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Daniel Martins de Barros

Quase ninguém se sente seguro em São Paulo. Nada menos que 91% dos paulistanos consideram pouco ou nada seguro viver na cidade, índice recorde nesse tipo de pesquisa. Sentem-se “nada seguros” 45% dos cidadãos, e nenhum deles (de nós?), sente-se “muito seguro”.

O que poderia ser apenas mais um dado sobre as condições da metrópole ganha relevância maior quando levamos em conta que essa percepção de insegurança tem impactos diretos na saúde das pessoas, sobretudo na saúde psíquica, aumentando em muito o risco de adoecimento mental. Isso não apenas leva ao sofrimento individual, mas toda a estrutura social sofre, com perda de qualidade de vida, perda de produtividade, menor crescimento, nunca chegando a alcançar o verdadeiro potencial da cidade e dos cidadãos.
Na primeira metade do século XX o psicólogo americano Abraham Maslow escreveu um trabalho muito influente até hoje sobre a motivação humana, no qual propunha que nossas necessidades seguem uma hierarquia. Segundo ele, se não satisfazemos os níveis básicos não conseguimos subir na escala das realizações pessoais. Assim, se não temos comida, bebida, sono – necessidades fisiológicas em geral – não conseguimos pensar em outra coisa, permanecendo impossibilitados de buscar qualquer outro objetivo. Em segundo lugar vem a necessidade de segurança, pois enquanto nos sentimos inseguros não nos é possível investir energia na busca das outras coisas. Relacionamentos, estima e realização pessoal viriam na sequencia. Embora a teoria tenha recebido diversas críticas, sobretudo pela rigidez da hierarquização que propõe para cada nível, é difícil discordar que se sentir pouco ou nada seguro impõe uma carga constante sobre os indivíduos, levando inevitavelmente a um desgaste e prejudicando a qualidade de vida.

No ano passado foi publicada a maior pesquisa epidemiológica sobre saúde mental já realizada em São Paulo. Os números destoaram da média mundial – 29,6% dos indivíduos da Região Metropolitana de São Paulo apresentaram ao menos um transtorno mental no ano anterior à entrevista, colocando a cidade no topo do ranking entre os países pesquisados. Não por acaso os problemas ligados à ansiedade foram os mais comuns, com um em cada cinco paulistanos apresentando ansiedade patológica – basicamente medo e tensão acima do normal. Mas mesmo os transtornos mentais graves foram mais comuns na cidade, afetando 10% dos paulistanos, deixando cidades americanas num distante segundo lugar, com 5,7% de prevalência.

Se as questões próprias da vida urbana fossem os únicos fatores de risco para doenças mentais, como ritmo acelerado, menor contato interpessoal, distância do local de trabalho etc., não se esperaria uma disparidade tão grande entre São Paulo e o resto do mundo. Mas privados de algo tão básico como a sensação de estar seguro, o paulistano acaba por se tornar um dos cidadãos mais doentes do planeta.

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A onda de violência que estamos testemunhando em São Paulo há mais de seis meses não dá sinais de arrefecimento – os policiais e os criminosos matam-se mutuamente, e o cidadão morre por vezes confundido com bandidos, por outras vítimas de acertos de contas espúrios. Afora questões de segurança pública, inteligência policial e políticas de combate ao crime, há outras razões, muito mais pessoais, que ajudam a explicar por que tal situação se arrasta há tanto tempo e não parece que irá diminuir tão cedo.

Em primeiro lugar, os crimes ainda estão circunscritos às regiões mais periféricas, relativamente distantes da classe média, que tem maior poder de pressão. Temos grande dificuldade – talvez até vergonha – em admitir, mas a morte nos bairros centrais choca muito mais do que na periferia. A distância mental que separa esses dois universos é ainda maior do que a geográfica, impedindo que a indignação se transforme em empatia genuína e leve a cobranças mais efetivas para que algo seja feito.

