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Daniel Piza

29.dezembro.2008 09:01:24

Feliz 2009

Este blogueiro descansa até o dia 13/1. Descanse também.

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Baptistão

Nesta época somos quase coagidos a fazer um balanço do que foi o ano, por causa das festas e férias, a empilhar promessas que mal serão cumpridas – emagrecer cinco quilos, ler mais livros, reencontrar aquele velho amigo – e, pior, a levar a sério as simpatias como pular ondas e comer uvas. Revistas se enchem de artigos conservadores sobre a necessidade da fé para sobreviver num mundo violento. E as TVs vêm com seus “especiais” dominados por musiquinhas açucaradas. É como se encarar a passagem de ano como um simples período de descanso, em que as crianças ficam felizes com os presentes e podemos comer e beber mais à vontade, fosse pouco. A humanidade que teima em pregar idílios é a que não sabe se satisfazer com os prazeres simples da vida. E tome xaropada, dia e noite, até a quarta-feira de cinzas…

A natureza e os políticos não estão nem aí para o calendário festivo. As enchentes continuam revelando a incompetência urbana em criar mais áreas permeáveis e evitar ocupação de morros. Governos como o brasileiro aproveitam a calada do réveillon para lançar pacotes que aumentem as despesas públicas e/ou os impostos que pagamos. E, por mais que desestressar seja importante, qualquer olhar realista sobre 2009 não se deixa iludir. EUA, Europa e Japão estão em recessão; emergentes como China e Brasil crescerão em ritmo bem mais lento, talvez à metade do anterior. Aqui, para complicar, a fraqueza da moeda e a dependência de commodities se traduzem num dólar alto, e a “marolinha” já provoca demissões, fugas de capital, quedas no consumo. A noção de que o Brasil cresce graças ao mercado interno foi fazer companhia a Papai Noel.

Coisas boas acontecem também. Barack Obama não vai realizar nem 10% do que as pessoas esperam que realize, mas, além de uma equipe experiente, ele já anunciou medidas que aliviam o mal-estar deixado por Bush, como a liberação das pesquisas com célula-tronco e o fechamento da prisão de Guantánamo. Gordon Brown, o primeiro-ministro britânico que já tinha feito o pacote mais inteligente para combater a crise financeira, declarou agora que vai tirar suas tropas do Iraque. E o problema principal da economia, a excessiva desregulamentação que permitiu até “pirâmides da sorte”, foi identificado – e só em mentes arcaicas resiste a opinião de que o capitalismo morreu, como se o mundo não estivesse melhor hoje do que estava em 1989. Como se vê nas listas de melhores livros, CDs e filmes, tampouco o apocalipse cultural previsto por fascistas e marxistas aconteceu. Há vigor e variedade, sim.

Contabilidades de réveillon, claro, costumam ser egoístas. Fulano quer saber se tem dinheiro no banco, mulher na cama e prestígio na sociedade, não se o país e a humanidade vão bem ou mal. Eu, por exemplo, poderia me queixar da perda de um emprego ou de outras coisas que doem no orçamento e na vaidade. Mas só posso ficar satisfeito com um ano em que fiz duas dúzias de palestras sobre Machado de Assis, inclusive para centenas de adolescentes que prestavam duas horas de atenção contínua, publiquei mais um livro e trabalhei em lugares como China e Antártica. A retórica e o consumismo dos tempos servem apenas para que se esqueça o que é substantivo – como a educação e as amizades – e o que é adjetivo. Reveja 2008, prometa pouco, deixe de crendices. O que vale nem sempre se mede.

(“Sinopse”)

