Depois de 445 “posts”, este blog vai às festas e só se recupera no dia 7/1. Divirta-se e feliz ano novo.

Este ano editorial repetiu os últimos e trouxe número maior de destaques em não-ficção, especialmente em biografias. Mas em termos de qualidade o destaque vai enfim para a ficção. Li bons romances neste ano, curiosamente pequenos em tamanho. O que mais me agradou, o que mais ficou na minha memória em cenas ou climas, foi O Mar, de John Banville, escritor irlandês, dono de uma prosa que mistura sensibilidade artística com senso científico. Na Praia, de Ian McEwan, não tem a força de Reparação ou mesmo Sábado, mas é uma bela novela. Martin Amis voltou ao seu melhor nível em Casa dos Encontros, um romance “russo” em suas conturbações emocionais e políticas. E Philip Roth continuou a demonstrar por que é o maior de todos, com Homem Comum (original do ano passado, quando eu já o tinha destacado) e Exit Ghost, este ainda não traduzido.
Outros bons autores de língua inglesa tiveram livros editados no Brasil em 2007, mas a meu ver abaixo do que podem, como John Updike, Julian Barnes, Don DeLillo e J.M. Coetzee. Isso para não falar em O Castelo na Floresta, último romance de Norman Mailer, uma das tantas perdas deste ano. Antes que me acusem de só falar de autores anglófonos, confesso que não tive tempo para enfrentar As Benevolentes, do francês Jonathan Littell, e que me diverti muito com Il Colore del Sole, suspense do italiano Andrea Camilleri sobre o pintor Caravaggio, ainda inédito em português.
Quanto aos brasileiros, O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza, e O Sol se Põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho, são livros interessantes, mas, de novo, abaixo do que cada autor poderia ter feito com a mesma história. Outra tônica foi a grande quantidade de reedições ou novas traduções importantes. Livros de Onetti, Waugh, Faulkner; relançamento do Borges completo; reavaliações como a de Paula Fox, autora do romance Desesperados – muitos seriam os exemplos. Na poesia, traduções de Emily Dickinson por José Lira e de Sylvia Plath por Rodrigo Garcia Lopes e Maria Cristina Lenz de Macedo, além do clássico saxão Beowulf por Erick Ramalho, merecem aplausos. O melhor livro de poesia brasileira que li, claro, foi Meu Filho, Minha Filha, de Fabrício Carpinejar.
A lista de biografados ou perfilados brasileiros é grande: Dom Pedro II, Tim Maia, Rubem Braga, Joaquim Nabuco (que comento na próxima semana), Anita Malfatti, Oswald de Andrade (estas duas, reedições), Vinicius de Moraes (perfil por Sergio Augusto e mais seu cancioneiro), Gilberto Freyre. A melhor, ou mais completa, é a de Braga. Leu-se bastante, de novo, sobre a história brasileira, em livros como 1808, de Laurentino Gomes, ou em artigos como os recuperados de Raymundo Faoro, A República Inacabada, e na tese A República Consentida, de Maria Tereza Chaves de Mello. Ensaios de Luiz Roncari, Leyla Perrone-Moisés, Leda Tenório Mota e José Carlos Avellar também trouxeram ângulos novos para velhas e boas discussões.O grande prêmio é de A Dança dos Deuses, de Hilário Franco Júnior, um dos melhores sobre futebol.
Nos ensaios de autores estrangeiros, três temas foram dominantes: religião, meio ambiente e modernismo. Religião foi assunto polêmico de Richard Dawkins e Christopher Hitchens. O tema do meio ambiente teve boas contribuições de James Lovelock e Michael Pollan. E a arte moderna está em livros traduzidos de T.J. Clark e David Sylvester e em três outros lançados nos EUA que resenhei na semana passada: Modernism, do historiador Peter Gay; o terceiro volume da biografia de Picasso por John Richardson; The Rest Is Noise, do crítico Alex Ross. A ciência também rendeu bons livros, como a biografia de Einstein por Walter Isaacson, Eu, Primata, de Frans de Waal, Alucinações Musicais, de Oliver Sacks, e The Stuff of Thought, mais recente de Steven Pinker.
Nesta área também se viu o admirável trabalho de tirar o atraso editorial brasileiro. Livros de Samuel Pufendorf, Benjamin Constant e Trevor-Roper preencheram algumas lacunas da biblioteca liberal. Ensaios de Literatura Ocidental, de Eric Auerbach, e Piero della Francesca, de Roberto Longhi, representam dois dos maiores críticos do século 20. De críticos na ativa tampouco faltaram bons exemplos, como Shakespeare, the Thinker, de A.D. Nuttall, e The Power of Art, de Simon Schama. Istambul, de Orhan Pamuk, os dois de Ashley Kahn sobre jazz, Kind of Blue e A Love Supreme, e A Batalha pela Espanha, de Antony Beevor, felizmente saíram aqui.
