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Daniel Piza

31.agosto.2009 07:46:16

Bolas perdidas

É comum no futebol que um clássico muito esperado acabe frustrando porque os times entram tensos, mais preocupados em não errar do que em ousar, “estudando” o adversário em vez de golpeá-lo. Mas ontem São Paulo e Palmeiras exageraram… Foi uma partida monótona em sua correria, com muitas faltas e passes errados – ou seja, uma tradução completa das características do atual Brasileirão. Para não ser injusto, no primeiro tempo Dagoberto fez alguns bons lances, com movimentação e toques de primeira, embora tenha mais uma vez falhado nas finalizações; depois cansou. No Palmeiras, com Cleiton Xavier sem muitas condições físicas, Diego Souza foi quem mais perdeu bolas. Mas o resultado foi bom para o líder, que jogou no Morumbi, continua 3 pontos acima do Goiás e agora terá Vagner Love.

No sábado vi a goleada do Inter de Milão sobre o Milan. Leonardo vai sofrer como técnico de um time envelhecido que perdeu a referência de Kaká. Nesta, Pirlo, Gattuso (estranhamente perdoado pelos comentaristas depois de ter sido expulso por duas faltas violentas) e Seedorf, grandes jogadores, já não dão conta. Ronaldinho Gaúcho? Ninguém viu em campo. Por ordem de Berlusconi, Leonardo o escalou no ataque, ao lado de Pato, onde desaparece entre os zagueiros porque só sabe jogar com a bola no pé. Saiu muito vaiado. Já a Inter não sentirá falta do grande Ibrahimovic. Com Etoo, Maicon, Milito, Lúcio e os demais, é o melhor elenco do país.

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Baptistão

Eis uma expressão que sempre me incomodou, “natureza humana”, embora, por falta de melhor, tantas vezes a tenha usado. Dos anos 90 para cá, houve o retorno de uma intensa discussão sobre o que ela significa, à vista da realidade moderna e de descobertas em tantas áreas como a neurologia e a genética. Lembro sempre a reação do grande biólogo Stephen Jay Gould ao simplismo da definição dada por Edward O. Wilson, um dos teóricos da sociobiologia (da qual mais tarde se afastou), de natureza humana como “um conjunto de predisposições genéticas”. Contra essa noção estanque, outros estudiosos como Matt Ridley, em O Que Nos Faz Humanos, já mostraram que nosso estoque de genes pode ser ativado ou desativado e até transformado ao longo da interação com o ambiente, em combinações de fatores em diversos graus. Do outro lado, psicólogos como Steven Pinker atacaram o ultrarrelativismo das ciências humanas, que lidam com o ser humano como uma folha em branco a ser preenchida por condições sociais e econômicas.

No Brasil, infelizmente, esse modo de pensar tem sido dominante. Nossa intelligentsia tem desprezo pela inteligência científica. Poucos se informam sobre essas novidades do conhecimento, como se o escaneamento cada vez mais refinado das atividades cerebrais não tivesse importância alguma. Lê-se mais Marx que Hume, mais Weber que Popper, mais Habermas que Ramachandran. E só pode ser por isso que até agora não se encontravam em nenhuma livraria os ensaios de um autor como Thomas Henry Huxley, de quem a editora Unesp acaba de publicar três Escritos sobre Ciência e Religião. Tal lacuna era penosa, primeiro, porque ele foi um dos grandes estilistas da língua inglesa, modelo maior do virtuosístico H.L. Mencken; segundo, porque é o pai do conceito de “agnosticismo”. Há quem pense que o agnóstico é apenas um cara que diz “não sei se Deus existe”, em contraste com o ateu, “Deus não existe”. Mas agnóstico, para Huxley, é o sujeito que não acredita em eventos sobrenaturais, como Deus e como a vida pós-morte. É um cético, um sem-religião, um antidogmático, que não quer ser convertido nem converter.

