A julgar pela maneira como começou, a preparação da Copa de 2014 no Brasil nos próximos sete anos vai dar muito aborrecimento. O vôo de políticos, formando a maior delegação oficial já vista nesse tipo de cerimônia, a ausência de Pelé e o discurso de Ricardo Teixeira – além do próprio relatório da Fifa sobre as condições do País – parecem prenunciar a confusão. É claro que realizar a Copa aqui é algo justo e atraente; quem acha que eventos assim não são importantes e não trazem benefícios, pois o mesmo dinheiro poderia ir para outras áreas mais carentes, não chegou nem ao século 20. E é claro que vou gostar de ver e cobrir a maior das festas esportivas. Mas exatamente por isso somos todos obrigados a exigir que seja feita com decência e eficiência.
Por que governadores como Aécio Neves e José Serra precisaram ir até a Suíça para fazer lobby por seus estados? Não podiam esperar alguns dias e fazer uma reunião em território nacional? Quanto a Pelé, foi preciso Platini gritar o óbvio para que a imprensa registrasse a indefensável ausência do maior nome do futebol brasileiro e mundial. E por que Romário e não Zico ou Rivellino? Porque o baixinho é amigo de Teixeira? O discurso foi o ufanismo esperado, mas precisava ser tão explicitamente lulista e tão exagerado a ponto de sugerir que a Copa será a entrada do Brasil no Primeiro Mundo?
E há a questão maior, a própria CBF. Sim, ela é uma entidade privada, autônoma, que usufrui do benefício exclusivo de explorar símbolos nacionais para organizar eventos e vender camisas. Mas eis a própria razão para que seja vigiada pelo poder público. A idéia é que as federações esportivas não se confundam com a política do momento, mas na prática o que acontece é o contrário. Dinheiro público, afinal, é usado em todo país que sedia a Copa; logo, deve ser auditado e explicitado. Alguém aí viu as contas finais do Pan 2007? Quanto de fato ele custou e quanto arrecadou em ingressos?
Depois da comemoração, a ênfase deve ser outra. Há pouco tempo para que o Brasil produza uma Copa admirável, com estádios reformados (não há por que construir muitos), condições mínimas de turismo, acesso e segurança (muito piores do que as relatadas pela Fifa), infra-estrutura para imprensa, etc. De onde virá o dinheiro? Quanto dele passará pelos cofres da CBF? Como serão as licitações das obras? Que uso terão os equipamentos novos depois de terminado o evento? Há uma série de perguntas a pedir respostas rápidas.
“Se a África do Sul está fazendo, o Brasil também pode”, dizem uns. “Problemas existem em todos os lugares”, dizem outros. Mas começar o trabalho já arranjando desculpas, nesse clima de “a Copa do Mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa”, é tudo de que não precisamos agora.
BRASILEIRINHO
Enquanto isso, no futebol brasileiro mal organizado pela CBF, o São Paulo mostra profissionalismo dentro e fora do campo e, por isso, deve garantir o título hoje à noite, bastando empate com o lanterna América, com folga de quatro rodadas. O clube não será campeão por jogar feio, na defesa, etc., como dizem os invejosos, mas porque sabe substituir os jogadores que vende sem afetar a continuidade do trabalho de um técnico. Os demais vivem à mercê de ciclos quase casuais, de crise em crise, incapazes de entender a justiça dos pontos corridos. Pelo jeito, a maioria ainda será assim em 2014.
(Coluna “Boleiros”)
Eu me lembro de quando Zeca do PT assumiu o governo do Mato Grosso do Sul em 1999 e foi saudado até pela revista Veja como um dos representantes do “novo PT” ou do “PT light”, menos ideológico e mais eficiente… Esse mesmo Zeca que tentou obter uma pensão vitalícia para ex-governadores do MS é, agora, acusado pelo Ministério Público Estadual de desviar R$ 30 milhões das verbas de publicidade em seus dois mandatos. O esquema, segundo o MP, envolvia o pagamento de um mensalão a deputados do PT e de aliados. O nome de Marcos Valério não apareceu, mas o esquema não é muito diferente do que tucanos fizeram em Minas Gerais e petistas no governo federal: agências de publicidade faziam contratos com o poder público, não executavam os serviços, apresentavam notas frias e pegavam o dinheiro, deixando uma parte para o caixa 2 do governo. Entre os deputados petistas beneficiados com quantias mensais, segundo livro-caixa do gabinete, estaria Delcídio Amaral, senador do MS, aquele que o governo indicou para presidir a CPI dos Correios na crise do mensalão. Zeca do PT também é acusado de favorecer caças-níqueis e empreiteiros em sua gestão.
