O tempo passa, já faz quase 400 anos que Galileu foi condenado, mas a imagem da ciência ainda continua marcada por medos, estranhamentos e preconceitos. Em tempos recentes os exemplos foram muitos. No início das atividades do super-acelerador de partículas em Genebra, em setembro, a imprensa e as conversas foram tomadas por um sentimento apocalíptico, pois alguém levantou a hipótese – equivocada – de que o equipamento poderia criar um buraco negro ao simular o Big Bang. Parecia que seria o fim do mundo. Pessoas que raramente escrevem sobre ciência produziram comentários e crônicas sobre o tema. O que mais se viu, ao final, foi uma explosão de desinformação.
Outra polêmica dos últimos anos tem alimentado essa visão de que a ciência é perigosa, intrinsecamente ameaçadora. Autores como Richard Dawkins e Daniel Dennett publicaram livros sobre a crença em Deus ou nas religiões em geral, tentando entendê-la do ponto de vista neurológico, como uma espécie de muleta psíquica que o ser humano desenvolveu em priscas eras. Isso não passava de um argumento deles, bem fundamentado, ainda que num tom que curiosamente se aproximava da mesma pregação absolutista que eles atacavam. Mas o debate logo foi contagiado de passionalismo, como se Dawkins e Dennett fossem hereges, como se o ateísmo ou agnosticismo fossem coisas de gente sem moral e bondade.
É preciso lembrar sempre que foi a ciência que lançou e valorizou o hábito da dúvida. Foi ela que ajudou a inaugurar a modernidade ao contestar as verdades sagradas, as certezas absolutas, os dogmas oficiais. E que sempre pagou um preço alto por isso. Nunca é demais observar que todas as religiões, sem exceção, contêm o que julgam ser uma explicação do funcionamento da natureza; não são apenas sistemas metafísicos, espirituais, pois supõem conhecer as leis que a determinam. Mais do que chocar a opinião pública por dizer que homem e macaco partilham ancestrais comuns, Darwin abalou séculos de pensamento ao revelar que a natureza está em transformação constante e que todas as espécies da flora e da fauna não podem ter sido criadas ao mesmo tempo.
Sim, a ciência e os cientistas nem sempre se mostraram cientes desse seu compromisso com a dúvida, bastando pensar nesses malucos que anunciam ter feito clonagem humana. E os experimentos nucleares que conduziram às armas e às tragédias da Segunda Guerra Mundial não são os melhores símbolos de seu benefício humanista. Mas seria bom que escolas e mídia trabalhassem mais no sentido de mostrar que a ciência não é tão catastrófica e arrogante quanto se pensa. Ao contrário. Ela é uma das melhores formas de unir conhecimento e aventura, saber e fazer, e de mostrar como é fascinante a complexidade da natureza.
(Fonte)
Grêmio e São Paulo, 59 pontos; Cruzeiro e Palmeiras, 58; Flamengo, 56. O campeonato embolou ainda mais. O Cruzeiro ganhou com brilho do Grêmio, que pouco ameaçou seu gol no Mineirão. O São Paulo bateu o Botafogo na casa do adversário, embora o juiz tenha anulado gol legítimo do alvinegro (Wellington, mesmo que impedido, não toca a bola nem atrapalha Rogério), com dois belos lances de Jean e Hernanes. O Palmeiras ganhou do Goiás com um gol de pênalti, quase cedendo o empate, mas, com Pierre e Kléber em noite de eficiência, merecendo a vitória sobre um time que fez nada menos do que 32 faltas. E o Flamengo empatou com o Vitória lá, num jogo bem aberto, com chances desperdiçadas de ambos os lados, principalmente pela equipe carioca.
Grêmio tem pela frente Figueirense, Coritiba e Atlético Mineiro em casa; Palmeiras, Vitória e Ipatinga fora.
São Paulo: Internacional, Figueirense e Fluminense em casa; Portuguesa, Vasco e Goiás fora.
Cruzeiro: Fluminense, Flamengo e Portuguesa em casa; Goiás, Náutico e Inter fora.
Palmeiras: Grêmio, Ipatinga e Botafogo em casa; Santos, Flamengo e Vitória fora.
Flamengo: Portuguesa, Palmeiras e Goiás em casa; Botafogo, Cruzeiro e Atlético-PR fora.
São Paulo e Cruzeiro, pela ordem, têm jogos menos difíceis como visitantes. Mas ousar prever, quem há de?