Independente da distância a que está da violência, no entanto, a população em grande parte acredita que a polícia não está de todo errada em recorrer à violência. Numa das maiores pesquisas já realizadas sobre o tema, menos da metade dos brasileiros achava que matar um criminoso depois de prendê-lo é uma ação sempre errada dos policiais. E quanto menor o grau de escolaridade (o que apresenta uma relação direta com as regiões onde os crimes se concentram) mais as pessoas tendem a apoiar essa atitude.

Por fim, a metáfora da guerra, que impregnou indelevelmente a atual escalada de assassinatos, levanta mais uma barreira mental para a busca de políticas que fujam da lógica da violência. Comprovadamente as metáforas que utilizamos para descrever cenários interferem com as saídas que antevemos: sujeitos a quem se apresenta um cenário de aumento de criminalidade comparado-a a uma epidemia pensam em soluções como prevenção e identificação das causas do crime. Já quando o mesmo contexto é comparado a um predador à solta, as medidas propostas são muito mais de repressão e encarceramento. Nós estamos agora pensando em guerra, e na guerra o objetivo nunca é apenas fazer prisioneiros.

O panorama é em tudo adverso para a busca de soluções: as pessoas menos afetadas, mas com maior poder de mudança, não se compadecem; as mais atingidas não condenam totalmente ações que perpetuam o problema; e todos achamos que o momento é de matar ou morrer. Para além das ações do poder público, creio que precisemos rever algumas atitudes privadas.

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Nessa terça-feira, dia 18 de setembro, Edimeire Celestino da Silva foi notícia mais uma vez. Há uma semana ela já estivera nas manchetes após uma tentativa um tanto aparvalhada de invadir o Palácio do Planalto e declarar seu amor pela presidente Dilma Rousseff. A segurança presidencial notou sua presença nas cercanias do Palácio da Alvorada, residência oficial da presidente, e acionou a polícia militar. Abordada, ela disse que só sairia dali depois de pedir Dilma em casamento, mas acabou dissuadida de insistir. Ao menos por ora.

O caso de Edimeire não é isolado, e remete a um fenômeno conhecido pelo termo inglês stalking, algo entre o assédio e a perseguição. Atores, cantores e políticos, dados sua proeminência e visibilidade, são especialmente vulneráveis a essa situação – no Canadá, por exemplo, estudos mostram que quase um terço dos políticos já foi vítima de algum tipo de perseguidor.

Como na maioria dos casos de stalking a celebridades, Edimeire sofre de um transtorno mental. Segundo sua mãe, assim que Dilma Rousseff saiu candidata a filha se apaixonou, cobrindo o quarto com fotos e pôsteres, mas só veio a se tratar justamente após uma crise envolvendo sua paixão. Em 2010 ela foi detida degolando pombos no centro de Campinas, onde mora. Segundo ela, essa era uma forma que encontrara de chamar a atenção de Dilma, num raciocínio tortuoso que lembra o de John Hinckley Jr., que em 1981 tentou assassinar o presidente americano Ronald Reagan para atrair a atenção da atriz Jodie Foster, por quem se apaixonara desde que vira o filme Taxi Driver. Assim como Edimeire, ele apresentava um transtorno mental. E embora alegadamente ela esteja em tratamento, por seu comportamento e suas declarações é difícil imaginar que ela esteja bem. Ao dizer ser homem, marido da presidente, tentando forçar sua entrada no Palácio do Planalto a despeito dos guardas, Edimeire dá sinais de que sua capacidade de ajuizar a realidade está, no mínimo, comprometida.

Sabe-se que entre 80 e 90% dos casos de assédio a famosos são perpetrados por pessoas com algum diagnóstico psiquiátrico, sobretudo os transtornos psicóticos, nos quais o paciente pode perder o contato com a realidade se não tratado de forma apropriada. Temas de paixão e hostilidade são os mais comuns, e o padrão é exatamente o oposto do encontrado em perseguidores a não famosos – nesses casos, na maioria das vezes trata-se de alguém que não aceita uma rejeição amorosa e passa a perseguir o objeto de seu desejo, mas só 20% das vezes o assediador tem algum diagnóstico psiquiátrico.