Já sei, citei muita coisa. Quer ir ao foco? Voto em cinco melhores: O Mar, de John Banville; Homem Comum, de Philip Roth; Rubem Braga, de Marco Antonio de Carvalho; Alucinações Musicais, de Oliver Sacks; Istambul, de Orhan Pamuk. Boas festas.
DE LA MUSIQUE
Os CDs costumam ser minha segunda diversão de qualidade, embora não saiam tantos CDs bons quanto livros bons. As cantoras brasileiras embalaram o ano: Rosa Passos (que vi no Teatro Fecap), Roberta Sá, Marina de la Riva, Teresa Cristina, Maria Rita, etc. – além da portuguesa Teresa Salgueiro (Tom Jazz), que em Você e Eu só gravou canções brasileiras. Que Belo Estranho Dia pra se Ter Alegria, de Roberta Sá, foi o que mais me alegrou. O mundo pop teve White Stripes, Wilco, Paul McCartney, Björk, Joni Mitchell. Radiohead me parece um grau mais original, com In Rainbows, e não por ter feito o lançamento na internet. Mas pop m-e-s-m-o quem fez foi a encrenqueira, toxicômana e talentosíssima Amy Winehouse. Em apresentações ao vivo ela não vai tão bem, mas seu CD Back to Black é de uma força que havia muito não se escutava. Ela cantando Rehab (“no, no, no”), You Know I’m no Good e Love is a Loosing Game (o amor é um jogo de perdas) é, como se dizia no Pasquim, duca…
Num campo menos popular, trabalhos que mesclam gêneros como Welcome to the Voice, de Steve Nieve, Contínua Amizade, de Hamilton de Holanda e André Mehmari, e Con el Permiso de Bola, de Gonzalo Rubalcaba e Francisco Céspedes, são um alento. E na chamada música “erudita” também houve poucos e bons. Três violoncelistas: Rostropovitch, morto neste ano e homenageado com a caixa Le Violoncelle du Siècle;Yo-Yo Ma (que voltou a brilhar no Cultura Artística), com Appassionato; Antonio Meneses (com Gérard Wyss), Música para Violoncelo e Piano de Mendelssohn. E três jovens para reanimar esperanças: o violinista Vadim Repin, o pianista Evgeny Kissin e o maestro Gustavo Dudamel.
CADERNOS DO CINEMA
Os melhores filmes que vi foram no começo do ano, dentro do “pacote” do Oscar, com destaque para Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood, bem melhor do que Babel, de Alejandro Iñárritu, Borat, de Sacha Baron Cohen, A Rainha, de Stephen Frears, e Vênus, de Roger Mitchell. Ainda não vi O Império dos Sonhos, de David Lynch, e A Maldição da Flor Dourada, de Zhang Yimou, dois cineastas que admiro. Piaf, de Olivier Dahan, vale pela atriz, Marion Cotillard.
Quanto ao cinema brasileiro, diga o que quiser, mas variado e inquieto ele tem sido. Tropa de Elite, de José Padilha, é o filme do ano, apesar dos problemas, e tem o ator do ano, Wagner Moura. O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, vive de um brilhante Selton Mello. O Passado, de Hector Babenco, e Mutum, de Sandra Kogut, são filmes de poucas concessões. Em documentários, novamente dependemos de Eduardo Coutinho e João Moreira Salles, mas não vi ainda Jogo de Cena e não sou um dos entusiastas de Santiago, por beirar a autocomiseração.
OUTROS DESTAQUES
Por motivos profissionais, não pude ir muito neste ano a concertos, teatros e eventos noturnos em geral, mas não posso deixar de citar a peça dirigida por Felipe Hirsch, Educação Sentimental do Vampiro, com textos de Dalton Trevisan, e a nova coreografia do grupo Corpo, Breu, com música de Lenine. São pessoas que não confundem ser experimental com ser impenetrável.
As exposições não foram numerosas também. Vi fotos de Miguel Rio Branco na galeria Millan, revi no CCBB de São Paulo o Aleijadinho e seu Tempo que tinha visto no Rio, etc. Curiosamente, neste lamentável período do Masp (que agora teve duas de suas obras mais valiosas furtadas!), ali curti Darwin e Goya.
(Mais Sinopse.)