Infelizmente seus textos mais célebres, como Agnosticism & Christianity e seu histórico debate com o bispo Wilberforce sobre as ideias de Darwin não estão no belo livreto, bem traduzido por Jézio Gutierre. Mas a clareza e beleza do estilo estão ali, as ideias sobre conhecimento natural, a oposição ao dito “humanismo” dos primeiros pensadores protestantes (“bem distantes de desafiar mesmo os mais irracionais dogmas do sobrenaturalismo medieval”). E o texto final, Ciência e Cultura, antecipa o movimento atual da “terceira cultura” ao discordar da visão de Matthew Arnold de que cultura é apenas “saber o melhor que tem sido pensado e dito no mundo”, como se fosse apenas literatura e não ciência, acúmulo e não experimento. Huxley tem os problemas de sua época, como a associação unilateral entre biologia e moral, presente também em Darwin, e que então terminava sempre em discurso racial. Mas não se ganha nada ignorando as qualidades tão modernas de sua mente.

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O ponto que mais tem passado despercebido no centenário de morte de Euclides da Cunha é, justamente, sua relação com a natureza. A razão para isso talvez seja o fato de que sua obra é analisada quase somente por literatos, raramente por cientistas. Euclides buscava, sim, o tal “consórcio entre ciência e arte”, mas, como disse a respeito do lema “ordem e progresso”, a prioridade é do primeiro conceito. Seu ídolo maior, como o de Darwin, era Humboldt, o naturalista viajante que escrevia com uma espécie de ciência lírica sobre geologia, flora e fauna. Só que a isso Euclides adicionou pensadores positivistas (como seu professor Benjamin Constant) e social-darwinistas (como Herbert Spencer); e do polonês Gumplowicz tirou a conclusão de que a luta de raças, não a de classes, é que era a “força motriz da história”. Diante dos fatos, porém, precisou reformular sem negar tudo isso.

A descrição de tal mistura de influências, embora exagere na atribuição de algumas (Gustave Le Bon, o da “psicologia das multidões”, por exemplo), é a melhor parte da biografia que será lançada daqui a duas semanas, Euclides da Cunha: Uma Odisseia nos Trópicos, de Frederic Amory, pela Ateliê Editorial. A melhor biografia de Euclides até aqui era a de Sylvio Rabello, de 1966… Foi preciso que viesse um autor americano, infelizmente morto em janeiro passado, e organizasse melhor os fatos e pensamentos do brasileiro. Por outro lado, Amory se dedica pouco ao contexto histórico, às suas relações de amor e ódio com a pátria, às idas e vindas republicanas. E com isso – pois conceitos e fatos se interpenetram – não vê que Euclides nunca foi exatamente um “cientificista”, pois se dizia também um homem de fé, panteísta e romântico.

Euclides, principalmente a partir de Canudos, se desesperou com a solução das divergências entre seu determinismo e seu nacionalismo. Na guerra viu que sua noção de raças inferiores estava equivocada, mas não porque não houvesse raças inferiores nem muito menos porque a tal raça inferior é que era superior. O que ele viu nela foram aspectos positivos que outra raça não tinha. E que outra raça era esta? Os “mestiços litorâneos”, mais degenerados, menos íntegros em termos étnicos. Euclides admirou nos sertanejos as qualidades que ele não via nessa “civilização de empréstimo” que encontrava no litoral, sobretudo o estoicismo moral e a bravura física. Para recuperar essas qualidades perdidas, Euclides se dissociou dos outros racistas da época, que não viam qualidade em quem não era branco, e defendeu a incorporação daqueles “isolados” caboclos ao progresso nacional.

E qual foi o modo que encontrou para sustentar seu argumento? Uma metáfora geológica: aquela camada retardatária poderia ocupar uma posição à frente de novo, já que a terra está sempre em transformação. Aos líderes brasileiros caberia esse papel de civilizar os bárbaros, aliando sua fibra resistente à sensibilidade culta. Quando vai à Amazônia, Euclides novamente defende a ideia de que apenas os “caboclos rijos” seriam capazes de se adaptar ao ambiente volúvel e perturbador da jovem floresta pluvial. Escreve com todas as letras que eles “não são efeitos do meio; surgem a despeito do meio”. Para apontar à nação qual seria seu futuro grandioso, cria um determinismo heterodoxo; nunca deixa de considerar o meio em primeiro plano, nem abandona a visão racial, mas valoriza a ação humana, a superação dos limites com o apoio dos ideais. Ou aceitamos Euclides em sua complexidade, ou não o entenderemos.

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Talvez esteja chegando a hora de ver a natureza humana com a mesma variedade da natureza exterior, com seus díspares e plurais ecossistemas, com suas formas visíveis e invisíveis, com suas competições e colaborações entre espécies. E não mais uma unidade só, criada toda no mesmo dia.