Nunca é demais lembrar que a maioria dos atos violentos no mundo é cometida por pessoas sem qualquer transtorno mental, e que os pacientes psiquiátricos não são mais perigosos do que qualquer pessoa – de forma geral eles envolvem-se até em menos agressões, na verdade. O caso de Edimeire vem reforçar que, no caso de pacientes psiquiátricos, a maior violência é permitir que eles fiquem sem tratamento adequado.

ResearchBlogging.org
James DV, Mullen PE, Pathé MT, Meloy JR, Farnham FR, Preston L, & Darnley B (2008). Attacks on the British Royal family: the role of psychotic illness. The journal of the American Academy of Psychiatry and the Law, 36 (1), 59-67 PMID: 18354125

Susan J. Adamsa, Tracey E. Hazelwoodb, Nancy L. Pitrec, Terry E. Bedardd, & Suzette D. Landrye (2009). Harassment of Members of Parliament and the Legislative Assemblies in Canada by individuals believed to be mentally disordered Journal of Forensic Psychiatry & Psychology, 20 (6) DOI: 10.1080/14789940903174063

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Uma infeliz conjunção de fatores contribuiu para o bate-boca público em que a atleta Rafaela Silva se envolveu após ser desclassificada na competição de judô por ter aplicado um golpe irregular.

Para os que não acompanharam, o caso teve início poucas horas depois de a atleta sair dos jogos olímpicos por ter agarrado a perna da adversária com as mãos, o que não é mais permitido. Ao checar o que se estava comentando sobre o fato no twitter, Rafaela deparou-se com agressões violentas, chamando-a de macaca, desqualificando-a e dizendo que ela deveria voltar rastejando para o Brasil. Sua resposta foi imediata e no mesmo tom, dando origem a uma escalada de agressividade que foi parar no Comitê Olímpico Brasileiro.
Os fatores que tiveram esse desafortunado encontro foram o estado emocional predisposto à agressividade em que ela se encontrava e o mau uso das redes sociais que frequentemente vemos acontecer.

O judô, como todas as lutas e a maioria dos esportes, é uma maneira ritualizada de expressarmos as tendências agressivas que temos desde sempre, como já conversamos por aqui. Aliás, a luta é o esporte mais antigo da humanidade porque provavelmente foi só quando conseguimos colocar normas nas embates físicos que criamos algo que pudesse ser chamado de sociedade. Historicamente todos os períodos da humanidade conheceram formas de bater e apanhar com regras mínimas, da luta na antiguidade clássica, passando pelos gladiadores romanos, pelas justas na idade média, até chegar ao boxe moderno e finalmente ao MMA.Não espanta, portanto, que as pessoas envolvidas em torneios, sobretudo de lutas, apresentem um nível alto de agressividade, sem o qual nem adianta entrar na disputa. Foi com esse estado de espírito, potencializado pela raiva frustração pela derrota, que Rafaela deu de cara com as agressões na internet.

As redes sociais entraram como catalisadoras da reação, que se torna explosiva. De fato, não são poucos os casos que temos visto de brigas, discussões e ofensas por esses meios onde, envolvidos numa aparente imunidade dada pela sensação de distanciamento com que as pessoas interagem, verdadeiras guerras verbais acabam acontecendo. Associado à publicidade imediata e abrangente que esses meios trazem em si, os casos ganham uma repercussão enorme, e, o que é pior, duradoura.

No fim das contas Rafaela se desculpou e diz que não pretende levar o caso em frente. Melhor. Ela tem uma históriade vida emocionantes, tendo sido revelada para o mundo por um projeto social na Cidade de Deus, e como todos nós merece ser lembrada por suas conquistas, muito mais do que por seus tropeços.

