verbal que aqueles que se dizem “de esquerda”, que durante duas décadas sonharam com a chegada da classe operária ao Planalto, fazem para justificar os elogios a um tipo de gestão que tanto condenavam. Lula manteve o modelo econômico do antecessor, que antes classificava erroneamente de “neoliberal”, em todos os aspectos: meta de inflação, câmbio livre, reservas financeiras, estímulos ao consumo, juros relativos entre os maiores do mundo, busca de graus melhores nas agências de risco; nenhuma privatização cancelada ou sequer investigada, e até alguns bancos estatais vendidos. Estatizações? Poucas. Reforma agrária? Longe disso. Protecionismo maior? Não, mesmo com aumento do déficit externo. Transferência de renda? Os ricos nunca estiveram tão ricos.
Ao contrário: o governo Lula aprimorou esse modelo, levando as reservas ao exagero de US$ 300 bilhões, investindo dinheiro do BNDES em grandes empresas ou setores que geram emprego, saldando dívidas com o FMI, etc. Também aprimorou o aspecto social desse modelo, não só com verbas assistenciais (que representam pouco no orçamento anual, R$ 12 bilhões, e muito no retorno simbólico), mas sobretudo com a ampliação do crédito (a política mais determinante de seus mandatos, mais que o Bolsa Família), sem perder controle da dívida interna. A pergunta que ninguém se faz: será que as alternativas a Lula nas duas eleições, Serra e Alckmin, teriam tido o mesmo sucesso econômico e social? Considerando os bons ventos para o mundo emergente, é possível que sim. Mas não sei se teriam tido a mesma percepção para bolsas e créditos – e tenho certeza de que saberiam bem menos capitalizá-la politicamente.
Outra curiosidade dos anos Lula foi o tipo de crítica pessoal, raivosa e iludida que ele gerou em pessoas que, supostamente, eram favoráveis a essa política econômica, de agradar ao mercado e ampliar a classe média. Se eram favoráveis, por que não souberam reconhecer seu efeito eleitoral? O duplo mandato de Lula, que também era contra a reeleição no século passado, não teve um único traço de socialismo ou estatismo. Não teve nem mesmo de social-democracia, pois esta pressupõe o acesso universal e gratuito a educação e saúde. Suspeito que a gestão tucana de Lula inflou o preconceito dos que antes bajulavam tanto o governo FHC porque, afinal, o “guia” petista os deixou sem nenhuma bandeira própria. E a única saída que viram foi assumir sua retórica “de direita”, com laivos religiosos e tudo, que os deixou cegos para a esperteza política de Lula, como a de recusar um terceiro mandato.
Lula não governou nem à esquerda nem à direita, muito pelo contrário… e com isso confundiu tanto seus áulicos quanto seus críticos. O PIB foi o que menos cresceu em média entre os emergentes (4%), mas cresceu mais que no período anterior (2,5%) – por isso ele não parou de comparar o tempo todo – e saiu da crise de 2009 com um índice acima de 7% em 2010. O desemprego medido pelo IBGE, ainda que reste tanta informalidade e a renda tenha apenas recuperado níveis de 15 anos atrás, termina abaixo de 6%, o que é quase pleno emprego. Os numerosos escândalos de corrupção, por mais que ele tenha construído sua carreira com o mesmo discurso udenista (“São 300 picaretas com anel de doutor”) que hoje seus defensores acusam na oposição, foram rechaçados maquiavelicamente, pois o povo passou a dizer que, se são mesmo todos iguais, é melhor continuar com um igual que está dando certo.
E ainda querem entender o porquê dos 83% de popularidade? Não vejo fenômeno mais fácil de interpretar. O despreparo e a demagogia de Lula, que em alguns momentos ultrapassaram o vergonhoso, não impediram que a sensação de bem-estar aumentasse como aumentou. O que sempre disseram de um eventual governo Lula? Que reverteria todos os avanços, que faria do Brasil uma Venezuela, que expulsaria empresários e causaria guerra civil… Como nada disso aconteceu, tudo que houve de positivo reverteu para ele; o que houve de negativo foi parar na conta de todos (“O país tem a classe política que merece”). Por mais que as eleições em todos os níveis tenham mostrado que a popularidade do presidente não significa uma aceitação de tudo que fez, é preciso ser muito ingênuo ou orgulhoso para achar que o povo ia dissociar a melhora de sua vida e a responsabilidade do presidente nela.
Isso tudo, no entanto, não significa que seu governo tenha sido tão bom quanto as pesquisas dizem. Sempre estive entre os 15% e 30% que o consideraram “regular”, nota 6, ao longo dos oito anos. Por quê? Eis o ponto: se Lula fez bem em dar continuidade a muitas conquistas do governo anterior (que sofreu para obtê-las por causa de uma oposição que o sucessor jamais experimentou), também cometeu muitos erros semelhantes, em especial o velho vício nacional de achar que centro é comodismo, que conciliação é conchavo, que exigente é chato. Nenhuma reforma importante foi feita, nenhuma transformação séria. O mecanismo pelo qual o poder é exercido segue sendo o mesmo arranjo de oligarquias, que concede um lento avanço do perfil social em troca do uso desregrado do dinheiro público. A carga tributária continuou subindo no mesmo ritmo, em direção aos padrões escandinavos, sem a respectiva devolução de benefícios coletivos. Metade da população não tem acesso a esgoto!