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26.dezembro.2008 08:19:37

Roth, o leitor

A inteligência de Philip Roth, no livro de não-ficção Entre Nós (Companhia das letras, trad. Paulo Henriques Britto), é tão visível quanto em sua ficção. São entrevistas com escritores como Primo Levi, Ivan Klíma e Milan Kundera e outros judeus e europeus do leste; há uma conversa com Isaac B. Singer sobre Bruno Schulz, o autor de Sanatório; cartas com Mary McCarthy; um perfil de Bernard Malamud; e análises da pintura de Philip Guston e dos romances de Saul Bellow. Roth se mostra exigente e generoso ao mesmo tempo e confirma sua cultura européia, contrariando a burrice da Academia Sueca que considera que a literatura americana só fala consigo mesma. Na conversa com Levi, Roth nota que o fato de ele ser um sujeito que “pensa demais” o ajudou a sobreviver a Auschwitz – “O cientista e o sobrevivente são a mesma pessoa” – e o genial autor de É Isto um Homem? concorda plenamente. Roth faz brilhantes comentários sobre Kafka, comenta com Edna O’Brien o medo feminino do abandono, chama Herzog de “o Leopold Bloom da literatura americana” (não, não está dizendo que Bellow é tão bom quanto Joyce) – esbanja, enfim, sensibilidade para a vida e a literatura.

Todo grande escritor é um grande leitor.

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25.dezembro.2008 08:03:08

Desconto de Natal

Klaus não acreditou quando viu Cuca, seu amigo de infância e colega de empresa, andando pelo corredor do shopping com pacotes a tiracolo. Nunca o havia encontrado ali, embora o shopping fosse ao lado do seu prédio, e Klaus sabia que Cuca morava longe, em outra parte da cidade. Mas as coisas começaram a fazer sentido quando Klaus chegou mais perto e pôde ver que, ao contrário da ansiosa excitação da maioria dos freqüentadores, Cuca tinha um semblante carrancudo, aborrecido como se estivesse numa fila de espera para consulta com o urologista.

– Cuca, tudo bem? Você não parece bem.

– Klaus. Não tinha te visto. É, tô meio de saco cheio. Literalmente e metaforicamente.

– Haha, pelo menos de bom humor.

– Não, cara, de mau humor. Desculpe, a culpa não é sua. Mas é que não suporto esta época de final de ano. Nunca fui de fazer compras, e aqui estou eu tendo de fazer compras.

– Mas por que não gosta desta época do ano?

– Você ainda pergunta? Tá vendo este pacote aqui? Foi presente que precisei comprar para a Amelinha. Tirei aquela chata no amigo secreto. Quer coisa mais inútil do que amigo secreto? Em geral não é amigo, às vezes nem mesmo secreto. E você ainda precisa ficar descrevendo como ela é para os outros adivinharem. Claro, só falando coisas boas. Por mim, sabe como eu descreveria a Amelinha? “Minha amiga secreta é uma colega, não uma amiga, e ela é baixinha, gorda e não costuma dar bom dia. Também é conhecida por nunca ter dado um aumento para sua equipe.”

– Hahaha, ela é durona, mesmo. Mas relaxe, Cuca, o fim de ano não é só amigo secreto. É tempo de balanço, de descanso, de…

– Você está parecendo Papai Noel de comercial.

– Pô, larga de ser implicante. Até o Drummond, o poeta Carlos Drummond de Andrade, falou sobre a inteligência que existe em dividir o tempo em anos, para que a gente possa refletir e renovar.

– Poetas… Mas tenho certeza de que o Drummond não trabalhava ao lado da Amelinha. E que não saía para fazer compra de Natal em shopping. Esses outros pacotes, aqui, são para sobrinhos, pais, afilhados… O mundo numa baita crise e eu gastando uma fortuna! Sem falar naquelas tias que vêm falar com você como se ainda tivesse 10 anos. O Natal era para ser uma festa religiosa e virou uma festa consumista. Amar o próximo agora é se endividar no cartão de crédito por ele? E, convenhamos, essa festa nada tem a ver com a gente: é tudo comida pra inverno. Tá vendo ali?

– O quê?

– O Papai Noel do shopping. Viu agora? Todo shopping tem um. Olha lá o coitado com aquela barba e aquela roupa, suando em bicas, mesmo com ar-condicionado. Só pode ser um bom dinheiro.

– Cuca, você sempre teve esse ótimo mau humor, mas agora tá virando ranzinza, hem?

– É que eu fiz o balanço de mais um ano e concluí que tô mais velho… Mas falando sério: você não se cansa desse bombardeio de “esperança”, de “compre isso, compre aquilo”, de gente dizendo que vai pular não sei quantas ondinhas, comer não sei quantas uvinhas… E para quê todo mundo se veste de branco? Você olha para a praia e vê toda aquela gente de branco; parece uma multidão de pais-de-santo. Qual a graça de ficar cinco horas na estrada para fazer isso?