Ainda é preciso rastrear os depósitos (ou saques) das quantias, mas muitas provas já existem – como as notas frias e os contatos não executados – de que havia um esquema de peculato. E há quem ainda considere o PT mais honesto do que os outros…

Essa declaração racista de um dos descobridores do DNA, James Watson, de que a África é atrasada porque os negros são menos inteligentes, assim como a declaração machista que o reitor de Harvard Lawrence Summers havia feito, de que há poucas mulheres entre os grandes cientistas da história por capacidade inferior inata, são – além de quase inacreditáveis em pleno século 21 – muito mal-vindas numa época em que vemos tanta pesquisa e reflexão inovadoras sobre a relação entre meio ambiente e herança genética. Acho que ajudam a reforçar a noção vulgar de que a ciência não pode ajudar a entender o comportamento humano, tema que seria exclusivo da psicologia, da sociologia ou das artes.
O que a gente tem visto é o contrário. Estudos sobre evolução e neurologia podem lançar luzes sobre a natureza humana, ou ao menos lançar sombras sobre teorias a respeito de entidades psíquicas que não existem de fato. Não, não se trata de dizer – como supõe certo jornalismo superficial – que os cientistas hoje reduziram o espírito à matéria, como se tudo pudesse ser explicado por seu funcionamento fisiológico. Na realidade, cada vez mais se percebe que a biologia e a cultura – “nature” e “nurture” – se relacionam de forma muito mais intensa do que se dizia antes. A carga genética não é mais nem um estoque estático, a predeterminar toda uma história vital, nem um simples conjunto de predisposições, do qual nosso livre-arbítrio poderia nos desamarrar.
Comportamentos complexos, como a construção de uma sociedade justa ou a elaboração de uma tese científica, envolvem fatores poligênicos (não se limitam a um gene só) e estes se entrelaçam com “inputs” do ambiente, que pode ou não ativar determinado traço genético ao longo do tempo. A simples existência de um único negro genial ou de uma única mulher brilhante – de Machado de Assis ou de Marie Curie – derruba por terra a generalização preconceituosa, porque cada um desses casos exigiria uma explicação específica que jamais seria suficiente. Não me venha com a frase pronta sobre “exceções que confirmam a regra”. Essas exceções confirmam que não há regra; que a inteligência não é privilégio de nenhuma linhagem ou sexualidade.
Livros importantes sobre essa questão não param de sair. O mais recente de Oliver Sacks, traduzido no Brasil como Alucinações Musicais (Companhia das Letras), não é seu trabalho mais importante, mas seguramente traz histórias que dizem muito sobre como sabemos pouco sobre o cérebro para que tiremos conclusões tão categórico. Sacks é um médico que se beneficiou de duas grandes tecnologias, a das novas pílulas que controlam estados mentais (como a L-dopamina, de Tempo de Despertar) e a das ressonâncias e tomografias que registram as atividades neuronais (mapeando com imagens coloridas a freqüência de cada região a cada momento). No novo livro, conta casos de pacientes que sofreram lesões cerebrais e encontraram na música não apenas um consolo terapêutico, mas a própria readaptação mental e social.
Como nos trabalhos de outro neurocientista, Antonio Damasio, Sacks mostra que o cérebro tem ampla faculdade de auto-regulação que independe da consciência propriamente dita e, no caso, que tem grande sensibilidade à linguagem musical, por lidar com emoções e sentimentos que às vezes nem sabemos que temos. A ênfase num dos elementos da música (ritmo, melodia, harmonia) serve melhor para cada tipo de doença, mas o que há em comum é essa capacidade de criar um equilíbrio justamente na região de maior atividade consciente, o córtex frontal – tanto que o escaneamento do cérebro de músicos profissionais mostra justamente que neles a música é operada ali de modo mais intenso. Razão e emoção não são dois módulos em eterno conflito dentro da mente.
Surpreendente é ver no novo livro de Steven Pinker, The Stuff of Thought (Viking), ainda sem tradução no Brasil, esse mesmo tom de sensatez. Pinker, afinal, é desses autores que levaram longe demais a analogia entre o órgão cerebral e os organismos evolutivos. Foi ele quem disse, por exemplo, que os homens têm maior tendência à infidelidade porque sua fisiologia requer a dispersão do sêmen para sobrevivência. (O que ainda não lhe ocorreu é que, pela mesma lógica, poderíamos dizer que as mulheres tendem mais à infidelidade porque um único óvulo precisa do assédio de milhares de espermatozóides…) A inclinação do macho por maior variação de parceiros pode ter origem biológica, quem sabe ligada com a maior energia física, mas essa seria apenas uma das variáveis no resultado final; séculos de submissão cultural pesam, e como.
