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Daniel Piza

20.janeiro.2009 15:58:47

A palavra de Obama

Reuters

O discurso de Obama agora há pouco foi muito bom. Dosou mudança e tradição, firmeza e serenidade; afirmou que a colcha de retalhos é a força da América, não sua fraqueza; defendeu política externa mais construtiva e um Estado mais eficiente e vigilante. Palavras? Pois me digam qual evento com palavras foi ouvido por tantas pessoas ao mesmo tempo em tantas partes do mundo, a começar por 2 milhões de pessoas no frio de Washington. Nem final de Copa, nem festa do Oscar, nem réveillon em Copacabana ou desfile gay na Paulista – em todos esses o que se fala é um detalhe. Dizer que Obama é “vazio” é falso, pois lhe nega qualidades de intelecto e caráter até aqui demonstradas. E dizer que ele será decepção porque os problemas são muito maiores do que uma pessoa possa resolver, por mais poderosa, é banal. É melhor ter alguém que ao menos simbolicamente aponte para o lado certo do que ter um Bush no poder. É melhor ter palavras sensatas do que atos insanos, e melhor ainda alguém de palavra que saiba agir. Boa noite e boa sorte.

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20.janeiro.2009 14:41:12

O ‘fico’ de Kaká

Sim, não deixa de ser bonito ver Kaká abrindo mão da proposta miliardária do Manchester City e querendo ficar no Milan. Pode-se dizer que ele já tem dinheiro e sucesso demais para se preocupar com isso, e de fato é engraçado ver Berlusconi dizendo que “dinheiro não é tudo”… E Kaká sabe que no Manchester City não há segurança de que o projeto vá implicar em títulos, pois o time tem pouca tradição e está entre os últimos da liga inglesa; seu melhor jogador é Robinho. Ficar no Milan ao lado de Pirlo, Seedorf, Ronaldinho e Pato não é nenhum esforço… e seguramente o Milan vai se renovar, pois o grande Maldini e outros já não mantêm o nível. Mas pense no contrário: se Kaká aceitasse a oferta do City, reforçaria a idéia de que o futebolista moderno é um mercenário, de que – aí sim – o dinheiro é tudo, de que não importa o prazer de jogar num clube lendário ao lado de outros craques. Na pior das hipóteses, a decisão de Kaká merece saudação pelo que deixou de fora, não pelo que manteve dentro. Ele quer continuar fazendo história. Seu “fico” é mais um capítulo.

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19.janeiro.2009 12:04:02

Poe secreto

O bicentenário de Edgar Allan Poe foi marcado por chavões como “o precursor do romance policial” e comemorado com festas macabras, etc. Mas Poe foi muito mais do que isso. Há em suas Histórias Extraordinárias um teor filosófico, uma reflexão moral, que raros policiais atingem. Poe, em certos aspectos um precursor de Freud, diagnostica os males que o racionalismo causa à razão, sobretudo ao trabalhar com princípios inflexíveis, com uma lógica que não leva em conta as esquivas intenções humanas. Não espanta que tenha influenciado Machado de Assis (em contos como A Causa Secreta). Em A Carta Roubada, por exemplo, Dupin cita Chamfort sobre as convenções convenientes à maioria e diz, num aforismo próprio, que na moral “é inveridíco que a soma das partes seja igual ao todo”. Em O Gato Preto, o primeiro crime do narrador é ser inocente, ingênuo demais, em sua associação entre honra e bons costumes. Em certo momento, menciona as “gradações quase imperceptíveis que, durante muito tempo, a razão forcejou por rejeitar como imaginárias” (o que mais uma vez lembra Machado: “Em matéria de culpa, a graduação é infinita”). Em O Barril de Amontillado, o italiano esconde oportunismo sob a cordialidade (não soa familiar?), mas “os ingleses e austríacos” engambelados por ele invejam seu entusiasmo, sua capacidade de se divertir. Não existem virtudes inteiriças nem vícios plenos, e é comum em seus textos que as mulheres sejam o maior símbolo dessas ambivalências; Poe, ao contrário dos românticos que o antecederam, não via nelas a promessa de um êxtase completo, união transcendente de anjas e diabas… Além de tudo, ele foi bom poeta, com textos lendários como O Corvo, que ri do purismo classicista, e foi um ensaísta fundador do pensamento literário americano, ainda que primeiro descoberto por europeus como Baudelaire. Isso tudo em 40 anos de vida. O corvo vai continuar ali para sempre.

