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Daniel Martins de Barros

29.março.2012 11:11:18

Um país mais burro e sem graça – Chico Anysio e Millôr Fernandes

O Brasil ficou mais burro nos últimos dias. E menos bem-humorado. Bom humor e inteligência, afinal, são (ou deveriam ser) parceiros de trabalho.

Com a morte de Chico Anysio e de Millôr Fernandes calam-se duas vozes que mostravam como o humor pode ser fundamental para uma sociedade ao criticar comportamentos, expor os desvãos, confrontar-nos com nossos pecados e defeitos nos levando a repensar valores e atitudes. Para rir, afinal, somos obrigados a pensar.

A teoria clássica do riso, cujas raízes remetem à Grécia antiga, particularmente a Aristóteles, dizia que o riso é sempre fruto do desprezo, da humilhação. Como Cícero escreveria em seu livro sobre a oratória, “a causa principal, se não a única causa, da hilaridade são aqueles tipos de observações que mencionam ou distinguem, de uma maneira que em si mesma não é inconveniente, algo que é de algum modo inconveniente ou indigno”. Na Renascença, com a retomada das ideias do classicismo, essa visão se manteve até mesmo entre os médicos que recomendava o riso como uma meio de regular os humores corporais: Laurent Joubert, importante médico-cientista francês, dizia que o riso está associado à alegria mas nunca fica dissociado da tristeza, pois “Como tudo que é ridículo se origina da feiúra e da desonestidade (…) qualquer coisa ridícula nos dá um prazer e uma tristeza combinados”. Essas teorias foram se modificando ao longo do tempo, mas até os tempos atuais acredita-se que o humor traga consigo sempre algo de agressivo, de violação. Como dizia Hobbes, fazer graça “consiste em descobrir e mostrar à nossa mente, com elegância, alguns absurdos cometidos pelos outros”. É aí que reside o dom dos humoristas talentosos.

Homens dotados de enorme inteligência, Chico e Millôr eram capazes de nos mostrar problemas sem perder a elegância, fazendo piadas, como recomendava Cícero, “de uma maneira que em si mesma não é inconveniente”. Eles sabiam que os defeitos e vícios que denunciavam, quer em textos, desenhos ou personagens, faziam rir não por agredir indivíduos, mas por se utilizar da possibilidade de um “riso não ofensivo” que o próprio Hobbes achava possível – aquele que ocorre quando rimos “dos absurdos e dos defeitos que abstraímos das pessoas, em situações nas quais todos podem rir em conjunto”.

Embora Chico Anysio dissesse que no humor ninguém é substituível, torço para que outros comediantes ocupem o nicho da crítica elegante, que faz pensar e rir ao mesmo tempo. Esse lugar fica praticamente desocupado quando comediantes voltam-se para ofensas pessoais em espetáculos “proibidões”. Como o stand-up, que vem dando o tom do humor no país, é novo por aqui (apesar de iniciativas isoladas anteriores, como do próprio Chico e alguns outros), acho que ele está passando por uma espécie de adolescência, fazendo da rebeldia gratuita sua bandeira e desqualificando como babacas quem levanta objeções. Tomara isso passe. Pois se virar adulto, quem sabe esse humor também trocará o ímpeto pela reflexão, como acontece quando amadurecemos, ganhando elegância e desenvolvendo a inteligência que sofre tanto com a partida de Chico e Millôr.

comentários (5) | comente

5 Comentários Comente também
  • 29/03/2012 - 12:25
    Enviado por: Rubens Kindlmann

    O humor vem se perdendo como instrumento de fazer pensar… Isso é triste, pois prova o emburrecimento do povo

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  • 29/03/2012 - 17:06
    Enviado por: Norberto Marcher-Mühle

    bem com o emburrecimento dos humoristas.

    não dá pra comparar o chico ou millor com os cassetas da vida.

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  • 30/03/2012 - 06:45
    Enviado por: Dany

    O problema,acho,é que o brasileiro não sabe expressar bem suas ideias.Temos dificuldade em falar o que pensamos,e observo esse fenômeno nas entrevistas televisivas,nos meios onde poucos dominam mais ou menos a língua portuguesa e se fazem entender.Na maioria das vezes dizemos coisas incompreensíveis pros outros,como se houvesse um bloqueio mental que nos impedisse de comunicar.Felizmente temos exceções,e o senhor é uma delas.Escreveu de maneira fluida o que pensa sobre a matéria – humor e os dois recentes humoristas falecidos – o que é uma raridade nesse país.Dá gosto ler!
    Os jovens que agora querem ser comediantes,humoristas,devem procurar no exemplo do Chico e do Millôr suas fontes de inspiração,porque há muita falta de imaginação e conhecimento,cultura geral também,acho que podiam pesquisar mais, ler mais,buscar na criatividade uma maneira de exprimir a inteligência,ao invès de ficarem só procurando o riso fácil.

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  • 01/04/2012 - 23:42
    Enviado por: Diogenes da Lantterna

    Dentre milhares, duas frazes de gênios:
    - ” O Brasil é ecologicamente sustentável e equilibrado pois, enquanto o Rio de Janeiro MATA o Amazonas DESMATA” M.F.
    - ” De tanto ver triunfar as nulidades e as desonestidades, DIGA AO POVO QUE FICO” C.A.

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  • 02/04/2012 - 11:55
    Enviado por: Dany

    Doutor,posso ainda comentar??
    Queria dizer que acho esse tipo de humor que chamam (nos Estados Unidos) de “trash” uma droga,e a Regina Casé,que acham o máximo e não sei porquê,é debochada mas só isso.Quando começam a desrespeitar pessoas não é mais humor,pelo menos não é humor fino,é grosseiro.

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  • Quem faz

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    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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