Pois Pinker, nesse livro em que revê algumas idéias que defendeu em O Instinto da Linguagem (este disponível no Brasil, pela editora Martins Fontes), reage agora contra a dicotomia entre a visão da sintaxe verbal como uma estrutura inerente ao cérebro humano – a tese de Noam Chomsky – e a visão dela como produto da atividade social. A verdade está no meio e isso só a torna mais difícil de compreender. A linguagem é o estofo do pensamento, a “janela para a natureza humana” (como diz o subtítulo do livro), não por ser apenas veículo da lógica, mas por conter metáforas e associações que dizem respeito a padrões emocionais e morais que enriquecem o significado de palavras e frases. A natureza humana não é um papel em branco, mas tampouco um livro sem errata.
Pinker fala muito sobre o aprendizado verbal de crianças. Olhando meu filho de um ano e meio, penso sempre sobre como ele, que não fala mais que uma dúzia de palavras, é capaz não só de entender frases mais longas, mas também de fazer sozinho associações inesperadas entre nomes e imagens. (Certa vez, subindo de carro a rua que dá no clube, ao entrever o portão de entrada ele exclamou “Gol!”, porque na quadra dali, poucos dias antes, havia chutado bola. Sem ver a quadra e a bola, estabeleceu a ligação, mostrando também percepção de tempo.) A linguagem verbal, por conter imagens, sons e conceitos, envolve a ativação de diferentes áreas cerebrais, algumas relativamente distantes; e essa abrangência é que lhe dá uma riqueza constitutiva, não supérflua.
Para mim, há um teor libertário nessa idéia de que características potenciais, inatas ou adquiridas, interagem o tempo todo com estímulos externos, tantas vezes imprevisíveis – e de que, portanto, o cérebro é um órgão aberto, um sistema em constante transformação, sem deixar de ter muitos condicionamentos e limites. O que chamamos de mente ou espírito é essa interação entre ele e o ambiente, a qual sempre tem expressão fisiológica. Somos todos habitados pelos outros, por suas falas e noções, mas temos nossa própria voz, um compósito exclusivo que se forma a partir delas. Antes de seres morais, prontos a assimilar doses excessivas de orgulho e medo, somos seres curiosos, constantemente provocados pelo que nos cerca e dotados de algum poder de interpretá-lo. É muito bom que nosso cérebro independa de nossa vontade para seguir funcionando, pois isso permite que ao menos tentemos usar nossa vontade para ampliá-lo ou corrigi-lo. Nem tudo é vaidade.
(Mais Sinopse.)
O São Paulo fez bom jogo na Ilha do Retiro contra o Sport, agora há pouco, e ficou a um empate do título brasileiro. O time pernambucano deu espaço para o meio-campo são-paulino e cometeu faltas demais no início do jogo. Não à toa, aos 27 minutos Rogério Ceni marcou em cobrança de falta sofrida por Aloísio. Ceni ainda teve a chance de ampliar o placar, mas desperdiçou pênalti, também sofrido por Aloísio. No segundo tempo, o Sport trocou volante por atacante e foi para cima. Mas tomou gol num contra-ataque armado por Hernanes e Júnior e finalizado por Aloísio. Em seguida Leandro, improvisado na lateral direita no lugar de Souza, cometeu pênalti, convertido por Da Silva. A pressão do Sport aumentou, mas a defesa quase inexpugnável do São Paulo salvou todas.
P.S. Com o empate do Palmeiras com o Vasco ontem, basta ao São Paulo empatar com o América no Morumbi, quarta.
É cada vez maior a febre por novas tecnologias, novos “gadgets”, por ser aquilo que os americanos chamam de “early adopters”, ou seja, adotar o mais rápido possível as mais recentes novidade do setor. Sempre estive mais perto desses “novidadeiros” do que dos conservadores, como jornalistas e escritores que se recusavam (alguns ainda se recusam) a abandonar a máquina de escrever. Lembro meu pai comprando videocassete para a gente gravar a Copa de 1982. Em 1985 fiz curso de informática, em que aprendi linguagens pré-históricas como Basics, Lotus, etc. Quando a internet surgiu, lá por 1995, também fui dos primeiros usuários num computador da redação do jornal onde trabalhava (e como era chato esperar carregar um site!) e até escrevi romance juvenil de emails. Para ter celular demorei um pouco mais, até porque no começo eram uns trambolhos que pareciam rádio-amador, mas sempre achei que ter um telefone móvel para conversas úteis e rápidas seria de grande ajuda na rotina urbana. Etc., etc.