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29.agosto.2009 09:10:01

Cercear os erros

Recebo carta do senador Arthur Virgílio porque na coluna da semana passada, sobre a falta de ética dos políticos brasileiros, escrevi que “o PSDB segue nulo, sem moral nenhuma para se opor aos descalabros, porque também sempre cevou as oligarquias e porque nomes como Eduardo Azeredo, Arthur Virgílio e Yeda Crusius esbanjam semelhanças, para dizer o mínimo”. Ele diz que denunciou seis vezes José Sarney ao Conselho de Ética e que não se dobrou às ameaças. Quanto às acusações que o envolveram, afirma que foi um amigo que, sem que soubesse, recorreu a Agaciel Maia para cobrir despesa de R$ 10 mil em Paris, via Banco do Brasil, e que também já ressarciu ao Senado os R$ 328 mil que um funcionário de seu gabinete recebeu enquanto cursava mestrado no exterior. “Tenho um passado e um presente limpos”, escreve o senador.

Feitos os esclarecimentos, não posso deixar de lembrar que meu texto era sobre a necessidade de ver “nuances e perspectivas”, tanto é que escrevi que “Gabeira não é um Sarney”. E, como qualquer outro cidadão, espero que os demais acusados também devolvam as verbas usadas irregularmente, por ser essa uma obrigação mínima, não um orgulho extra. O erro maior, porém, persiste. Que um parlamentar não tenha visto problema em manter um funcionário público estudando no exterior à custa do erário é o ponto. Ou só quando um escândalo vem à tona é que a premissa do Estado como “coisa pública” tem chance de prevalecer? É melhor, sim, ver um erro reconhecido. Mas precisamos, acima de tudo, cercear a facilidade com que são cometidos.

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Depois de ler um artigo (em inglês) muito interessante assinado por David Rothkopf na Foreign Policy (via Aldaily) sobre as crises geopolíticas ambientais que esperam o mundo, fiquei pensando naquelas que esperam o Brasil. Rothkopf, consultor na área de clima e energia, lista cinco pontos de tensão, num futuro mais breve do que muitos imaginam, e que já envolvem o Brasil:

1) Protecionismo verde. Barreiras comerciais contra países menos rigorosos nas leis ambientais e/ou com alto índice de emissões de poluentes – como a China – já começam a causar conflito entre países desenvolvidos e emergentes.

2) Ascensão e queda do petróleo. Daqui a 20 anos o planeta ainda será dependente em 75% da energia vinda de petróleo, carvão e gás natural. O petróleo está cada vez mais escasso e, logo, mais caro. Esse estado entre o apogeu e o declínio (como Jared Diamond descreveu em Colapso) pode ser, em vários sentidos, explosivo em países como a Rússia, que pode “recorrer” aos fragmentários vizinhos da Ásia Central.

3) Ressurgimento da energia nuclear. Não há como reduzir a dependência de combustíveis fósseis – e portanto o aquecimento global – sem o aumento da fonte nuclear (como James Lovelock já observou). A energia nuclear é mais barata e eficiente, mas o armazenamento do lixo tóxico ainda é vulnerável e há o risco de que países politicamente radicais desenvolvam armamentos e estes caiam nas mãos de grupos terroristas.

4) Guerra das águas. Num planeta onde 1,1 bilhão de pessoas não têm acesso a água limpa, com tendência a piorar, ela se torna um bem cada vez mais valioso. Energias renováveis também precisarão de mais água. Mas cobrar por ela em países com grande população pobre, como a Índia, também leva a novas tensões geopolíticas.

5) Bateria de lítio. Os carros elétricos voltaram à moda não mais como promessa, pois milhares de unidades já têm sido vendidas em países desenvolvidos. Mas a bateria de lítio, usada também em computadores e celulares, depende de uma matéria-prima concentrada em 3/4 no deserto do Atacama, na fronteira entre Bolívia e Chile.