Mano comentarista,
Escrevi para você em dezembro do ano passado, quando meu Timão foi rebaixado para a Série B. Eu estava indignado com a diretoria, que tinha deixado um clube-nação como esse cair de forma tão lamentável, dizendo coisas como “o Corinthians vai de Mercedes”, etc. Propus até boicotar os jogos caso os cartolas não mudassem. Mas, hoje, escrevo por um motivo bem melhor: “Tamo de volta!”. Eu nunca achei que fosse comemorar tanto a liderança da Série B…
Tudo bem, sei que os torcedores dos outros times estão dizendo que não fizemos mais do que a obrigação, que essa mancha de ter passado pela segunda divisão nunca vai sair, que o absurdo seria não voltar para a Série A. Mas esses mesmos caras não diziam que a Série B era muito difícil? Difícil? Pô, ganhamos com seis rodadas de antecedência, e olha lá que ainda empatamos alguns jogos que nem era para empatar! Muito time grande sofreu mais para voltar ou até mesmo passou mais um ou dois anos no andar de baixo.
E o time, meu! O Douglas e o André Santos poderiam estar em qualquer equipe do Brasil – e na seleção também, ao menos como reservas. O Douglas é um tipo de jogador que não existe mais, o “10″, que arma e faz gol, que joga de cabeça erguida e faz a bola correr em seu lugar. Felipe, Dentinho, a zaga Chicão & William… não é um time fraco, não. Ainda bem que o Mano Menezes parou de insistir com o Lulinha e vieram o Morais e o Elias para acertar o elenco. E está certo que o Herrera tem blecaute na frente do goleiro, mas ele luta para caramba e deu muitos passes para gol. Não vou dizer que esse time seria líder da Série A, mas não está muito abaixo do tal G-4 não…
Sei, você vai dizer que estou sendo exagerado, cometendo o mesmo erro de novo. Mas vai dizer que a Série A tem a mesma graça sem o Corinthians? Sem os clássicos entre ele e o Palmeiras, o São Paulo, o Flamengo… Outro dia eu soube que o Ronaldo Fenômeno disse que a torcida do Corinthians é sensacional. E como! Além do “aqui tem um bando de louco”, inventamos o “não pára, não pára, não pára”, depois cantamos a canção do Roberto Carlos, “eu voltei agora pra ficar”… E você viu aquela senhora toda vestida de roxo no jogo de sábado? Podem chamar a gente disso e daquilo. Mas criatividade a gente tem!
Claro, tem que continuar o trabalho sério, manter o grande Mano Menezes, manter a base do time (se vender o André, não vende o Douglas ou vice-versa), contratar lateral direito, volante e centroavante. Tem que diminuir essa dívida absurda, já que os dirigentes ganharam muito dinheiro com ingresso, audiência e venda de camisa neste ano. Já passa da hora de ter um estádio e a Libertadores. E tem que comemorar o centenário em 2010 como campeão! Essa lição eu aprendi: chega de máfia russa; o negócio precisa ser profissional.
Mas que é muito bom voltar a sofrer na primeira divisão, ah, isso é. Abraço.
NOVAS REGRAS
Há quem sugira reduzir o número de jogadores para dez de cada lado. Eu prefiro algo que sugeri há algum tempo e vi que o colega Ugo Giorgetti também defende: punir o time que se exceder em faltas. Digamos, depois de dez faltas no espaço de um tempo, o time adversário tem direito a uma cobrança na linha da meia-lua. Outra sugestão que repito é a de ter juízes de linha de fundo. Com isso, não teríamos partidas com tantas faltas e tantos erros de arbitragem.


Não, não é Obama, pelo menos no Brasil. O Homem do Ano – ou Homem de Visão do Ano, lembra? – é Joaquim Maria Machado de Assis, morto há cem anos. Só dá ele. Entre os lançamentos de livros mais recentes, está Crônicas da Antiga Corte – Literatura e Memória em Machado de Assis (editora UFMG, organização Marli Fantini). Apesar das muitas redundâncias e meias-verdades, destacam-se o ensaio de Susana Kampff Lages sobre a dialética em Machado e Guimarães Rosa e o de Mirella Márcia Longo sobre a filosofia meio schopenhaueriana meio humorística de Machado. Há também uma edição em um volume só dos três romances mais famosos de Machado pela editora L&PM. Além da dificuldade de manusear o volume, a breve biografia na abertura dele não traz novidade nenhuma, notando que sabemos pouco sobre sua vida antes dos 15 anos, que o Rio se transformou muito em seus 69 anos e que os debates dos anos 1870 o modificaram bastante. O mais interessante é a reedição do livro de Astrojildo Pereira, Machado de Assis, Ensaios e Apontamentos Avulsos, pela Fundação que leva seu nome. Há até um CD com a história de A Última Visita, o célebre artigo de Euclides da Cunha que narra o dia da morte do escritor e a visita de Astrojildo como jovem admirador então anônimo.