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Ah, a imprensa. Adoramos culpá-la por tudo de ruim que vemos na mídia – do sensacionalismo à manipulação, tendemos a concordar com Balzac, que disse que “Se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la”. Claro que não é bem assim, já que a imprensa livre é um dos pilares fundamentais da sociedade democrática. Mas quando conseguimos identificar problemas específicos é importante apontá-los. É o que ocorre com a esquizofrenia.

Num estudo recém publicado por pesquisadores brasileiros, a ocorrência de palavras como “esquizofrenia”, “esquizofrênico” e “esquizofrênica” foi levantada nos principais veículos de jornalismo impresso do país em 2008 e 2011. Nas bases de dados consultadas, os termos ocorreram 229 vezes. Classificados em três tipos de ocorrência – médico-científica, policial ou metafórica – eles se distribuíram de forma mais ou menos homogênea, um terço em cada categoria. Sob a capa dessa distribuição aparentemente equilibrada, no entanto, escondem-se algumas distorções importantes.

Em primeiro lugar, esquizofrenia é um diagnóstico médico, e esquizofrênicos são os pacientes que apresentam tal diagnóstico; seu uso como metáforas para “absurdo”, “incoerente” ou “contraditório”, sobretudo em notícias de política e economia, é uma apropriação indevida e, pior, carregada de valoração negativa. Em segundo vem o fato de que já se sabe extensamente que a maioria dos pacientes psiquiátricos, esquizofrênicos ou não, não é violenta, e que os crimes que assustam a sociedade são quase sempre cometidos por pessoas sem doença mental. Dessa forma, um terço das ocorrências do termo se dar nas notícias policiais reflete – e reforça – um preconceito infundado que associa doença mental a violência. Tal preconceito talvez explique porque os pacientes foram retratados de forma negativa em 93% das notícias de 2011, e em 100% de 2008.

Numa cobertura isenta de viéses a palavra esquizofrenia deveria ocorrer muito mais em notícias médico-científicas do que em outras categorias. Mas, infelizmente, centenas de pacientes terem alta hospitalar por melhora do seu quadro não é notícia, mas se um deles mata alguém a manchete é garantida. Se é verdade que no jornalismo a gente nunca lê sobre um avião que não caiu, é hora de mostrarmos que aviões com problemas também podem voar alto.

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Francisco Bevilacqua Guarniero, Ruth Helena Bellinghini, & Wagner Farid Gattaz (2012). O estigma da esquizofrenia na mídia: um levantamento de notícias publicadas em veículos brasileiros de grande circulação Revista de Psiquiatria Clínica, 39 (3), 80-84 DOI: 10.1590/S0101-60832012000300002

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Fui convidado para dar uma palestra sobre a influência dos desenhos animados no comportamento das crianças. Adorei o convite, já que agora tenho filho pequeno e em breve me depararei com a pergunta: será que o que as crianças assistem modifica sua forma de agir?

Nos anos 60 os trabalhos do psicólogo Albert Bandura fizerem um tremendo sucesso por comprovar, pela primeira vez, o que muitos pais já tinham percebido desde a popularização da TV anos antes: as crianças tendem a imitar o que assistem. Videos de adultos agredindo, xingando e hostilizando um boneco joão-bobo eram apresentados para crianças antes de elas brincarem numa sala onde, entre vários brinquedos, havia o bobo. Os resultados gerais mostraram que quem tinha visto o vídeo com atos agressivos demonstrava o dobro de atitudes violentas na sala de brinquedos.

