Viajo amanhã e só retorno a este blog no dia 11/1. Feliz 2010 a todos.
Foi aqui, nesta escada de três degraus, no alpendre da casa grande do Engenho Massangana, que um menino de oito anos, chamado Joaquim Nabuco, viveu um “quadro inesquecido”, a “primeira impressão” de um sentimento que determinaria sua vida. Era 1857. Um negro fugitivo de 18 anos veio em sua direção, se jogou aos seus pés e implorou para que pedisse à madrinha, Ana Rosa Falcão de Carvalho, que o comprasse, livrando-o dos castigos de seu dono. Até aquele momento, escravidão era um fato natural na rotina do pequeno Quincas, filho de um senador do Império, e os negros eram serviçais gentis com quem partilhava as rezas na capela, onde murmuravam cânticos e pareciam formar – segundo a imagem que descreveria no livro Minha Formação, muitos anos depois – uma pintura de Millet, um cenário de camponeses em paz com a natureza.
Nesse capítulo do livro, “Massangana”, algumas das mais belas páginas da prosa brasileira, foi que Nabuco escreveu sua frase mais famosa: “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil.” Confessando nostalgia daqueles tempos de infância e religiosidade, em que mamou leite dos seios das escravas e não da mãe, ele apontou como produtos dos séculos de opressão racial alguns traços brasileiros como a “alma infantil”, o “silêncio sem concentração”, as “alegrias sem causa”. Também observou que tal suavidade seria exclusiva de algumas propriedades antigas do Norte e que não era mais possível, depois da abolição de 1888, pela qual lutou com todas as suas forças. Infelizmente, por intérpretes como Gilberto Freyre, essa suavidade foi vista como virtuosa, sem defeitos como a infantilidade e a desconcentração, e de alcance nacional e perene.
Nabuco, no entanto, não tinha desculpas para o atraso; ainda menino, lia e relia livros como A Cabana do Pai Tomás, chorando, e sonhava combater a escravidão como sua maior missão. Na parede de um dos corredores da casa onde viveu sua infância, foi afixada outra frase sua, que diz que não se podem separar duas questões, “a da emancipação dos escravos e a da democratização do solo”. Depois de deixar Massangana, aos oito anos, e ir para o Recife estudar, mais tarde cursando Direito em São Paulo, passando um período em Paris e enfim se estabelecendo como advogado e jornalista no Rio de Janeiro, Nabuco se dedicou a conhecer o assunto como ninguém. Aprendeu, por exemplo, que nos EUA o fim da escravidão foi seguido pela colonização de suas vastidões, com direito à posse de terras, e passou a defender o mesmo para o Brasil.
Cem anos depois de sua morte, em 17 de janeiro de 2010, uma visita ao Engenho Massangana, que se localiza no município de Cabo de Santo Agostinho, a 48 km da capital, e pertence à Fundação Joaquim Nabuco, revela que nem tudo mudou como queria que mudasse. Enquanto a casa grande e a capela são restauradas, para converter o local num centro cultural e turístico, a vila Massangana – à qual se chega atravessando o poluído riacho de mesmo nome e caminhando menos de cem metros pela mata – não sabe como será seu futuro. Nabuco, diante da mesma situação, ficaria sinceramente interessado na situação carente dessas pessoas que moram em suas antigas terras, então ocupadas pelos canaviais que descreve com saudades em sua autobiografia.
Com cerca de 3.500 habitantes, a vila foi se formando nas últimas décadas em torno do crescimento industrial da região, que fica na zona portuária conhecida como Suape, no litoral sul de Pernambuco (do engenho ao porto são apenas 2 km de distância). Na maioria os adultos são negros ou descendentes de negros e trabalham em serviços temporários na Refinaria Abreu e Lima – que pode ser vista no horizonte de quem está no mesmo alpendre, hoje sem coberta, onde Nabuco teve sua primeira impressão da dor dos escravos – ou então numa das outras 70 empresas já instaladas.
Na maioria, igualmente, os moradores não são donos dos terrenos, que fazem parte do complexo industrial ou então são de propriedade de algumas famílias tradicionais de latifundiários. Por isso mesmo, temem ser expulsos em breve. “Não sabemos onde isso vai parar”, eis como define a situação do povoado Alexandre de Souza, 42 anos, que é administrador do Engenho Massangana, portanto funcionário da Fundaj. Casado, sem filhos, neto de um negro que trabalhou em engenhos de açúcar na região, Alexandre nasceu em Ipojuca e se mudou há cinco anos para a vila, onde mostra a casa de tijolos que está terminando de construir. Veio “em busca de tranquilidade”, segundo ele mesmo; as duas cidades mais próximas são aquela onde nasceu, Ipojuca, com 40 mil habitantes, e a própria Cabo de Santo Agostinho, com cerca de 100 mil.
O polo naval do Suape foi criado no regime militar, mas vem crescendo rapidamente nos últimos anos, como se nota pela quantidade de obras ao redor, em especial da Petrobras. China e Holanda estão entre os países que planejam construir estaleiros no Suape. Num material informativo do próprio engenho, lê-se que a região conta atualmente com 44% dos investimentos estaduais, mais do que o destinado à Grande Recife. A menos de 30 km estão atrações turísticas como Porto de Galinhas, também em veloz crescimento, com pousadas, resorts e até ilhas sendo adquiridas por grupos espanhóis, portugueses e holandeses, o que tem multiplicado o valor das terras.
Alexandre e os outros habitantes contam que há rumores de que “pretendem tirar a vila daqui”, para que se possam expandir as indústrias. Observa que já há uma estrutura urbana, ainda que precária. Os habitantes montaram uma associação de bairro, e a vila tem fornecimento de água – que, segundo eles, jamais falta, ao contrário do que ocorre em outras regiões de Pernambuco – e ônibus que chegam do centro de Cabo de Santo Agostinho a cada meia hora. Tem também três igrejas, evangélicas, e quatro restaurantes. Na rua principal, uma larga avenida de terra com lixo espalhado e uma praça tomada por capim e lama, fica também uma pequena escola. Nome: Escola Municipal Joaquim Nabuco.
O abolicionista, que sempre insistiu que a libertação dos escravos devia ser acompanhada de uma cruzada de alfabetização, gostaria de ver seu nome aqui, pintado em letras azuis sobre a parede branca. A escola foi criada há cerca de 20 anos, mas durante o primeiro decênio funcionou nas próprias salas do engenho. Depois foi instalada integralmente na vila, onde hoje estudam 289 alunos. É administrada por duas animadas gestoras, Loide Maria da Silva Aguiar e Maria José Ramos, que sucederam outra Maria, Maria Gonçalves da Silva, que também está ali cuidando dos enfeites natalinos, entre os períodos da manhã e da tarde. Embora forme apenas uma dúzia de alunos no nono ano do ensino fundamental, elas defendem o papel da escola naquela comunidade.
Loide, cuja mãe era merendeira da escola, estudou ali e depois foi fazer ensino médio no Cabo. Chegou a ter aulas no engenho e diz sentir falta da relação entre ele e a comunidade da vila. Conta também que a escola dá atenção especial à figura de Nabuco, “homem que viu tudo que o Brasil precisava”. Ela também diz ter medo de que sejam expulsos dali. Como Alexandre, acha que haverá resistência caso isso aconteça e que será necessário “conversar muito”, se for o caso de sair, mesmo que haja indenização. Sabe que pode até haver razões de saúde para tanto, já que a região se industrializa cada vez mais e a vila não está numa área de proteção ambiental. Mas diz que seria “muito ruim” ser transferida para longe e lembra que a vila não para de receber mais gente. E completa: “Para nós, agora, é ou sai ou cresce.”