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18.janeiro.2009 09:38:34

Azia e má gestão

Baptistão

Estou com o presidente Lula e não abro: ler jornais dá azia. Pense nos exemplos recentes, surgidos na ressaca do réveillon. Em dezembro tivemos a maior queda da produção industrial em 13 anos, a maior fuga de capitais desde 1982 e o menor superávit da balança comercial desde 2003. O desemprego aumentou, e qualquer cidadão conhece um parente, vizinho e/ou amigo que foi demitido recentemente. A carga tributária em 2008 sofreu seu maior aumento no século, saltando para 34,8% segundo a otimista estimativa oficial. Por falar em otimismo oficial, a inflação beirou os 6%, mas índices alternativos bateram em dois dígitos e o aumento das escolas também. Já o dólar sofreu aqui a maior valorização do mundo, comprovando a tibieza do real. O atraso dos voos superou 20%, quase o mesmo do ano anterior, no auge do caos aéreo, embora a Anac tenha dito que nada disso aconteceria de novo. Vai sal de frutas aí?

É claro que o governo diz que a culpa é da crise internacional. Mas quando tudo estava melhor ele ficava indignado quando se dizia que o bem-estar se devia aos eflúvios de fora. E a má gestão só piora os sintomas, pois não é com um aumento anual de 8% nos gastos públicos que o Brasil vai conseguir reagir à crise. Enquanto isso, Barack Obama assume nos EUA prometendo um investimento pesado em infraestrutura – muito maior que o PAC, que nenhum BNDES consegue desempacar – e o corte de impostos da classe média, na ordem de mil dólares anuais por pessoa. O mundo inteiro baixa juros, gastos e taxas; o Brasil faz o contrário. Deve ser a tal “singularidade” de Pindorama.

Não é só a economia que queima no esôfago. Os jornais estão repletos de fatos ácidos como a ordem de libertação de Marcos Valério, a recusa de Tarso Genro em extraditar um terrorista italiano, a barganha do PT com PMDB de olho no fim da reeleição e na sucessão de 2010, a sinecura dada a Paulo Lacerda em Portugal apesar de acusado por uso indevido de grampos da Abin nas operações da PF. E, como se não bastasse, Lula diz na revista Piauí (logo depois dos diários da modelo Fernanda Lima sobre sua vida de mãe) que não lê jornais, mais uma vez se gabando de sua ignorância e incentivando o povo brasileiro a seguir seu exemplo. Mas isso não o isenta de elogiar os colunistas “meio intelectuais, meio de esquerda” que são clipados para ele por sua equipe. Afinal, não é de hoje que Lula prefere não ver os problemas a enfrentá-los.

(“Sinopse“)

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17.janeiro.2009 09:52:30

Teatro moral

A novela A Favorita terminou, como sempre acontece, com alta audiência nas últimas semanas, movida a mortes e suspenses. Mas a súbita ingenuidade de Flora não convenceu, até porque durante nove meses ela jamais manifestou um segundo de nostalgia. Isso sem falar no exagero das soluções banais, como as inúmeras conversas entreouvidas na reta final. Outro problema foi a irregularidade de atuações. Patrícia Pillar, Ary Fontoura, Cauã Reymond, Lília Cabral e Paula Burlamaqui seguraram as melhores cenas, enquanto os outros patinavam e alguns como Chico Diaz eram subaproveitados. O mais grave foi o destino dado à personagem de Helena Ranaldi; só faltou gravarem nela um “A” de adúltera como no romance de Nathaniel Hawthorne sobre os tempos puritanos. Esse moralismo, com tintas de melodrama latino-americano, nada acrescentou.

Boa parte dos problemas deriva da duração das novelas, mas dizem que ela precisa dos 180 capítulos para dar lucro. E programas bem mais curtos, como a série Maysa, de nove episódios, cujo horário ajudou a fazer o sucesso, não garantiram menos conversa fiada e forçada. Seu discurso era sempre o de ser uma mulher “transgressora”, capaz de tomar iniciativa em relação aos homens, por exemplo, mas na verdade o que ela mais gostava de fazer era cantar seus boleros e chorar o fim do casamento com André Matarazzo. O biógrafo Lira Neto mostrou as “liberdades” tomadas com os fatos; numa cinebiografia é preciso haver cuidado. E a atriz, Larissa Maciel, é talentosa e tem o mesmo olhar forte, mas me fez pensar no documentário de Eduardo Coutinho, Jogo de Cena, em que as atrizes precisam ser mais enfáticas em sua expressão de sofrimento do que as mulheres que realmente sofreram.