No post anterior há perguntas sobre o funcionamento do Masp. Lembro várias matérias feitas sobre a ação-entre-amigos que predomina no conselho; cito as de Jotabê Medeiros no “Estado” e as de Mario Cesar Carvalho na “Folha”. Eu mesmo, quando trabalhava para a “Folha”, cobri aquela crise feia que afastou José Mindlin e botou a turma de Abreu Sodré, em 1994… De lá para cá os diversos problemas da gestão Júlio Neves foram atacados por nós, como naquela ocasião em que faltou luz no museu ou quando ele quis construir painel e depois torre ao lado, o que prejudicaria a arquitetura e visibilidade. Também fiz uma vez uma matéria sobre o conselho de “mandarins” que lá atua, cheio de sobrenomes “importantes”, mas incapaz de estabelecer uma política sustentável de doações e patrocínios. Elvis Cesar Bonassa e eu revelamos que vários conselheiros contribuem com museus em outros países e com nenhum centavo para o Masp… A prática de fazer exposições de pintores sem qualidade para estar ali também ocorreu algumas vezes. Enfim, o Masp não se acertou desde os tempos de Fábio Magalhães. É uma fundação de direito privado, mas que sempre contou com ajuda de dinheiro público, por dotação direta ou via lei Rouanet. Cabe aos cidadãos exigir por um museu mais bem administrado.

Quando ouvi pelo rádio do carro agora há pouco que telas de Picasso e Portinari foram roubadas do Masp de madrugada, senti uma mescla de tristeza e revolta. Tristeza, por ver um acervo tão querido atacado em duas de suas principais obras. Revolta, por dois motivos: por ver que os furtos de obras de arte e documentos têm aumentado no Brasil; e por ver mais um problema na vida já tão problemática que o museu tem tido nos últimos tempos, devido a incompetências de gestão e política. Não há como dissociar, em nossa sensação, o roubo de hoje dessa crise recente. Dirão que “poderia ter acontecido em qualquer lugar”, mas o fato é grave e responsabilidades devem ser apuradas. A pergunta imediata é sobre as condições de segurança do museu. Outra pergunta é se os furtos não teriam sido encomendados, porque são duas obras significativas. A de Picasso é da fase azul, 1904, e vale milhões. A de Portinari, 1939, é uma de suas mais emblemáticas e também vale milhões, embora menos. Independentemente das respostas, a tristeza continua a mesma, até porque é a maior perda que o museu já sofreu. Não é, decididamente, uma boa lembrança de seu aniversário de 60 anos.
P.S. O alarme do Masp simplesmente estava desligado. Infelizmente, a crise e o roubo têm ligação direta.
Foi interessante, além de emocionante, ver Pelé e Kaká juntos na cerimônia da Fifa anteontem. Primeiro, porque fez pensar nessa seqüência de craques brasileiros que já dura 50 anos. Desde 1991, quando se criou o prêmio de melhor jogador do mundo, o Brasil tem dominado: Ronaldo ganhou três vezes (mais duas Bolas de Ouro, o que o põe como o mais premiado de sua geração), Ronaldinho duas, Rivaldo e Romário uma cada. Isso dá um brasileiro a cada dois anos! Certamente Pelé teria ganhado mais de meia dúzia se o prêmio existisse em sua época; Garrincha, Rivellino, Zico e outros também teriam os seus.
Segundo, os dois abraçados – além da atuação mediana do Boca Juniors sem Riquelme – fizeram pensar na triste realidade do futebol sul-americano atual. Kaká precisou estar no Milan para chegar ao topo. Na partida, o clube italiano mostrou que experiência com pitada de juventude é melhor que o contrário. Pirlo lembra Gérson – outro brasileiro que teria um Fifa World Player – pela maneira como distribui o jogo dando a sensação enganosa de que é fácil fazer aqueles passes, lançamentos e chutes. Seedorf é outro que sabe controlar os tempos. Alguém já disse que o time ideal tem defesa italiana, meio holandês e ataque brasileiro; esse Milan é quase isso.
Pelé chegou lá com a camisa do Santos. Lendo esse ótimo Donos da Terra (editora Realejo), livro de Odir Cunha sobre a conquista do primeiro título mundial do clube em 1962, renovamos a perplexidade diante de suas façanhas. E olhe que do lado de lá estava o Benfica de Eusébio, carrasco da seleção brasileira em 1966. Odir Cunha faz um paralelo entre os dois camisa 10:
“Além do físico – 1m75 e 73 kg para Eusébio, 1m74 e 70 kg para Pelé –, tinham em comum a volúpia pelo gol, a explosão, a velocidade, o chute forte e preciso, a coragem diante dos zagueiros, mas havia diferenças. Eusébio precisava de mais espaço para suas arrancadas em linha reta, Pelé era mais adaptável. Tinha o drible curto, a possibilidade da tabela, a ginga de corpo mais acentuada, a malícia do garoto brasileiro. E também chutava melhor de esquerda e era perfeito nas cabeçadas. Se Eusébio era o Pantera, Pelé era a síntese de todos os bichos.”