– Cuca, meu caro, você tem muita razão em tudo que está dizendo. Mas dá um desconto. Não porque é Natal, porque isso, porque aquilo. Mas porque é assim, sempre foi assim. Até você deve lembrar dos natais de quando era criança, ou pensar de vez em quando “o ano tal foi muito bom”… Lembra 1988?

Cuca arregala os olhos, como se recebesse uma surpresa.

– 1988? Claro. Grande ano. Nosso time foi campeão, você e eu fomos promovidos e eu ainda conheci a Renata. Grande ano!

– Viu como nem tudo é ruim? Dá um desconto, amigo; vamos lá, te ajudo a terminar as compras.

– Ok… Até porque esse é o tal “lado bom da crise”: tem um monte de lojas dando desconto. Vamos ali, meu afilhado lá de Salvador vai adorar aquele game de futebol. Eu também.

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24.dezembro.2008 08:24:37

Dois mil e 9

Para terminar o ano com uma boa notícia, a temporada encerrou definitivamente o futebol dos “nove atrás da linha da bola”, com três volantes e apenas um atacante. Nos times mais bem-sucedidos do momento o que se vê são dois ou três atacantes, que ficam na linha do meio-campo quando o adversário avança e que recebem companhia de meias e alas quando é sua vez de avançar. O Manchester United, campeão mundial no último domingo, joga com Cristiano Ronaldo (31 gols na Liga Inglesa), Tevez e Rooney, este como referência na área (e autor, ali, do gol da vitória sobre a LDU). O Barcelona está dando show com dois centroavantes, Henry e Eto’o, mais um Messi cada vez mais goleador.

Mesmo o ainda irregular Milan, que sofre com falta de renovação na defesa, goleou o Udinese no sábado com dois gols de Kaká e dois de Pato. Bastou Kaká reclamar de estar muito recuado por causa de Ronaldinho, que o técnico inverteu as posições e o resultado já apareceu. Ronaldinho é um meia que chega para finalizar, assim como Seedorf; Kaká é segundo atacante, fazendo valer sua velocidade, sua incisividade. Pato está adquirindo confiança e maturidade; no primeiro gol de Kaká, mostrou frieza na hora de rolar de pé trocado a bola na pequena área para o companheiro. O líder italiano, a Inter de Milão, não é diferente. Tem tantos atacantes matadores, a começar por Ibrahimovic, em fase formidável, além de Crespo e Julio Cruz, que praticamente já dispensou Adriano. O Lyon tem Benzema, outro em fase brilhante. Etc., etc.

No Brasil essa realidade começa a voltar também. O São Paulo, que sofreu muito enquanto Borges esteve machucado, já contratou Washington, pois, como disse Muricy, é sempre melhor ter goleadores no elenco. O Corinthians fechou com Ronaldo, que mesmo sem o arranque de outrora sabe resolver situações em espaços curtos ou longos, e parece consciente de que precisa ter outro centroavante para não ficar dependente do craque e suas lesões. O Palmeiras perdeu Alex Mineiro para o Grêmio, mas trouxe Keirrisson, revelação e um dos três artilheiros do ano, mais jovem e eficaz. O Santos aparentemente preservou seu melhor jogador, Kléber Pereira. Não há dúvida, portanto, de que pelo menos o Campeonato Paulista que começará em janeiro terá uma forte disputa pela artilharia. Além disso, Fred, do Lyon, e o próprio Adriano querem voltar ao Brasil, onde teriam mais chance de serem titulares. Se os clubes dos outros estados forem espertos, já devem estar atrás deles.

Afora a presença de bons atacantes – jogadores completos, mas que sabem antes de mais nada finalizar com categoria –, as equipes de ponta no futebol atual têm um sistema tático apurado: sabem jogar com e sem a bola e fazer com rapidez e competência a transição de defesa para ataque, graças ao meio-campo versátil. Para isso, volantes que se transformam em meias na hora de apoiar, com visão de jogo, bom passe e bom chute – como Xavi, do Barça e da Espanha campeã da Eurocopa, Pirlo, do Milan, Juninho, do Lyon, ou Hernanes, do tricampeão brasileiro São Paulo –, são fundamentais, como um dia foram Gérson ou Falcão, desde que protegidos por um volante mais de marcação. Mas isso não adianta muito se não houver, de preferência, dois homens com fino faro de gol à frente. Tomara que 2009 seja mesmo o ano dos 9.

