
O mensalão do governo Arruda, que reeditou a frase da rainha francesa para “se não tem pão, que comam panetones”, confirma algumas realidades que corriam risco de sumir com a amnésia cultural brasileira. Primeiro, mensalões continuam a existir – mostrando que, ao contrário do que alegaram os petistas em 2005, não se trata de caixa 2, o que já seria crime, mas de redes de corrupção que amarram doações de campanha a licitações públicas. Segundo, a expressão “reforma política” sempre reaparece nesses momentos, por conveniência dos que não a fazem, e serve apenas como biombo para desviar o olhar das baixarias cometidas com o dinheiro público – afinal, há legislação de sobra para que se vigiem e se punam os prevaricadores. Terceiro, o clima de vale-tudo institucionalizado no governo Lula é tal que o primeiro beneficiado é ele mesmo. Ver Tarso Genro lamentando o escândalo é de rir-chorar.
O presidente Lula começou reagindo com seu habitual bordão, já repetido pela ministra e candidata Dilma Rousseff, de que precisamos esperar a condenação da Justiça para emitir opiniões e protestos (como se uma autoridade sob graves acusações pudesse continuar exercendo o poder em sua defesa). Disse que as imagens não falavam por si mesmas. No dia seguinte, atacou o esquema, embora ainda chamando de “coisinha”. E afirmou que mandou duas propostas de reforma política ao Congresso, mas, citando Jânio Quadros (acredite se quiser, Jack Palance), atribuiu a in
Transformar conceitos em desculpas faz parte do personalismo brasileiro, que está em alta nestas vésperas de ano eleitoral. Muitos críticos não percebem como fazem parte do jogo ao criticar o governante em vez do governo. O debate se resume ao bate-leva de adjetivos. De um lado, Lula é chamado de autoritário, analfabeto, etc.; um antigo partidário, César Benjamin, chega a insinuar que ele abusava de um preso, o tipo de afirmação que não viria ao caso nem se não fosse leviana, desprovida de provas. Do outro, o presidente é santificado por um filme com o mais alto orçamento da história e qualificado de “culto” e “inteligentíssimo” até por quem não gosta do petismo. Lula é como seu governo, um neopopulista muito esperto que sabe se gabar das boas notícias sobre o Brasil e se safar das más, pondo a culpa no passado e/ou na imprensa por estas. Não por acaso seu ministro da Cultura se vê no direito de apontar para repórteres e dizer que são pagos para mentir.
Também não é por acaso que já não existe oposição no Brasil. Ela não tem ideias, ou melhor, não tem nem sequer bandeiras. Não pode falar muito da corrupção, porque o valerioduto começou no PSDB mineiro e agora o duto de Arruda passa pelo DEM. Não pode falar muito da incompetência, porque o apagão do governo anterior foi mais calamitoso, por exemplo, e os números do PIB em média são melhores, podendo passar de 5% em 2010. Não pode falar muito da política social, porque o barato e limitado Bolsa-Família virou sinônimo de distribuição de renda, mesmo que o governo Lula não tenha tirado nem um centavo dos ricos (muito pelo contrário). E não pode falar muito dos impostos, porque todos os mandatários só sabem aumentá-los. (O prefeito Gilberto Kassab, segundo a ingênua mídia, teria “recuado” no pulo do IPTU, estabelecendo o teto de apenas 30%…) Temas como meio ambiente e educação dão muito espaço para ataque, mas não catalisam votos como os citados. Logo, não espanta que Dilma suba nas pesquisas, por mais diferente de Lula e inexperiente em urnas.
Entenda direito, leitor: há uma enormidade de assuntos em que o governo Lula pode e deve ser criticado – como venho fazendo há sete anos, enquanto tantos andam desistindo. Quase todos os ministérios fizeram trabalhos ruins ou medíocres, da Saúde à Infraestrutura, da Educação à Justiça. Há uma “herança maldita” em plena expansão, que são os gastos públicos (principalmente com pessoal e Previdência) e as contas externas (a “bolha Brasil”, como sugerido por Paul Krugman, feita de ingressos especulativos que derrubam o real). E há todas as reformas que não foram feitas, assunto que ao menos permitiria uma campanha no tom “o Brasil melhorou, mas vamos olhar para a frente e ver como melhorar ainda mais”. Na arena política, porém, a situação tem dado a liga faz tempo, comemorando agora o consumo aquecido para o Natal. A população come o pãozinho de cada dia – e as autoridades juram que é panetone.