Kaká, 1m85 e 83 kg, é mais parecido com Eusébio nesse sentido; não tem a ginga e o drible curto de Ronaldinho e Robinho. Mas é como disse Zidane certa vez, quando perguntado sobre sua melhor qualidade, o domínio de bola: “Se futebol se jogasse parado…”. Não se joga. Velocidade e deslocamento, que exigem leitura tática, são fundamentais – ainda mais hoje, com jogadores altos que percorrem até 10 km num jogo. Eis por que a arrancada é um recurso que tem a cara do futebol: ela rompe linhas, quebra esquemas, desperta emoções nos adversários e nos colegas. Kaká, como Pelé, Zico e Ronaldo, mas sem o talento deles para o drible curto, é muito bom nisso, tanto que cresceu no jogo de domingo quando o Boca cedeu espaço no segundo tempo.
Que agora Kaká arranque para o que disse querer: vencer pela seleção a Olimpíada e uma Copa e “marcar uma geração”. E depois, em vez de pastor, eu queria vê-lo como dirigente de clube.
CULTURA É FUTEBOL
Além do livro de Odir Cunha, o futebol está nas livrarias deste final de ano – que já teve A Dança dos Deuses, de Hilário Franco Jr. – com a biografia de João Saldanha por André Iki Siqueira (Companhia Editora Nacional). E nos cinemas, com um bom trecho do documentário sobre o flamenguista José Lins do Rego.
(Coluna “Boleiros”)
Essa é uma dica de Sérgio Augusto, o que já basta para clicar:
http://www.scorsesefilmfreixenet.com/vid…
Trata-se de um filme publicitário de pouco mais de 7 minutos feito por Martin Scorsese à maneira de Alfred Hitchcock para um espumante espanhol (o filme pode ser visto em inglês, espanhol ou catalão). Contei pelo menos cinco citações de filmes do mestre inglês, além da trilha de Bernard Herrmann, mas o mais interessante é como Scorsese imita seus movimentos de câmera (em especial os “plongés”, os mergulhos que adorava), seu modo de montar, seu estilo único.

Oscar Niemeyer divide ambientes no sentido literal e figurado. No figurado, porque está longe de ser a unanimidade que alguns autores brasileiros pintam. Há quem o admire muito, como alguns arquitetos mais novos como Christian de Portzamparc e Santiago Calatrava, e há quem o ataque acidamente, como os ensaístas Kenneth Frampton, Robert Hughes e Marshall Berman. Mesmo no Brasil é comum ouvir críticas à falta de funcionalidade de sua arquitetura, que seria de “um escultor, não um arquiteto”, assim como a classificação dele como o maior ou um dos cinco maiores arquitetos do século 20.
Acho que parte dos motivos de tanta polêmica está no fato de que sua arquitetura não se encaixa facilmente nas classificações disponíveis. Ele nunca foi um modernista “bauhausiano” ou “internacionalista”, do tipo que pretende abolir todo ornamento e toda referência local; tampouco, porém, pode ser classificado como um tradicionalista ou não vanguardista. Do mesmo modo, não pode ser tido como pós-moderno ou como precursor do pós-modernismo em sua ênfase nos elementos quentes e lúdicos, pois Niemeyer sempre foi adepto da simplicidade. A sua é uma arquitetura ao mesmo tempo minimalista e lírica, contida e ousada – e talvez este seja o maior elogio que se possa fazer a ela.
Não é de hoje que a interpretação da arquitetura se divide entre os que põem ênfase na paixão e na expressão e os que a põem na razão e na construção. Isso vem desde pelo menos a disputa entre o “romântico” Ghiberti e o “racional” Brunelleschi no Renascimento italiano. Nos termos atuais, a contraposição se dá entre a arquitetura “espetacular”, como a de Frank Gehry ou Herzog & de Meuron, e a arquitetura “silenciosa”, de Renzo Piano ou Tadao Ando. Como de praxe, os rótulos são insuficientes: basta visitar o museu de Gehry em Bilbao e se surpreender com a sofisticada organização dos vazios internos; e basta pensar no Pompidou e lembrar como Piano pode ser orgânico e rítmico.