Engenho deve se tornar centro cultural
Tombado como patrimônio histórico em 1984, com o nome de Parque da Abolição, o Engenho Massangana está praticamente inativo há seis anos. Por isso, a Fundação Joaquim Nabuco, que o administra, começou a fazer uma reforma para reinaugurá-lo em 2010, ano comemorativo do centenário de morte do escritor. Ele tem uma área de 10 hectares, a casa grande, a capela e uma construção dos anos 1920, um “arruado” que já serviu de alojamento para pesquisadores e hoje abriga uma moenda de açúcar, utilizada no filme Abril Despedaçado, de Walter Salles, e doada pela produção.
A casa grande não é assim tão grande, com 765 m², e parte da relativa imponência que se vê nas fotos antigas se perdeu porque o alpendre já não tem cobertura e também as esculturas clássicas que ladeavam a escadaria da entrada. Responsável pelo restauro, o arquiteto Ronaldo Lamur conta que é muito difícil estabelecer o que é original e o que não é, como os pisos, os azulejos e as cores. A mobília foi levada embora e está dispersa pelas casas dos seis netos de Nabuco no Rio de Janeiro. No pórtico, a inscrição é posterior ao período em que ele viveu aqui: “Paulino Pires Falcão mandou edificar em 1870.”
Lindene Araújo, da Fundaj, mostra o projeto de recuperação do engenho, que pretende convertê-lo em uma espécie de centro cultural, dedicado aos estudos da cultura da cana-de-açúcar, da abolição e da obra de Nabuco, com espaços para cursos, exposições e eventos na capela e no parque. A primeira fase, o restauro propriamente dito, tem custo de R$ 600 mil, bancado pela própria Fundaj, e se completa em meados de 2010. As demais fases exigem levantar mais R$ 5,4 milhões. Não devem ser concluídas no Ano Joaquim Nabuco.
Programação destaca exposição e seminário
O Ano Nabuco tem como destaque uma exposição que já passou pelo Rio de Janeiro, Joaquim Nabuco – Brasileiro, Cidadão do Mundo, está em cartaz em Brasília e deve ir a outras capitais ao longo dos próximos meses; a São Paulo deve chegar no segundo semestre, no Museu da Língua Portuguesa. Ela reúne objetos, fotos e documentos que resumem sua carreira como abolicionista, autor e embaixador. A abertura oficial do ano comemorativo, que já tem um selo próprio, será apenas em 11 de março de 2010, quando a exposição desembarca no Recife, provavelmente no Espaço Cultural Banco Real. Antes, na data de sua morte, 17 de janeiro, a programação definitiva será divulgada, assim como um concurso para premiar trabalho de estudantes do ensino médio, programas educativos de TV e livros em quadrinhos.
O ápice das comemorações está previsto para agosto, quando a Fundação Joaquim Nabuco e a Academia Brasileira de Letras realizam um seminário internacional sobre o tema, com participantes ainda não definidos. O calendário do mês prevê também a publicação das obras completas, com os 14 volumes da edição clássica mais dois livros descobertos mais tarde (Minha Fé e A Abolição), a cargo do estudioso Humberto França – mas sem os Diários publicados em 2006 (Topbooks) nem a totalidade das cartas. Ainda assim, segundo Lucila Bezerra, da Fundação Joaquim Nabuco, não há certeza de que o trabalho será concluído a tempo. Para 20 de novembro, dia da Consciência Negra, está programada a reabertura oficial do Engenho Massangana.
Quincas, o Belo e suas faces
Com quase 1m90 de altura, vastos bigodes terminados em arabescos, olhos claros e uma oratória imbatível mesmo em tempos de culto à oratória, Nabuco ganhou o apelido de “Quincas, o Belo”. Para a autora do perfil Joaquim Nabuco (2007), Angela Alonso, um dos raros livros biográficos desde o clássico escrito pela filha do abolicionista, Carolina, esse porte aristocrático determinou a posição eminente dele na campanha iniciada em 1880. Mas, como se vê nos diários e nas cartas recentemente trazidos à luz, Nabuco trabalhou duro pela causa, inclusive em países como Inglaterra, França e EUA, e entendeu como poucos a importância de não atrelá-la a agendas políticas.
Monarquista, ele sabia que a demora em decretar a abolição estava custando a credibilidade do regime de Dom Pedro II. Mas deixou de lado a conjuntura para lutar por aquilo que julgava acima de paixões partidárias: a primeira e a última razão para liquidar a escravidão era a “dignidade humana”. Formado em Direito em São Paulo e no Recife, fluente em inglês e francês, jovem poeta e crítico que comprou briga até com o consagrado José de Alencar, Nabuco decidiu aos 30 anos que se concentraria na luta pela abolição em prejuízo de qualquer outra carreira, principalmente a política. Mesmo sem dinheiro, que vinha de outro líder do movimento, André Rebouças, Nabuco fez o possível para divulgar suas ideias e transformá-las em lei.
Vitorioso, partiu para outro campo em que se destacou com igual brilho: a literatura. Com sua prosa ao mesmo tempo maviosa e contundente, nostálgica e idealista, escreveu livros como Um Estadista do Império, sobre a carreira de seu pai, o senador Thomaz Nabuco de Araújo, e outros funcionários públicos de alto escalão e padrão que se destacaram no Legislativo e Executivo; e Minha Formação, suas memórias, que misturam reminiscências da infância com viagens de esteta e a campanha da abolição. Faria ainda diversos livros de ensaio político, como Balmaceda, sobre o Chile, e os Pensamentos Soltos, com aforismos em que mostra seu apego à religião católica.
No último decênio de vida, voltou à esfera pública ao se tornar embaixador do Brasil em Washington, onde fez um trabalho – considerado pioneiro por intelectuais do Itamaraty como Rubens Ricúpero – de aproximação entre Brasil e EUA. Foi, enfim, essa raríssima figura de homem público que ficou acima de rótulos ideológicos e escreveu prosa de primeira grandeza.

Numa carta de 31 de maio de 1883, Joaquim Nabuco (1849-1910) escreveu que tinha prometido fazer da vida um protesto contra a escravidão, “nada querendo dela, esperando como os escravos o meu dia”. O dia da Abolição veio, quase cinco anos depois, e daqui a quatro dias o que vem é o Ano Joaquim Nabuco, uma série de eventos e lançamentos para celebrar o escritor, jornalista, advogado, diplomata e líder mais hábil e vistoso da campanha abolicionista. Cem anos depois de sua morte, ele ainda é um personagem pouco publicado e pouco estudado em contraste com sua importância – ou com a de outros recentes homenageados, Machado de Assis (2008) e Euclides da Cunha (2009), dois amigos e companheiros da Academia Brasileira de Letras.
Nabuco ainda está à espera do dia em que toda sua obra estará integralmente disponível nas livrarias. A carta citada, por exemplo, permanece inédita em livro e foi encontrada pelo Estado ao lado de muitas outras nos arquivos da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), no Recife, responsável pela programação do ano. É endereçada ao Dr. Ubaldino Amaral, que havia criticado o fato de Nabuco não viver no Brasil àquela altura, depois de ter deflagrado – na companhia de André Rebouças, José do Patrocínio e outros – o movimento pela Abolição em 1880, com a fundação da Sociedade Abolicionista Brasileira. Nabuco explica a Amaral que estava no exterior “trabalhando para viver” e propagando suas ideias, elaborando inclusive os textos do livro que vai intitular Abolicionismo. Também reafirma a importância de manter sua independência política e financeira, em nome da causa maior.