Descobri que esse assunto foi bastante estudado na esteira do Bandura, nas décadas de 60 e 70, mas depois disso parece que perdeu o apelo, talvez porque já se considere essa uma pergunta respondida, talvez porque as preocupações tenham se voltado para os videogames a partir dos anos 80. De qualquer forma, em 2006 foi feita uma revisão da literatura específica sobre desenhos animados, que buscou reunir os principais achados das pesquisas, tanto em laboratório como no ambiente natural das crianças; o resumo da ópera é o seguinte:

1 – o humor atenua a percepção da violência, e provavelmente é por cauda disso que desenhos como Papa-léguas, Pica-Pau ou Pernalonga, mesmo com muitas cenas agressivas, não modifica o comportamento das crianças;
2 – a ausência de humor torna a agressão mais evidente, e estudos de laboratório e de campo (nos quais as crianças passavam alguns dias vendo desenhos de super-heróis, por exemplo) mostraram que essas animações sim, aumentava a expressão de comportamentos agressivos, tanto na escolha de brinquedos, como nas relações inter-pessoais;
3 – a influência dos desenhos é mais evidente em crianças que já tenham distúrbios do comportamento. Isso mostra que os desenhos animados são apenas uma dentre as muitas variáveis que interferem com as atitudes das crianças; aquelas que têm maior capacidade de se controlar lidam melhor com tais fatores;
4 – o principal meio de evitar a influência negativa da violência da TV é assisti-la junto com os filhos. A mediação ativa, na qual se conversa sobre o que está sendo visto, apontando não apenas os comportamentos negativos dos personagens, mas também as consequências para as vítimas, é eficiente em evitar a imitação de comportamentos agressivos.

Para mim, numa interpretação livre e algo controversa desses dados, pode-se concluir que a qualidade da TV para as crianças é diretamente proporcional à qualidade dos seus pais.

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Steven J. Kirsh (2006). Cartoon violence and aggression in youth Aggression and Violent Behavior, 11, 547-557 DOI: 10.1016/j.avb.2005.10.002
Bandura, Albert;, Ross, Dorothea;, & Ross, Sheila A. (1963). Imitation of film-mediated aggressive models. The Journal of Abnormal and Social Psychology, 66 (1) DOI: 10.1037/h0048687

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Se você tem estômago fraco, não leia esse post. Eu bem que não queria escrever sobre canibalismo, mas não tenho como fugir.

Para quem ainda não teve o desgosto de ouvir a narrativa do crime bizarro, trata-se de um homem, Jorge Negromonte da Silveira, que fundou uma seita chamada “Cartel” e vive com a esposa Isabel Cristina Torreão Pires da Silveira e a amante de Bruna Cristina Oliveira da Silva, com quem se envolveu quando ela tinha 16 anos, situação aceita pela esposa. Esse trio foi preso por homicídio de várias mulheres (as mortes podem chegar a oito, suspeita-se), cujos corpos foram consumidos como refeições rituais. Segundo Jorge existem duas entidades que falam com ele desde jovem, às quais ele chama de arcanjo e querubim, escolhem quem serão as vítimas, mortas em missões para eliminar mulheres do mal que estariam superpovoando a Terra, e o canibalismo completava o ritual de purificação. A carne estocada, além de consumida durante alguns dias, acabou sendo usada para rechear os salgados que Isabel vendia na cidade. Com eles morava ainda uma menor de idade, provavelmente filha de uma das vítimas, que também era inserida nas práticas canibais. Se não bastasse, há ainda um vídeo de Isabel contando alguns detalhes dos crimes, e um filme caseiro, chamdo Espírito, teria sido encontrado, no qual haveria cenas de homicídios e canibalismo.

Enauseante a história. Faço aqui uma pausa, para o leitor retomar o fôlego. O pior do relato já foi. Só faltou dizer que Jorge diz ser esquizofrênico, mas parou de tomar os remédios quando jovem e não acha que é louco, embora os outros digam o contrário. Ele mesmo registrou em cartório um livro com título “Revelações de um esquizofrênico”, no qual detalha sua seita e sua missão.