É por isso que Niemeyer é reivindicado por ambas as correntes. Os do “espetáculo” salientam seu gosto pelas curvas, pelos elementos coloridos, pela disposição cênica em relação ao ambiente. Os do “silêncio” acentuam sua leveza e singeleza, seu desprezo com o acabamento, seus blocos lisos e suspensos. Na realidade, Niemeyer sempre se colocou, deliberadamente, a meio caminho. Seus aprendizados com Le Corbusier e Lucio Costa foram até onde lhe interessava – o uso de pilotis para revelar o horizonte, o gosto pelo “brise-soleil”, etc. – e logo ele tratou de buscar outras referências, como a natureza do Rio e a arquitetura colonial, para definir seu estilo. Em Pampulha, especialmente, ficou claro que as curvas do barroco mineiro seriam o recurso essencial.
Aqui faço uma advertência. Niemeyer gosta de se dizer pioneiro no uso das curvas e declara que foi ele quem incentivou Le Corbusier a utilizá-las, o que o arquiteto suíço faria com grande brilho na Capela de Ronchamps. Mas as curvas não eram novidade na arquitetura (a começar por Aleijadinho em sua igreja São Francisco de Assis em Ouro Preto), Le Corbu as utilizou de forma diferente (não como recorte do espaço, mas como quebra de simetria) e nos anos 40 e 50 uma série de arquitetos estrangeiros investiria nelas, como Frank Lloyd Wright (Guggenheim de Nova York), Eero Saarinen (TWA, também em Nova York) e Jorn Utzon (Ópera de Sydney).
De qualquer modo, Niemeyer transformou sua combinação de formas curvas e contornos singelos numa assinatura, numa identidade autoral, de tal modo que jamais se confunde uma obra sua com a de qualquer outro arquiteto. Atingiu uma síntese entre a linguagem modernista e a cor local, como não conseguiram nem mesmo os proponentes dessa tese – Mário e Oswald de Andrade, os paulistas que conheceu pouco antes de ter contato com Juscelino Kubitschek. À maneira de Drummond e João Cabral, ele combinou o construtivo e o expressivo, só que com uma diferença fundamental: em tom maior, não em tom menor. Num gesto raro nas artes brasileiras, Niemeyer sempre gostou do monumental.
Ele costuma dizer que sua monumentalidade não é a dos prédios altos ou a dos volumes pesados, e é verdade. Mas que é monumental, é. Suas obras muitas vezes têm mais apelo quando vistas de longe – do avião ou de algum ângulo panorâmico. Foi por esse motivo que Hughes disse que são “fotogênicas” mas “desumanas”, pois tornam o homem pequeno diante de tanta imensidão de concreto. Não à toa suas praças, como a da Esplanada dos Ministérios ou a do Memorial da América Latina, que em sua visão seriam tomadas por multidões, em geral se encontram desérticas, inabitadas, como grandes maquetes sem rotina vital. Frampton e Berman associaram essa inclinação para as dimensões grandes e superfícies áridas à sua ideologia stalinista.
Também a idéia de que seria melhor escultor do que arquiteto, como já escrevi, não escapa ao exame visual. Seus monumentos, como o de JK e o do MST, para não falar da mão sangrenta do Memorial, beiram o kitsch, por sua retórica emotiva e ao mesmo tempo impessoal. O efeito, nesses casos, se sobrepõe ao signo. Do excessivamente literal “olho” do museu que leva seu nome em Curitiba, para dar outro exemplo, fez como base uma coluna de azulejos amarelos com uma enorme figura estilizada em azul, à maneira de um ginásio esportivo soviético. Nos últimos tempos, sua arquitetura tem se aproximado mais e mais dessas formas gráficas, talvez porque facilitadas pelas técnicas de engenharia modernas. O museu de Niterói, por exemplo, é pouco mais que uma forma de disco voador com uma rampa sinuosa, tal como queria o futurismo de 80 anos atrás. E seu projeto para o novo MAC de São Paulo é feio.
As melhores obras de Niemeyer são justamente aquelas em que o prédio se combina com o grafismo de uma maneira mais integrada, menos mecânica. É o caso do Palácio da Alvorada, com sua sucessão de colunas angulosas que cria uma espécie de caligrafia ao redor do volume principal; o mesmo ocorre nos arcos do Itamaraty, reaproveitados na sede da editora Mondadori em Milão. É o caso da Casa das Canoas, no Rio, em que há uma rara harmonia com a natureza ao redor, pela composição com a pedra e a paisagem. É o caso do interior da Catedral de Brasília, que surpreende a quem do exterior a achou pequena e que o põe sob um amplo rendilhado de linhas e luzes. É o caso do Copan e do Partido Comunista Francês, grandiosos edifícios dançantes. É até mesmo o caso do conjunto do Ibirapuera, pavilhão-marquise-oca-auditório, talvez a mais democrática de suas obras. Nelas, o lirismo vence o gigantismo.