No entanto, não partilho da ansiedade que algumas pessoas sentem por alguns produtos, nem vejo neles o glamour que elas parecem ver. O iPod, por exemplo, é bacana principalmente para quem vai caminhar ou correr (como era o walkman) ou para quem não quer carregar muitos CDs no carro, mas ainda empaco na qualidade do som de MP3; gosto de ouvir música em ambiente. Email no celular, então, me dá calafrios: recebo centenas por dia, e seria difícil resistir a checá-los. Não sou de games e orkuts, coisas mais para adolescentes. Alguns programas eu prefiro esperar que se tornem aprovados pelo uso em grande escala, como o Windows Vista, do qual só ouço reclamarem. Ou como as TVs de plasma de R$ 20 mil que hoje são micos na casa de algumas pessoas (não só pelo preço, mas também pelas manchas). Essa necessidade de consumir está muito atrelada a desejos de afirmação social, de ostentação e modismo, de dizer “eu estou por dentro e você está por fora”; raras vezes, portanto, será uma decisão baseada em realismo. Isso para não falar de objetos inegavelmente ridículos, como celulares pendurados na orelha, alguns piscantes, que fazem pensar em filme B de ficção científica.
Mas que há coisas incríveis, há. Na semana passada baixei da internet o novo e ótimo CD do Radiohead, In Rainbows, e copiei do computador para um pen drive, pois tem mais de 40 Mb e eu queria presentear a um amigo. A câmera digital também é muito útil, até para produzir este blog, e não vejo a hora de ter uma decente em meu celular. Quanto à internet, é óbvio que sites como Amazon – do qual sou cliente há dez anos, com pelo menos uma compra por mês, e nunca tive o menor problema com cartão ou entrega -, Google e muitos mais são de utilidade ímpar. Espero também que sites como o You Tube se multipliquem e evoluam, para que possamos acessar filmes, clipes e outros arquivos audiovisuais – como, digamos, os gols de Puskas. Outra esperança é de que os serviços de internet por telefone melhorem, assim como as conexões sem fio por celular (que me deram canseira na Copa da Alemanha). E que bom que o preço dos laptops está caindo…
Quando não se está enfeitiçado pela tecnologia, que termina dominando a vida e tirando a paz de quem não pensa duas vezes ao ouvir a musa, bem que ela pode dar bastante prazer. Os críticos culturais do século 20 olhavam esse mundo como um apocalipse da civilização. Mas acho que hoje isso não passa de medo do progresso, disfarçado de ideologia.
Depois de quatro dias, o resultado da enquete sobre o melhor ator da nova geração deu Wagner Moura (75 votos), seguido por Selton Mello (43), Matheus Nachtergaele (29), Lázaro Ramos (14) e Rodrigo Santoro (7). Se a pessoa votou em dois ou até três nomes sem hierarquia, considerei um para cada um. Outros citados foram, pela ordem, Marco Ricca, Pedro Cardoso e Milhem Cortaz. Entre os nomes que não incluí, apareceram Caio Blat e Rômulo Arantes Neto (?).
A vitória de Wagner Moura era esperada, até porque acaba de fazer dois papéis de grande popularidade e com grande qualidade: o Olavo da novela Paraíso Tropical e o capitão Nascimento de Tropa de Elite. Que tenha feito um executivo sacana e um policial moralista, cada qual em um meio (cinema e TV), é uma demonstração inegável de sua versatilidade; além disso, ele já fizera no cinema um papel levemente cômico em Deus É Brasileiro e um dramático-sensual em Cidade Baixa, entre outros. Ele não precisa de trejeitos e caracterizações para assumir a personalidade de quem representa, o que tem em comum com Paulo Autran, além da boa elocução e da presença cênica. Se fizer alguns bons papéis no teatro – pois é no palco que encontramos ainda a medida de um ator -, como pretende com Hamlet em breve, fará ainda mais justiça a essa comparação ousada.