Rothkopf não está sendo alarmista nem nada, embora esses cenários geopolíticos costumem adotar essa ênfase. Está chamando atenção para problemas concretos com enormes chances de agravamento nas próximas décadas. No Brasil, há tensões análogas, tanto internas como externas, que deveriam já estar em debate – e talvez apareçam na campanha de 2010, até por causa de Marina Silva. Resumindo:

1) Energia – O Brasil, por meio de seu presidente Lula, gosta de se gabar do domínio da tecnologia de biodiesel extraído da cana-de-açúcar, sem precisar de muita irrigação. Mas a descoberta das camadas de petróleo pré-sal no litoral do sudeste mudou o tom do discurso oficial. Assim como os países árabes e a Venezuela, o governo já vê o Brasil como um “player” sério nesse jogo pesado do óleo internacional, embora ainda dependa de importações. Muito, muito dinheiro será necessário para que isso venha a ser realidade, o que um modelo dominado por nova estatal – já que a Petrobras não é suficientemente estatal para os padrões do governo Lula – pode vir a prejudicar. Além disso, o Brasil tem uma rede cada vez mais poluente, pois o mesmo governo investiu alto em termelétricas; a nuclear é ínfima; e concorrentes como os EUA também podem vir a desenvolver tecnologia de biodiesel (até gramíneas estão sendo pesquisadas). O país terá dificuldade em se definir como economia de fontes limpas ou sujas.

2) Carbono – Da mesma forma, o Brasil é o país que possui a maior área da Amazônia, sem falar de outros ecossistemas como o Pantanal, e por isso defende ser remunerado em créditos de carbono. Ao mesmo tempo, o desmatamento acelerado e a poluição gerada por combustíveis fósseis (carvão das termelétricas, petróleo da maioria dos automóveis – e ninguém fala em carros elétricos por aqui) contrapõem essa imagem. O agronegócio tem sido responsável por divisas indispensáveis no comércio internacional, como a venda de soja para a China, e ao mesmo tempo devasta fronteiras em Mato Grosso, Rondônia e Pará, ao passo que as riquezas sustentáveis da floresta – remédios, alimentos e cosméticos, mas também minérios e madeiras – ainda são pouco estudadas. Outro atrito é entre a necessidade de infra-estrutura em regiões pobres muito povoadas (como a caatinga, que exige muito mais obras de irrigação e transporte) e os obstáculos levantados por ambientalistas radicais.

3) Água – Privilegiado nesse recurso natural, no conjunto, o Brasil tem esquecido que ele também tem suas exigências e heterogeneidades. O regime de águas em regiões tão díspares como Amazônia (vítima das enchentes) e caatinga (vítima das secas) implica planejamento, ou seja, conhecimento e capital maiores. Já o acervo extraordinário do aquífero Guarani não sai barato, porque mesmo as usinas nucleares de dessalinização têm custo proibitivo. Investir em pesquisas tecnológicas é fundamental, mas o Brasil ainda é um país que gera pouca tecnologia e onde os pesquisadores estão distantes das empresas.

Tenho certeza de que muitos leitores têm muito a acrescentar.

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27.agosto.2009 08:34:20

Em busca de artilheiros

Com apenas dois titulares, Elias e Jorge Henrique, o Corinthians jogou mal ontem contra o Barueri. O time estava desconjuntado, bagunçado, incapaz de reter a bola; as lambanças dos novatos Balbuena e Paulo André chamaram atenção. Apesar de ter virado o jogo, em bela biaba de Elias no ângulo, o empate não foi mal, pois os corintianos estão à espera de setembro, quando Ronaldo voltar, Defederico estrear, etc… (Defederico, pelo pouco que vi, é boa contratação, porque incisivo e habilidoso, um Douglas com velocidade.) Já o Barueri tem alguns jogadores rápidos e o goleador Val Baiano, mas pouca experiência e qualidade.

Imaginava-se, aliás, que neste ano os artilheiros arrebentariam. Bem, quem fez mais gols até agora foi ele, Val Baiano, com onze – seguido por Adriano, Marcelinho Paraíba, Alecsandro e Gilmar com dez. Mas já se iniciou a 22ª rodada! Artilheiro que se preze tem média acima de 0,6 por partida. Não por acaso o Palmeiras está tentando fechar com Vagner Love. Se ele vier, o líder plausivelmente subirá na bolsa de apostas.