Outra carta inédita que a Fundaj digitaliza no momento, de 15 de fevereiro de 1888, ano em que a Lei Áurea é finalmente assinada pela princesa Isabel, confirma o papel de Nabuco na articulação internacional do movimento: ali ele conta ao senador francês Victor Schoelcher que havia estado pessoalmente com o Papa Leão XIII e que contava com a opinião pública francesa para pressionar o Brasil a decretar o fim da escravidão. Como sempre em Nabuco, as cartas são muito interessantes porque investidas de sua determinação histórica e de sua prosa estilosa. “A nação quer se purgar de sua vergonha e de seu crime”, escreve ao parlamentar francês. E associa a Abolição brasileira de 1888 à Revolução Francesa de 1789: para Nabuco, o fim da escravidão não era apenas a extinção de uma segregação racial, mas também a oportunidade de dar aos brasileiros os princípios de cidadania.
Pouco depois, porém, seus medos recrudescem. Em outra carta inédita, de 2 de janeiro de 1889, Nabuco, que se diz um “liberal monárquico”, critica os republicanos por seu ódio racial, pois “falam abertamente em matar negros como se matam cães” e parecem querer uma guerra civil no Brasil pós-abolição. Nabuco, em realidade, esperava que a princesa Isabel levasse o Brasil para o Terceiro Reinado, sucedendo a Dom Pedro II, e não admitia que os brasileiros pudessem querer a república em lugar da monarquia. De fato, os primeiros anos da República pareceriam confirmar parte de seus receios, pelo autoritarismo militar; ao mesmo tempo, não trouxeram esse velho temor dos conservadores brasileiros, a guerra civil e o esfacelamento do país em distintas nações, como havia ocorrido nos vizinhos que adotaram o regime.
O quarto documento obtido nos arquivos pernambucanos é um manuscrito de um discurso feito na Argentina. Não está datado, mas é certamente posterior a 1888, porque nele Nabuco se refere à vitória sobre o “feudalismo escravista” e afirma que a causa abolicionista faz parte de uma utopia, a “paz americana”, celebrando assim o ânimo futurista do Novo Mundo. Aqui já temos o estado de espírito do Nabuco tardio, que, graças ao Barão do Rio Branco, se reconciliou com o governo e assumiu a vaga de diplomata em Washington em 1905. Também se reconciliou com suas raízes religiosas, que datam de sua infância no Engenho de Massangana, em Cabo de Santo Agostinho, a 48 km de Recife, engenho que está em reforma para o ano comemorativo e foi visitado pelo Estado.
Das mais de 700 cartas escritas por Nabuco, cerca de 450 foram coligidas por sua filha Carolina e publicadas em dois dos 14 volumes de suas Obras Completas (não tão completas assim), publicadas pela Ipê em 1949. Entre outros volumes de cartas de Nabuco estão as que trocou com Machado de Assis, prefaciadas por Graça Aranha (recentemente reeditadas pela editora Topbooks), e com os abolicionistas britânicos, organizadas por Leslie Bethell (mesma editora). Há, portanto, muitas dezenas de cartas inéditas em livro. Felizmente, boa parte estará disponível em acervo digital em 2010. O próprio Nabuco gostaria de ver esse dia chegar, graças à liberdade de uma ideia chamada internet.
INÉDITOS
1. ‘FAZENDO DA MINHA VIDA TODA UM PROTESTO’
LONDRES, 31 DE MAIO DE 1883
Meu caro Dr. Ubaldino Amaral,
Li a Gazeta da Tarde de 24 de abril com toda a atenção devida a observações suas sobre um correligionário político (digo correligionário porque ambos subordinamos tudo ao Abolicionismo e nesse sentido fizemos dele uma religião política). Sinto que as suas conclusões a respeito da minha ausência do Brasil sejam diversas das minhas.
Com a minha organização, estou certo de que não poderia fazer nada pela nossa causa se não me sentisse bem comigo mesmo, e, talvez erradamente (oxalá o fosse – e o seja – porque a convicção ainda continua e ainda é determinante da minha conduta), cheguei a convencer-me de que se me não oferecia em luta com a Escravidão e toda a sua clientela e todo o seu poderio nenhum meio de vida independente, compatível com meus precedentes políticos e a continuação do meu posto de combate, dentro do país. É claro que isso pode mudar de um dia para o outro, mas até hoje não mudou.
Prometi servir à causa da emancipação de dois modos: 1º fazendo da minha vida toda um protesto contra a escravidão, nada querendo dela, esperando como os escravos o meu dia; 2º dedicando o meu trabalha à tarefa de envergonhar os meus compatriotas de aceitarem ainda neste período da história aquela pirataria.
Para desempenhar-me do primeiro desses compromissos, a ausência do país estando, como estou, trabalhando para viver e não gozando no estrangeiro, é talvez o melhor meio. Para desempenhar-me do segundo continuo a fazer quanto posso (mais do que faria se estivesse aí trabalhando pela vida) para propagar entre os meus compatriotas as nossas ideias.
Apesar de ausente, fui eu que dei o grito de alarme contra o tráfico de ingênuos em Valença, e neste momento estou concluindo a impressão de um volume sobre o Abolicionismo, de cuja distribuição entre o povo brasileiro muito espero. Por esse mesmo motivo não faço tão completa quanto pedia a resposta que lhe devo.
Fique certo de que o meu mais ardente desejo é viver no meu país, onde está o meu futuro e o meu campo de ação, mas que infelizmente não penso dar passo algum sem que seja irrefletido. Pela emancipação deixei a carreira diplomática e inutilizei-me na carreira política. Hoje estou ganhando uma pequena subsistência na imprensa e na advocacia, e não posso lançar-me de novo ao desconhecido que pode ser a dívida, isto é, a prisão do espírito, ou a dependência, ou a necessidade, ou o abatimento moral, exatamente porque tudo isso seria prejudicial não só a mim como à abolição. Compreendo a sua censura, mas não creio que a mereça como se me achasse ausente sem necessidade.
Pus nesta carta a nota de particular somente para evitar a impressão in integrum, mas pode referir-se a ela como queira.
Em todo o caso esse incidente não deixa no meu espírito uma nuvem sequer.
Creia-me, sempre, meu caro Dr. Ubaldino,
Seu amigo, patrício e correligionário,
Joaquim Nabuco.
2. ‘A NAÇÃO QUER SE PURGAR DE SUA VERGONHA’
BERNA, 15 DE FEVEREIRO DE 1888 (EM FRANCÊS)
Sr. Senador (Victor Schoelcher),
Se demorei para dar ao sr. notícias da missão que me levou a Roma, é porque houve um grande intervalo entre a audiência que me cedeu o Cardeal Secretário de Estado e aquela do Santo Papa, da qual dependi todo o resultado da minha missão a Roma.
