Eu adoro uma polêmica. Mas dessa vou ficar de fora: em 2010 o livro Leite Derramado, do Chico Buarque, ganhou o Prêmio Jabuti de melhor livro do ano, mas ficou em segundo lugar na categoria romance. A gritaria foi imensa: como é o segundo melhor romance, mas o melhor livro? Teve até gente pedindo para ele devolver o prêmio e essas coisas. Fico de fora. O que sei eu de prêmios literários, a não ser que bem gostaria de merecer um?
De toda forma, Leite Derramado é um bom livro. É narrado em primeira pessoa por um senhor muito idoso, internado em algum serviço de saúde não identificado, que conta sua história – do tataravô ao tataraneto – de maneira frequentemente confusa e, não raro, fantasiosa. Nem chegamos a saber se há alguém ouvindo ou se tudo se passa em sua mente. Inspirado na canção “O velho Francisco“, na qual um velho escravo conta sua vida, livro e música mostram como a memória é traiçoeira.
Logo no começo da história Eulálio, o narrador, adverte: “Ao passo que o tempo futuro se estreita, as pessoas mais novas têm de se amontoar de qualquer jeito num canto de minha cabeça. Já para o passado tenho um salão cada vez mais espaçoso, onde cabem com folga meus pais, avós, primos distantes e colegas de faculdade que eu já tinha esquecido, com seus respectivos salões cheios de parentes e contraparentes e penetras com suas amantes, mais as reminiscências dessa gente toda, até o tempo de Napoleão”. E segue nessa toada o tempo todo.
Três padrões surgem da narrativa: fatos coerentemente relatados, confusão nos detalhes, e presença de elementos fantásticos, pouco críveis. Em sua senilidade o narrador nos revela a forma preferencial de a memória nos enganar: as confabulações. Diferentes da mentira corriqueira, as confabulações são falsas memórias: o sujeito relata coisas que não aconteceram, mas sem crítica sobre inverdade do que diz. Presente em síndromes neuropsiquiátricas diversas, elas acontecem também com pessoas saudáveis quando têm que recordar fatos detalhadamente: embora não do tipo fantasioso, nós nos confundimos com a ordem cronológica, detalhes de lugares, nomes ou datas, sem percebermos, e com plena convicção de que lembramos de tudo perfeitamente.
Esse é, para mim, o grande mérito do livro: da mistura de reminiscências e confabulações Chico Buarque elegantemente consegue fazer emergir uma história compreensível, mesmo sem diferenciar o que é verdade do que não é. Leite Derramado mostra em lente de aumento a forma como todos vivemos, afinal: tendo em nossa mente uma história de vida coerente, onde se misturam fatos e ficções de forma indistinguível.
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Kopelman MD (1987). Two types of confabulation. Journal of neurology, neurosurgery, and psychiatry, 50 (11), 1482-7 PMID: 3694207
No meu caso,ela é mais do que traiçoeira e já me levou a passar muita vergonha por não lembrar do nome da pessoa com quem falo,por esquecer o dia do aniversário de uma pessoa querida…e assim por diante,como dizia minha sogra antes de ser diagnosticada com a doença de Alzheimer e não reconhecer o próprio filho.Mas o engraçado (no bom sentido) é que ela reconheceu a voz de um conhecido e sorriu pra ele como pra assegurar que tinha certeza de quem era.Agora vive numa espécie de depressão,o que nos faz pensar que metaforicamente já partiu dessa pra outra,porque não parece sentir gosto por estar viva.
Talvez que o personagem do Chico Buarque tenha o mesmo problema,não li esse romance dele mas deve ter algo a ver.
Acontece comigo de ter certeza de algum fato que vivi e nem perceber que estou errada quando outra pessoa me “desmente”…Será um começo de Alzheimer? Essa confabulação é um negócio estranho mesmo,gostaria de saber o que se passa com os neurônios nesse momento.
Aliás,falando nisso eu li hoje na www que descobriram que um remédio pra diabete também pode ajudar a criar novos neurônios,o que pode trazer uma ajuda no combate a doenças neurodegenerativas.
Seu post veio na hora certa!
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