Apesar dos problemas funcionais (falta de ventilação e iluminação, disposição ou espaço ruins para ambientes como banheiros, etc.) e também políticos (pois se trata do comunista que mais trabalhou para governos em todo o mundo, com especial domínio sobre as obras públicas do Brasil), a arquitetura de Niemeyer não pode ser reduzida a eles. Tampouco precisa ser exaltada em bloco, como se não oscilasse entre momentos geniais e fracassos lamentáveis, só porque está na moda entre cultores da arquitetura “espetacular”. O que ele fez, porém, nenhum outro arquiteto brasileiro fez: tornou sua arquitetura, mais do que um marco de época ou nacionalidade, uma marca de estilo e universalidade.
(Mais Sinopse.)

Era natural que, entrados alguns anos do século 21, os livros de revisão do modernismo se multiplicassem. Não que sejam novidade: a saturação da arte moderna já é há tanto tempo um dado tão evidente que em 1981 Robert Hughes escreveu O Choque do Novo para fazer seu balanço; antes ainda, nos anos 70, autores como Roberto Venturi criaram o conceito de pós-modernismo para tentar superar os impasses. A rigor, já nos anos 30 os próprios defensores das utopias modernistas as punham em dúvida… Mas hoje, com a virada do calendário e a comemoração de datas como o centenário do quadro Senhoritas de Avignon, de Picasso, o marco mais famoso da pintura modernista, a tendência é que surjam cada vez mais livros sobre o tema.
Os três que acabam de sair nos EUA são muito interessantes: Modernism, do historiador Peter Gay (Norton, 610 págs., US$ 35), o terceiro volume da biografia de Picasso por John Richardson (Knopf, 592 págs., US$ 40) e The Rest Is Noise, do crítico Alex Ross (Farrar, Straus and Giroux, 624 págs., US$ 30).
Peter Gay é conhecido por sua biografia de Freud e por livros que tratam da relação entre períodos históricos e a sensibilidade, como Guerras do Prazer, sobre a burguesia e a cultura do século 19. Seu livro de mais de 600 páginas sobre o modernismo tem como subtítulo The Lure of Heresy, algo como “a sedução da heresia”, e vai “de Baudelaire a Beckett e além”. Seu critério é o do exame da atitude de desafio às convenções, aliada a uma auto-exposição maior do que a de “heréticos” anteriores à segunda metade do século 19. Provocação e subjetividade, portanto, são os traços distintivos do artista modernista, cujos grandes pais são, por isso, Baudelaire e Flaubert, que há exatos 150 anos publicaram As Flores do Mal e Madame Bovary.
Mas a ênfase de Gay é nos artistas e autores do século 20: Picasso, Duchamp, Joyce, Proust, Kafka, Stravinsky, Schoenberg, Balanchine, Frank Lloyd Wright, Le Corbusier, Chaplin, Orson Welles – para citar seus favoritos. Cada capítulo da segunda parte do livro trata de um par de artes. O autor não tem muito a dizer sobre cada um desses nomes, e até escorrega em certas passagens. Virginia Woolf não está à altura de Marcel Proust (ela seria a primeira a reconhecer), e os personagens de Kafka não são apenas “marionetes” nas mãos do destino. Mas Gay é sintético e preciso na maioria dos casos.
O melhor do livro é como mostra o processo cíclico da relação do modernismo com o público: mesmo obras recusadas ao primeiro impacto se tornaram depois admiradas por grande número de pessoas – Oscar Wilde virou símbolo, Duchamp está nos museus, Schoenberg é consumido como um dos grandes da tradição ocidental. Na terceira parte, Gay discute alguns impasses da arte posterior à 2ª Guerra Mundial, como o impasse político em Sartre, o impasse comunicativo em Beckett e o impasse estético em Pollock. A partir dos anos 60 e 70, porém, artistas e consumidores voltariam a dialogar menos angustiadamente com o público, embora também menos criativamente.
O livro, no entanto, não tenta investigar as razões do declínio da arte moderna em relação à primeira metade de sua existência. Critica artistas atuais como Damien Hirst, mas não prefere o tipo de análise que, por exemplo, T.J. Clark fez tão bem em Farewell to an Idea, sobre o esgotamento do vanguardismo, do modernismo utópico de cem anos atrás. Gay prefere apontar para dois artistas que, em sua opinião, levam adiante o legado moderno em nossos tempos: o escritor Gabriel García Márquez e o arquiteto Frank Gehry.
Vê no escritor colombiano um “realismo original”, até “kafkiano”, embora esteja mais perto do romance tradicional, oitocentista, do que da prosa modernista. E vê no arquiteto americano um anticonvencionalismo, permitido pelo computador, que o Guggenheim de Bilbao representa como nenhum outro prédio. “Talvez haja um revival do modernismo de massa algum dia. Considerando a ficção de García Márquez e a arquitetura de Frank Gehry, podemos imaginar artistas ainda desconhecidos, quem sabe ainda nem nascidos, que venham providenciar um novo nascimento depois da morte.”