(“Boleiros”)

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23.dezembro.2008 12:18:01

Turismo nada acidental

Crises vão e vêm, a globalização tem altos e baixos, mas o turismo só fez aumentar no mundo desde que o poeta Lord Byron cunhou o termo há cerca de dois séculos. Ou seja: se quiserem fronteiras fixas, com muros cada vez mais altos, mandem o planeta parar. Não há mais culturas puras e lugares inexplorados. Mesmo em países de regime fechado, autoritário, como Cuba, a indústria do turismo é inescapável: mais de 50% do PIB da ilha vem dos viajantes de todas as partes que deixam dólares em troca de lagostas, charutos, mojitos, daiquiris e músicas.

A era de ouro dos viajantes pode ser definida entre o século 15 – o século de Colombo, se não quisermos voltar a Marco Polo – e o século 19, quando exploradores britânicos foram a todos os cantos da África. No início do século 20, a última fronteira foi ultrapassada: o aventureiro norueguês Amundsen chegou ao Pólo Sul, no centro da Antártida, depois de cruzar o continente com uma equipe em trenós puxados por cães. Era 1911 e uma revolução tecnológica já estava começando a acontecer: a invenção do avião por Santos-Dumont, irmãos Wright e outros.

Outras revoluções se seguiriam. Destaco a do satélite, que não apenas serviu para a exploração espacial e a televisão, mas também para sistemas de navegação que hoje estão cada vez mais presentes em carros e celulares. Hoje o mundo está cortado por estradas; voar de avião deixou de ser um luxo da elite; mesmo o passaporte passou a ser desnecessário dentro de blocos geopolíticos como a Europa e o Mercosul. Como resultado, lugares antes remotos como Vietnã, Tanzânia ou Ilhas Galápagos agora abundam de turistas com GPS e Google Earth. E Pequim se preparou para uma Olimpíada com o talento de arquitetos estrangeiros.

Ok, você pode se queixar do excesso de turistas, das lojas de souvenir, da descaracterização de culturas locais, das agressões ao meio ambiente, etc. Pode observar que nos pontos mais distantes, de Ushuaia a Seul, há a uniformização de marcas de roupas, eletrônicos e lanches. E pode lembrar que os imigrantes ainda são um problema sério em muitos lugares. Mas pense no que a humanidade pode ganhar de conhecimento e mesmo tolerância graças à multiplicação dos deslocamentos. Os outros deixam aos poucos de ser estranhos. Ainda que tantas cabeças pensem pequeno, o mundo não ficou menor; ficou mais próximo.

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22.dezembro.2008 08:35:58

Apagão aéreo

Atrasos em mais de 27% dos vôos. Não foi por falta de aviso. Nem as tragédias fizeram Infraero, companhias aéreas e autoridades (in)competentes atenderem ao consumidor com a decência que ele merece.

P.S. Muitos dos atrasos são por culpa da Gol? Cabe à Anac vigiar e punir. Mas, segundo sua diretora, tudo iria correr muito bem no final de ano…

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Baptistão

No ano passado escrevi que o cinema brasileiro, por mais que ainda se tenha preconceito contra ele, tem sido “variado e inquieto”, claro que me referindo ao período que vem desde a retomada em 1994. Como exemplos de 2007, dei O Cheiro do Ralo, Tropa de Elite, Mutum e O Passado, além de documentários como Santiago e Jogo de Cena. Nenhum deles é uma obra-prima, nem ao menos uma grande obra, embora o último – o documentário de Eduardo Coutinho – se aproxime bastante disso. O mesmo se pode dizer neste 2008, exceto pela ausência de um documentário desse porte. Meu Nome Não É Johnny, de Mauro Lima, Chega de Saudade, de Laís Bodanzky, Estômago, de Marcos Jorge, Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, e o multinacional Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles, bastam como prova. Mas já não está na hora de uma reflexão que permita vislumbrar filmes de nível mais alto?