Acima, como aperitivo da minissérie Capitu, de Luiz Fernando Carvalho, que estréia em 9/12, incluí duas belas fotos de duas belas atrizes.

Caminhando pela Avenida Angélica outro dia, vi uma dessas pessoas que ficam distribuindo felipetas com o braço esticado em minha direção. Normalmente não apanho essas propagandas, porque acho que ajudam a poluir as ruas e não me interessam 100% das vezes. Mas distraidamente, quase por reflexo, peguei o papel, um quadradinho branco com letras azuis. No alto, estava escrito, entre dois pares de lua e estrela: VIDENTE. Abaixo, uma lista de problemas que ela poderia resolver, como os “amorosos, comerciais e familiares” e também “depressão, timidez, impotência sexual, vícios”. Banhos de descarrego, rezas e simpatias me ajudariam a “ser amado, ter êxito e fama” e, acima de tudo, me curar espiritualmente: “Saiba a causa do seu sofrimento e dor.” Tudo isso com uma consulta de R$ 10 com Dona Júlha (sic) ali perto, ao lado do Mackenzie, no bairro da Consolação. Pertinho do cemitério.
Os séculos passam e o desespero por consolo não muda, necessariamente atraído por soluções fáceis, que sempre lembrem ao indivíduo que seus problemas começam no espírito e, logo, só terminam pelo espírito. Com fé até a falta de dinheiro e amor só v
Tenho pensado muito, porém, que Freud também depositou um fardo sobre a natureza humana, o que significa dizer em certo aspecto que a cultura moderna depositou esse fardo. O complexo de Édipo, o conflito entre o impulso de amar (a mãe) e agredir (o pai), soa como um pecado original, uma espécie de culpa primordial que nossa espécie carrega, um peso que pertence a outra dimensão além de nossa pobre esfera individual. Em livros do final da sua vida, como A Civilização e Seus Descontentes, Freud mudou o tom, dizendo que há uma ansiedade “realista”, que é possível à consciência ajudar a reduzir o sofrimento. A natureza humana é estranha, complexa, com poderosas inclinações ambíguas; mesmo assim, o trabalho da razão, sem idealismo, não é inútil, embora não possa “oferecer consolação”. Mas não foi isso que ficou. A humanidade continua se debatendo sofridamente entre instinto e renúncia.
Nesse pequeno ensaio que acaba de sair em livro no Brasil, Anjos Caídos (Objetiva, tradução Antonio Nogueira Machado), o crítico literário Harold Bloom defende a idéia de que devemos ver os seres humanos assim, como anjos caídos, mas não como satãs, embora Satã apareça na literatura religiosa como um anjo caído. Freudiano e estudioso de textos românticos, Bloom critica a mania americana de filmes e livros sobre anjos e quer dar ênfase à ambivalência humana: somos anjos porque temos imaginação, criatividade, impulso amoroso; ao mesmo tempo somos caídos, porque mortais, dados a fantasias irrealizáveis. Estou de acordo, mas sinto em Bloom, nessa sua mistura de otimismo pragmático americano com melancolia literária judaica, a mesma noção de uma humanidade condenada a priori, “esmagada” por uma frustração ancestral.
No mesmo dia em que li o livreto de Bloom, a mídia trazia as informações sobre o jovem de 22 anos, Lindemberg, que seqüestrou Eloá, de 15 anos, e a matou, no momento de uma operação policial grosseira (que não explodiu a porta direito e não fez invasão simultânea pela janela, entre outros erros). Ele dizia ter um anjo e um diabinho em sua mente, disputando sua atenção ao longo do tempo, e, numa metáfora de poder para superar seu estado emocional dividido, afirmou ser “o príncipe do gueto”. Com arma na mão e um circo ao redor fica difícil ouvir a voz da razão. O sofrimento de Lindemberg não era apenas o de ter perdido a namorada; era o de ter perdido algo que lhe dava uma sensação de encaixe social, de pertencimento ao gueto, de conciliação entre voz privada e papel público. Era menos um amor perdido do que um orgulho ferido.