Estou feliz de lhe informar que o Papa me declarou, repetindo mais de uma vez, que vai endereçar uma Encíclica aos nossos bispos sobre o tema da escravidão e falará no sentido em que eu mesmo me enderecei a ele. Uma tal intervenção junto aos padres católicos não pode determinar senão um grande movimento em favor dos escravos. Não existe outro homem no mundo, meu sr., que levou à raça negra o amor e o interesse fraternal que o sr. levou; receba esta notícia no espírito de reconhecimento e de gratidão com o qual os infelizes escravos certamente a recebem eles mesmos.
Conto estar amanhã em Paris. O sr. poderia me reservar um momento de conversa para depois de amanhã, quarta-feira? Meu endereço é o mesmo, 56 Boulevard St. Michel, na casa de Madame de Rio Branco. Agora a questão para mim é obter uma manifestação da opinião francesa em apoio ao movimento nacional brasileiro, cujo valor moral seja tal que todos os amigos da França em nosso país sejam tão tocados quanto os católicos pelo pronunciamento do Papa. Infelizmente não tenho nada mais que dois dias para obter um resultado tão grande, o qual não poderia ter outro iniciador além do sr., o melhor amigo que a raça negra jamais teve.
O sr. talvez se lembre que os primeiro passos do governo brasileiro em favor dos escravos foram inspirados por uma carta dos abolicionistas franceses de Paris, em 1865, ao Imperador do Brasil. O Imperador, muito liberal ele mesmo, à medida que um monarca pode sê-lo, é muito sensível à opinião do mundo; ao receber aquela carta em que os Guizot, os Laboulaye, os Cochui (?) etc. faziam apelos à sua honestidade, determinou uma iniciativa do governo em favor dos escravos que foi considerada quase revolucionária. O que se seguiu cinco anos depois foi a lei de 1871 que o sr. conhece muito bem, uma lei que os padres receberam como um gesto de traição e de usurpação da monarquia, mas que até então não tocava na propriedade deles, e a duras penas declarou de condição livre os filhos de mães escravas nascidos depois de sua promulgação e dedicados ao cativeiro de fato até a idade de 21 anos. Portanto a lei foi o primeiro golpe, o primeiro conflito, que deveria ter posto em crise perpétua a instituição da escravatura.
Bem, neste momento temos no Brasil uma outra lei que fixa um prazo de 14 anos, a partir de 1885, à escravidão, e a nação inteira quer acabar com ela no espaço de um ou dois anos. Os padres brasileiros, caso único na história, emanciparam seus escravos às centenas e alguns aos milhares e puderam dizer que os que não os fizeram foi porque tinham seus escravos hipotecados com suas terras. Pode-se calcular em centenas de milhões de francos o valor dessas alforrias gratuitas. A nação quer se purgar de sua vergonha e de seu crime.
O Parlamento deve votar neste ano sua lei final. Há apenas um pequeno partido no poder com razões políticas para se opor ao movimento geral que tanto honra o país. Este é o momento em que todos que têm a causa da humanidade no coração deveriam, na França, nos ajudar moralmente com seu interesse e sua simpatia, como alguns ilustres franceses fizeram com todo o lucro e resultado em 1865. Conto, sr. Senador, que da parte da França não nos faltará o contingente moral de que tanto precisamos para assegurar definitivamente a libertação da raça negra no Brasil. Seria a melhor celebração nacional possível de 1789.
Eu peço ao sr. que creia em meus sentimentos devotos e respeitosos e aceite, sr. Senador, todos os meus votos por sua preciosa vida,
Joaquim Nabuco.
3. ‘REPUBLICANOS FALAM ABERTAMENTE EM MATAR NEGROS’
RIO, 2 DE JANEIRO DE 1889
Meu caro José Mariano,
Escrevo para desejar-te um feliz 89, a ti e a todos os teus, maximé a D. Olegarinha.
Tu estás neste momento, meu caro Amigo, numa posição difícil. És positivamente a esperança dos republicanos e o teu pronunciamento teria a importância de uma batalha perdida para a monarquia e ganha para a república. Eu, tu sabes, não tenho ambição política, nada quero nem espero da política hoje que a missão da minha vida está terminada, mas deixa-me dizer-te: Não te enganes! A causa do povo não é a república. Eu vi os teus apartes na Assembleia Provincial na tua antiga veia republicana e fizeste muito bem em defender homens como Maciel Pinheiro e Martins Júnior da suspeita de quererem reescravizar os libertos! Mas qualquer que seja o caráter democrático do movimento no Norte, no Sul ele é uma explosão de despeito e de rancor contra a lei de 13 de Maio.
Organizou-se nesta cidade uma chamada Guarda Negra e no domingo houve um combate entre ela e os republicanos na Sociedade Francesa de Ginástica. Os republicanos fizeram fogo sobre os sitiantes do prédio e dispararam não sei quantos tiros. Isto não promete nada bom, mas o resultado de tudo há de ser o ódio de raça, porque os republicanos falam abertamente em matar negros como se matam cães. Eu nunca pensei que tivéssemos no Brasil a guerra civil depois, em vez de antes, da abolição. Mas havemos de tê-la. O que se quer hoje é o extermínio de uma raça e, como ela é a que tem mais coragem, o resultado será uma luta encarniçada. De tudo isto eu lavo as mãos. Os liberais se subirem hão de ter um papel difícil a desempenhar.
Estou me distanciando muito de ti, não sei mesmo se serei candidato, mas em todo tempo tu terás sempre a amizade sincera do teu companheiro de tantos anos de aspiração generosa pela libertação da nossa pátria. Não teremos outro 13 de Maio! É o amor dos escravos, e o de Pernambuco, as duas paixões da minha carreira política, que me fazem hoje identificar-me com o liberalismo monárquico contra a revolução republicana. Espero ir breve a Pernambuco, mas neste momento não devo sair do Rio – estamos no meio de grandes acontecimentos de sérias consequências. No dia em que te vir passado para a República, como os republicanos esperam, terei pena do pobre povo do qual és um dos poucos sinceros amigos que tenho conhecido e terei pena de Pernambuco!
Adeus, meu caro Amigo. Muitas felicitações a D. Olegarinha pelo ano novo, e para ti um abraço apertado do teu
Sempre certo
Joaquim Nabuco.
4. ‘ABOLIÇÃO FOI UMA ESCOLA DE HUMANIDADE’
(TRECHO DE DISCURSO PROFERIDO NA ARGENTINA, SEM DATA)
A abolição foi uma escola de humanidade. Não se pedia trabalhar nela durante dez anos sem contrair o instinto da fraternidade humana. No dia em que ela se fez houve a explosão da simpatia argentina que vós sabeis. Pois bem, o abolicionismo transformou-se no partida da paz, não que haja um partido da guerra, mas porque era preciso que houvesse um núcleo de homens insuspeitos ao povo que se tornassem no Brasil os advogados da paz, da paz Americana, a paz perpétua entre as nações Americanas.
Era preciso que uma força moral, em um sentido religiosa, em todo sentido divina, que foi a força do movimento abolicionista no Brasil, não se anulasse de repente e para isso era indispensável que ela encontrasse (…) outra grandiosa utopia como se figurava ser dez anos atrás a destruição do feudalismo escravista pela simples ação de uma ideia – pobre, solitária, proscrita. Essa utopia foi a paz continental, alimentada em nossos corações com o sentimento fraternal pelo serviço dos mais desgraçados, dos ínfimos filhos da América, a raça negra, e chamada de repente à vida, à atualidade política, ao período da semeação, pelo fiat (?) do povo argentino ao 13 de Maio de 1888.