(“Sinopse”)
Todo mundo discute se é melhor ter adversários fracos ou fortes na primeira fase: os fracos permitiriam tranquilidade e condicionamento; os fortes seriam o “batismo de fogo” que aumentaria a confiança para as fases seguintes. Eu acho que o grupo do Brasil é, como no penta em 2002, um mix quase ideal. Primeiro um fraco, Coréia do Norte; depois a Costa do Marfim, do craque Drogba, um dos melhores times africanos; e por fim um mais forte, Portugal, do insidioso gajo Cristiano Ronaldo. O grupo não é aparentemente simples como os de Alemanha e Itália nem aparentemente complicado como os de Argentina e França, para citar outros campeões. O Brasil tem todas as condições de passar – até por causa do estilo do time de Dunga, de mais pegada e contra-ataque, que sente dificuldades com equipes mais fechadas. Em 2006 a seleção também foi crescendo de produção, mas com adversários fáceis como Gana e Japão, e daí pulou para a difícil missão de bater a França do refinado Zidane. Hoje temos uma equipe menos técnica e menos badalada, capaz de tirar proveito desse ritmo gradual. Mas quem sabe a África do Sul não veja uma Copa menos tradicional, com times leves como Espanha e Holanda, em grupos favoráveis, surpreendendo? A graça é que não sabemos.

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Amazônia é sempre um tema polêmico e amplo, mas uma convergência foi evidente nos dois painéis de anteontem: o modelo tradicional de desenvolvimento não atende à complexidade da região. O secretário do Ministério da Integração Nacional, Henrique Villa da Costa Ferreira, mencionou explicitamente o pensamento “desenvolvimentista” de autores como Celso Furtado, dominante nos anos 50 e 60 e inspirador de órgãos como a Sudam, cuja função seria comandar a economia regional com um planejamento centralizado. Hoje está claro que as questões amazônicas só serão resolvidas com participação de muitos atores, sobretudo a iniciativa privada, e atenção às múltiplas escalas, pois uma solução para o sul do Pará não servirá para o norte do Acre. Ao poder público cabe coordenar e induzir – e, como disse Guilherme Leal, da Natura, reduzir a burocracia para que um produto não leve até três anos para chegar ao mercado.
Outra convergência foi a crítica à noção de sustentabilidade como um parâmetro exclusivamente ambiental, quando se trata de combinar avanços socioeconômicos ao uso inteligente dos recursos naturais. O professor José Alberto Machado observou que ainda existe a noção de que “Amazônia e negócios não andam juntos”: falta visão estratégica para investir nos potenciais produtivos com escala, não apenas de modo pulverizado e experimental. Adalberto Val, diretor do INPA, registrou a carência de pesquisadores e verbas para ciência & tecnologia. Todos, afinal, concordaram: ainda conhecemos mal a Amazônia, o que dificulta muito pensá-la de forma pragmática. Mapear esses potenciais e dar a infraestrutura adequada são imprescindíveis. Enquanto isso, a confusão entre desmatamento e desenvolvimento vai prosseguir.
“Tudo que sei com mais segurança sobre moralidade e obrigações, devo ao futebol”, escreveu o goleiro e escritor Albert Camus, autor de O Estrangeiro e A Peste. Bem, Camus estava falando de si mesmo, porque certamente sabia que isso não se aplica a muitos jogadores e boleiros. Eles podem até aprender a guardar posição e tocar a bola para o companheiro mais bem colocado, mas é difícil ver aqueles que vão além disso. Quanto aos torcedores, boa parte não fica atrás, já que tantos não se incomodam de ganhar com malandragem. (Na Copa de 62, por exemplo, Nílton Santos deu passo para fora da área para que não assinalassem pênalti; e Garrincha, expulso na semifinal, foi liberado para jogar a final.) As últimas rodadas têm sido pródigas em novos exemplos.
É curiosa a ansiedade que existe no mundo do futebol em logo apontar culpados, de preferência únicos, para expiar a frustração coletiva. Mais até do que nas vitórias, nas derrotas o futebol vira rapidinho um esporte individual… Todo debate, portanto, termina contaminado por esse passionalismo: a emotividade do torcedor segue com ele por muitos dias depois do apito final – e tome mesa redonda ao longo da semana para distribuir dedos em riste. Sei que há pessoas que acham que atitudes como as de Belluzzo seriam mais “humanas”, mas eu prefiro o humanismo de Camus, que sempre deu grande peso à responsabilidade pública. Amar o futebol não nos exime de obrigações, e uma dessas obrigações é assumir os erros.