Analise friamente, aliás, cada um dos ministérios, ou melhor, os mais relevantes (já que Dilma Rousseff teve de lotear nada menos que 37 ministros pela Esplanada). Na educação, houve aumento quase inercial da abrangência; no caso das universidades, o ProUni ajudou, embora nada mais seja que dar dinheiro do contribuinte para um grupo crescente de empresas particulares; mas a qualidade não deu nem parte do salto que deveria e poderia dar, como fizeram os sul-coreanos. Na saúde, a situação da rede pública é vexaminosa, seguida de perto nas mesmas pesquisas pela questão da segurança. A Justiça continua a ser lenta e antidemocrática; quem tem pistolão e dá carteirada sempre se safa, nem que seja com prisão domiciliar. Mesmo na economia, os impostos e as importações asfixiam a produção nacional; e, ainda que o consumo esteja tão aquecido, o custo das mercadorias – do livro ao iPad, do feijão ao carro – é dos mais altos do mundo. Há pouca inovação, enquanto os chineses arrebatam todos os prêmios, da matemática à música, e fazem vales do silício.
O governo Lula foi pródigo em bravatas de cunho populista, em bazófias da ignorância, em tentativas de intervencionismo estatal e afrontas à liberdade de expressão, em casos de corrupção que em países desenvolvidos jamais seriam tolerados (imagine o de Erenice Guerra na Inglaterra ou no Japão), em momentos tristemente folclóricos (de “Dá dois paus pra eu” a “Sai daí, Zé”, das violações de sigilo de caseiro e colega aos abraços em ditadores no Irã e em Cuba), em péssimo gerenciamento de sistemas como o aeroviário e o portuário. Também foi esperto ao embarcar com vigor na onda dos emergentes, vendendo commodities e atraindo investimentos, e a induzir o mercado interno, ainda que apenas pela via do consumo e dos gastos; e conseguiu resultados de que até Lula duvidava, provando que o capitalismo é o sistema que melhor combate a pobreza. Dizer que o saldo é bom é supor que uma coisa não poderia vir sem a outra. Espero que o governo Dilma ao menos respeite mais a coisa pública.
(“Sinopse”)
Posso distinguir três fases na minha relação com o mar. A primeira, claro, é a infantil, ou infanto-juvenil, quando íamos muito às praias em férias e feriados. Minha avó tinha apartamento em Santos, bem em frente ao aquário, e meu pai em sucessivas temporadas alugou casas em lugares como Guarujá e Caraguatatuba, que eram então bem mais tranquilas e baratas. Fazíamos campeonato de jacaré e, mais tarde, surf, construíamos castelos com pingos de areia, dávamos caratês nas ondas, usávamos no nariz e ombros aquele creme branco que então se fazia de protetor solar. Mas o mar era até então apenas ondas que quebravam na praia, bonitas.
Foi na juventude, sem os pais, que meus amigos e eu começamos a frequentar as praias de que mais gosto até hoje no litoral paulista, no trecho que vai de Juqueí a Maresias, onde meu irmão tem casa atualmente. Nos divertimos muito na Barra do Sahy e no Camburi, nos anos de faculdade, e vivi alguns romances praianos memoráveis. Não esqueço também uma vez em que estávamos em Ilhabela e tomamos um veleiro para dar a volta até a linda e desabitada praia de Caravelas. Quando ancoramos, subimos ao topo do mastro, apoiando um pé na frente do outro, e de lá, no momento em que o balanço do mar o levava para o lado para o qual estávamos virados, saltamos para a água, cerca de 15 metros abaixo.
A melhor parte sempre foi sair de barco e dar esses mergulhos; não sou dos que gostam de ficar ao sol como lagartos vermelhos. Gosto de praia principalmente no final da tarde, para ver e ouvir o mar, meditar sobre a vida, cantarolar “O pescador tem dois amor/ Um bem da terra, um bem do mar”, do grande Dorival Caymmi, e comer casquinha de siri. Gosto de olhar a beleza das praias a partir do mar, e meus olhos já viram lindos encontros de água, areia e mata em Cuba, na Côte d’Azur, no Nordeste. O céu noturno da Praia do Espelho, ao sul de Trancoso, é tão límpido e próximo que dá a sensação de que podemos esticar o braço e colher uma estrela.
A outra fase é a literária ou cultural, por meio de grandes narrativas e obras de arte. Quando li os livros de Herman Melville (Moby Dick), Daniel Defoe (Robinson Crusoe), Jonathan Swift (Viagens de Gulliver), Edgar Allan Poe (Relato de Arthur Gordon Pym) e Joseph Conrad (Lorde Jim), entre outros, viajei por mares imaginados com um prazer incontrolável. Mais tarde até traduzi um livro de Melville, Benito Cereno, e sempre estranhei como é raro esse tipo de relato no Brasil, com seus milhares de quilômetros de costa; a exceção é Jorge Amado, principalmente A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água, e mesmo assim uma exceção parcial.
Como tantos adolescentes, sonhei ser oceanógrafo e me deixei fascinar pela figura de Jacques Cousteau, que tinha um programa de TV na época e de quem montei, fascículo a fascículo, comprado a duras penas com minha mesada, a enciclopédia O Mundo Submarino. E as pinturas? Dos tumultuosos céus de Turner até as ternas marinhas de Pancetti, elas também enriqueceram meu espírito. O mar sempre foi um símbolo do ir embora, do “sentir o vento do mundo na cara”, do romper com a rotina tediosa. Passar pelo meio das geleiras da Antártica ou parar na mesma praia em que Darwin parou na Terra do Fogo, ou avistar a Cidade do Cabo a partir da Ilha de Robben, onde Mandela ficou preso, ou pensar nos descobridores portugueses sentado sobre a rosa dos ventos ao lado da Torre de Belém, em Lisboa – tudo só serviu para reiterar essa sensação, que um dia traduzi num aforismo: “Há em mim um mar que murmura”.
