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Desconvocaram a experiência?

por danielpiza

Seção: futebol

28.julho.2010 06:59:38

Fui quase solitário em minha queixa a respeito da alta média de idade combinada à média qualidade técnica da seleção formada por Dunga. O único jogador com menos de 25 anos era Ramires, o que soava esquisito vindo de um treinador escolhido para dar fim aos “medalhões” e renovar o escrete, na ressaca da derrota do time de 2006, que ao menos tinha jogadores criativos (e o mais cotado deles, Ronaldinho Gaúcho, não criou nada). Mas não acho razoável que na convocação do novo técnico, Mano Menezes, só tenha garotada, com exceção de Robinho e Daniel Alves. É óbvio que a ideia é sinalizar a mudança, mas qual é o problema com o bom senso? Jogadores experientes, até para fazer a transição, são indispensáveis. Mais uma vez a cultura brasileira comete o equívoco de apostar no oposto.

Mesmo que a seleção não vá ter um compromisso do porte das Eliminatórias, já que o Brasil é anfitrião da próxima Copa, não vejo motivo para que ela tenha apenas “franguinhos”, para que seja praticamente uma sub-23. Ok, daqui a quatro anos eles já estarão bem mais rodados, inclusive na própria seleção, mas não há nada que substitua o aprendizado e o encorajamento que existem em jogar ao lado de um jogador mais velho, muitas vezes ídolo dos próprios novatos, que vai apontar caminhos dentro e fora do gramado. Todo grande time tem essa combinação de juventude e experiência, de empolgação e autocontrole. Pense no que significava ter Didi e Nilton Santos para defender e orientar Pelé e Garrincha; ou o mesmo Pelé com Gerson para Tostão e Jairzinho; ou Rivaldo e Ronaldo para Ronaldinho, etc.

Ainda que os compromissos da seleção nos próximos meses sejam apenas uma série de amistosos, até para tirar a medida dos novatos seria importante ter o contrapeso dos “macacos velhos”. Apesar de problemas aqui e ali na Copa, jogadores como Julio Cesar, Maicon e o próprio Kaká, em forma, ainda poderiam ser importantes na seleção. Mas confio que Mano Menezes logo vai detectar esse problema. Provavelmente, ainda que algumas opções pareçam ter sua digital (Réver, por exemplo), ele chegou com o pacote pronto. A seleção não tem nomes muito diferentes do que quase todos nós pedíamos quando se tratava de destacar revelações recentes, a começar pela dupla Ganso e Neymar.

Precisou, enfim, acontecer o que aconteceu para a CBF entender que deveria ter alguém calejado no banco e mais jovens no gramado. Ganso e Neymar deveriam ter ido para a África do Sul, nem que fosse para semear dúvidas nos treinos; Hernanes e Marcelo tampouco mereciam ter sido excluídos depois do mau desempenho do time de Dunga na Olimpíada de Pequim; Vítor foi muitas vezes sugerido para o lugar de Doni ou Gomes, etc. A sensação é que a CBF deu uma “geral” nos nomes mais citados na imprensa e decidiu fazer um time com eles. Mas o radicalismo do corte foi decisão exclusivamente sua. O fato de que escolheu sucessivamente Scolari, Muricy e Mano, numa confusão de lances patéticos, só acentua a sensação de que o pacote já estava sobre a mesa.

O trabalho vai começar, porém, e Mano e muitos dos jogadores escolhidos merecem o voto de esperança. Mano não tem o currículo de Scolari e Muricy, mas é competente e mais flexível. Muitos elogiaram Muricy por ter recusado o convite, mas quem criou obstáculo não foi ele, e sim o Fluminense. Mano fez muito bem em aceitar o cargo, pois não há desdouro nenhum em não ser a primeira opção. Agora, nos times que dirigiu, como Corinthians e Grêmio, nem sempre valorizou o futebol mais técnico e variado que a seleção perdeu nos últimos anos. Terá muito trabalho pela frente, inclusive o de rever alguns de seus conceitos. E ainda corre o risco de “queimar” muitos desses novos nomes. De qualquer maneira, sem grandes desafios no primeiro momento, tem muita chance de dar certo. Boa sorte.