Um fator que Gay não chega a abordar é o efeito que a era de ouro modernista pode causar sobre seus candidatos a herdeiros. Leia o terceiro volume da biografia de Picasso por John Richardson, que aborda os anos de 1917 a 1932 e os chama de “anos triunfantes”. Acompanhar a vida e a produção de Picasso em 15 anos – e não à toa o livro precisa de mais de 500 páginas para isso – dá sensação semelhante à de visitar seu museu em Paris: você sai dali fascinado e, ao mesmo tempo, enfastiado. Somos lançados num vórtice de atividade, variedade, inquietação; quando acreditamos ter um descanso, Picasso se reinventa, arranja novo amor, inaugura outra fase, decide adotar materiais e gêneros que ainda não havia adotado.
Há algo titânico na figura de Picasso, e a biografia de Richardson – embora mostre todos os seus defeitos como homem e artista, num estilo muito elegante e perspicaz – ajuda a reforçar essa noção. Ele viaja para Roma e trabalha com o balé de Diaghilev; troca a boemia de Paris por noites a desenhar no estúdio; passa por fase neoclássica, em especial na escultura; casa com Olga, depois com Marie-Thérèse, de apenas 17 anos, sensual e ciumenta, e continua amante de Olga; passa o verão com seus amigos Gerald e Sara Murphy em Cap d’Antibes (modelos para o casal Diver de Terna É a Noite, romance de Scott Fitzgerald); tem interesse em xamanismo. Ufa! – e isto é apenas um resumo.
Richardson conta essa história equilibrando narrativa e análise, num estilo de biografia ainda raro no Brasil. Tem informações novas, como a atitude apolítica de Picasso até então; e tem boas sacadas, como a de anotar a influência de um artista espanhol hoje obscuro, Stephanus Garcia, sobre sua obra. No final do livro, Picasso está com 50 anos e vive um de seus anos mais prolíficos, com uma série de retratos, em destaque os nus sentados ou reclinados, muitas esculturas e uma retrospectiva em Zurique. Já é um mito, o maior de todos os artistas modernos, e a sensação é a de que será olhado daqui a 400 anos como hoje olhamos Rembrandt quatro séculos mais tarde.
Na verdade, talvez todo o período que vai de meados do século 19 a meados do século 20 venha a ser visto mais ou menos como o Renascimento, uma rica e longa fase da cultura européia classificável sob um mesmo nome. No caso de Alex Ross, cujo livro tem o subtítulo Escutando o Século 20, a obra de compositores modernos como Wagner e Brahms não é analisada, mas ele claramente inicia seu livro no bojo de uma época privilegiada da música moderna. Sua abertura é com dois compositores que atravessaram o “fin-de-siécle” sob aquelas sombras: Gustav Mahler e Richard Strauss.
A estréia da ópera Salomé, de Strauss, e da Sexta Sinfonia de Mahler, ambas em 1906, é o ponto de partida de Ross, num capítulo não por acaso intitulado A Era de Ouro. Ambos enfrentam com enorme talento os desafios do cromatismo, da música tonal levada ao limite da dissonância, mas cada um por uma estratégia diferente: Mahler mais “modernista”, menos acessível; Strauss mais popular, mais tradicional. Ross enxerga – ou escuta – nessa rivalidade uma clivagem que atravessará todo o século 20. No capítulo seguinte, por exemplo, fala sobre Schoenberg e Debussy. Mas mostra no caso de Schoenberg, em especial, que suas investidas contra o sistema tonal não são tão radicais quanto se pensa. Há uma tentativa de incorporar intervalos dissonantes, o que na ópera Moses und Aron ele realiza numa síntese tão complexa quanto recompensadora.
Ross também desmente o mito de que a música moderna é antipopular, contando, por exemplo, que A Sagração da Primavera, de Stravinsky, provocou polêmica em sua estréia em 1913, mas logo caiu no gosto do público e fez temporada de sucesso. Stravinsky, no livro, é de certo modo o compositor mais feliz em sua combinação de contrários, pois reinventou a linguagem musical com sua textura rítmica sem deixar de fisgar o ouvinte com seu senso melódico. “Stravinsky respondeu com explosões periódicas de dissonância e complexidade rítmica, que mimetizam a energia da multidão urbana moderna”, diz sobre Pássaro de Fogo.