Mas aqui já me refiro a viagens da terceira fase, que começou graças ao meu melhor amigo, o Cacaio, que há oito anos me levou para passear no barco de seu pai, saindo de uma das marinas de Paraty. Paraty sempre esteve em minha vida, por seu charme colonial, e eu já tinha feito passeios de barco por ali, por meio dos hotéis. Mas outra sensação é ser livre para escolher rota e ritmo de um dia de navegação pela Costa Verde, que mereceu texto tão bonito de Rubem Braga sobre sua “intimidade entre serra e mar”. Singrar naquela região, fazer mergulho livre nas águas esmeraldas do Mamanguá, contemplar os paredões de samambaias e bromélias que a Mata Atlântica parece oferecer ao mar, almoçar na ilha do Catimbau, contornar ilhas e baías em ótima companhia – o que pode ser melhor? Nesses momentos, o menino, o leitor e o adulto são um só, e feliz.
(Fonte)
O ano de 2010 deveria servir para pensar no estado atual do futebol brasileiro, nas lições que deveriam ter sido aprendidas e não foram, apesar de claríssimas. Muita gente está preocupada se os estádios para a Copa de 2014 estarão prontos, mas isso é o que menos preocupa, afinal a Fifa não vai deixar passar esse fiasco; o que preocupa é a série de outras melhoras que mal foram iniciadas, como em aeroportos, metrôs e segurança, e a qualidade do futebol brasileiro que será apresentado nesses estádios. E esta falta de qualidade tem a ver com o primarismo do debate. Num ano em que o melhor do Brasileirão foi um argentino, o Brasil perdeu feio na Copa e não há nenhum jogador brasileiro entre os dez melhores do mundo, há algo de podre no “país do futebol”. Não adianta disfarçar.
Comecei a escrever sistematicamente sobre futebol em 1997 porque indignado com a maledicência e a incapacidade de admiração em torno de uma geração de craques que me enchia de esperanças. O que a crônica esportiva tinha a dizer sobre esses talentos em ascensão? Que eram produtos do marketing globalizado, milionários sem identidade nacional, sujeitos “europeizados” fora da tradição. Que jogavam um futebol de força, “objetivo demais” (segundo Armando Nogueira), sem a ginga tropical, etc. Sim, acredite: tudo isso foi dito e redito sobre a geração que seria vice em 1998 e campeã em 2002, que tinha jogadores da sofisticação de Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Roberto Carlos, Cafu e Marcos. Hoje, claro, é como se ninguém tivesse feito tais afirmações.
Pois essa geração não só arrebatou uma enormidade de prêmios individuais e títulos coletivos, mas também deixou um vazio difícil de preencher. Ainda que um jogador como Robinho tenha sido exaltado como sucessor de Pelé (e jamais ficou na lista dos melhores do mundo) e Kaká tenha ganhado o prêmio em 2007 por seus gols pelo Milan na Copa dos Campeões (no auge de suas condições físicas), não houve substituição à altura. Robinho é ótimo driblador, mas chuta fraco e é disperso; Kaká tem arranque forte, com passadas largas, mas é limitado nos espaços curtos. Com Dunga no comando da seleção em 2010, pregando um futebol “de pegada” e ignorando jovens como Ganso, a dupla não vingaria mesmo.
Entressafras são naturais. Mas ficar numa discussão descabida sobre o que seria a tal essência do futebol brasileiro só piora tudo. Temos de um lado um grupo que acha que o futebol hoje exige muita velocidade e vigor e, portanto, que se deve jogar ao estilo dos clubes ingleses ou italianos, com a planilha na mão. Do outro, um grupo que diz que fazer gol é um detalhe, um “mero avanço numérico” (na expressão de José Miguel Wisnik), e que o jogador brasileiro faz a diferença quando quer. É a velha briga entre estatísticos e esteticistas. Mas a verdadeira escola brasileira, a linhagem de seus maiores jogadores e times, não é a que opõe tática e técnica, drible e deslocamento, inteligência e habilidade. O craque é quem pensa rápido, é quem usa a surpresa para superar um adversário. Pelé, repito, era objetivo e criativo, mestre e inventor, atleta e artista – e por isso sempre será a maior referência, exceto em nossas escolinhas de futebol.
Os oito campeonatos por pontos corridos, fórmula ainda rejeitada pelos românticos, ironicamente confirmaram essa história, apesar do nível técnico sofrível. Os clubes que investiram em grandes elencos e nomes (Alex, Robinho, Tevez, Hernanes, Adriano, Conca) tiveram o título como retorno. Na Copa de 2010, vimos finalmente uma nova seleção como campeã, a Espanha, comandada por Xavi e Iniesta, e o Brasil de Felipe Melo desclassificado de forma melancólica. Outros baixinhos dominam a lista dos melhores do mundo, como Messi e Sneijder. Os talentos, enfim, devem ser induzidos a produzir resultado, e não castrados ou então exaltados por efeitos. Se pararem de estragar os potenciais craques com esses tipos de elogio e crítica, aí sim teremos alguma chance.
(“Boleiros”)
Na música também revivemos os clássicos. Falou-se muito dos 200 anos de Chopin, de quem Nelson Freire lançou CD dos Noturnos, e de Schumann, gravado com bastante pedal por Evgeni Kissin. O DVD da estreia do maestro venezuelano, Gustavo Dudamel – que vem ao Brasil em 2011 –, à frente da Filarmônica de Los Angeles, recebeu merecida atenção. Antonio Meneses, grande violoncelista, nos deu dois CDs, Brillante e Haydn, e virou tema de ótimo livro de João Luiz Sampaio. Mas no jazz temos tido compositores jovens que já são mestres, como Brad Mehldau (Highway Rider) e Jason Moran (Ten), e mestres em grande forma, como Keith Jarrett, que fez o belo Jasmine com o baixista Charlie Haden. O mesmo vale para os CDs de dois grandes melodistas da MPB, Francis Hime (O Tempo das Palavras) e Edu Lobo (Tantas Marés).