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26.agosto.2009 07:04:23

Árbitros sem juízo

Prezado Joseph Blatter,

Escrevo para o sr. na condição de alguém que convive com futebol desde antes de aprender a ler e escrever, que ainda gosta de bater bola e que costuma ver pelo menos três partidas por semana na TV. E que jamais foi desse tipo de torcedor e comentarista que passa mais tempo se queixando do juiz do que do gol perdido pelo atacante e do frango tomado pelo goleiro. Não levo o futebol tão a sério a ponto de perder o humor ou minha capacidade de admiração. Mas é por isso mesmo que preciso dizer que a má arbitragem tem conseguido tirar meu prazer de assistir às partidas.

Alguém pode argumentar que no passado elas não eram muito melhores; quem ouve os comentários de ex-juízes hoje em dia talvez imaginem que dentro de campo eles jamais faziam lambanças… E há diversas situações no futebol que não são claras – a regra pode até ser, mas a aplicação não é – e que mesmo com câmeras lentas, as quais também distorcem os fatos, continuam não permitindo consenso. Mas é que o mundo mudou, mr. Blatter. E, se quisermos, para melhor.

Não me refiro apenas à tecnologia. Considere outros esportes e a maneira como foram limitando a chance dos erros de avaliação. No basquete e no vôlei, por exemplo, nenhum jogo é realizado sem os juízes de linha. Por que o futebol não pode ter auxiliares nas linhas de fundo? Basta que cada um deles se poste ao lado do gol, na metade oposta à linha lateral onde corre o bandeirinha, ou então numa grua acima (como as das câmeras de TV), para evitar uma série de equívocos. Fico só em dois exemplos do jogo de domingo entre Corinthians e Botafogo: o pênalti cavado por Jorge Henrique e o gol feito por André Lima. Qualquer pessoa atrás da linha de fundo, perto da trave, viu que ninguém nem sequer resvalou no primeiro e que o segundo desviou a bola com a mão.

Com essa medida, os bandeirinhas ficariam mais concentrados em marcar os impedimentos. Afinal, é difícil: o coitado precisa ter olhos de mosca para enxergar ao mesmo tempo o momento do passe e a posição do atacante em relação ao último zagueiro. Por isso, muita gente acha que o impedimento deveria ser abolido. Eu acho que não; temo que o futebol profissional ia perder o desafio tático que o distingue das “peladas”. Já pensou se Romário pudesse ficar parado o tempo todo na área inimiga? Poderia continuar ativo até os 60 anos e triplicar o número de gols de Pelé. Mas os auxiliares poderiam errar menos se só tivessem essa atribuição.

Eis um caso, por sinal, em que a tecnologia ainda é controversa. Se o árbitro assinala um impedimento que não existe, a jogada já parou e, portanto, o prejuízo foi causado – a não ser que o tira-teima seja imediato e dê a chance de reiniciar o lance em sua origem, como se faz no tênis. Nos casos em que se faz um gol irregular, porém, um monitor de TV diante do quarto árbitro ou numa cabine do estádio é suficiente para levar o juiz, via áudio, a revogar sua decisão, como aconteceu informalmente num jogo recente da seleção brasileira. Isso sem falar em outros recursos como o chip na bola. Obrigar os estádios a adotar o gramado em faixas de tom alternado seria útil também.

Outra prática comum a outros esportes, como o futsal, é a punição pelo número de faltas. No Brasil, onde se tem um futebol considerado “técnico”, é corriqueiro ver partidas com mais de 40 faltas! Então por que não punir o time que fizer mais de dez faltas em 45 minutos com, digamos, uma cobrança de falta na linha da meia-lua? Novamente, essa medida reprimiria a violência, aceleraria o ritmo e daria menos trabalho para o juiz.

Talvez o futebol sofra a síndrome de “esporte mais popular do planeta”, o que explica que não aprenda com o exemplo dos outros. Mas tenho certeza de que o sr. não consegue defender plausivelmente a noção de que reduzir os erros de arbitragem tiraria a “graça”. Abraços ludopédicos.

P.S.- Ah, sim, sr. Blatter: o spray para demarcar a posição da barreira nas cobranças de falta, tecnologia autenticamente nacional, funciona!