Selton Mello em alguns momentos parece muito próximo do que é na vida real, até no modo de falar (rápido e baixo), mas dá show quando tem papéis muito marcantes como em Auto da Compadecida e Cheiro do Ralo (em Lavoura Arcaica me parece perder a mão em alguns momentos, até comendo sílabas), nos quais parece outra pessoa. Matheus Nachtergaele, porém, é tecnicamente o mais completo dessa turma, não só por sua versatilidade – da tragédia de Apocalipse à comédia de Auto da Compadecida -, mas também por sua concentração e dicção, comparáveis às de Cacá Carvalho; na cena da carta do pai em Central do Brasil, por exemplo, é comovente sem precisar irromper em lágrimas (e pouco antes aparecia esbanjando recursos com uma seqüência de trava-línguas). De todos, Lázaro Ramos, que ainda não vi no teatro, é quem me dá mais temor de que se deixe mecanizar pela máquina da telenovela. Seu Madame Satã era poderoso e seu Foguinho divertido, mas ele não é tão preciso quanto Moura nem tão anticonvencional quanto Matheus e Selton.
Enfim, meu voto seria para Wagner Moura, como possível herdeiro de Autran, e para Matheus Nachtergaele, como o ator de melhor repertório, até por ter feito muito teatro. Mas, como muitos comentários disseram, são todos muito bons e é um prazer ter essa geração na ativa.
Dessa novela chata e deprimente sobre a negociação da prorrogação da CPMF, muitas coisas podem ser ditas e uma delas certamente é que o PSDB não poderia estar pior na fita.
Primeiro, porque o partido o criou e o governador José Serra, economista que se diz neokeynesiano, tenta defendê-lo com argumentos como “não é o pior dos impostos”, como se isso fizesse dele menos injusto e incômodo ao taxar indiscriminadamente a circulação financeira. (O PT também comete suas besteiras quando tenta defendê-lo: Fernando Pimentel, prefeito de BH, disse na CBN que o imposto levanta R$ 36 bilhões por ano e a Saúde consome R$ 40 bilhões do PIB, logo ele cumpre sua finalidade… Não, o dinheiro não vai diretamente para lá e a idéia era que aumentasse o investimento no setor, não o substituísse.)
Segundo, porque incluir no escambo político o engavetamento do processo contra o hoje senador Eduardo Azeredo pelo valerioduto tucano, alegando que foi anterior a esse mandato, é um acinte. O crime não caducou e deve ser julgado sem dó. Mas o que estou dizendo? Isso seria supor que os tucanos são menos frouxos do que os petistas no quesito ética, e todo mundo já sabe que esse é um tema que não depende mais de partido. A grande ocasião para marcar diferenças já ocorreu há mais de dois anos, quando estourou a revelação sobre o mensalão. Hoje, como sempre, estão todos iguais: sem moral nenhuma.
Tenho ouvido todo tipo de reação à situação do Corinthians, que ao perder do Náutico parece ter posto um pé na Série B. Já há pessoas começando a se convencer de que o futebol da segundona é mais autêntico, mais vibrante, com estádios mais cheios… Outros fazem as contas e garantem que uma vitória sobre o concorrente direto, o Goiás, na antepenúltima rodada, em 11 de novembro, significará a permanência na Série A: “O Corinthians sempre se safa na última hora”, dizem esses fãs de James Bond. Outros reconhecem a tragédia – afinal, se não fosse pelo goleiro Felipe o time já estaria matematicamente rebaixado – e vão acompanhar rugby no ano que vem.
Mas relaxem; tenho a receita perfeita para a salvação alvinegra. Pegue o clube, entregue de bandeja para uma máfia russa, não se incomode com as denúncias que pipocarem nos jornais, pague as transferências mais caras da história da América do Sul, contrate um craque argentino, deposite salários em contas de paraísos fiscais, conte com a ajuda dos árbitros e, pronto, vença quatro dos seis jogos que restam, mesmo que até agora tenha vencido apenas 9 dos 32 que jogou… Então grite com os pulmões plenos de otimismo: “El, el, el, o Kia é da Fiel! El, el, el, o Kia é da Fiel!”
***
Trabalho duro será também o dos comentaristas esportivos na hora de eleger os melhores do campeonato, deixando de lado aqueles que não fizeram nem metade das rodadas, como Zé Roberto, Michel, Willian e outros. Como o campeonato foi marcado pelo esquema com três zagueiros, talvez fique mais fácil assim: Rogério; Breno, Alex Dias e Thiago Silva; Pierre, Richarlyson, Jorge Wagner e Kléber; Valdívia, Wagner e… Josiel? Acosta? Thiago Neves? Assim como não tenho lateral direito, não sei quem seria o centroavante.