O irônico é ver que ainda se espantam quando ouvem o relato de uma pessoa assim como alguém pacato, tranqüilo, que só saiu de si porque o namoro acabou. Como o bom cidadão é socialmente visto como o sujeito que não é nunca agressivo, que cumpre o código coletivo de forma quase plena, imagina-se que seja incapaz de atos tresloucados ou criminosos. Mas muitas vezes é justamente por isso, por se cobrar tanto uma afirmação na sociedade, que ele a renega de modo tão cruel. Há quem diga que a contracultura criou um mundo em que não há restrições e por isso os jovens de hoje são tão agressivos. Eu acho que o mundo de hoje apenas reencena ou intensifica a velha clivagem entre as esperanças transcendentais – de harmonias totais e amores arrebatadores, como os comerciais e as canções tanto prometem – e as inevitáveis frustrações.
Não tenho uma boa opinião sobre a natureza humana, com suas inclinações para se iludir e se eximir, para nunca se satisfazer e sempre transferir a culpa para os outros, especialmente os mais próximos. E por isso mesmo acho que uma resistência a esses impulsos – ou sua conversão em relações menos neuróticas, em atividades permeadas por humor e franqueza – pode surgir melhor apenas quando não atribuímos isso a uma culpa inata. O ingênuo e o negativista são parecidos; o que se julga acima do bem e do mal em breve fará companhia a ambos. Se não sabemos a causa exata e completa da nossa dor e sofrimento, isso não significa que temos de nos entregar a loucuras materiais e curas espirituais. Todos desejamos não ter problemas e ser amados por todos. Mas não existe poder para tanto – e isso é bom.
(“Sinopse“)
O Palmeiras deu tilt hoje no Maracanã contra o Fluminense. É fato que se imaginava um jogo bem difícil, com o Flu em recuperação para fora da zona do rebaixamento, mas perder de 3 a 0 já no primeiro tempo foi demais. Os palmeirenses reclamaram do primeiro gol, porque a falta seria em dois lances e foi cobrada diretamente por Carlinhos. Seja como for, sem Elder Granja, Léo Lima e Diego Souza, substituídos por Sandro Silva, Jumar e Evandro, o time tinha posse de bola mas não criatividade; não agredia o adversário. O Fluminense esperava o roubo de bola em seu campo para sair em velocidade no contra-ataque, abrindo o jogo pelas alas, contando ainda com uma tarde infeliz de Martinez na proteção de Leandro pela esquerda. Conca, Carlinhos e Júnior César apoiavam muito, buscando sempre Washington na área, até porque a zaga alviverde é fraca nesse quesito. Um gol contra de Maurício e a bela jogada do gol de Júnior César mostraram a desorganização e o nervosismo do Palmeiras. No segundo tempo, com o lateral Capixaba e o mais incisivo Maicosuel, embora no lugar do matador Alex Mineiro, o Palmeiras não melhorou muito e o Flu desacelerou, apenas administrando o resultado. O futuro do Palmeiras nublou; está sujeito a chuvas e trovoadas.
Já o Corinthians conseguiu confirmar hoje sua volta à Série A, mostrando a seriedade que não mostrou em 2007. Com jogadores como Douglas, André Santos, Morais e a zaga Chicão e William, além dos remanescentes Felipe e Dentinho, o time derrubou a tese de que a Série B seria dificílima. Cabe agora mostrar essa mesma seriedade na Série A.
Estou no Rio e pela cidade só se vêem cartazes do candidato Eduardo Paes, de todos os tipos e tamanhos. Fernando Gabeira se recusou a poluir a cidade. Aqui eu não teria dúvida sobre quem escolher na hora de votar. Paes passou por tudo que é partido e diz o que acha que convém dizer. Gabeira, até onde se sabe, é uma avis rara no mundo político; tem passado limpo e discurso coerente. Como Obama nos EUA, é acusado de não ter experiência, mas tem preparo e clareza suficientes para montar equipe de administração eficaz. Seus artigos recentes, como a coluna que tinha na “Folha” até há pouco, mostravam um amadurecimento ideológico muito grande, muito além do passado guerrilheiro e da fase “odara”. Elegê-lo (e pensar que Crivella era a opção preferida antes!) é devolver ao Rio uma voz nacional, uma abordagem menos preconceituosa e demagógica do poder público. Seus desafios são imensos, mas seriam para qualquer um. Que vença o mais civilizado.