O CD do ano no gênero mais pop foi, sem dúvida, Scratch my Back, de Peter Gabriel. Pop? O que é bacana no CD é o tratamento harmônico de canções de David Bowie, Paul Simon e Arcade Fire, de um bom gosto e inteligência raros. Pop mesmo é The Fame Monster, de Lady Gaga, que chama mais atenção pela personalidade do que pela música, mas que sabe fazer um hit, na linha “Madonna escrachada para a era do YouTube”. Depois escutar Stacey Kent, Patty Ascher e Tereza Salgueiro, com suas vozes suaves e sábias, é o contraponto ideal.
POR QUE NÃO ME UFANO
Num ano com tantos livros de arte bons, as exposições que vi não chegaram a ser marcantes. Vi belas gravuras de Goeldi, Segall e Iberê na fundação que leva este nome em Porto Alegre, gostei de Andy Warhol na Pinacoteca, etc. Nada muito revelador. Já a 29ª Bienal de São Paulo foi amplamente falada na imprensa, depois do fiasco da anterior, mas a qualidade e a visitação (500 mil pessoas, das quais 300 mil em visitas escolares) deixaram a desejar. Muito melhor que os urubus de Nuno Ramos ou outras obras que foram aparecer até em cenário de novela, foram as pinturas de Rodrigo Andrade, que felizmente tinham remota relação com o tema da mostra, sobre arte e política.
Também fui muito pouco ao teatro, mas pelo menos vi In On It, do canadense Daniel McIvor, com Fernando Eiras e Emílio de Menezes, que tinha uma intensidade e um cuidado raríssimos nos palcos nacionais. E Barbara Paz provou de novo a atriz que é em Hell, um texto limitado de Lolita Pille. Na dança, vi algumas coisas que não merecem registro, mas a São Paulo Companhia de Dança continua sem decepcionar. Além de Balanchine e Kylián, meus dois coreógrafos favoritos, encenou o lendário Prelúdio à Tarde de Um Fauno, de Debussy e Mallarmé, na coreografia que Marie Chouinard fez a partir das fotos de Nijinski em 1912. Quase cem anos depois, e ainda parece tão novo. Mas não resta dúvida de que São Paulo e o Brasil precisam de melhores exposições, peças e balés.
Estava com a sensação de que o ano cinematográfico não tinha sido grande coisa também, mas olhando a listagem do que vi e gostei me dei conta de que ao menos há algum vigor, alguma ambição estética. O filme vencedor do Oscar, Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow, tem grandes cenas e não cai no esquema “herói americano salva a pátria na batalha final”. Invictus, de Clint Eastwood, sem estar entre seus melhores filmes, conta bem uma grande história real. A Fita Branca, apesar dos exageros enigmáticos de Michael Haneke, tem muita força. O argentino O Segredo dos seus Olhos, de Juan José Campanella, é um filme completo, com um roteiro que segue firme até o final e algumas cenas antológicas, como a do estádio.
Depois dessa leva, vieram ainda Alice, de Tim Burton, abaixo das altas expectativas, mesmo assim criativo e com a percepção de que Lewis Carroll tirava sarro da carolice inglesa; A Ilha do Medo, de Martin Scorsese, mais complexo que o semelhante O Escritor Fantasma, de Roman Polansky; e A Origem, de Christopher Nolan, que tem formidáveis achados visuais e depois se rende ao filme de ação linear. Agora no final, vimos A Rede Social, de David Fincher, com sua vingança dos nerds, e Tetro, de Coppola, com alguns momentos dignos de sua grande fase. No Brasil, não teve para ninguém: Tropa de Elite 2, de José Padilha, não é só o filme mais visto da história (ainda que a bilheteria de Dona Flor tenha sido num país com metade da população atual), mas o melhor do ano, por não apenas subscrever as opiniões do Capitão Nascimento. Dos documentários, Uma Noite em 67, de Ricardo Calil e Renato Terra, foi de longe o mais bem feito e de tema mais acessível.
Crianças e jovens também tiveram oferta satisfatória com Como Treinar seu Dragão, o novo episódio de Harry Potter e outros mais.
ZAPPING
Já na TV é difícil lembrar tempos tão bons. Sim, as novelas pioraram; Passione poderia ter sido boa, com seus personagens anômicos e patológicos, mas errou feio – além do sotaque italiano e do merchandising descarado – quando fez Clara (Mariana Ximenes) virar boazinha durante várias semanas, até precisar recuar, e ao adoçar tudo (a tara de Gerson não era chocante, a ninfomaníaca Stella abandonou os garotões, etc). Mas as séries e os documentários nas TVs por assinatura são de alto gabarito. Vida, da Discovery com a BBC, marcou época com suas imagens de fauna. O Império do Contrabando, com produção de Martin Scorsese e atuação impressionante de Steve Buscemi, parece um romance, com personagens que se entrelaçam e se transformam. Na TV aberta brasileira, As Cariocas, de Daniel Filho, e Afinal, O Que Querem as Mulheres?, de Luiz Fernando Carvalho, se salvaram. E a tão esperada caixa de DVDs de Grande Sertão: Veredas deu saudades das longas e caprichadas adaptações literárias.
Mais uma vez os livros de ensaio, crítica e história dominam a lista dos melhores do ano, mostrando que os romances andam fracos e a poesia continua marginal. Outra tendência que se confirma é a das reedições, tanto de ficção como de não-ficção, e é um tal de ler nos poucos suplementos literários restantes uma enormidade de matérias sobre clássicos e efemérides. Talvez eu não devesse me queixar, pois há muito tempo leio menos romances do que outros gêneros e estou sempre a criticar a carência de grandes livros do passado nas prateleiras brasileiras. Mas sinto muita falta de ler ficção atual realmente boa, ainda mais num ano em que Ian McEwan (Solar) e outros admirados não satisfazem; e fico pensando o que seria de nós sem o indefectível Philip Roth, que em Nêmesis fez outra narrativa tão curta quanto brilhante. Não à toa só se badala tanto o chileno Roberto Bolaño, morto há dez anos, cujo romance 2666 atravessei com alguma dificuldade, pelas muitas passagens banais.