É uma utopia, mas que importa? Na América as ideias são como os homens, não precisam de pergaminhos, o colossal quando realizável atrai mais que repele a imaginação, estamos na terra de Edison, que trabalha a eletricidade como uma faculdade criadora que faz pensar. Onde parará o homem – Prometeu vai ser afinal livre…

Como a música é a melhor terapia, foi fundamental para atravessar um ano de crise como 2009. Dizem que os CDs morreram ou morrerão, mas escutei diversos bem vivos, nos variados gêneros, e ainda tive o prazer de tocá-los na Rádio Eldorado todas as manhãs. Em especial as vozes femininas cuidaram de nossa sensibilidade, por mais que se tentem inventar divas a cada semana. Nem vou mencionar o caso de Susan Boyle, em que o marketing de sua figura superou qualquer discussão razoável sobre seus méritos como cantora – até que o CD dela saiu e os que entendem do riscado viram que timbre e vibrato não bastam.
Estou pensando, isso sim, em nomes como Cassandra Wilson, que em Loverly gravou uma das mais belas melodias brasileiras, Manhã de Carnaval; Maria João Quadros, que cantou o Fado Mulato de Zeca Baleiro e outros; Melody Gardot, que também é promissora compositora, em My One and Only Thrill; Sabrina Starke, espécie light de Amy Winehouse, em Yellow Brick Road; ou Jaimée Paul, que releu standards em At Last. O melhor de todos, porque menos convencional, é o de P.J. Harvey com John Parish, A Woman a Man Walked By. Só James Cullum, com The Pursuit, conseguiu representar a classe masculina. No Brasil, os melhores CDs de cantoras que curti foram, pela ordem, Sweet Jardim, de Tiê, Vagarosa, de Céu, e Peixes Pássaros Pessoas, de Mariana Aydar, ainda que nos dois últimos casos a pasteurização dos produtores tenha pesado.
A MPB, na verdade, não é a mesma que já foi, e o mais recente CD de Caetano Veloso é outra prova disso. João Bosco salvou a categoria com Não Vou pro Céu, Mas Já Não Vivo no Chão, em que contém seus batuques vocais, e como intérprete não teve para ninguém além de Ney Matogrosso, com Beijo Bandido. Roberto Carlos, o mais celebrado do ano, fez uma bonita melodia, A Mulher Que Eu Amo, e mostrou que ainda é o melhor intérprete de suas próprias canções, mesmo com os arranjos cafonas de sempre. Outro grau de sofisticação, em composições instrumentais, foi atingido por Luz da Aurora, de Yamandu Costa e Hamilton de Holanda, Miramari, de André Mehmari e Gabriele Mirabassi, e Sertões Veredas, de Gismonti, uma das poucas homenagens dignas a Villa-Lobos no cinquentenário de morte. O cubano Roberto Fonseca fez o mesmo por sua tradição em Akokan.
Como ocorre no mercado editorial, boa parte das melhores aquisições é de clássicos reciclados, principalmente na chamada música erudita, em que apenas In Principio, de Arvo Pärt, se destacou entre compositores vivos. Escutar Daniel Barenboim regendo o Réquiem de Mozart e John Eliot Gardiner a Segunda de Brahms, Nelson Freire tocando Debussy e Martha Argerich e Gidon Kremer o Berlin Recital, a caixa das sonatas de Beethoven por Willhem Kempff ou o CD de Cecilia Bartoli revendo os “castrati” – é para festa, não para nostalgia. O mesmo vale para a compilação de 50 anos da Motown, os 14 CDs dos Beatles, os 12 primeiros de Jorge Ben e os Complete Commodore and Decca Masters de Billie Holiday. E com sua triste morte Michael Jackson teve o “revival” que sonhava conseguir com a turnê que não pôde fazer. O que fica, sempre, é a obra.
P.S. – Show do ano? Radiohead, sem a menor sombra de dúvida.
CADERNOS DO CINEMA
Fomos menos felizes dentro das salas de cinema. O melhor filme que vi foi Bastardos Inglórios, de Tarantino, que consegue coser paródias sem deixar de criar a vivência de uma narrativa. Coraline foi o melhor infantil, seguido por Up, da Pixar, menos ousada em A Princesa e o Sapo. Os brasileiros não contentaram muito, variando entre telefilmes e vanguardismos, ou os que não chegaram lá como Budapeste, de Walter Carvalho, um tanto arrastado, e Salve Geral, de Sérgio Rezende, que deixou a tensão para muito tarde.
A safra do Oscar de 2009 tinha coisas interessantes, como Benjamin Button, inspirado em Scott Fitzgerald, e O Leitor, com a excelente Kate Winslet, além de outros “filmes de ator” como O Casamento de Rachel (Anne Hathaway), O Lutador (Mickey Rourke) e Milk (Sean Penn); decidiram premiar a fantasia demagógica Quem Quer Ser um Milionário. Filmes mais adultos vieram depois, com Gran Torino, de Clint Eastwood, e Abraços Partidos, de Almodóvar. Outros, como A Partida, Horas de Verão, Amantes e Partir, também valeram a pena, mas, repito, se fossem literatura não passariam de um conto mediano, devido à superficialidade ou esquematismo. Ah, sim: Anticristo, de Lars Von Trier, não é menos raso, mas é um tal “grand guignol” que destoa da média. É difícil dar mais que três estrelas para todos esses.
Também como nos livros, a não-ficção continuou ganhando espaço. Documentários como O Equilibrista e sobretudo Entre os Muros da Escola foram os que mais apreciei. No Brasil, o de Simonal também causou interessante polêmica, mas exagerou na defesa dele como cidadão (amigo que era de gente do Dops) e crooner (pois não “roubou” nenhuma grande canção para si).
P.S. – Melhor programa de TV? Som & Fúria, sem a menor sombra de dúvida.
A ARTE DE EXPOR
Um avanço claro neste ano se deu no quesito exposições. O Masp começa a renascer das cinzas graças ao trabalho do curador Teixeira Coelho. No ano da França, teve destaque com a exposição sobre realismo e em especial com o restauro da enigmática tela de Poussin, Hymeneus Travestido Assistindo uma Dança em Honra a Príapo. Mostrou ainda as fotos de Walker Evans e alguns grafiteiros paulistanos. A Faap também caprichou com os Trajes de Cena de Lacroix e sobretudo com Osgemeos, que sabem remeter à situação das pessoas de rua sem o menor apelo sentimental ou retórico, de tão inventivos que são. A Pinacoteca mostrou Léger e Matisse, embora em versão caçulinha, e o mestre francês escolhido pelo Sesc Pinheiros foi Cartier Bresson. Houve ainda Virada Russa no CCBB e, entre os brasileiros, Daniel Senise na Estação Pinacoteca. Fazia tempo que não se viam tantas exposições.
O MUNDO É UM TEATRO
A mudança de horário de trabalho e os afazeres com Euclides da Cunha e jornalismo literário me impediram de ir muito ao teatro e à dança, se é que perdi tanta coisa assim. Me decepcionei com Vestido de Noiva na adaptação de Gabriel Villela, puxada demais para o “clownesco”, mas não com Viver Sem Tempos Mortos, em que Fernanda Montenegro dá mais uma aula de elocução e transforma a prosa de Simone de Beauvoir em vida e alusão.
RODAPÉ
Na coluna da semana passada, faltou citar um bom livro de economia, O Espírito Animal, de Robert Shiller e George Akerloff (Campus), que havia citado em inglês, e os bons títulos de clássicos infantis, como os de Shel Silverstein e Sempé e a nova tradução de Alice no País das Maravilhas.