Mais do que camisa 10, o futebol nacional está carente de 9. O que não se pode é confundir essa carência com desnecessidade. Na Europa, os times cada vez mais jogam com três atacantes, um deles de área. (O Barcelona ontem entrou com quatro – Messi, Ronaldinho, Gudjohnsen e Henry –, mas não venceu a retranca do Rangers.) Aqui, vivemos a era dos volantes, muitos improvisados como alas ou meias. Na seleção de Dunga, Vagner Love e Afonso logo logo terão a concorrência de Fred, Ronaldo, Adriano, Pato e Luís Fabiano. Ufa.
(Da coluna “Boleiros”)

Gosto muito da Mostra de Cinema de São Paulo, mas ainda bem que boa parte dos melhores filmes chega ao circuito comercial depois. O novo David Lynch, por exemplo, teve apenas três sessões e não pude ir a nenhuma. Tudo esgota de forma rápida: o evento é mais chamariz do que cada filme propriamente.
Hoje fui ver Sombras de Goya, de Milos Forman, que no original é Fantasmas de Goya. (Menos grave do que ocorreu com o filme de Denys Arcand, A Era das Trevas, que virou A Era da Inocência.) Sou fascinado por Goya e pela Revolução Francesa e admiro o trabalho de atores como Javier Bardem e Natalie Portman; estava disposto também a aplaudir Milos Forman, que em Amadeus cometeu uma série de apelações com a figura de Mozart mas fez um filme simpático a partir de um argumento bem sacado, a inveja instruída de Salieri. Lamento dizer que Sombras de Goya decepciona.
O ator que faz Goya, Stellan Skarsgard, é limitado, e a caracterização do pintor está longe de mostrá-lo agudo e irônico como nos contam as biografias. Natalie Portman, linda e seminua em algumas cenas, tampouco convence como espanhola. Sua personagem, Inés Balbitua, é acusada pela Inquisição por judaísmo. Bardem, o melhor do filme, faz o padre, Lorenzo, que se envolve com ela; a grande cena é dele, quando pressionado pela família da moça. Nessa história folhetinesca, um rocambole cheio de “acasos” hollywoodianos, Goya se torna um coadjuvante. Melhor assim.

Na Sinopse de ontem, escrevi mais um pouco sobre Paulo Autran e o filme de Babenco, O Passado. No sábado, publiquei texto sobre o crítico Décio de Almeida Prado e sua relação com Autran. À noite, na casa de um amigo, conversei com um talentoso ator da nova geração sobre Autran, seu ídolo, e sobre outras grandes interpretações que vimos no teatro, como as de Cacá Carvalho (O Homem com a Flor na Boca), Elias Andreato (Van Gogh e Oscar Wilde) e Luís Melo (Vereda da Salvação).
Então me ocorreu fazer esta enquete. Temos uma ótima safra na alternância entre cinema (em destaque), teatro e televisão, em média dos 30 aos 45 anos, com o desafio de não se perder em tantos papéis (como Luís Melo de certa forma se perdeu). São os herdeiros de Paulo Autran. Qual deles você acha melhor e por quê?
1) WAGNER MOURA – Em voga no momento por causa do Olavo da novela Paraíso Tropical e do filme Tropa de Elite, é bom na comédia e no drama, principalmente em papéis fortes que exigem toque irônico.
2) LÁZARO RAMOS – Também faz bem novela, como no macunaímico papel de Foguinho em Cobras e Lagartos, e fez um excelente Madame Satã no cinema. Como Moura, pode ser galã, vilão ou palhaço.
3) MATHEUS NACHTERGAELE – Estourou no Teatro da Vertigem, com um raro senso do trágico. Mostrou dicção de virtuose em Central do Brasil e Auto da Compadecida. Na TV cai em papéis cômicos, por seu tipo físico.
4) RODRIGO SANTORO – Jovem galã de novelas, conseguiu sair do tipo ao fazer o protagonista de Bicho de Sete Cabeças e o travesti de Carandiru. Tenta carreira em Hollywood, ainda em papéis de poucas falas.
5) SELTON MELLO – Cada vez mais distante de novelas, é marca do novo cinema brasileiro, de filmes como Lavoura Arcaica e Cheiro do Ralo. É uma espécie de ator co-diretor, sempre à cata de projetos ousados.
6) OUTROS NOMES – Pedro Cardoso, Dan Stulbach, Guilherme Webber, Marco Ricca, Milhem Cortaz, João Miguel.
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