No Brasil, afora uns imitadores de Bukowski e alguns bons contistas, ano que não tem Milton Hatoum, Chico Buarque e Bernardo Carvalho repercute pouco. Pelo menos em poesia tivemos Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar, 80 anos, além das obras completas de Manoel de Barros, 93 anos. De resto, vivemos de livros de história, como o de Jorge Caldeira, História do Brasil com Empreendedores, muito menos chato do que sugere o título, e de alguns estudos sobre Machado de Assis, como O Altar & o Trono, de Ivan Teixeira, e Machado e Rosa – Leituras Críticas, bem menos abrangente do que sugere o título. E vivemos de reedições dos livros de Lima Barreto, Joaquim Nabuco e de A Barca de Gleyre, de Monteiro Lobato, que atraiu bem menos atenção do que a polêmica sobre a censura aos termos em que se referia à tia Nastácia. De estrangeiros, discutimos Os Embaixadores, de Henry James, e muita gente descobriu só agora os contos de John Cheever e Rodolfo Walsh.
O que me divertiu mesmo em 2010 foram os livros de e sobre arte. Duas edições são de uma beleza tamanha, em todos os sentidos, que não consigo parar de abri-las periodicamente: a caixa em seis volumes com todas as cartas ilustradas de Van Gogh e o mega-álbum Caravaggio – The Complete Works, duas demonstrações de que os livros em papel têm delícias visuais e táteis que nenhum iPad pode ter. Estudos clássicos como Arte como Experiência, de John Dewey, O Outono da Idade Média, de Johan Huizinga (não só sobre arte, mas também literatura), e A Arte Moderna na Europa, de Giulio Carlo Argan, foram enfim traduzidos, assim como O Pintor da Vida Moderna, de Charles Baudelaire, e as resenhas do mesmo Baudelaire e de John Ruskin em Paisagem Moderna. E o livro de memórias do grande arquiteto Tadao Ando não teve o destaque que merecia, num ano curiosamente carente de boas biografias.
Na fronteira cada vez mais explorada da arte com a ciência, aprendi com The Vision Revolution, de Mark Changizi, sobre as particularidades dos olhos humanos; Adam’s Tongue, de Derek Bickerton, e On the Origin of Stories, de Brian Boyd, sobre a importância fisiológica da gramática e da narrativa; Why We Cooperate, de Michael Tomasello, que mostra que a natureza humana não é só agressão ou erotismo; e Pegando Fogo, de Richard Wrangham, sobre como “cozinhar nos tornou humanos”. E por que não acrescentar aqui o início das obras completas de Freud traduzidas por Paulo César de Souza? Um contemporâneo e conterrâneo de Freud, o jornalista (sim, jornalista “full time”) e pensador Karl Kraus, também passou a ser devidamente publicado, com seus Aforismos, num país onde não há antologias decentes dos melhores aforistas. É isso aí: poucas e boas reedições, releituras e, para quebrar a modorra, ensaios científicos. Mas é melhor viver disso do que de falsas novidades e velhas picaretagens.
(“Sinopse”)
Brasília completou 50 anos e continua a dividir opiniões. Os críticos dizem que os problemas no planejamento da cidade se fizeram claros ao longo deste meio século, pois sua periferia mal urbanizada e as cidades-satélite aumentaram em ritmo acelerado, e com isso se criou uma ilha de altos funcionários públicos cercada de pobreza por todos os lados; o embrulho político dos últimos governos do Distrito Federal também seria uma prova de seu isolamento contraventor. Os defensores alegam que o Brasil cada vez mais se interioriza, ocupando o cerrado de forma produtiva, como Juscelino Kubitschek imaginava, e que a capital se tornou um símbolo da arquitetura modernista, da cultura do século 20 e, ainda, do desenvolvimento brasileiro, a caminho de ser a quinta economia do mundo.
O livro O Concurso de Brasília: Sete Projetos para uma Capital, de Milton Braga (Cosac Naify), pode dar mais alguns argumentos para os defensores. É um trabalho precioso porque, depois de muita pesquisa, resgata os outros projetos que disputaram contra o de Lúcio Costa, em 1957. Foram 32 concorrentes, dos quais sete foram à final. Entre os finalistas estavam nomes famosos como Rino Levi e Vilanova Artigas. O projeto de Levi, em parceria com Roberto Cerqueira César, Luiz Roberto de Carvalho Franco e Paulo Fragoso, sugeria uma cidade de arranha-céus, de 80 a 100 andares. O de Artigas, com Carlos Cascaldi, Mário Wagner Cunha e Paulo de Camargo e Almeida, seguia o modelo Bauhaus de casas para operários. Olhando os croquis, ficamos felizes que não tenham sido escolhidos.
O mais parecido com o de Lúcio Costa era o de Henrique Mindlin e Giancarlo Palanti, com uma planta em eixos cruzados, e o mais interessante é o segundo colocado, de Boruch Milmann, João Henrique Rocha e Ney Fontes Gonçalves, que dividia a cidade em setores funcionais. Mas nenhum deles tem a característica mais importante do de Lúcio Costa: a simplicidade estrutural. O plano-piloto que lembra um avião – e que é muito bem visto do avião, o que leva a inevitáveis comentários sobre como a cidade foi concebida como maquete e não como organismo – foi ao mesmo tempo mais prático para a construção e mais adequado para a estética. A arquitetura de Oscar Niemeyer, que fez parte determinante do júri do concurso, se casa perfeitamente com o traçado urbanista de Lúcio Costa, a tal ponto que até hoje muitos acham que foi o arquiteto que o desenhou. A simplicidade organizou o lirismo monumental dos prédios.