Para quem gosta de cartas, as de Rimbaud foram traduzidas na íntegra por Ivo Barroso (editora Topbooks) e as de Van Gogh saíram em suntuosa caixa com seis volumes ilustrados em capa dura (Thames & Hudson).
Quanto às de Machado de Assis, reeditadas pela ABL, não acredite em quem diz haver novidades ali. Todas são conhecidíssimas dos pesquisadores; não é verdade que foi em Petrópolis que ele entrou “cadavérico” e saiu “gordo” antes de publicar Brás Cubas, mas em Nova Friburgo, conforme seu próprio relato; e sempre se soube que queria conhecer a Europa, em especial a Itália, “terra amassada por tantos séculos de história”.
(“Sinopse”)
Lionel Messi, chamado de Pulga por sua estatura, ganhou merecidamente e com folga o prêmio de melhor do mundo em 2009. E não apenas pelos títulos que ganhou, como a Copa dos Campeões, mas também pelos 38 gols que marcou. O último foi no domingo, na final do Mundial de Clubes em Abu Dhabi, quando saltou como um inseto e escorou de coração o cruzamento preciso de Daniel Alves, na prorrogação, dando ao Barcelona a primeira conquista do torneio. O craque, como se vê, não é apenas o que tem técnica e vontade, mas o que tem sabedoria para pressentir o momento de ser decisivo, para meter a bola na rede o máximo possível de vezes e sobretudo nas grandes ocasiões.
Não tem como não ser assim. Pense nos últimos três vencedores do prêmio Fifa Player: Kaká em 2007, Cristiano Ronaldo em 2008, Messi em 2009. Nenhum deles é atacante puro, homem de área. São meia-atacantes, Kaká mais como ponta de lança, Cristiano Ronaldo e Messi vindo das laterais do campo. Mas cada um deles, como Ronaldinho em 2004 e 2005, venceu no ano em que mais títulos ganhou e mais gols marcou. Mesmo Zidane, que não era de fazer muitos gols, levou o título quando foi decisivo ao marcar em Copa do Mundo ou dos Campeões. Craque que se conforma em só fazer drible e passe termina desaparecendo.
Messi, 22 anos, conduz a bola como ninguém e agora aprendeu a fazer gol de tudo que é jeito; aprendeu que o craque é quem resolve situações em espaços curtos e perspectivas amplas, que – como uma pulga – encontra passagens mínimas e dá grandes saltos. Cristiano Ronaldo, 24 anos, ficou em segundo e Kaká, 27 anos, em quarto. O trio marca a mudança de gerações. Depois da era de Ronaldo e Zidane (três títulos cada) e o “intermezzo” de Ronaldinho (dois), agora são eles que ditam estilos. Em 2010, a Copa do Mundo pode servir para desempatá-los, porque quem brilha nela leva a honraria, mas muitos fatores estão envolvidos.
Por falar nisso, os falsos profetas esquecem algumas coisas quando “analisam as chances” das seleções na Copa da África do Sul. Como pensam em termos de tradição, olham apenas os adversários de cada seleção “grande” e esquecem o momento delas. A França, por exemplo, é obviamente superior a África do Sul, México e Paraguai, mas vem de mau momento, uma etapa pós-Zidane que tem sido sofrida. A Argentina também pode ter problemas com Nigéria e Grécia, já que Messi não tem companheiros à altura num time envelhecido. A Itália também tem vantagem no papel, mas não renovou bem. Já Inglaterra, Espanha e Holanda pegarão adversários fáceis e estão em ótimos momentos. Quem sabe a Copa de 2010 não traga campeão menos tradicional?
O Brasil, claro, é um dos favoritos, até porque pega bons desafios como a Costa do Marfim de Drogba e o Portugal de Cristiano Ronaldo – time também em momento complicado, apesar de quinto no ranking da Fifa. O que mais pode atrapalhar? Primeiro, a má fase de muitos titulares, como Felipe Melo e Robinho. Segundo, e mais importante, a ausência daquilo que o marcou nas cinco Copas que venceu: craques no plural. O Brasil tem apenas um na lista dos dez mais, na qual já teve cinco atletas. Além de Kaká, tem Daniel Alves jogando muito, mas ainda procurando posição no time (espero que Dunga o ponha no lugar de Elano, não na lateral esquerda), e outros eficientes como Máicon, Lúcio e Luís Fabiano – artilheiro, mas incapaz de inventar soluções inesperadas como Romário em 1994 e Ronaldo em 2002. Tomara que Kaká reencontre os caminhos para o gol, ora simples ora tortuosos e sempre recompensadores.
(“Boleiros”)

Na coluna sobre os melhores livros do ano passado escrevi que “mais uma vez o maior número de destaques ocorre em não-ficção, especialmente história, crítica e biografia, e mais uma vez as reedições chamam atenção, sobretudo em romances”. Em 2009 a ficção novamente não se destacou numericamente, mas os livros de ciência, sobretudo por causa do bicentenário de Charles Darwin, agora merecem menção especial. Lemos A Ilha de Darwin, de Steve Jones, A Causa Sagrada de Darwin, de Adrian Desmond e James Moore, e O Maior Espetáculo da Terra, de Richard Dawkins, que aqui trocou o panfletarismo antirreligioso por uma ampla e hábil explicação da Evolução como fato histórico, não apenas como teoria ou hipótese. Nos EUA, o jornalista cultural Adam Gopnik, em paralelo com outro aniversariante, Abraham Lincoln, tentou escrever sobre como Darwin mudou não apenas nosso conhecimento da natureza, mas ajudou a fundar a mentalidade moderna, com sua desconfiança de dogmas e sistemas.
Não foram apenas livros sobre Evolução. A tradução brasileira de um livro de 2006, Em Busca da Memória, do octogenário Eric R. Kandel, é um espaço a menos na vasta lacuna editorial que o Brasil sofre no tema. Kandel, Nobel de 2000, transformou a concepção da memória humana com seus estudos fisiológicos, em especial na distinção do mecanismo da memória de curto prazo e longo prazo. “A arquitetura do cérebro de cada pessoa é única”, escreve ele, em seguida demonstrando como os genes também podem ser influenciados por eventos no mundo externo. Estímulos ambientes podem ativar “interneurônios modulatórios” que modificam a estrutura e a função das sinapses; no caso da memória de longo prazo, que requer a síntese de novas proteínas, há mesmo uma mudança anatômica. E Kandel propõe a reaproximação entre o estudo da biologia e a interpretação do indivíduo, como o próprio Freud queria (vide outra tradução do ano, Da Neurologia à Psicanálise, de Lynn Gamwell e Mark Solms).
Um livro que parte da matemática e mostra como se usa mal a estatística, O Andar do Bêbado, de Leonard Mlodinow, fez merecido sucesso no Brasil. E The Age of Wonder, de Richard Holmes, mostrou como escritores e artistas partilharam crenças e medos a respeito das descobertas e invenções do século 18, ao contrário da visão convencional do romantismo como anticientífico. Dificilmente o livro será traduzido por aqui tão cedo, como tantos outros grandes livros do setor publicados nas últimas décadas. Sempre digo, aliás, que os livros de ciência e arte são os mais negligenciados pelo mercado brasileiro, especialmente quando exigem um investimento editorial maior, por serem grandes, ilustrados e sofisticados.