O São Paulo, por exemplo, deve ter jogado fora o tetracampeonato no jogo contra o Goiás. Muitos chamaram o time de Jason (do Sexta-Feira 13, aquele que sempre volta para assombrar) e, depois de sequência positiva com Ricardo Gomes, decretaram o triunfo e demonizaram Muricy. Agora que o clube vacilou, o discurso mudou – e já tem muita gente querendo reformulação total. Ninguém pensa que ganhar três Brasileiros seguidos e ainda ficar entre os quatro primeiros mostra que há méritos também. O maior erro de Muricy foi justamente não manter a base, pondo Hernanes e Jorge Wagner tempo demais no banco. Cabe ao clube, por sua vez, ver onde errou neste ano, ao permitir divisão interna no elenco. Fingir que não errou – e ainda tirar mérito do Flamengo – não ajuda nada.
O mesmo vale para o Palmeiras. Muricy tem sua parcela de culpa, especialmente por exagerar nos volantes e chuveirinhos, como se tivesse tentado transplantar um estilo de jogo do Morumbi para o Palestra. A diretoria tem outra parcela de culpa, não só pelo descontrole de Belluzzo, mas também por achar que com Obina e Vagner Love tinha resolvido os problemas. A volta de Cleiton Xavier, domingo, mostrou como um bom armador sempre faz falta. E os jogadores também têm bastante culpa, inclusive Diego Souza, que fez o mais belo gol do campeonato – como já escrevi, num lance de fina biomecânica que só os chatos não entendem como intencional. Diego Souza, que poderia ter sido o craque do campeonato, sumiu em jogos decisivos contra times fracos.
Mais vergonhoso foi o gesto de jogadores como Felipe, do Corinthians, e Souza, do Grêmio. Felipe se absteve de tentar defender uma cobrança de um pênalti que de fato existiu, e que mesmo se não tivesse existido ele teria de tentar defender. O juiz errou muito, mas o goleiro não pode ser antiprofissional. E Souza poderia até dizer que não se pode esperar que o Grêmio, que vai mal fora de casa e já não tem pretensão na tabela, atue contra o Flamengo como se fosse uma final, mas não pode sugerir que se deve entregar o jogo – assim como o São Paulo não pode atribuir ao entreguismo alheio os próprios erros, de muito maior peso. Sei que botar a culpa nos outros é sempre muito mais fácil, ou “humano”. Adultos, porém, evitam isso.

“Começamos pelo espaço e o que ele pode trazer para a vida das pessoas”, diz Marcelo Ferraz, enquanto mostra as imagens do Museu Rodin de Salvador, inaugurado no final de outubro. Ele e Francisco Fanucci são os sócios do escritório Brasil Arquitetura, discretamente acomodado na Vila Madalena, em São Paulo, ao pé do conhecido Beco do Batman, uma ruela cercada de grafites como se fosse um corredor de cores. Seu trabalho se caracteriza justamente por esse diálogo humanista com o espaço, seja ele urbano seja rural, e pelo entendimento do papel social da arquitetura, sem a menor perda no cuidado formal. “Cada projeto tem de contagiar o tecido ao redor”, acrescenta o arquiteto de 54 anos.
Ferraz e Fanucci se conheceram na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, nos anos 70, e Ferraz teve o privilégio de logo estagiar com Lina Bo Bardi, a arquiteta de origem italiana que criou o Museu de Arte de São Paulo. Com Lina, trabalhando em outra obra importante para a cidade, o Sesc Pompeia, Ferraz aprendeu as lições que hoje resume. “O Sesc Pompeia é o espaço mais democrático de São Paulo. Ele é acessível e atraente. Todos os visitantes, não importa de onde venham, se sentem um pouco ‘donos’ daquele espaço.” Ele lembra que “acessibilidade” não é apenas fazer rampa para pessoas com deficiências; é criar canais com os mais diversos tipos e classes.