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Passei a virada do ano na Praia do Espelho, na Bahia. Fica a 50 km de Porto Seguro, na chamada Costa do Descobrimento: pega-se a balsa em Arraial d’Ajuda, segue-se em direção a Trancoso e, por estrada de terra, com o Monte Pascoal à direita, percorrem-se mais 40 minutos até ali. Não tem badalação noturna e a praia jamais fica cheia porque só existem três pousadas pequenas – e no ano que vem ela será convertida em parque marinho, com turismo ainda mais restrito. Não sou muito de lagartear sob o sol, e o que achei mais bonito foi o céu noturno, com tantas estrelas que entendemos por que os antigos acreditavam que o firmamento fosse uma abóbada, como se fosse finito e pudesse ser apalpado. O pôr-do-sol com horizonte de coqueiros também é belo, e no entardecer a luz de céu e mar ganha tom metálico que poucas vezes vi:

De dia alguns barcos chegam para aproveitar as águas calmas que justificam o nome de praia, depois dos recifes de corais, formando piscinas naturais com temperatura bem agradável. Quem sai de barco pode ver muitos peixes e tartarugas.

O mar é bem verde, mas com tons que vão do azul na região dos corais ao marrom à beira da praia, e dá vontade de cantar com Caymmi…

A maior bênção, claro, é a brisa constante, que atravessa os coqueirais.

Fiquei na Pousada do Baiano, que tem um gramado com esteiras e quiosques diante da sede, que no almoço fica cheia de pessoas interessadas em comer lagostas, siris, moquecas e outros pratos bons:

Caminhei muito por ali, nas praias adjacentes, todas diante de falésias:

Há ali perto uma área de bangalôs com proprietários famosos. Todo o território ao sul de Trancoso, porém, é dominado por umas poucas fazendas, que criam búfalos e plantam mamão, coco e outros produtos, mas cujas extensões estão quase sempre vazias. Um helicóptero sobrevoa para lá e para cá e fico sabendo que é de uma ricaça que está na casa de praia e manda buscar o almoço na sede da fazenda ali perto… Enquanto isso, pataxós vendem miçangas para turistas brasileiros, europeus e americanos. Muita coisa não mudou no Brasil em 500 anos.

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15.janeiro.2009 09:19:24

Sem solução

Li dezenas de artigos sobre o conflito entre Israel e o Hamas, mas a verdade é que não dá para imaginar solução a curto ou médio prazo. O Hamas nem sequer reconhece a existência do Estado de Israel. E Israel, por mais que diga que aceite um Estado palestino, desde sua criação há 60 anos só fez se expandir ou reagir desproporcionalmente toda vez que foi atacado, como agora ou como no Líbano em 2006. O pretexto de “combater o terrorismo” não cola; tudo parece muito mais relacionado às eleições que ocorrerão no mês que vem. Agora, nada mais vulgar do que comparar a atuação de Israel com o holocausto nazista.

Os subterrâneos do debate estão poluídos de religião, e os argumentos a respeito do direito àquela terra – por antiguidade ou continuidade – não definem nada. Além disso, ou por isso, toda a região está interligada, e o papel de países mais estáveis como Egito e Turquia para contrapor o radicalismo de Irã e Síria seria fundamental se a opinião pública israelense e palestina endossasse a moderação. Mas não é o que tem acontecido. Há mais variáveis nessa equação do que a matemática política consegue resolver.

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14.janeiro.2009 09:12:05

Flutuar e picar

Que bom que os campeonatos europeus seguem na virada de ano e não precisamos sofrer de crise de abstinência ludopédica. Ao contrário, vimos grandes jogos nestes dias. Quem gosta de futebol não vive apenas das partidas do seu time, e me lembro de muitas vezes na adolescência em que acompanhei metodicamente os campeonatos como o italiano – para ver Maradona, Falcão, Van Basten – e tive camisas de diversos clubes estrangeiros, o que alguns comentaristas parecem achar que é vender a alma ao diabo da globalização… Não; é apenas gostar de futebol.

Além disso, há muitos craques brasileiros. Pato, por exemplo, melhora a cada mês e, com 19 anos recém-completos, tem tudo para ser um dos grandes nos próximos anos. Fez dois gols no Roma, na casa dele, no domingo passado. O primeiro foi numa boa jogada de Kaká, que ainda não recuperou seu melhor; e o segundo foi num arranque à la Ronaldo Fenômeno, driblando o zagueiro em velocidade e dando de esquerda um toque de cobertura sobre o goleiro. O Milan jogou com os dois brasileiros, mais Ronaldinho Gaúcho, Beckham e Seedorf, confirmando a tendência de ataques intensos e versáteis.