Mas seriam essas pessoas todas doentes mentais? Quais são as chances de três pessoas com o mesmo transtorno terem o mesmo tipo de delírio, a ponto de se reunirem nessa quadrilha macabra? Posso estar errado, mas avaliando a situação aqui de longe me parece ser um caso de transtorno psicótico induzido. Já conversamos sobre esse diagnóstico antes, quando um artigo nosso no British Journal of Psychiatry mostrou que a doença havia sido descrita num conto de Machado de Assis antes de sua descoberta (leia). Trata-se de um problema que se caracteriza pelo aparecimento de sintomas psicóticos coincidentes nos membros da família vivendo isolados e em estreita associação, pela transmissão de delírios de uma pessoa doente para uma ou mais pessoas saudáveis. Tenho a impressão que Jorge, que parece ser a pessoa mais articulada, desenvolveu essas crenças delirantes e as transmitiu para as suas mulheres.

Se for esse mesmo o caso, a situação jurídica do trio pode dar muito pano para manga. Mais de uma vez já se alegou transtorno psicótico induzido nos tribunais americanos, mas tem sido raro os sujeitos serem considerados inocentes por conta dele. Isso acontece porque é difícil delimitar, sobretudo em casos de seitas, onde termina uma crença mística e onde começa o delírio – ou seja, não é simples dizer que o sujeito deixou de ser apenas um fiel seguidor para se tornar um doente inimputável.

Sempre vale a pena ressaltar que a maioria esmagadora dos esquizofrênicos não comete crimes e lembrar que pacientes psiquiátricos são muito mais vítimas do que perpetradores de violência. Aliás, nem tenho certeza absoluta de que essas pessoas sejam doentes. Mas dessa vez acho que eu até prefiro acreditar que sim.

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Newman WJ, & Harbit MA (2010). Folie a deux and the courts. The journal of the American Academy of Psychiatry and the Law, 38 (3), 369-75 PMID: 20852223

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“Estupra mas paga”, parece ter sido a decisão do Superior Tribunal de Justiça quando decidiu relativizar a violência de se fazer sexo com meninas de doze anos, desde que elas sejam prostitutas.

Antes de explicar porque discordo da decisão, devo dizer que compreendo o raciocínio que levou a ela. A ministra do STJ, Maria Thereza de Assis Moura, entendeu que não foi “violado, verdadeiramente, o bem jurídico tutelado – a liberdade sexual –, haja vista constar dos autos que as menores já se prostituíam havia algum tempo”. A lei do estupro dizia, até 2009, que quando a relação sexual se dava com menor de 14 anos, mesmo que não houvesse sinais de agressão presumia-se ter existido violência. Por quê? Porque no início da adolescência a pessoa não tem ainda maturidade suficiente para consentir com o ato sexual, e portanto deveria ter sido induzida de alguma forma a isso – ou por ameaças, promessas ou mesmo sedução. A violência não era física, mas o próprio fato de fazer sexo com alguém não preparado para decidir de forma plenamente consciente, mesmo que não impusesse resistência. A ministra acha que, já que as meninas em questão eram prostitutas, elas sabiam bem o que era o sexo e portanto não foram ludibriadas, enganadas ou forçadas ao ato; logo, sua liberdade sexual não fora violada. Eu entendo o que ela pensou. Mas discordo com muita veemência.

Discordo porque a violência prevista na lei não desaparece se uma menina faz do sexo sua profissão. Mesmo que ela não tenha sido levada a praticar sexo contra sua vontade explícita, se ela tem apenas 12 anos seu cérebro e seu aparelho psicológico não adquiriram habilidades especiais pelo fato de ser prostituída, por isso sua “vontade explícita” não pode ser invocada como álibi. A lei considerava haver violência, e ainda hoje considera estupro ter relação com alguém com menos de 14 anos, porque a decisão de engajar-se em qualquer comportamento, sobretudo um tão complexo como o sexual, depende de uma série de competências e habilidades ainda não plenamente desenvolvidas nessa idade. Nossas decisões se dão em função de nossas intenções. A inteção, por sua vez, depende de dois fatores: da postura/opinião do sujeito sobre o comportamento (quão desejável ele é), e também da percepção sobre as normas gerais referentes àquele comportamento (o que os outros pensam que eu devo fazer). As consequências das decisões (por exemplo, engravidar) são levadas em conta nesse raciocínio, e se baseiam nas crenças sobre a probabilidade de elas ocorrerem (quais as chances de engravidar?) e no valor que elas terão (quão ruim é ficar grávida?). As considerações normativas, por fim, dependem não só de saber o que os outros acham, mas também do valor que se dá para a opinião do meio e do quanto a pessoa quer se conformar a ele.