O convívio com Lina ensinou Ferraz também a destoar um pouco do discurso dominante na faculdade daquele período, em que a exaltação do rigor por si só levou ao “discurso exagerado da estrutura”, de conceitos como o de “fazer o ponto de apoio cantar” – resultando na maioria das vezes em obras que repelem conforto e esbanjam concreto. Ferraz acha, ainda assim, que São Paulo hoje perdeu a “cultura arquitetônica lato sensu”, ou melhor, “o pouco que já teve”, e, com poucas exceções, deu força demais para projetos que se destacam por copiar os estrangeiros e valorizar o show, com as costas voltadas para o tecido urbano. “A cidade é voraz. É pujante, mas realmente não pensa na história e no contexto. Falta a escala humana, aquilo que os americanos chamam de ‘gentle building’, de uma arquitetura que não seja tão agressiva e excessiva.”
Um exemplo que ele visitou recentemente é a Fundação Iberê Camargo em Porto Alegre, projeto do português Álvaro Siza. O museu com obras do grande pintor brasileiro se situa junto a uma encosta de frente para o Guaíba. Ferraz destaca essa adequação à geografia e o modo como Siza faz o visitante descobrir o espaço, levando-o a entrar e sair do prédio por meio de rampas externas fechadas com janelas para o rio, além do bem-estar proporcionado também pelo revestimento de gesso recebido pelo concreto. Forma, escala, material e experiência se unem para dar humanidade ao trabalho. E foi de Siza que, em certa ocasião, Ferraz ouviu um elogio tão simples quanto fundamental: ao ver o Museu do Pão, obra realizada pelo Brasil Arquitetura em Ilópolis, no Rio Grande do Sul, o mestre português exclamou: “É uma celebração da madeira”. Não por acaso, é da dupla paulista o mobiliário da Fundação Iberê Camargo.
Também não é por acaso que, no mesmo endereço do escritório, existe uma marcenaria, cujos móveis e peças são exibidos numa loja a poucos metros na mesma calçada da rua Harmonia. O gosto pela madeira se vê no Museu do Pão nos capitéis de ipê, com quatro vigas inclinadas, nas cercas em treliça ao estilo italiano, nas tábuas de araucária que são imitadas pela textura do concreto. O trabalho de Ferraz e Fanucci sempre parte do entendimento da cultura local, da riqueza e mistura de sua história; no caso do museu de Ilópolis, das origens italianas, levadas e transformadas pelos colonos do sul do Brasil. “Arquitetura se relaciona com tudo – com o momento, com a cidade, com a tradição, com a técnica”, diz Ferraz. “E os museus hoje não são mais depósitos de obras; são museus que procuram contar histórias, que procuram conexões entre presente e passado.”
Foi com essa noção que o escritório fundado há exatos 30 anos (então ainda com Marcelo Suzuki, José Sales Costa Filho e Tâmara Roman) fez não apenas o Museu do Pão, mas uma série de outros trabalhos já prontos ou sendo prontos. No Museu Rodin, por exemplo, o que estava em questão era a ocupação de um casarão antigo, de estilo eclético, e sua expansão para novos espaços e funções, em especial a de expor 65 esculturas do gênio francês. A proposta inicial era acrescentar apenas uma edícula, mas Ferraz e Fanucci sugeriram um segundo prédio, ligado ao antigo por volumes de vidro e pisos de madeira. Varandas e paredes foram quebradas, mas a estrutura original permaneceu, assim como as pinturas decorativas nos tetos. A exemplo do que fez Paulo Mendes da Rocha na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, as intervenções do Brasil Arquitetura em prédios históricos combinam respeito e inovação. “O arquiteto precisa saber desaparecer também”, lembra Ferraz. Mas ele também se queixa da intransigência de alguns tombamentos, que se esquecem das necessidades contemporâneas. “Acho que Lina não conseguiria fazer o Sesc Pompeia hoje”, diz, pensando no modo como ela renovou a antiga fábrica.
Muitos trabalhos nessa linha estão em execução pela equipe instalada no primeiro andar do escritório, entre computadores e maquetes. Ferraz mostra projetos em andamento como o Museu do Pampa, previsto para 2011, num prédio de 1855 em Jaguarão, na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, onde funcionou uma enfermaria durante a Guerra do Paraguai (1865-70). O projeto mantém até mesmo as ruínas de pedra, prolongando o prédio principal com uma linguagem que é moderna e ao mesmo tempo se harmoniza com a antiga; há até um túnel por dentro da pedra que conduz ao auditório. Estratégia semelhante se dará em outro museu previsto para o mesmo ano, o Museu Xique-Xique, em Igatu, na Chapada Diamantina (MT). Aqui a saga a ser narrada é a do garimpo, num espaço que lembra uma casamata ajardinada em meio à planície agreste.