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Quer dizer então que Zé Sarney ficou irritado com a interrupção do senador Suplicy em seu discurso sobre o centenário de Euclides da Cunha? Bem, Suplicy deveria ter se manifestado antes que seu partido, o PT, sob liderança de Mercadante (aquele que revogou o irrevogável), coordenasse o engavetamento de todos os processos contra o presidente do Senado no Conselho de Ética. Falar depois, ao perceber que a sociedade está indignada, é fácil e conveniente. Mas pelo menos Suplicy falou. Provavelmente, recebeu um sinal do ectoplasma de Euclides, que naquele momento enfrentava tortura maior do que ver os mortos de Canudos ou os piuns de Purus… Diante do massacre do dono do Maranhão ao idioma pátrio, pelo qual tanto trabalhou e prezou, a interrupção foi uma bênção, sem contar o indubitável desprezo que Euclides sentiria por um político que tanto agride o conceito de república.

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24.agosto.2009 07:31:06

Chuteiras aceleradas

Ontem vi primeiro Atlético-PR 1 x 0 São Paulo. Mas ô jogo chato. Foi um festival de passes errados e bolas rifadas. São Paulo sentiu falta de Hernanes, de alguém que desse o rumo e o ritmo da ligação com o ataque. Não por acaso o gol nasceu de uma jogada de meia de Paulo Baier, que conduziu, cortou, passou e depois chegou para concluir o cruzamento. Mais tarde, vi o VT de Corinthians 3 x 3 Botafogo. O juiz, Arilson Bispo da Anunciação (que medo), errou pelo menos três vezes e em lances de gol: marcou uma falta e um pênalti inexistentes para o Corinthians e validou um gol de mão de André Lima. Sobre o desempenho dos times, adivinha o que faltou? Isso mesmo: cadência e criatividade. A bola hoje em dia parece queimar nas chuteiras dos jogadores, que não sabem como controlá-las, definindo quando acelerar e quando desacelerar. Recorro de novo à frase do escritor americano Henry James: produzem muita energia e pouca luz.

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23.agosto.2009 14:44:37

Euclides em tela

Convido aos interessados que assistam hoje às 23h à segunda parte do programa sobre Euclides da Cunha da Globo News. Eis a primeira:

E aqui a participação de Milton Hatoum, Nísia Lima e Francisco Foot Hardman, respectivamente, na mesa sobre Amazônia no colóquio realizado neste jornal no último dia 14:

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Baptistão

Tenho lido e ouvido muitos argumentos sobre a corrupção e desfaçatez da política brasileira que podem cair na mesma paralisia que condenam. É verdade que ver a absolvição de Sarney por seus colegas graças às manobras lulistas soa como o último prego no caixão da moribunda vida pública brasileira, além de perfurar as remanescentes alegações de que o PT é um partido com ética e programa (como tantos articulistas escreveram durante tantos anos e alguns até agora não querem enxergar ou então se comportam como traídos); e é verdade que, como eu disse recentemente, o PSDB segue nulo, sem moral nenhuma para se opor aos descalabros, porque também sempre cevou as oligarquias e porque nomes como Eduardo Azeredo, Arthur Virgilio e Yeda Crusius esbanjam semelhanças, para dizer o mínimo. Mas ignorar as perspectivas e nuances não ajuda nada. Ou sabemos o que não queremos ou nos restará assistir ao velório.

O argumento mais comum, baseado nas evidências mais plausíveis, diz que todos os políticos são corruptos e, portanto, não faz diferença quem esteja lá. Em contraposição, há a frase do grande Eça de Queirós que tem circulado pelos emails: “Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente, e pela mesma razão.” Se essa frequência será de quatro, cinco ou seis anos, e se com uma, nenhuma ou duas chances de reeleição, cada país fará seus testes. Só não tem sentido ficar mais que meia dúzia de anos sem abrir opção real de mudança – a qual certamente não é a do plebiscito periódico que certos autoritários latino-americanos oferecem em sistema quase monopartidário. A premissa da democracia não pode ir parar na mesma vala comum da rejeição.