Sim, é complicado mesmo. E é por isso que a sociedade entende que uma pessoa de 12 anos não é capaz de decidir fazer sexo. Mesmo que queira. Mesmo que já o faça. Minha principal discordância da ministra é que, para mim, a violência está implícita no próprio ato de ter relação sexual com um pré-adolescente, não em como se chegou a esse ponto. A lei, afinal, não existe para impedir os menores de fazer sexo com adultos. É justamente o contrário.

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Gillmore, M., Archibald, M., Morrison, D., Wilsdon, A., Wells, E., Hoppe, M., Nahom, D., & Murowchick, E. (2002). Teen Sexual Behavior: Applicability of the Theory of Reasoned Action Journal of Marriage and Family, 64 (4), 885-897 DOI: 10.1111/j.1741-3737.2002.00885.x

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Que as escolas de samba se movem perigosamente próximas a uma área de sombras, interagindo com grupos historicamente violentos como as torcidas organizadas, é senso comum. Embora tal fato não seja a causa dos tumultos ocorridos durante a apuração dos desfiles paulistanos, essa vizinhança pode ter potencializado o desdobrar dos acontecimentos.

O estudo formal do comportamento das massas teve seu início em meados do século XIX, justamente pela necessidade de as elites da Europa tentarem entender – e prevenir – os movimentos revolucionários da patuleia. À época, contudo, o pensamento científico era ainda contaminado por uma grande carga de preconceito, marcado por ideias como antropologia racial, atavismo dos instintos e criminosos biológicos. Durante muito tempo acreditou-se que a violência das multidões era consequência da degeneração de pessoas inferiores que perdiam sua individualidade nos tumultos – as massas seriam, portanto, irracionais, exibindo comportamentos sem qualquer sentido.

A partir do século XX, especialmente após os anos 60 – quando muitos dos cientistas sociais que estudavam os fenômenos das multidões acabaram tomando parte, eles mesmos, de passeatas contra a Guerra do Vietnã ou pelos direitos civis das minorias – o pensamento sobre as massas foi sendo gradualmente transformado, sobretudo em termos de sua racionalidade: diante do novo contexto já não era possível sustentar que as multidões eram acéfalas e incoerentes. O comportamento dos grupos passou a ser analisado em termos das relações intergrupos e dos contextos políticos e históricos dos indivíduos. De irracionais as multidões passaram a ser vistas como possuidoras de um pensamento, uma racionalidade que surgia não só do pano de fundo das pessoas, mas também da força da identificação entre elas. E o risco de o comportamento do grupo se tornar violento dependeria principalmente de dois fatores: o quanto de legitimidade se confere à polícia e o quanto de poder o grupo vê em si. A atuação policial agressiva poderia gerar um antagonismo na massa, que passaria a medir forças com os soldados.

As imagens dos sujeitos exibindo comportamentos de vandalismo ao longo da Marginal Tietê mesmo escoltados pela polícia pode ser analisada de acordo com esse modelo: as pessoas eram membros de torcidas organizadas, que têm um histórico muito rico de conflitos com a PM – isso lhes confere um senso de identificação interna muito grande, além de minar a legitimidade da atuação da polícia de seu ponto de vista. Além disso, o grande número de torcedores aumenta a sensação de poder na medida em que fica clara a insuficiência do contingente policial para conter seus atos de vandalismo. Com base nesse modelo, algumas experiências feitas na Europa para controlar o comportamento dos hooligans foram bem sucedidas, paradoxalmente, ao reduzir o policiamento ostensivo, marcando a presença do poder do estado mas desestimulando demonstrações de força policial.

