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Daniel Martins de Barros

Impossível não tratar do caso do artista plástico Michel Goldfarb Costa, de 34 anos, que há dois dias saiu pelas ruas da cidade atirando a esmo, roubando quatro carros e ferindo ao menos duas pessoas. A polícia e o advogado já falam em “surto psicótico” para explicar os eventos, que seriam contraditórios com a personalidade prévia de Costa e incompatíveis com um assalto comum. Pode ser. Mas também pode não ser.

O problema de invocar desde já um quadro psiquiátrico que explique o ocorrido é o surgimento precoce do “viés de confirmação”. Como outros erros cognitivos dessa natureza, o viés de confirmação é a tendência a um tipo de raciocínio automático que os seres humanos apresentam, que embora poupe esforço (já que pensar cansa) frequentemente nos leva a conclusões apressadas e errôneas, por ignorar elementos importantes. Nesse caso, trata-se da inclinação que temos de buscar somente informações que confirmem o que já pensamos, além de interpretar todos fatos como evidências de nossa hipótese inicial. Na história de Michel Costa, uma vez que se acredite que ele “em um dia de fúria e loucura teria pego uma arma e um colete e efetuado vários disparos em via pública”, conforme disse o tenente da Polícia Militar Guilherme Willian Pacheco, corre-se o risco de enviesar todo seu histórico. Ora, o fato de ele possuir doze cachorros pode ser visto como um ato de caridade com animais, mas se acharmos que ele é doente, pode facilmente ser encarado como um sintoma de “loucura”. Da mesma forma, a partir da declaração de sua namorada de que ele era fechado, de poucos amigos e pouco contato familiar pode-se inferir tanto que ele é um artista algo excêntrico como também que é um paciente que prefere viver isolado. E a partir do momento que começamos a procurar provas do que já cremos em vez de buscar informações que nos esclareçam, o erro é quase certo.

Quando psiquiatras iniciam a abordagem de um caso com uma hipótese diagnóstica em mente, por exemplo, eles podem seguir por dois caminhos principais: buscar evidências comprobatórias ou contraditórias desse diagnóstico. Recentemente mostrou-se num estudo que nos casos em que a hipótese inical estava errada, se os médicos só procuravam sinais que confirmassem sua ideia eles erravam o diagnóstico 70% das vezes. No entanto, mesmo com a hipótese inicial errada, se a investigação fosse feita de modo balanceado, fugindo do viés de confirmação, o dignóstico era corrigido e o erro caía para menos de 30%.

A sugestão que os pesquisadores dão para tentar reduzir os efeitos desse erro cognitivo é a mesma que podemos usar no caso de Michel Costa – estar atento para explicações alternativas e buscar informações balanceadas pode ser um meio eficaz de evitar conclusões apressadas, e, sobretudo, erradas.

ResearchBlogging.org
Mendel, R., Traut-Mattausch, E., Jonas, E., Leucht, S., Kane, J., Maino, K., Kissling, W., & Hamann, J. (2011). Confirmation bias: why psychiatrists stick to wrong preliminary diagnoses Psychological Medicine, 41 (12), 2651-2659 DOI: 10.1017/S0033291711000808

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Pós-escrito

Após ouvir algumas declarações de Michel Goldfarb Costa e ver entrevistas, fico com a impressão de que o que ele refere como perseguições e ameaças extrapolam a realidade, talvez configurando de fato um quadro psicótico. De qualquer forma, o mais importante é, na busca por esclarecimento, ter sempre em mente que “pode não ser”, não apenas na situação dele, mas diante de todos os casos.

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Por esses dias tenho visto no facebook uma mensagem exaltando a infância do “tempo em que eu era criança”, quando não existiam videogames, PCs e “a gente brincava na rua”. Depois falam que eu sou do contra, mas não dá para concordar com essa história.

A mania de achar que antigamente era melhor tem até nome, “rosy retrospection”, ou, numa tradução livre, lembrança cor-de-rosa: é a tendência que temos de avaliar as experiências passadas de forma exageradamente positiva. Até onde sei o termo foi cunhado num estudo seminal de 1997, no qual os pesquisadores fizeram o seguinte: distribuíram questionários para 21 americanos que iam viajar para Europa, para 77 estudantes que iriam ter uma semana de férias e para 28 colegas que iriam viajar de bicicleta pela Califórnia. Os sujeitos respondiam perguntas sobre seus sentimentos em três momentos: antes, durante e depois do passeio. Embora os métodos variassem um pouco, em todos o resultado foi o mesmo: as pessoas achavam que ia ser melhor do que acabava sendo de fato, confirmando o ditado de que o melhor da festa é esperar por ela. Mas quando perguntadas como a experiência tinha sido poucos dias depois, as pessoas também davam notas de satisfação maiores do que tinham dado na ocasião dos eventos. Esquecendo-se rapidamente de pequenas distrações e frustrações que na hora roubavam um pouco da satisfação, guardavam mais as lembranças cor-de-rosa.

É como no mais recente filme de Woody Allen, Meia-noite em Paris. O escritor Gil (Owen Wilson, interpretando com maestria o papel “Woody”) acha que os “anos dourados” de Paris tinham sido os anos 20. Num passe de mágica ele vai parar lá, e descobre que as pessoas da época achavam que a “idade de ouro” terminara mesmo foi com a virada do século. Só que quem vivia esse período imaginava que a Renascença é que tinha sido boa. Gil vê que as pessoas sempre acham sua época meio insatisfatória, mas que isso não é culpa da época, “a vida é um pouco insatisfatória”, conclui.

Por isso que não concordo com a campanha no facebook. Como diz o personagem do Woody Allen, o passado pode até ter sido bom, mas pelo menos hoje nós temos antibióticos.

ResearchBlogging.org Mitchell TR, Thompson L, Peterson E, & Cronk R (1997). Temporal Adjustments in the Evaluation of Events: The “Rosy View” Journal of experimental social psychology, 33 (4), 421-48 PMID: 9247371

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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