Já em Piracicaba, no interior de São Paulo, Ferraz – que um dia já foi chamado de “neocaipira”, por fazer trabalhos fotográficos e arquitetônicos no Vale do Paraíba, ganhando cumprimento até do crítico e sociólogo Antonio Candido – conta que pretendem transformar um antigo engenho em teatro, reformando também a praça (para a qual o palco também se abriria) e a casa da cachaça, mas ainda dependem da licitação. Nem todos os projetos em curso, porém, são recuperações de velhos endereços. Em São Paulo, por exemplo, já foram iniciadas as obras da Fundação Shalom, um prédio de linhas modernistas que, mais uma vez, lembram a influência de Mies Van Der Rohe, com volumes cúbicos e vazados que se completam em painéis de concreto azulado na fachada.
Por falar em interior e Van Der Rohe, foi de “Bauhaus caipira” que um amigo de Ferraz, com bom humor, chamou sua casa em São Paulo, a qual considera um de seus melhores trabalhos. A ideia para o terreno linear de 42 metros de comprimento foi criar uma sucessão de “ambientes que podem ser descobertos passo a passo”, de espaços que geram sensações, comportamentos e confortos, não algo fechado ou de leitura imediata. Ângulos, luzes e materiais vão se revelando à medida que o visitante experimenta a casa: a escada de aço dobrado como origami, a lareira “alentejana” com base preta, a varanda com fogão a lenha, as paredes caiadas, o piso de pedra Goiás, a cerca de bambu… tudo sob a intenção declarada de evocar a infância nas fazendas de Minas. Ferraz resume: “É uma planta muito racional, com soluções de roça, mas urbana.”
Mas é num trabalho de cunho histórico em São Paulo que um dos projetos mais importantes do escritório começa a ocorrer: a criação da Praça das Artes. Junto ao vale do Anhangabaú, ao lado da avenida São João, atrás do célebre Conservatório um dia dirigido pelo escritor Mario de Andrade, Ferraz e Fanucci planejam um amplo boulevard que terá numa das extremidades uma torre para a sinfônica, os corais e o corpo de baile, com salas de ensaio, e as escolas de música e dança municipais, além de museu e restaurante, tudo em concreto pigmentado. A praça terá árvores e quiosques, num total de cerca de 30 mil m². Prevista para o final de 2011 também, a obra tem a vocação de um marco na recuperação do centro histórico da cidade, até por não ser a mera criação de um equipamento cultural – e sim um espaço entrelaçado no tecido social. “Arquitetura não pode ser moda, pois as obras ficam para as futuras gerações.”
Na visão de Ferraz, à atividade da arquitetura é inerente a preocupação tanto com o ambiental quanto com o cultural. “A boa arquitetura sempre foi sustentável”, afirma, sem negar que novos procedimentos – como os necessários para obter o certificado LEED, uma espécie de “selo verde” para construções que economizam energia, reutilizam água e adotam outras medidas que zelam por recursos naturais – têm grande importância. “Se você pensar no brise-soleil, que reduz a incidência direta do sol, terá um exemplo. A boa arquitetura sempre procurou evitar excessos, sempre procurou trabalhar com métodos duráveis e de fácil manutenção. No Brasil, então, o clima agressivo, com muito sol e umidade em diversas regiões, uma coisa nunca se separou da outra.” Ferraz cita nomes como Lúcio Costa e Lelé (João Filgueiras Lima, arquiteto de hospitais da rede Sarah) como exemplos por sua preocupação com a circulação de ar – o que inspirou o Brasil Arquitetura em soluções como a do Museu do Pão, em que aberturas quadriculadas permitem que o vento entre no prédio por baixo e saia por cima, permitindo a troca de ar.
Sobre esse compromisso amplo da arquitetura, ele faz outra observação interessante a partir do trabalho de sua mentora. “O belvedere que Lina fez no Masp, para que as pessoas tivessem uma vista para a cidade abaixo, nunca foi seguido. Não há na avenida Paulista inteira nenhum outro prédio que seja suspenso. São todos fechados, como uma estufa de vidro. Não se abrem ao espírito público.” Em tudo que fazem e farão – o que deve incluir ainda um museu de antropologia brasileira e uma fundação para a obra de Luiz Gonzaga, rei do baião – Ferraz e Fanucci se pautam por essa herança deixada por Lina. É seu maior patrimônio.
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