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Merecemos esses vices?

por danielpiza

Seção: política/ economia

25.julho.2010 13:53:25

Se houvesse mais respeito pelas palavras, o candidato a vice de José Serra, Índio da Costa, não diria que o PT tem “ligação” com as Farc, mas simpatia ou qualquer outro sentimento que não sugira sem provas o apoio a tráfico e sequestros. A simpatia é indiscutível, tanto que nos Fóruns Sociais sempre havia espaço para essas guerrilhas supostamente “de esquerda”. A verdade é que os candidatos a vice são ainda piores que os candidatos a presidente. De Índio da Costa não se sabia quase nada até ele começar a soprar esse apito desafinado. De Michel Temer, o vice de Dilma Rousseff, já se sabe mais do que se gostaria de saber. E olhe que Serra não é nenhum jovem e Dilma passou por doença séria. Toc, toc, toc.

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Diáspora das palavras

por danielpiza

Seção: livros

25.julho.2010 07:54:26

Baptistão

No alto da montanha da bela Cidade do Cabo, quando se caminha para um de seus mirantes, vê-se o Cabo da Boa Esperança ao longe, lá onde o Atlântico faz a curva e se verte no Índico, e não dá para não lembrar os descobridores portugueses e o outro nome do extremo, Cabo das Tormentas, com suas ressonâncias camonianas. Confesso que senti um enlevo lusófono, e me pus a meditar sobre as viagens que um idioma faz com seu povo, ou melhor, com seus povos. Na mesma semana fomos a Durban, na outra ponta do país, e para mim Durban sempre foi, antes de uma cidade sul-africana marcada pela presença de indianos muçulmanos e pelo calor litorâneo, a cidade onde Fernando Pessoa viveu quase dez anos, dos oito aos 17, educado em inglês numa escola irlandesa. Pouco antes, morrera José Saramago, autor dos memoráveis O Ano da Morte de Ricardo Reis e História do Cerco de Lisboa, um ficcionista que também levou o vocabulário e a prosódia do português mundo afora.

Quando volto, encontro alguns livros relacionados ao tema, em especial o Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português (coordenação Fernando Cabral Martins, editora Leya), e fico sabendo que a próxima Bienal do Livro de São Paulo, com início no próximo dia 12, trará o moçambicano Mia Couto e os angolanos Ondjaki e Agualusa para debater justamente a lusofonia. Num dos textos desse ótimo dicionário (no qual senti falta apenas de, entre outros, um verbete sobre Camões, sobre a força e o peso de sua herança em Pessoa e companhia), leio que ele fez em quatro ocasiões a viagem pelo Cabo da Boa Esperança (hoje a 40 minutos de carro da Cidade do Cabo), tanto que num poema menciona a beleza da “Table Mountain”, que chama Montanha da Mesa, e a visão do Cabo “nítido ao sol da madrugada”. Esse poema, assinado por Alvaro de Campos, um de seus heterônimos, é o Passagem das Horas e tem um começo magistral:

“Trago dentro do meu coração,/ Como num cofre que se não pode fechar de cheio,/ Todos os lugares onde estive,/ Todos os portos a que cheguei,/ Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,/ Ou de tombadilhos, sonhando,/ E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.”

(Bichos carpinteiros como eu deveriam andar com esses versos no bolso.)

Como já me acontecera em cima da rosa dos ventos inscrita no chão ao lado da Torre de Belém, em Lisboa, também os versos do único livro em português publicado em vida por Pessoa, Mensagem, passaram a me seguir durante a Copa. Versos como: “O mar com fim será grego ou romano/ O mar sem fim é português.” Ou: “Jaz aqui, na pequena praia extrema,/ O Capitão do Fim. Dobrado o assombro,/ O mar é o mesmo: já ninguém o tema./ Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.” Este poema, ora, se chama Epitáfio de Bartolomeu Dias, o navegador que dobrou o Cabo em 1487 e ali mesmo morreria mais tarde, em 1500, pouco depois de ter participado da descoberta do Brasil ao lado de Pedro Álvares Cabral. O Brasil, afinal, é o maior filho da diáspora portuguesa por ventos e verbos, e não por acaso Mia Couto e a dupla angolana reconhecem sempre a influência da literatura brasileira moderna, de nomes como Rosa e Amado.