Se é difícil dizer que os outros finalistas teriam sido melhores, isso não significa que as ressalvas não possam e devam ser feitas. A primeira delas, por sinal, é comum a quase todos os projetos: em qualquer hipótese Brasília seria uma cidade com cara de “condomínios em série”, um tanto abstrata demais, sujeita não apenas à formação de uma periferia desordenada, mas também ao trânsito e à impessoalidade, com suas longas avenidas, sua proverbial falta de esquinas, sua guetização da vida comum. Esse é o risco de todas as cidades planejadas – há quem veja em Pyongyang, capital do regime autoritário da Coreia do Norte, a mais parecida com ela – e em especial das que se pretendem futuristas em vez de passadistas (como Washington, planejada de acordo com parâmetros do classicismo). Mas um pouco mais de variedade nas células habitacionais e um pouco mais de comedimento nos espaços públicos não lhe fariam mal.
Como sua arquitetura, ainda muito detratada (por especialistas famosos como Marshall Berman, Robert Hughes e Kenneth Frampton), o projeto de Brasília já é controverso na geografia, porque muito distante da massa crítica urbana, dos formadores de opinião do país. Alguns observam que esse afastamento facilitou o golpe de 1964 e que o desenvolvimento do cerrado não se deveu a obras estatais. Mas Brasília já é uma cidade completa, com problemas semelhantes aos de outras capitais – embora com maior qualidade de vida média, por causa do poder aquisitivo –, e é um marco em qualquer livro sobre o assunto. Essa história já está escrita, como o livro reafirma, e é com ela que temos de lidar. Para o bem ou para o mal.
Os EUA produziram grandes e inventivos escritores, como Herman Melville, Mark Twain, Henry James, Scott Fitzgerald, Philip Roth e muitos mais, mas talvez nenhum tenha explorado tanto os limites da linguagem como William Faulkner (1897-1962). Ainda que pertencente à mesma tradição realista, que busca fazer um panorama da sociedade por um microcosmo – em seu caso, o mundo do Mississippi norte, ali onde o sul dos EUA começa –, e a despeito das influências das tonalidades bíblicas e shakespereanas, Faulkner foi muito marcado pelos conceitos modernistas de Freud, James Joyce e até Einstein. É isso que afirma um de seus maiores estudiosos, Noel Polk, que esteve no Brasil em outubro para dar palestra sobre Faulkner e divulgar as traduções feitas no Brasil a partir deu seu trabalho como editor, como em Sartoris.
Polk é o pesquisador americano que teve o privilégio e a responsabilidade de se deter em todos os originais deixados pelo escritor e os cotejou com os livros publicados. Descobriu tantas alterações, algumas tão descabidas, que decidiu empreender pelo “restauro” da obra de Faulkner. Por sorte, o escritor era organizado e foi possível localizar na íntegra todos os manuscritos e textos datilografados de seus vinte romances, além de antologias de contos e muitos outros trabalhos. Um a um, os textos foram reeditados – ou, para usar a expressão de Polk, “deseditados” – para devolver a Faulkner o que era de Faulkner, eliminando os supostos ajustes dos editores da época, com exceção das correções de grafia e, eventualmente, pontuação. Sim, acredite: os copidesques não perdoaram nem mesmo um escritor como Faulkner, que dominava todos os recursos do idioma e sabia correr riscos sem se tornar obscuro ou ilegível.
Na entrevista a seguir, feita por email logo depois de sua passagem pelo Brasil, Polk elege entre seus livros favoritos de Faulkner dois que são posteriores a 1939: Go Down, Moses, de 1942, que na verdade usa sete contos antes publicados pelo autor, e Requiem for a Nun, uma peça de 1951. Ou seja, há um consenso de que os últimos romances de Faulkner não estão à altura daqueles dos anos 30. Polk diz que naquela década ele trabalhava sem parar, publicando muito, sempre pensando no livro seguinte, e foi então que conseguiu equilibrar sua facilidade natural para criar enredos e personagens com uma linguagem elaborada, muito moderna. Polk também comenta sua admiração por García Márquez, que considera estar no mesmo patamar literário de Faulkner, de quem sofreu influência sempre reconhecida.
Quais eram as alterações mais comuns feitas nos textos de Faulkner pelos editores? Eram na escolha de palavras, na pontuação, eram passagens inteiras? Pode dar algum exemplo?
O que fiz acima de tudo foi restaurar o que Faulkner escreveu e os editores mudaram, por isso gosto de dizer que eu realmente “deseditei” os textos. Na maioria dos romances, os editores fizeram os ajustes normais, acrescentando vírgulas, mudando pontuação ou grafia, corrigindo algumas expressões do Sul que não entendiam. Em Absalão, Absalão!, no entanto, eles fizeram numerosos e deletérios cortes de até dez ou onze linhas de uma vez só, porque não entendiam o que ele estava tentando fazer com sua prosa. Ele queria empurrar a prosa em inglês ao limite, dar a ela uma intensidade e um drama dignos da tragédia que estava tentando narrar naquele romance.
O que a comparação entre os manuscritos e os livros publicados lhe mostrou? O sr. pensou “Faulkner é ainda mais criativo do que eu pensava” e/ou “Faulkner tinha um estilo irregular, como se esperava, pois estava correndo riscos o tempo todo”, por exemplo?
Meus anos de trabalho com os manuscritos e textos datilografados de Faulkner me convenceram de que ele sabia absolutamente o que estava fazendo quando escrevia. Tendemos a chamar de “experimental” algo novo, mas para Faulkner seus romances não eram “experimentais”, eram compostos palavra a palavra, frase a frase, capítulo a capítulo, deliberadamente. Certo, esses romances envolviam riscos, o risco de ser mal compreendido, de não ser apreciado. Ele nunca sofreu o que chamamos de “bloqueio de escritor”; sempre foi capaz de retirar de Yoknapatawpha uma infinidade de histórias e personagens.