Sim, trata-se de histórias urbanas de cunho tragicômico, lírico-nostálgico, social-afirmativo ou apocalíptico, todas com bom apuro de produção, atuação e cinematografia. Apesar de ter faltado também um bom filme não-urbano, como foi Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), estamos certamente diante de uma safra vigorosa. Atores como Selton Mello, João Miguel e Sandra Corveloni fazem trabalho primoroso, sustentando boa parte de seus filmes com seu talento, e a sensibilidade de Laís Bodanzky também não iria longe se não fosse a de Cássia Kiss e Stepan Nercessian. Mesmo com problemas sérios, o filme de Meirelles (“uma parábola que mal deseja ser uma história”, na definição da New Yorker) tampouco pode ser ignorado. No entanto, são poucos produtos bons nessa atividade crescente – e nenhum rompe a barreira da correção.

O problema me parece ser que, por baixo da diversidade de temas e gêneros, há ainda alguns travos comuns. O maior deles é certa demagogia sentimental. Do ponto de vista técnico, Linha de Passe é o mais bem realizado dos filmes do ano, mas também o que mais faz concessão a esse traço da cultura brasileira, a consciência culpada, que sempre acena com um final feliz para nossa fratura social desde que haja solidariedade entre as classes… Os outros filmes mal fazem referência a isso, mas também sentem vontade enorme de acomodar o espectador, de comovê-lo ou entretê-lo em vez de convencê-lo. O cinema brasileiro ainda se divide exatamente entre filmes que fazem um discurso sobre as mazelas e filmes que as encobrem com ação e humor – ou então absorvem acriticamente uma linguagem de TV para ter escala comercial.

Realismo social e comédias personalistas, para resumir, dão o tom. Dilemas individuais num contexto histórico, o que sempre foi hegemônico no universo das narrativas, continuam raros. Não se filma, por exemplo, o drama de pessoas de classe média de um modo que seja crítico sem ser ideológico; é como se só nos interessassem a tragédia coletiva ou o escape subjetivo. Alice, a série de TV da HBO, apesar também dos muitos problemas (como as situações forçadas e os diálogos redundantes), pelo menos apontou para outro campo temático, com a história de uma jovem de Tocantins que se transforma ao viver dores e amores em São Paulo. Ir além do binômio entre o cinema da culpa e o cinema da desculpa talvez seja a abertura para ver Brasil e humanidade de forma mais complexa.

CADERNOS DO CINEMA

Não que o cinema mundial esteja muito melhor, que ainda se veja um Cidadão Kane, Um Corpo Que Cai, A Malvada, Morangos Silvestres, Rastros de Ódio, A Regra do Jogo, A Doce Vida, 2001, Lawrence da Arábia, O Poderoso Chefão… Sim, estou citando meus dez filmes preferidos.

Em 2008, depois da safra do Oscar, com Desejo e Reparação, Onde os Fracos não Têm Vez e Sangue Negro, tivemos até aqui pouco brilho. O Escafandro e a Borboleta, de Julian Schnabel, foi certamente o mais criativo, principalmente na primeira metade em que vemos tudo pelos olhos do paciente. Woody Allen fez Vicky Cristina Barcelona, roubado por Penélope Cruz, e os irmãos Coen fizeram também Queime Depois de Ler, que tem alguma coisa de Fargo e de comédias mais leves, mas que não é nem tão inventivo nem tão engraçado. Rebobine, Por Favor, de Michel Gondry, também tem passagens divertidas em meio ao besteirol, além da ótima cena final, mas não tem um décimo da beleza e atualidade de Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças. Já Mamma Mia!, com Meryl Streep, é mais um caso de filme desdenhado pela crítica e adorado pelo público, por seu alto-astral e belo visual ao som de Abba. Ainda não vi Gomorra e outros filmes elogiados; verei.

Como no mundo dos livros e dos CDs, reedições estão em alta: o ano viu saírem DVDs de filmes há muito abandonados no Brasil, como O Conformista, de Bertolucci, Era uma Vez em Tóquio e Pai e Filha, do genial Ozu, e mais Mizoguchi, Glauber e outros clássicos, chatos ou não.