O equívoco de acordos ortográficos é querer ser mais do que são, simples ajustes diplomáticos, e não as motrizes de uma aproximação entre os povos que falam a mesma língua (isso sem entrar no mérito dos critérios, que eliminaram acentos como em “voo” e mantiveram em “já”, como se houvesse outra pronúncia para a vogal senão a aberta). A língua é viva e nômade; está em constante reinvenção pelo uso e, portanto, vai muito além dos dicionários; e é muito bom que seja assim, caso contrário se fixaria e morreria. Os escritores que captam esse idioma móvel e poroso são os melhores. Como o poeta Ezra Pound fez pela língua inglesa em ABC da Leitura, há um estudo a fazer sobre as contribuições e mutações do português desde Camões até Drummond, que em alguns momentos parece influenciado por Pessoa, e desde Vieira, “o imperador da língua portuguesa”, segundo outro verso de Mensagem, até Machado, Euclides, Lima, Graciliano e tantos outros prosadores brasileiros.

A língua inglesa, afinal, mudou muito antes e depois de Pessoa ter criado em Durban o heterônimo Alexander Search (e mais tarde ter encarado Shakespeare ao criar seus 35 Sonnets diretamente no idioma). Na África do Sul, como na China, ela é a língua oficial, comum aos meios de comunicação e solenidades públicas, e cada habitante tem seu nome em inglês. Como é que um idioma não vai ser afetado por isso? Naturalmente, para o bem e/ou para o mal. O trabalho dos escritores entra aqui, também, na luta contra o empobrecimento, o desgaste da diáspora, mas jamais no sentido purista. Machado, por exemplo, sempre repudiou o hábito brasileiro de abusar de hipérboles (cada vez mais, ninguém diz “o filme é bom”, e sim “o filme é sensacional, ma-ra-vi-lho-so”, etc) e, em contraponto, refinou a ironia e pôs o melodrama em elipse.

Pense ainda nas palavras que passam de um idioma para outro e mudam bastante de sentido, como “todavia” (em espanhol, “ainda”) ou esquisito (em inglês, “exquisite” é “primoroso”). Ou que mudam com o tempo, como o adjetivo “cool”, que um dia significou a atitude de ignorar a opinião alheia e hoje significa ser elegante, informalmente bem vestido; ou “cético”, agora usado para designar qualquer pessimista (como em “eurocéticos”); ou “pragmático”, que no futebol brasileiro virou sinônimo de “burocrático”. Nenhum bom escritor usa essas palavras ingenuamente, sem se dar conta dessas reinterpretações. O aspecto mais importante do gênio de Shakespeare, aliás, é esse: sua consciência de como a mesma palavra é acomodada para diferentes fins práticos e/ou morais. Pessoa, em sua busca pela plenitude perdida, como um Camões pós-imperial, já via na própria palavra essa dissociação, já via no verbo a multiplicação que traduziu em heterônimos.

Escrevi sobre Saramago, de quem admiro mais os romances históricos da primeira fase, que ele era um escritor raro por seu amor à palavra. Sim, o escritor que ama as palavras não é tão comum quanto se pode pensar. Sempre me espanto quando perguntam a profissionais do verbo qual a palavra mais bonita da língua portuguesa e eles respondem apenas uma, como “libélula” (a opção do filólogo Antonio Houaiss). São tantas! Num só livro de Mia Couto há um mar delas a pescar, e uma das características de Pessoa que mais aprecio é não ter medo de usar advérbios em “-mente” ou de repetir termos próximos – recursos que os pedagogos da área dizem ruins para o estilo, como se eles tivessem um.

Todo dia me ocorre ao menos uma bela palavra que ainda não estava na minha hipotética lista de palavras mais bonitas; e hoje, por motivos evidentes, eu poderia escolher a do título acima, “diáspora”. Como diria Pessoa, “o sentido que tem, os sentidos que evoca, e o ritmo que envolve esse sentido e estes sentidos” – “diáspora” significa uma coisa e evoca muitas outras, envolvidas pela mesma musicalidade – tudo isso lhe dá beleza. A diáspora das palavras é inevitável como o vento no barco.