Algumas influências ficaram mais evidentes depois do cotejo? James Joyce, por exemplo, no sentido de que Faulkner lidava com muitas vozes e com monólogos interiores?
Qualquer pessoa que observe o fluxo de consciência em Faulkner atribui a influência a Joyce, e isso certamente é verdade: Faulkner aprendeu muito com Joyce. Mas também me parece claro que ele aprendeu com Freud e mesmo com Einstein. Boa parte de seu fluxo de consciência vem dos textos de Freud sobre como os sonhos funcionam, como o inconsciente mantém nossas memórias intactas e só as libera em fragmentos quando encontramos algo que mexe com elas. Seu entendimento de como o tempo funciona nos indivíduos vem de Einstein. Ou melhor, não estou seguro de que aprendi essas coisas diretamente do trabalho com os manuscritos; foi indiretamente, à medida que lia Freud e Einstein.
Quais eram as razões alegadas para mudar seu texto? Medo da reprovação dos leitores? Ou apenas a boa intenção de deixar as frases mais claras?
Sim, como editora comercial, a Random House tinha interesse em vender livros; logo, queria que seus livros fossem legíveis, não queria que seus leitores tivessem o trabalho que os romances de Faulkner exigem. Também havia um senso patronal de que Faulkner, sendo do Mississippi, não tinha tido acesso ao tipo de educação que eles tinham, de que não era esperto o suficiente; enfim, queriam controlar o imenso talento dele. Em Absalão, Absalão!, creio, simplesmente acharam que seu talento já tinha tirado o melhor dele e que lhes cabia transformar num grande romance aquilo que eles claramente pensavam que era uma bagunça.
Faulkner costumava “brigar” contra as alterações? Argumentava com os editores sobre passagens ou palavras específicas? Pode nos contar alguma história de insistência dele numa determinada frase? Ele ficava mais nervoso com alterações na sintaxe ou no vocabulário?
A única vez em que argumentou seriamente foi quando mudaram o título de Forget Thee, Jerusalem (Esqueça-te, Jerusalém) para The Wild Palms (As Palmeiras Selvagens). Ficou furioso, mas esse era o primeiro romance depois de Absalão, que não tinha vendido bem, e eles não queriam publicar logo em seguida outro título bíblico. Faulkner às vezes ficava impaciente quando corrigia as provas finais, mas não frequentemente. Revisava com indiferença e era comum que já estivesse trabalhando no romance seguinte. É importante lembrar que entre 1926 e 1942 ele publicou treze grandes e longos romances e dois livros de contos. Ele estava sempre pensando no seguinte!
Ele achava importante captar a prosódia de sua região, mas não no sentido de mimetizá-la, de registrar a linguagem oral mecanicamente. Por isso acrescentava tantas construções inventivas e sonoridades diferentes?
A linguagem que ele usava fazia parte do “realismo” de sua ficção, e ele encontrou meios de registrar o que as pessoas falavam sem usar muitas formas dialetais. Parte de sua originalidade reside na maneira como retratou o mundo real do norte do Mississippi através das lentes fornecidas pela linguagem e simbologia modernistas, tudo que Freud e Einstein e outros lhe haviam ensinado, como eu disse antes.
Qual a importância de ‘Sartoris’ em sua obra? Além, é claro, de introduzir Yoknapatawpha.
Sartoris é um bom romance para começar a ler Faulkner. Se não tem as dificuldades estilísticas ou estruturais que os romances posteriores têm, é uma introdução muito bem escrita a Yoknapatwapha e seus principais temas: é ali que ele entra nas grandes questões de classe social, economia, política e estruturas raciais, que mais tarde serão a marca registrada de sua ficção; também nos introduz em temas de guerra e história e no processo de transformação que tem tanta importância em sua ficção madura. Há ainda, não por acaso, algumas passagens fabulosas em prosa, que valem muito a pena ler.
Qual era a opinião dele sobre Mark Twain, outro escritor que captou o Mississippi com lirismo e ironia?
Como um jovem arrogante de 20 e poucos anos, chamou Twain de “um escritor limitado que não seria considerado do quarto time na Europa”, mas mais tarde generosamente o chamou de “avô” de sua geração.
Qual é seu romance de Faulkner favorito?
Go Down, Moses, Absalão, Absalão!, O Som e a Fúria, A Aldeia e Requiem for a Nun são meus prediletos, embora essa ordem mude regularmente. Normalmente respondo a essa pergunta dizendo que meu favorito é a Normalmente respondo a essa pergunta dizendo que meu favorito é aquele em que estou trabalhando no momento! Na realidade, todos eles são quase igualmente interessantes para mim, porque aprendo algo maravilhoso toda vez que os leio. Mas aqueles cinco seriam os que eu levaria para uma ilha deserta se fosse condenado a escolher apenas cinco. Eu imploraria aos meus sequestradores que não me obrigassem a escolher apenas um só!
‘Enquanto Agonizo’ e ‘Luz em Agosto’ são os dois mais aclamados romances dele. O sr. acha que ele concordaria com essa escolha?
Não sei se ele alguma vez se importou com isso; acho que teria dito “Obrigado” a qualquer um que dissesse que são dois grandes romances. Ele sempre disse que O Som e a Fúria era seu favorito, não seu melhor romance, porque foi o que mais lhe angustiou escrever, que era seu “mais esplêndido fracasso”, porque foi aquele que ficou mais aquém do que esperava dizer. É uma bela metáfora, acho, para um romancista ambicioso descrever um dos romances realmente revolucionários do século 20.