Então o leitor interessado nesses assuntos e que tenha estudado outras línguas precisa recorrer às amazons da internet para importar, por exemplo, obras extraordinárias como Paintings in Proust, de Eric Karpeles, espécie de “museu imaginário” das pinturas citadas nos romances de Em Busca do Tempo Perdido, e o catálogo Titian Tintoretto Veronese, que mostra o diálogo e a rivalidade entre esses gênios do Renascimento veneziano. Já a chance de um tesouro verbal como L’Art de la Préface – que tem Claudel sobre Homero, Gide sobre Montaigne, Camus sobre Chamfort e Valéry sobre Stendhal, entre outros – deve ser maior. Afinal, bons livros de crítica literária foram editados aqui: A Literatura em Perigo, de Todorov, que critica o estruturalismo que ajudou
E não só a crítica literária deixou um pouco o antigo esquecimento das editoras brasileiras. Robert Stam analisando as adaptações em A Literatura Através do Cinema, Alex Ross navegando pelas tensões entre vanguarda e música popular em O Resto É Ruído, Sartre viajando com Tintoretto em A Rainha Albermarle ou O Último Turista, Peter Gay examinando o Modernismo com algumas falhas e o grande acerto de defini-lo como arte herética – eis alguns outros títulos de primeira. Mas The Art Instinct, de Denis Dutton, e Beauty, de Roger Scruton, que tentam encontrar parâmetros para o que julgamos belo na arte e na natureza, não sei se terão a mesma sorte. Ao menos o jornalismo literário tem sido lembrado, com títulos de Martha Gellhorn, Paul Theroux, James Agee (que agora precisa ser lembrado como o grande crítico de cinema que foi) e o fluente Z, A Cidade Perdida, em que David Grann relata a expedição amazônica do Coronel Fawcett que refez há pouco.
Grandes personagens têm ficado mesmo para as biografias, gênero ainda em alta. Terminei de ler Padre Cícero, de Lira Neto, muito satisfeito: ele nos mostra em detalhes o que se passava no sul do Ceará quando esse misto de clérigo e coronel passou a defender costumes antes proibidos como as romarias em público, atraindo para si fiéis entre os deserdados pela Igreja e pela sociedade. O bom biógrafo mostra defeitos justamente porque faz um esforço de compreensão. Já Clarice, de Benjamin Moser, que ainda não terminei, começa com reveladora pesquisa factual, sobre as sofridas raízes ucranianas de Clarice Lispector, mas depois parece se converter em ensaio literário, em sintonia com o misticismo da escritora, e se afasta de questões polêmicas como suas relações com mulheres. Em Euclides da Cunha – Uma Odisseia nos Trópicos, de Frederic Amory, a análise também se sobrepõe à narrativa. Sim, combinar ambos, como fizeram um Richard Ellmann (Joyce) ou um Lewis Lockwood (Beethoven), é mesmo difícil, mas fundamental quando se trata de grandes criadores.
E a ficção? Pela superficialidade do personagem narrador, mais próximo da sociologia de Gilberto Freyre do que da sutileza de Machado de Assis, não admirei Leite Derramado, de Chico Buarque, como admirei Budapeste, mas suspeito que vá arrebatar a maioria dos prêmios. Gostei de contos de Milton Hatoum em A Cidade Ilhada, embora não esteja à altura dos romances. Novamente me deleitei com Philip Roth, com Indignação (também influenciado por Machado) e The Humbling (apesar de não ir bem naquilo que faz como poucos, as cenas de sexo) – Roth que há 50 anos produz em alta qualidade e quantidade. E gostei acima de tudo de Terras Baixas, de Joseph O’Neill, uma história íntima multicultural em Nova York. Li ainda os mais recentes de Thomas Pynchon e John Banville, mas estão abaixo de seu padrão.
Leio, por sinal, muita coisa que opto por não comentar, principalmente de ficção brasileira, por não valer a pena. Tratei de mais de 80 livros neste ano, mas um terço são reedições ou edições atrasadas de clássicos ou bons livros há muito publicados no exterior. Do ensaísmo histórico de Tocqueville (O Antigo Regime e a Revolução) ao belo livro sobre o fascismo de Mussolini escrito por Donald Sassoon, de Tolstoi (A Felicidade Conjugal) a ficções de Bernhard e Bolaño, do teatro de Sófocles (Filoctetes) à Obra Completa de Euclides, revista e ampliada – passando pelas cartas de Van Gogh e Rimbaud, que comentarei em breve –, vivemos muito do passado. Mas, quando o passado está vivo, como no caso de todos esses citados, não há nada de errado nisso.
(“Sinopse”)

Escute aqui comentário sobre a edição da correspondência de Arthur Rimbaud pela editora Topbooks. Correção: Rimbaud morreu com 37 anos.
No mundo inteiro, inclusive no Brasil, hoje são lidos mais livros de não-ficção do que de ficção. Ou seja, há mais exemplares e títulos de biografias, ensaios, reportagens, história, autoajuda, didáticos, científicos e outros do que de romances e contos. Mesmo com sucessos como os da série Crepúsculo, histórias românticas de vampiros adolescentes escritas por Stephenie Meyer, o predomínio já não é da novelística. Houve um tempo, como se sabe, em que a narrativa ficcional ocupava o centro da cultura, era a espinha e medula da troca de valores e costumes. No século 19, por exemplo, o grande romance, que mesclava panorama histórico e análise psicológica, como em Tolstoi, Balzac ou George Eliot, dava a medida de uma civilização. Hoje, não mais. Curiosamente, tal mudança não se restringe ao mundo literário. É claro que há mais filmes de ficção, por exemplo, mas o número de documentários no cinema e na TV só tem aumentado (e influenciado até mesmo filmes não documentais). Nas salas brasileiras, um quarto dos filmes em cartaz pertence ao gênero.
O que explica isso? Num arco de tempo mais curto, pode-se pensar que há relação com um mundo cada vez mais globalizado, de notícias que correm na velocidade da luz (ou das trevas), e fatos como os atentados de 11 de setembro de 2001 provocam nas pessoas uma necessidade de entender melhor a realidade que as afeta de modos tão imprevisíveis. Indo um pouco mais atrás, pode-se atribuir a perda de importância da ficção à explosão de outros meios e linguagens, à concorrência de formatos audiovisuais, internet, novas tecnologias etc., que, além de consumir tempo e dividir atenção, têm uma eloquência mais direta; não exigem o grau de concentração que os clássicos exigem. E, num recuo ainda maior, até a virada para o século XX, a ficção tem enfrentado também a ascensão de uma série de disciplinas antes vagas, sem método nem consistência, e que hoje usam e abusam de ferramentas como a estatística – a exemplo da sociologia, da psicologia e da economia.
Eu arrisco outra hipótese adicional, que tem a ver com os rumos tomados pela própria ficção. Talvez porque pressionados por essa multiplicação das fontes de conhecimento e entretenimento, os romances abandonaram parcialmente aquilo que mais os distinguia até a geração modernista de Proust, Mann, Joyce e Kafka: a força dos personagens. Pense em qualquer grande obra literária e pensará num(a) protagonista, não raro citado(a) já no título: Hamlet, Anna Karenina, Bovary, Fausto, Dom Quixote, Pai Goriot, Dom Casmurro… Mas depois dos anos 30 parece que a ficção optou pela metalinguagem, pelo chororô do autor, ou então pelas crônicas policiais ou fantásticas que são lidas para diversão no verão, quando queremos escapar da chatice da rotina. E ainda não querem perder a “briga” para as biografias de figuras históricas e complexas? Mesmo assim, confesso minha nostalgia pelos grandes romances, com seus personagens fortes e suas ambições estéticas. Romances medianos podem facilmente ser substituídos por histórias reais. Obras-primas, não.