Vide o Manchester United, que meteu 3 a 0 no Chelsea. Tevez não atuou, mas o time entrou com um centroavante de área, Berbatov, mais Rooney, que está em grande fase, Cristiano Ronaldo e o coreano Park na frente. O craque português participou dos três gols: causou o escanteio do primeiro, armou a jogada que culminou no segundo e deu o cruzamento do terceiro. Mas foi uma atuação abaixo das que lhe deram com todo o mérito o título de melhor jogador do mundo em 2008, título que premiou acima de tudo sua contribuição para as conquistas de sua equipe na forma de 42 gols, além de assistências, dribles e um futebol que combina força, habilidade e movimentação. Antes ele fazia firulas demais nas pontas; agora fica perto da área e realiza os truques nos momentos úteis. A velha querela entre objetividade e criatividade não serve aos campeões.

Nem todo jogo, obviamente, cumpre o que prometia. O Barcelona, que tem dado show com atacantes como Eto’o e Henry, foi ter dificuldade justamente com o Osasuna, e se não fosse mais uma vez por Messi teria terminado com um empate lamentável. Messi tem jogado melhor do que Cristiano Ronaldo nos últimos meses. E por quê? Porque tem se tornado decisivo em número cada vez mais maior de ocasiões, partindo para cima dos adversários com seu enorme poder de condução da bola, mas também clareando para o chute, inclusive de fora da área, o que costumava ser seu ponto fraco. Pode-se dizer que é fácil brilhar num time cercado de estrelas, mas isso não explica por que não são as outras que brilham tanto. Jogar entre os grandes exige mais.

Outro jogo frustrante foi entre Inter de Milão e Cagliari. Mas o empate do líder veio quando o técnico, Mourinho, tirou um zagueiro, Samuel, e pôs Crespo para atuar ao lado de Ibrahimovic e Cruz. No Brasil isso só se faz nos minutos finais, por desespero. A regra é trocar por jogador da mesma função, ou então um atacante por um volante. Mas isso está mudando, e as contratações indicam que o lema de Muhammad Ali também vale para o futebol: “Flutuar como borboleta, picar como abelha.”

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13.janeiro.2009 17:42:45

Filhos da MPB

Participei ontem do programa Estúdio i, da Globo News, e fiquei impressionado com o talento de Bena Lobo, filho de Edu Lobo e Wanda de Sá, que aos 36 anos tem dois CDs e agora um DVD de show ao vivo e em breve lança um CD de parcerias com Paulo César Pinheiro. Suas canções têm melodia bonita, requinte harmônico e uma pegada atual, comprovando que filho de famoso não precisa parasitar a fama do pai.

Houvesse pauta no jornalismo cultural brasileiro e esse tema seria discutido com os variados exemplos: Maria Rita, Diogo Nogueira, Luiza Possi, Moreno Veloso, etc. São “os filhos da MPB”, que tentam levá-la de volta aos bons tempos. Bena Lobo é um futuro presente.

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13.janeiro.2009 15:36:42

O fator gol

Cristiano Ronaldo agradeceu a Felipão com destaque por seu merecido prêmio como melhor do mundo de 2008. E isso porque Felipão sempre insistiu com ele que fosse mais objetivo, que procurasse mais diretamente o gol. Antes ele jogava muito pelos lados, se dedicava demais a firulas e aparecia pouco na área. Como demonstra o vídeo abaixo, com os 42 gols da temporada, ele deu um salto de qualidade quando seguiu o conselho. Muitos gols, além dos de falta e pênalti, são feitos escorando cruzamentos e frequentemente de cabeça, já que é alto e tem ótima impulsão.

Ele chuta bem com os dois pés, dando força e efeito; dribla de muitos modos, como pedaladas, chaleiras e elásticos; é veloz; pensa rápido em curtos espaços; cruza com eficiência; e se movimenta muito, caindo na direita, na esquerda e pelo meio. Kaká não tem sua habilidade e Messi não tem seu chute, mas ambos fazem arranques driblando dois ou mais adversários, o que é raro nos melhores lances do petulante gajo. No momento, por sinal, Messi e Rooney estão jogando mais do que ele. Mas que ele venceu com folga os concorrentes em 2008 não resta dúvida.

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