Pelo jeito o Palmeiras começou a se despedir da Sul-americana ontem, na derrota em casa para o Argentinos Jrs. O juiz colombiano, Buitrago, errou feio ao não dar um gol de falta de Léo Lima, pois a bola quicou atrás da linha, e ao permitir adiantamento do goleiro na segunda cobrança de Diego Souza (nem vou entrar no mérito da “paradinha”, que me pareceu exagerada). Mas o Palmeiras jogou mal; só tinha quatro titulares e sentiu falta dos alas Elder Granja e Leandro e dos atacantes Kleber e Alex Mineiro. Luxemburgo tentou melhorar a ligação com ataque pondo Evandro e Maicosuel, mas o time ficou sem centroavante e exposto. Escudero marcou belo gol em contra-ataque aos 21 do segundo tempo, e a equipe do Palestra nem sequer chutou a gol depois disso, travada na retranca dos portenhos. Ficou claro que, compreensivelmente, o clube não dá tanta importância assim para o torneio.
Ser muito bom no que se faz não é nunca errar. Luxemburgo errou na escalação para o clássico ao não usar um primeiro volante, Pierre, o rei dos desarmes; isso para mim era claro antes mesmo de Léo Lima cometer as duas falhas nos gols do São Paulo. Depois da expulsão de Diego Souza, ele acertadamente tirou um zagueiro, Maurício, para a entrada de um meia, Evandro. Mas o time ficou com dois zagueiros – um deles, Roque Jr., sem preparo físico para correr atrás de Dagoberto ou Hernanes. A entrada de Pierre era ainda mais necessária, mas só aconteceu no segundo tempo. Até ali o Palmeiras ficou exposto demais aos contra-ataques, tanto que foi para o intervalo perdendo de 2 a 0.
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O campeonato está muito disputado, o clássico foi emocionante, etc. Os clichês da hora têm seu sentido. Mas o valor da técnica nunca pode ser subestimado: o pouco que apareceu fez muita diferença. Ninguém se deu conta do que Dagoberto fez no segundo gol são-paulino: dominou a bola pelo meio, mas a conduziu para a esquerda onde havia mais espaço e ele ficou no mano-a-mano com Gustavo; então pôde ajeitar a bola de novo para o meio e finalizar com a direita no canto de Marcos. Outro lance de qualidade que mudou a narrativa, para não falar das defesas de vôlei de Rogério Ceni, foi o de Denílson no primeiro gol palmeirense. Quando dominou a bola, havia um jogador a mais do São Paulo. A ousadia individual, quando bem canalizada, dribla a prancheta dos técnicos.
Que o diga Alex, do Internacional, autor de uma assistência e um gol de estirpe contra o Atlético Paranaense. O talento cria o espaço e acha o tempo.
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Os comentaristas de arbitragem, essa espécie autóctone do Brasil, dizem que Salvio Spínola fez bem ao expulsar Diego Souza e Borges para evitar que o jogo esquentasse. O jogo continuou quente e teve nada menos que 45 faltas… Mas nunca saberemos como ele seria com o melhor jogador do Palmeiras e o único homem de área do São Paulo. Um par de amarelos estaria de bom tamanho.
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É verdade que o jogo com dez de cada lado aumentou os espaços e fez subir um pouco a estatística de dribles e finalizações. Mas falta de espaço não é desculpa. Basta ver o que a seleção de futsal de Falcão e companhia fez na Copa do Mundo. Ninguém a merecia mais do que essa geração, mas antes foi preciso que ela entendesse que malabarismo não ganha jogo a não ser em circunstâncias excepcionais. Sem dominar a prosa da troca coletiva, de nada servem os instantes poéticos. Unir regularidade e criatividade é tudo.
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Por que Falcão não deu certo no campo? Porque ele pegava a bola e procurava algum companheiro num raio de cinco metros; muitas vezes não encontrava. Futebol de campo tem geometria mais complexa.
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Não vi ninguém criticando Robinho por seu comportamento no jogo da seleção contra a Colômbia, jogo que comprovou que o time de Dunga só vai bem com quem dá espaços. Robinho simulou contusão para deixar o gramado no momento em que a torcida – com toda a razão – mais vaiava a equipe. Eis o que faltou para que ele se tornasse um supercraque: não se omitir na dificuldade. Certas características psicológicas fazem mais falta do que recursos técnicos.
(“Boleiros”)
“Voto contra o logro, o atraso e a mistificação do voto obrigatório. Voto deveria ser como sexo, baseado na livre escolha, na fantasia e num nítido senso de propósito.”
A ótima frase é do professor e historiador Nicolau Sevcenko.
Também sou contra o voto obrigatório, mas não foi por isso que anulei meu voto uma única vez, em 1989, no segundo turno disputado por Collor e Lula. Foi porque eu quis abdicar de escolher – e registrar um protesto contra a escolha – entre dois candidatos com visões tão toscas e propósitos tão suspeitos que não havia como decidir qual deles causaria menos estrago. Esse é um direito do cidadão como o de votar.
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