ZAPPING

A HBO também fez a melhor série que consegui acompanhar no ano, John Adams, com atores como Paul Giamatti e Laura Linney. Vi episódios bons de Dexter e The Office. Vi também um ou dois capítulos por semana de A Favorita, a não ser quando viajando, e mais uma vez a novela – que não funcionou bem nas partes romântica e cômica – só “pegou” quando a vilã passou a ficar cada vez mais vilã… Apesar da boa atuação de Patrícia Pillar, Cauã Reymond merecia mais elogios; por ser famoso como bonitão, os críticos não têm coragem de declará-lo um ator muito promissor que, nas mãos de um bom cineasta, poderia fazer um grande personagem trágico, um Romeu moderno. Ah, o melhor programa da Globo se chama Som Brasil, graças aos arranjos e jovens intérpretes.

(“Sinopse“)

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Se houve uma tendência forte nas últimas duas décadas, foi a do hábito de cozinhar em casa pratos requintados, com ampla adesão masculina. Costumo dizer que os dois melhores restaurantes de São Paulo são o Chez Cacaio e o Polonio’s, ou seja, as residências de dois dos meus melhores amigos, Cacaio Bentivegna e Fábio Polonio, gourmets de mão cheia e boa. Uma vez, irritado com o preço cobrado nos restaurantes por pratos que alguns de nós éramos capazes de fazer melhor com custo menor, cheguei a escrever que só iria comer fora para provar o que poucos sabem. Não cumpri a promessa, mas continuo a achar que ainda tem muito lugar que não vale o que cobra, principalmente porque a coisa mais importante numa receita – a qualidade e o frescor dos ingredientes – deixa a desejar. Há também os pseudo-sofisticados, os que acham que colocar purê de mandioquinha em receita consagrada significa torná-la mais brasileira ou original…

Mas o assunto aqui é o porquê dessa tendência da culinária autodidática. Sim, um aspecto é desagradável, o da pose, e até inventaram a palavra “gastrossexual” para descrever o sujeito que tenta conquistar as mulheres impressionando com seus dotes ao fogão. Tenho baixa tolerância ao papo afetado sobre comida que tem contaminado tantos encontros, papo que antes era mais restrito aos vinhos. No entanto, há alguns aspectos bem positivos. A tendência indica, por exemplo, que o velho machismo de que homem não cozinha está moribundo; que a obsessão por magreza ditada pela mídia não conseguiu tirar o prazer gastronômico; e que, ao contrário do que dizem os apocalípticos sobre a era virtual, as pessoas ainda querem se encontrar ao vivo, em casa, em torno do fogo, para se alimentar e conversar. É uma das mais antigas e melhores formas de convívio. E ainda dá consciência às pessoas sobre o que compram, comem e sentem.

Rompe-se, assim, a monotonia da comida diária e se descobrem pratos e preparos. Nada contra a comidinha da vovó ou da mamãe, aquele bife à milanesa ou filé a cavalo ou bife à parmegiana com feijão de caldo grosso, arroz e batata ou ovo frito – tudo a favor! Mas há tempo, e o tempo para passar duas ou três horas cozinhando para íntimos é muito bem empregado. Eu, por exemplo, cozinho pouco, já que tenho amigos e mulher que cozinham melhor, mas me divirto e até já inventei um prato – medalhão ao molho de mostarda e porcini – juntando tudo que adoro e obtendo um resultado interessante… Saber realizar as receitas centenárias, no entanto, acho a melhor parte desse hábito, até para que não se pense que os chefs badalados inventam tanto quanto eles dizem que inventam. Você pode achar que isso não passa de luxo, de coisa de burguês ou sei lá o que mais; eu acho que é uma parte muito relevante da vida. Nem tudo se encaixa no consumismo e no narcisismo de nossa era. Pode, para os homens de boa vontade, simbolizar muito mais.

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18.dezembro.2008 14:23:30

Sapato furado

Notícias vindas da Cúpula da Bahia, o encontro dos líderes latino-americanos na Costa do Sauípe:

- Cúpula propõe fim do embargo a Cuba.

- Lula diz para jornalistas não tirarem o sapato por causa do chulé.

- Para Hugo Chávez, capitalismo é coisa do diabo.

Eu sabia que esse encontro traria muitas novidades e mudanças importantes. Mundo, curve-se ante o futuro!

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