(”Sinopse”)

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‘Aqui é trabalho, meu filho’

por danielpiza

Seção: futebol

23.julho.2010 15:24:39

Muricy Ramalho tem tantas credenciais quanto qualquer outro dos nomes citados para a seleção desde a saída de Dunga. Ou mais. Afinal, tem três títulos do Brasileiro. Sua melhor qualidade é a exigência, o modo como não permite o “chinelinho” e como treina o time – cada fundamento, posicionamento e aproximação. Em suas equipes nunca se viu marcação sem cobertura ou avanço sem passagem; se um jogador prendesse a bola, outro logo aparecia para dar a opção do passe. No São Paulo, ciente de que tinha zagueiros excelentes, volantes como Jorge Wagner e Hernanes e um centroavante melhor no pivô do que na finalização, montou o esquema mais adequado a essas características. Não era um jogo bonito, mas não havia partida em que o time não chutava menos de 15 vezes ao gol, além de se defender muito bem. No Fluminense, começava a obter o mesmo resultado. No Palmeiras, antes, chegou com o time montado e não teve tempo para assimilar a cultura interna do clube, bem diferente da do Morumbi. Botaram toda a culpa nele, mas desde então o time só piorou. Com Muricy, os resultados demoram a aparecer, por todos esses motivos.

Como será esse método na seleção? Dunga quebrou a cara ao supor que a continuidade era a alma do negócio; que os troféus de ontem garantiriam os de amanhã. Muricy, que é melhor treinador do que técnico, precisa ter o grupo junto por um bom tempo até que encontre uma identidade tática; na seleção, porém, esse tempo não existe, pois os jogadores se encontram por alguns dias a cada bimestre. Além disso, o Brasil não terá Eliminatórias, por ser a sede da Copa de 2014. Essa realidade, embora pareça reduzir as cobranças sobre ele, vai precisar de uma adaptação por parte de Muricy. Além disso, a mídia cobre em peso a seleção pentacampeã, e Muricy vai precisar ter muito mais paciência com ela do que normalmente tinha (por mais que a fraqueza das perguntas justificasse a irritação). Justiça seja feita, ele nunca foi visto ofendendo repórter. E sabe proteger os jogadores sem passar a mão na cabeça.

Em comparação com Dunga, tem, sobretudo, muito mais experiência. Em comparação com Luxemburgo, é mais ético e nos últimos anos bem mais vitorioso. Mano Menezes, mais educado e flexível, também tem menos currículo. O único que preenche mais requisitos do que ele é Scolari, mas, ao que consta, ele declinou do convite, talvez pensando em como seria difícil repetir a façanha de 2002. Tenho dúvidas a respeito da capacidade de Muricy de renovar a seleção e recuperar o estilo brasileiro de toque de bola mais agudo, até porque seus times nunca tiveram essa cara. Mas ele merece o voto de confiança de qualquer cidadão pelo trabalho que já realizou, sempre com responsabilidade e critério. “Aqui é trabalho, meu filho”, como diz seu bordão nas entrevistas. E ele terá muito trabalho pela frente, sem a menor dúvida.

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Melodrama de uma paixão

por danielpiza

Seção: cinema

23.julho.2010 08:42:53

Fanny e John

Ontem fui ao Reserva Cultural ver Brilho de uma Paixão (mais uma tradução tola, deveria ser Estrela Brilhante), de Jane Campion, sobre o relacionamento entre o poeta John Keats (Ben Whishaw) e Fanny Brawne (Abbie Cornish). Campion novamente faz um trabalho visual apurado, esquecendo que cinema não é apenas uma sucessão de quadros. Keats, um dos meus poetas favoritos, é visto como um sujeito melancólico e frágil, que mal consegue conter seu invejoso e ciumento amigo e patrocinador, Charles Brown (Paul Schneider); Whishaw em nenhum momento parece saber que está representando um gênio, do qual logo no início se diz que pensa rápido.

Assim, o filme começa espirituoso, com Fanny defendendo as roupas que cria e o estilo que adota e enfrentando Brown verbalmente, mas depois vai mergulhando no melodrama, sem o menor senso de ironia – item indispensável na poesia de Keats. Abbie Cornish dá alma ao filme, e chora de um modo tão intenso que nos dá vontade de consolá-la. A essa altura, porém, só nos apegamos à beleza das imagens pastorais da Inglaterra e aos versos que os atores dizem. “Tender is the night”, mas para Campion é um vale de lágrimas.