Ross nos reafirma a qualidade artística da primeira metade do século 20 ao tratar com grande talento de obras como – além das de Mahler, Strauss, Debussy, Schoenberg e Stravinsky – Wozzeck, de Alban Berg, Romeu e Julieta, de Prokofiev, Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, de Shostakovich, Concerto para Orquestra, de Béla Bartók, Peter Grimes, de Benjamin Britten, e Quarteto para o Fim dos Tempos, de Olivier Messiaen, para não falar de Aaron Copland, Paul Hindemith, Janácek, Jean Sibelius e outros que destaca. O autor também faz grande contribuição ao incluir Rhapsody in Blue, de George Gershwin, e A Ópera dos Três Vinténs, de Kurt Weill e Brecht, no mesmíssimo patamar.
Afinal, uma das marcas do modernismo é o “high & low”, a mescla do popular com o clássico, do comercial com o sofisticado. Em vez de tomar isso como problema, Ross analisa seu potencial inovador. Faz referências constantes ao jazz, especialmente ao bebop, e cita a aproximação a ele de grupos “eruditos” como Les Six – e na mesma passagem, ao citar Darius Milhaud, descreve sua ligação com Villa-Lobos e a música popular brasileira: “Villa-Lobos estava mergulhando idéias rítmicas de Stravinsky nos padrões complexos que havia detectado na música afro-brasileira.” Também menciona experimentos de grupos de rock como os Beatles, Velvet Underground e Radiohead.
Mas Ross nem sequer tenta negar a visão de que a música de concerto deixou de ter o mesmo vigor dos anos 50 para cá, em parte pela evolução da música comercial, em parte pelos excessos vanguardistas. Admira o trabalho de minimalistas como Steve Reich e Philip Glass, por sinal dois apaixonados por jazz, mas não tem ilusões: “As revistas que antes punham Bernstein e Britten em suas capas hoje só têm tempo para Bono e Beyoncé.” Mesmo assim, nota a grande audiência que a música erudita continua a ter, com ótimos intérpretes aparecendo geração após geração, e cita compositores vivos como John Adams (Nixon in China) e Arvo Pärt (Cantus) ou recentemente mortos como György Ligeti para afirmar sinais vitais, assim como Gay citou Márquez e Gehry.
O que esses três livros podem fazer, no entanto, é justamente inspirar novos criadores, em vez de assustá-los com tanta produtividade. Talvez já não seja preciso ser, como dizia Rimbaud, “absolutamente moderno”. Mas, para ser eterno, não há como deixar, ainda que relativamente, de ser moderno.
(Fonte.)
E ainda há quem duvide de Kaká. Na vitória do Milan sobre o Boca por 4 a 2, ele fez duas assistências para Inzaghi, marcou um gol, ajudou na marcação e fez três arrancadas excelentes. No primeiro tempo, com o Boca fechando bem os espaços e Battaglia em seu encalço, ele acertou menos, mas foram dele a iniciativa e o passe do primeiro gol. O Boca marcou logo em seguida, ao seu estilo – gol de cabeça de Palácio, único do time que se destacou. No segundo tempo, o gol aos cinco minutos de Nesta facilitou as coisas para o Milan – e especialmente para Kaká, que, embora participe muito de qualquer jogo, rende mais quando tem espaço para sair em velocidade. O Boca avançou, o trintão Milan manteve a calma e a técnica – com o toque de bola de Pirlo e Seedorf – e Kaká passou a explorar os vazios; ainda quase fez mais dois ou três gols, um deles de cabeça. Fechou, assim, o ano com noite de gala, pronto para receber amanhã o prêmio Fifa de melhor do ano. Grazie, “il Principe”.
AK Delicatessen, Le Petit Trou e Sal estão aparecendo nas enquetes de melhores do ano e merecem. São três restaurantes muito bacanas, em especial o primeiro. AK é de Andrea Kauffmann, fica na rua Mato Grosso (Higienópolis) e faz uma mescla de cozinha judaica com internacional. Varenick com azeite trufado e confit de pato com romã são alguns dos pratos originais e deliciosos que ela serve. Além disso, podem-se pegar na delicatessen do primeiro andar coisas como homus, pasta de berinjela ou arenque marinado. No Petit Trou, na rua Vubapussu (Pinheiros), do mesmo chef do Allez, Allez!, há pratos de bistrô muito bons, como galetos e peixes, além de uma ótima paleta de cordeiro, tudo com receitas de Normandia e Bretanha. E o Sal, na galeria Vermelho (rua Minas Gerais), cujo chef trabalhou no D.O.M., é mais simples, não menos saboroso: atum com gergelim, risoto de carne seca e queijo coalho, crocante de banana… São Paulo não pode reclamar de restaurantes sem qualidade nem criatividade. Com Aizomê e Pomodori, afora os que não conheci ainda, a oferta só fez aumentar nos últimos tempos.
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