(Fonte)

Resumir e ilustrar as 42 expedições amazônicas mais importantes de 1500 a 1930 foi a ótima ideia de João Meirelles Filho – tão simples que poucos haviam pensado nela. O pesquisador e ambientalista que nasceu em São Paulo e vive às margens do Rio Pará, em Belém, executou a tarefa com muita competência em Grandes Expedições à Amazônia Brasileira (Metalivros, 244 págs., R$ 140), que será lançado hoje, na Livraria da Vila da Alameda Lorena, 1.731. Como o preço indica e como se vê nesta página, trata-se de um livro de arte, com belas imagens, mas não o confunda com “coffee table book”, com livro para deixar na mesa de centro e apenas folhear em vez de ler.
Autor do utilíssimo Livro de Ouro da Amazônia (Ediouro, 2004), Meirelles relata cada expedição usando os mesmos tópicos: contexto, líder, principais colaboradores, percurso, obras e principais contribuições. Isso tira do livro a levada narrativa, infelizmente; em compensação ele funciona como obra de referência e também de introdução àquelas expedições que o leitor porventura não conheça ou conheça mal. Cada uma delas mereceria um livro, claro, mas, como se sabe, os brasileiros se importam pouco com a memória. E vê-las todas juntas, na ordem cronológica, forma um panorama único e faz pensar no poder dessa entidade “Amazônia” sobre o imaginário mundial.
Da primeira viagem, de Vicente Pinzón, no ano em que o Brasil é descoberto, até as expedições de Candido Rondon, das quais a última se dá na fronteira do Brasil com Peru e Colômbia, em 1930, vemos como gradualmente o desconhecimento e a fantasia vão dando lugar ao mapeamento e à fotografia. No entanto, as reações de espanto e admiração não sofrem muitas mudanças. Rondon, por exemplo, fez diversas viagens, sobretudo para instalação de linhas de telégrafo, mas também para travar contato com os índios, no qual se distingue da grande maioria dos antecessores por agir pacificamente; há ainda a viagem com o ex-presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, pelo Rio da Dúvida, então batizado por Rondon como Rio Roosevelt; e as últimas viagens são as campanhas em diversas fronteiras. O leitor se cansa só em acompanhar o relato…
Meirelles sintetiza viagens famosas como as de Orellana, do bandeirante Raposo Tavares, a “filosófica” de Alexandre Rodrigues Ferreira, a botânica de Von Martius e Spix, a do Barão de Langsdorff, as de Bates, Steinen ou Koch-Grünberg – muitas das quais lembradas antes nos livros da série Brasil dos Viajantes, da mesma editora. O etnólogo e conde italiano Ermano Stradelli bem poderia ter sido homenageado, embora tenha se concentrado mais no Rio Orenoco, na Amazônia venezuelana. (Alexander von Humboldt, herói de muitos expedicionários posteriores, não aparece justamente porque não entrou em território brasileiro.) Mas Meirelles lembra diversas viagens menos estudadas do que deveriam ser, como a de Euclides da Cunha pelo Alto Purus e a do biólogo inglês Alfred Russell Wallace, que na floresta pluvial fez observações sobre a seleção natural muito parecidas com as de Darwin em A Origem das Espécies. O autor lembra ainda as do linguista Paul Ehrenreich e do pintor francês Biard, para citar algumas mal conhecidas.
Faltam mais mapas com os percursos, mas as imagens são igualmente reveladoras. Das araras pintadas na expedição de Rodrigues Ferreira às fotos das comissões demarcadoras de Rondon, o teatro natural e os grupos indígenas são retratados com a curiosidade dos aventureiros e o perfeccionismo dos profissionais. Bates, por exemplo, é especialmente dotado para a arte da gravura, mas não consegue deixar de trair seu maravilhamento com as cenas, que parecem sempre exageradas – como a da pesca de tartaruga, que mostra em primeiro plano a luta de cinco índios contra um jacaré. Ou temos o pirarucu gigante de Franz Keller, imagem usada pelo geólogo James Orton. Mas não existe apenas a exuberância de fauna e flora: os grandes espaços vazios são recorrentes, em muitas das aquarelas e fotografias, do mesmo modo que o trabalho servil dos seringueiros, como na viagem de Wickham. Não há cartões-postais aqui.
As Amazônias, enfim, são muitas, assim como este livro de João Meirelles Filho são muitos. Que venham seus frutos.
Chegou aquela época do ano em que o noticiário é tomado por informações e especulações – mais especulações que informações – sobre contratações de jogadores. Os comentaristas, cada vez mais rendidos ao vão exercício das profecias, palpitam sobre as futuras equipes, dizendo quais nomes servem e quais não servem, com a certeza dos descompromissados. E os torcedores se põem a imaginar como serão seus times na próxima temporada.
“O Corinthians está montando um time de masters”, ironiza um, depois de ver que Roberto Carlos, Tcheco, Iarley e Danilo têm mais de 30 anos. “O Fernandão com o Washington não dá. Aí sim serão as duas torres gêmeas”, afirma outro, projetando o São Paulo. “O Palmeiras até agora só trouxe o Muriqui”, reclama o alviverde. “Que Obina e Vagner Love o quê! O Adriano tem que ficar”, torce o rubronegro. “O Inter só vai contratar técnico?” E por aí vai.
Enquanto isso, mais divertido é ler a brincadeira de Washington Olivetto, o livro Corinthians x Outros (Leya), com o subtítulo “Os melhores nossos contra os menos ruins deles”. Ele convidou gente famosa como Fausto Silva, Jô Soares, Verissimo e até Serra e Menem para escolher seus times ideais, inclusive estrangeiros, e imaginou como seria um jogo do Corinthians ideal contra cada um deles. Em sua equipe, com pôster e tudo, botou 14 ídolos (três no banco a cada partida, portanto): Gilmar, Zé Maria, Dino Sani, Roberto Bolangero, Gamarra, Wladimir, Rincón, Marcelinho Carioca, Neto, Rivellino, Sócrates, Tevez, Casagrande e Ronaldo, o Fenômeno.
Há muitas passagens engraçadas, como Rivellino enfrentando a si mesmo no Fluminense, Ronaldo enchendo a paciência de Cristiano Ronaldo, Neto cobrando falta no olho frágil de Tostão… São textos de humor, e ainda bem; a informação ficou por conta do craque Celso Unzelte, que biografou cada um dos nomes citados.
Bom humor, afinal, é decisivo. Há pessoas que dizem que gostar verdadeiramente de futebol é ser fanático, totalmente passional, amar o clube acima de todas as coisas, cultivar superstições… E daí a matar e morrer por ele vai uma pequena distância. Uma derrota pode chatear, mas jamais tirar o humor; gozação e autogozação são bem-vindas, com a leveza que devem ter, e não a agressividade, velada ou não. Do mesmo modo, imaginar os jogos de 2010 pode ser divertido, lembrando sempre que a maior diversão será vê-los acontecer. Quem briga por causa de futebol não merece o futebol.
(“Boleiros”)
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