Outro argumento vulgar é o de que “corrupção existe em todo lugar”, inclusive nos países mais ricos como EUA e Japão. Há um desdobramento um pouco mais sofisticado que chamo de argumento “italiano”: como na terra de Berlusconi, cujo problema não são os bacanais domésticos e sim a sacanagem que faz com as leis e os adversários, no Brasil poderíamos ter uma economia desenvolvida mesmo que a máquina pública seja instável, corroída, obscura. Bem, primeiro é preciso lembrar: o que não existe em outros lugares mais desenvolvidos é essa impunidade, essa tolerância à corrupção, essa cultura contaminada em todas as classes e regiões pela formação paternalista ou antiliberal. Aqui a corrupção não procura brechas: ela dá liga a todo o sistema. Segundo, apenas a ignorância ou a má-fé podem pôr de lado a história antiga e conflituosa da sociedade italiana – onde a cultura de mercado brotou, como mostraram autores como Tocqueville e Trevor-Roper – e seus avanços institucionais.

Há um terceiro argumento, também razoável sob vários ângulos, que deriva dos dois anteriores. Diz que a sociedade brasileira não pode apontar o dedo para seus representantes porque a maioria de sua população também é dada à contravenção, muitas vezes chamada de “jeitinho” (os diminutivos eram indispensáveis nos costumes da casa grande) – desde a propina na porta do estádio de futebol até a sonegação assumida de empresários e latifundiários, desde a “caixinha” para o guarda ou fiscal até a mancomunagem na hora da licitação. Acontece que, mais uma vez, apontar o dedo para seus representantes é uma prerrogativa da sociedade democrática, por mais desigual que seja essa sociedade e por mais imatura que seja sua democracia. Afinal, eles são pagos por nós. E há muitas, muitas pessoas e empresas que são mais corretas e comprometidas do que a politicalha.

Não estou falando apenas que as autoridades, sendo líderes (em tese), são obrigadas a dar o exemplo, como Creonte. Exigir moralidade não é udenismo ou pequeno-burguesismo, ou não deveria ser. É uma parte fundamental daquilo que define uma democracia republicana: a possibilidade de controlar o poder, de monitorá-lo e limitá-lo, por meio de imprensa livre, direitos de cidadania, associações e instituições independentes, e não só de escolhas eleitorais (tanto é que na maioria dos países o voto não é obrigatório). O estado precário dessa rede de vigilância se vê no debate nacional, dividido entre os ufanistas do “país do futuro” e os narcisistas do “isto não tem jeito”, muitas vezes encarnados na mesma pessoa; e sobretudo na incapacidade de pressionar a sério a classe política. Pesquisa do Datafolha, realizada mais de dois meses depois das primeiras denúncias, mostrou que 74% querem que Sarney deixe o cargo; alguns protestos surgiram em ruas e internet; a OAB entrou com representação. Mas Sarney continua. Faltou alguém de dentro gritar “Sai daí, Zé”?

Outro sinal dessa precariedade está na reação à mera menção da palavra “reforma”, especialmente a política. Sempre se invoca a ideia quando a crise está aguda, mas aí vem muita gente – inclusive os que se dizem social-democratas, conceito que implica necessariamente o de reforma – e alega que não dá para fazer tudo, que são muitas coisas e param o país, o Congresso, etc. Ok, então vamos nos concentrar em medidas pontuais que sejam, ora, pontos de virada: 1) Mudar o sistema de suplentes. Que um terço dos representantes não tenha tido votos para estar lá gera uma bagunça de dar inveja a qualquer italiano; 2) Examinar a fundo a proposta de Luiza Erundina de impedir que meios de comunicação – como os jornais regionais de famílias como Sarney, Magalhães, Collor e tantas mais – sejam dominados por políticos; 3) Criar súmula vinculante para impedir decisões de primeiras instâncias que ferem direitos constitucionais, movidas por interesses de compadrio.

Com isso, e fazendo valer as regras já existentes como a proibição ao nepotismo e a fidelidade partidária, se começaria a desmontar uma estrutura arcaica. Precisamos reduzir o poder dos Sarneys e não de pessoas como Gabeira, que cometeu erros e deve pagar por eles, mas que não é um Sarney. É claro que eu, por minhas inclinações pessoais, gostaria de ir mais longe e mudar o sistema partidário, quiçá reduzindo a três legendas (para não ficar no binarismo anglo-saxão); corrigir a proporção representativa (se o Senado serve para o equilíbrio federativo, por que a Câmara privilegia tanto os estados menos desenvolvidos?); adotar o voto facultativo, cancelando também a propaganda partidária gratuita fora de período eleitoral. Mas é preciso trabalhar no terreno do possível. Ou a lama nos enterra.

(“Sinopse“)

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