Funcionaria para o Brasil? Não sei. Mas se quisermos preservar as imagens das tão decantadas “paixões nacionais” já passou da hora de pensarmos cientificamente na questão das torcidas organizadas, tanto no samba como no futebol.

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Drury, J., & Stott, C. (2011). Contextualising the crowd in contemporary social science Contemporary Social Science, 6 (3), 275-288 DOI: 10.1080/21582041.2011.625626

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Se você usa o tempo que gastaria assistindo Big Brother Brasil para algo mais saudável, como ler jornais ou se manter informado, provavelmente deve ter se deparado, mesmo assim, com o infame BBB nos últimos dias. Uma grande polêmica se armou quando um dos integrantes foi acusado de, aproveitando-se da embriaguez de uma das moças da casa, ter relações sexuais enquanto ela estava inconsciente.

Segundo o código penal, estupro é “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso” (Art. 213). O artigo 217, descreve o estupro de vulnerável: “ter relações com alguém de menos de 14 anos”, e no parágrafo primeiro diz que “incorre na mesma pena quem pratica as ações com alguém que (…) por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência”. Ou seja, se de fato a moça estava dormindo sob efeito do álcool, incapaz de resistir ao ato sexual, este poderá ser considerado estupro.

É a típica situação em que surgem gritas de ambos os lados, uns culpando a vítima, que deveria saber que não se deve convidar um homem para passar a noite em sua cama após uma festa regada a álcool, outros linchando o rapaz como um estuprador em série. Arriscando-me a desagradar aos dois lados (mais uma vez), acho que cabem algumas ponderações.

Em geral, os homens percebem mais interesse sexual por parte das mulheres do que elas realmente demonstram: quase duas em cada três mulheres dizem que já foram mal interpretadas, quando rapazes confundiram amizade com interesse. A cantora Mariana Aydar mesmo já avisou na música Lá em casa: “Só não vá confundir/ Todo esse amor/ Se eu te dou carinho é só/ Pra ser bom/ Nunca passou de amizade”. É óbvio que só uma pequena minoria de pessoas irá ter “comportamentos impróprios”, para usar o termo da Globo, ao julgar erroneamente as intenções alheias, mas existem alguns fatores de risco que contribuem para isso: as características pessoais do sujeito, o comportamento dos envolvidos e o uso de álcool. E pelos menos dois deles estavam presentes nesse caso.

Quanto mais estereotipada a visão do homem sobre as mulheres, maior a chance de ele julgá-las mais interessadas do que estão. Não conheço a visão de mundo do acusado e portanto não sei se esse fator de risco estava presente. Já no quesito “comportamento dos envolvidos”, sabe-se que convidar para a cama é universalmente considerado um sinal de interesse sexual, não só para homens. A pista dada por ela aqui, convenhamos, não ajudou muito. E a situação fica mais embaralhada pelo uso do álcool por ao menos dois motivos: 1) ele dificulta a interpretação correta dos sinais dados pela outra pessoa; 2) e também interfere com a capacidade de uma das pessoas perceber que está sendo mal interpretada e corrigir os sinais que vem demonstrando. Tanto que seu uso é relatado em 30% das relações coercitivas, pelo homem, mulher ou ambos.

Tudo isso contribui para deixar o caso BBB bastante complexo: nada é claro, nem os sinais de interesse, nem o consentimento prévio, nem mesmo a materialidade da relação (perícias estão sendo feitas nas roupas íntimas, algo que não era notícia desde o caso Monica Lewinsky). Concordo que, se houve sexo sem consentimento, isso é sim problema e que não se pode culpar a vítima. Mas tendo em conta o contexto em que as coisas se deram, embora o rapaz tenha responsabilidade, não acho que demonizá-lo seja uma postura ponderada.

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Farris, C., Treat, T., Viken, R., & McFall, R. (2008). Sexual coercion and the misperception of sexual intent Clinical Psychology Review, 28 (1), 48-66 DOI: 10.1016/j.cpr.2007.03.002

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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