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Líder ameaçado

por danielpiza

Seção: futebol

22.julho.2010 08:48:30

Eu disse na SporTV outro dia e escrevi aqui que o Corinthians, apesar de líder invicto até então, não estava jogando bem. Muitos contestaram, talvez por querer ver o futebol brasileiro com uma qualidade que não tem, mas ontem o time perdeu para o lanterna do campeonato, o Atlético Goianiense. Com três atacantes e muito preparo físico, o Atlético aproveitou alguns dos muitos erros da saída de bola do Corinthians. Mano Menezes sabe que o time não está com fluência, mas insiste em pedir demais as bolas cruzadas. Iarley, que continua devendo, fez seu gol num lance assim, depois de Danilo ajeitar de cabeça, só que um time que quer ser campeão precisa variar jogadas, tentar também pelo meio e de longe. Faz tempo que Elias não faz aparição-surpresa, por exemplo; falta quem trabalhe a bola na frente. Sim, Chicão perdeu um pênalti que poderia ter mudado tudo, mas a maneira como a defesa se desestruturou depois e as carências de criação – numa noite mais apagada de Bruno César – são fatos.

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O torneio da inconsistência

por danielpiza

Seção: futebol

21.julho.2010 06:54:55

Escrevi na Copa de 2002, a primeira do milênio, um texto chamado “Seis propostas para o novo milênio”, inspirado no excelente livro de Italo Calvino. Traduzi para o mundo do futebol as seis propostas – leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência – e apontei em quase todas um craque daquele evento que correspondia à descrição. A exceção foi “consistência”, por sinal o ensaio que Calvino deixou inacabado. Infelizmente, as duas Copas seguintes tiveram perdas nas propostas: leveza e exatidão, por exemplo, se ausentaram bastante em ambas. O futebol é cada vez mais jogado por atletas que trombam muito e pensam pouco e, pelo mesmo motivo, erram lançamentos e chutes, preferindo muito mais o passe lateral e o cruzamento para cabeceio. Em 2010, felizmente, a Espanha destoou e foi campeã.

Já o futebol praticado no Brasil nos últimos anos peca mesmo é no quesito da consistência. É importante não confundir consistência e regularidade. Sim, a regularidade é premiada num campeonato de pontos corridos como o Brasileirão, mas ela significa que um time tem um patamar técnico e um padrão tático e, portanto, não oscila demais, não se desanima nem se empolga além da conta. A consistência é mais: é ter essa regularidade sem abrir mão da beleza, da ousadia, da variação. De certo modo, é a combinação de clareza e complexidade que Calvino tanto desejava e também praticava na literatura. Por extensão, um time é consistente quando une constância coletiva e liberdades individuais.

O que vemos nos jogos do Brasileirão, como vimos nas duas rodadas desde o reinício pós-Copa? Ufanistas dizem que o futebol nacional se caracteriza por ser técnico e cadenciado, por ter jogadores habilidosos, etc. Mas o que se vê são o excesso de faltas (quase não há partida com menos de 30 faltas, o que também é culpa da arbitragem), a falta de dribles (não me refiro a passar o pé por cima da bola e continuar preso à marcação), a carência de inteligência (um Ganso não faz verão). O que se vê é um futebol que não tem nem a organização tática que até as seleções pequenas mostraram na Copa, nem as jogadas individuais que criam atalhos e surpreendem.

Todo ano os comentaristas exaltam a “competitividade” do Brasileirão, iludidos com números que não sabem ler direito. Não há mais bobos no futebol? Repito, há mais bobos do que nunca; são bobos fortes e aplicados muitas vezes, mas bobos mesmo assim. O Corinthians, por exemplo, é líder do campeonato com justiça, mas daí a dizer que está jogando bem é demais. Não está nem mesmo no nível do ano passado, e sem Ronaldo (a 50% do que já foi) é um time comum. Se não fosse pela chegada de Bruno César, que sabe se movimentar e arriscar, talvez nem estivesse no topo da tabela. Se o líder não joga bem, quem joga?

Fluminense e Santos fizeram partida de melhor qualidade, mas o Fluminense venceu porque Muricy Ramalho sabe montar um time que tem dois laterais ótimos no apoio, usando três zagueiros para lhes dar liberdade, como fazia no São Paulo, e lá na frente tem Conca e Fred. O Santos tem bons jogadores, mas tem problemas táticos, como a defesa mal protegida, e psicológicos, como as declarações mascaradas de Neymar e as brigas internas de Robinho deixam claro. O São Paulo sofreu duas derrotas seguidas; o competente elenco já não se traduz num time combativo. E, para fechar os paulistas, o Palmeiras nem sequer tem um elenco; Felipão vai ter muito trabalho, só que sem bons jogadores não vai longe.