Os últimos cinco livros de Faulkner não são considerados entre os melhores. Por que você acha que suas obras dos anos 30 são mais poderosas do que as que vieram depois? Seria porque ele levou a linguagem a tais extremos que se tornou difícil extrair mais força de si mesmo?
Bem, a maioria dos críticos que não gostam da ficção dele depois de ter recebido o Prêmio Nobel de Literatura (1949) a compara com a dos anos 30, mas precisa recorrer a essa comparação para encontrar defeitos nos livros finais. Querem impor o tom do discurso de recebimento do Nobel a seus últimos romances e, por isso, não percebem seus tons extremamente sombrios, trágicos. Sou um admirador desses livros e passei boa parte da minha carreira – sem sucesso, me apresso a dizer – argumentando que deveríamos levá-los mais a sério. Acredito que, para um romancista menor, esses romances escritos depois de 1950 formariam um cânone fabuloso.
Embora fosse um modernista, influenciado por Freud, Joyce e Einstein, sua prosa sempre ecoou duas referências centrais: a Bíblia e Shakespeare. O sr. concorda?
Sim, concordo. Ele andava quase sempre com um volume de Shakespeare à mão e o lia regularmente. Dizia ler a Bíblia regularmente também, mas preferia as histórias de conflito humano no Velho Testamento ao conteúdo filosófico do Novo Testamento.
Esse também não seria um traço modernista, no sentido que muitos dos escritores modernos (como Joyce com Homero e Pound com Dante) criaram um diálogo com a tradição?
Não estou certo se diria que Faulkner conscientemente criou um “diálogo com a tradição” no mesmo sentido que Joyce e Pound e Eliot criaram. Mas obviamente um escritor que usa a linguagem da Bíblia e Shakespeare de acordo com sua sensibilidade modernista está ao mesmo tempo afirmando a tradição e reescrevendo-a para o século 20.
O sr. certamente sabe que Faulkner teve influência em muitos escritos latino-americanos, de Juan Carlos Onetti a Gabriel García Márquez, e até num brasileiro contemporâneo, Milton Hatoum. Dos que conhece, qual diria que está perto de sua densidade e poder?
García Márquez é o escritor latino-americano que conheço melhor, mas acredito realmente que sua ficção pode ser comparada com a “densidade e poder” de Faulkner, uma expressão da qual gostei muito.
Todo ano vemos alguns termos e expressões caírem no gosto de profissionais e torcedores. Por um exame deles, ao lado de chavões mais antigos, pode-se ter um bom resumo da temporada:
Acima da média – Expressão que substituiu “diferenciado”, adjetivo para lá de gasto nas temporadas anteriores (embora “diferente” continue sumido do discurso). O “acima da média” pode tanto se referir a um lateral competente, como Mariano, quanto a um craque no auge como Messi.
Arena – Termo às vezes acompanhado de “multiuso”, “poliesportiva” ou “moderna”. Antes era usado especificamente para estádios com arquibancadas bem próximas, altas e verticalizadas. Agora designa os que trazem lojas, restaurantes, museus, garagens e outros complementos que também permitem realizar shows. Mas que continuam a ser estádios.
Compactar – Tem sido cada vez mais usado para descrever o retorno e a reaproximação dos jogadores de marcação quando o time perde a bola. Substitui o também surrado “congestionar”. Se for adotado por um técnico vitorioso, será entendido como “sistema defensivo eficiente”; por um perdedor, será a velha e nada boa “retranca”.
Comprometimento – Muito corriqueiro no período da Copa, era um dos termos favoritos do técnico Dunga para justificar que a seleção brasileira não tivesse talentos como Ganso, Ronaldinho, Neymar e outros. Mas Dunga tinha razão: jogadores como Felipe Melo “comprometeram”.
Craque – Palavra que pode designar um jogador com um ano de carreira e um título regional no currículo.
Equilíbrio – Da mesma natureza que o verbo “compactar”. É usado e abusado por técnicos que querem dizer que seu time ataca quando está com a bola e defende quando está sem ela. Na prática, pode querer dizer que ele está morrendo de medo de trocar um volante por um atacante. Ou então o termo descreve um campeonato em que líderes perdem para lanterninhas, sob comentários de que “não existe mais bobo no futebol”.
Emocionante – Adjetivo mais comum, seguido de perto por “dramático”, para qualificar uma partida com jogadores nervosos, gols perdidos, torcidas angustiadas e… escassos lances de talento. Bastante empregado na frase “O Brasileirão tem baixo nível técnico, mas pelo menos é emocionante”.
Ex-jogador em atividade – Expressão criada por alguns jornalistas (ou ex-jornalistas em atividade) para falar de jogadores veteranos que já não dariam resultado em campo porque não se cuidam devidamente, ou que já deveriam ter aposentado. São os mesmos que disseram em 2009 que Ronaldo no Corinthians seria como Garrincha, “bichado e bêbado”.
Goleada – Palavra que agora serve até para se referir a um 3 x 1.
Igualar a pegada – Outro termo usado pela comissão técnica da seleção brasileira durante a Copa. Na boa acepção, significa um time que marca firme no meio-campo, sem dar espaço para a criação adversária, pressionando para roubar a bola. Na acepção real, é fazer falta feia.
Pragmático – No sentido pejorativo, quer dizer “burocrático, sem criatividade, sem ousadia”. Mas os grandes jogadores e os grandes times sempre foram os que entenderam que nos momentos decisivos o futebol dá resultado quando for criativo, quando a arte achar o caminho do gol. Pelé era pragmático; o Barcelona é pragmático.
Toque sutil – Por que diachos todo gol em que o jogador desvia do goleiro sem dar um chute forte é chamado de “sutil”? O que aconteceu com palavras como “suave”, “colocado” ou “leve”?
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