O próprio campeonato é inconsistente: apenas nove rodadas se passaram e já está começando o vaivém da janela internacional, que segue até o final de agosto. Fica difícil avaliar o potencial de cada um, porque muitas variáveis vão mudar. Desconfio, porém, que algo vai continuar igual: a dificuldade de encontrar mais que um ou dois times que unam coletividade e individualidade, lucidez e invenção. Fica para outro milênio?

(”Boleiros”)

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Aeronotas

por danielpiza

Seção: comportamento

política/ economia

20.julho.2010 10:03:04

Fui para o Rio ontem e vi que Congonhas está cada vez pior. As filas começam nos carros, que quando afunilam para o embarque precisam parar em dois semáforos para pedestres (por que não passarelas?) e a chegada congestiona. As filas do raio X, seis ao todo, estão tão longas que começam logo que saímos da escada rolante. Lá dentro, especialmente na área de embarque subterrânea, os portões ficam apinhados, já que faltam “fingers” no aeroporto. Tudo cheio, bagunçado. Ontem o quadro de voos pulava meia hora da sequência, então muitos não sabiam para qual portão ir. Ou seja: depois da tragédia que obrigou as autoridades a tratarem o aeroporto com a devida margem de segurança, o número de voos voltou ao que era antes. Nada melhorou: pista, espaço, serviço.

***

Já o Santos Dumont melhorou depois da reforma, com nova área de embarque, mas tem seus problemas, como a demora e a desordem para tomar táxi. E outro dia, voltando da África, desembarquei em Cumbica e também notei que as coisas continuam iguais, com filas enormes para os estrangeiros na hora de mostrar o passaporte, confusão nas esteiras, etc. O aeroporto de Johannesburgo é muito melhor, maior e mais organizado. Há muito trabalho para fazer, em suma, e um governo sério divulgaria não só novas verbas (R$ 5 bilhões são suficientes?), mas um cronograma dessas obras, com prioridades e o custo de cada uma. Antes que novos acidentes aconteçam.

***

As duas melhores invenções da aviação recente foram o apoio móvel para cabeça nas poltronas e o serviço de filmes individual. O primeiro permite que se durma sem ganhar torcicolo; o segundo faz passar o tempo mais rápido. No voo da Emirates para a China, em 2008, havia mais de uma centena de filmes, entre clássicos, inéditos e infantis. Nem precisa chegar a isso, mas meu sonho é que todo voo tenha essas duas comodidades. O sonho de poltronas mais espaçosas, prometido pelo ministro da Defesa há muito tempo (assim como o terceiro aeroporto de São Paulo, a ampliação da pista de Vitória e tantas outras coisas), parece bem mais distante.

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Quanto trabalho, Felipão

por danielpiza

Seção: futebol

19.julho.2010 05:28:08

Só vi ontem Avaí 4 x 2 Palmeiras, estreia oficial de Felipão como técnico. Se alguém ainda tinha dúvida sobre a capacidade do elenco alviverde, ela foi enterrada ontem em Florianópolis. O presidente Luiz Gonzaga Belluzzo certa vez me disse que não, que o elenco é bom, melhor que o do ano passado, e que a perda do Brasileiro foi culpa de Muricy. Agora deve rever essa noção. Os melhores jogadores em campo, autores das melhores jogadas, eram Caio e Roberto, do Avaí, time que mesmo com um a menos não se intimidou, resistiu e reagiu. Tecnicamente, tivemos mais um jogo medíocre, mas as oportunidades de gol foram de lado a lado o tempo todo. Venceu o menos medíocre.

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Lula e a lei

por danielpiza

Seção: política/ economia

18.julho.2010 12:47:13

Por mais que a média de crescimento econômico de seu governo seja melhor, há algumas manchas que Lula jamais vai conseguir apagar da história. Talvez a maior de todas seja seu descaso para com as regras. Nesta semana lemos sobre seu discurso no anúncio do trem bala, em que encaixou mais uma promoção ilegal de Dilma; sobre a cartilha da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, que destaca um discurso da ministra; e sobre a violação do sigilo tributário do tucano Eduardo Jorge pela campanha petista, violação contra a qual o presidente não se manifestou.

Nada de novo, já que Lula vem “perdoando” todas as contravenções desde 2003, como ao descrever o mensalão como praxe, ou seja, aceitável. Mas um homem público que brandiu a bandeira da ética a vida inteira, enquanto não chegou ao poder, deveria ter um mínimo de respeito pelas leis e pelos valores da democracia que governa.

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