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Daniel Martins de Barros

Olha que boa notícia: você ganhou R$ 1.000,00. Não estava esperando esse dinheiro, não é? Então pense como pretende dividi-lo – temos quatro opções: 1) Comprar um presente bonito para uma alguém especial; 2) Investir numa previdência privada; 3) Fazer algo divertido e extravagante; 4) Colocar na conta corrente. Mas antes, pense em você mesmo com 70 anos. Imagine os cabelos brancos, a pele enrugada, as mãos menos firmes. Muda alguma coisa? Provavelmente muda pouco, porque nós não nos reconhecemos totalmente nos idosos que seremos – nossa imaginação é fraca para isso, e então produz certa descontinuidade entre quem somos e quem seremos, dando um pouco a impressão que o nosso eu futuro é outra pessoa. É como o Homer Simpson quando foi alertado pela Marge que teria um grande problema mais tarde se não fizesse nada naquela hora; “Esse é um problema para o Homer do futuro.” raciocinou ele “Caramba, eu não queria estar na pele desse cara!”, completou enquanto comia um pote inteiro de maionese. Em menor grau, somos todos um pouco assim.

Mas se pudermos nos ver no futuro – literalmente – isso pode mudar.

O cenário acima foi proposto para dois grupos de voluntários que se submeteram a uma experiência de realidade virtual. Antes de responder o que fariam com o dinheiro eles colocavam um daqueles óculos que imergem a pessoa num mundo gerado por computador, e tinham como tarefa olhar-se num espelho pendurado numa parede da casa virtual. Metade deles via um avatar com a sua cara, enquanto outra metade via a imagem de si mesmos com 70 anos, desenhada previamente por um algoritmo especialmente criado para envelhecer faces. Com isso o grupo que se viu mais velho alocou em média mais do que o dobro de dinheiro na previdência. Os pesquisadores modificaram de várias formas a experiência, expondo as pessoas a si mesmas ou a outras pessoas envelhecidas (novamente só que via a si mesmo velho é que poupava mais), e até sem o uso da realidade virtual – apenas mostrar uma foto do sujeito no presente ou no futuro (envelhecido), já foi suficiente para aumentar as atitudes menos voltadas para a recompensa imediata. Em todos os experimentos ver-se velho aumentou a sensação de continuidade entre o eu de hoje e o eu dos anos à frente, o que explica a mudança de comportamento.

Lembra o famoso Conto de Natal, um dos livros mais conhecidos de Charles Dickens, autor que vem sendo festejado por conta dos 200 anos de seu nascimento. A história já teve versões que vão do teatro às histórias em quadrinhos, passando por cinema e TV, com diferentes formatos e muitas releituras, mas todas guardam o espírito original – um velho sovina, Scrooge, só pensa em dinheiro e espalha o sofrimento ao seu redor por conta disso. Até que numa noite de Natal ele começa a receber a visita de diversos fantasmas. Um deles o leva de volta no tempo, mostrando as agruras que ele sofreu outrora; o segundo mostra o que está acontecendo à sua volta no tempo presente, os dramas que ele simplesmente ignora; e o último revela o que irá acontecer, a miséria de sua vida futura. E é só depois de se ver num futuro desolador que Scrooge se rende, implorando à assombração a chance de voltar para o presente, prometendo mudar: “Não serei o homem que teria sido se não houvesse passado por essa experiência.” (Spoiler alert: ele muda de fato).

Adiar gratificações nem sempre é fácil. E nem sempre necessário, convenhamos. O ideal é procurar o equilíbrio entre a poupança e o desfrute, sabendo, no entanto, que agir no presente em favor do futuro é a única maneira de melhorar aquilo que, um dia, será nosso passado.

ResearchBlogging.org
Hershfield, H., Goldstein, D., Sharpe, W., Fox, J., Yeykelis, L., Carstensen, L., & Bailenson, J. (2011). Increasing Saving Behavior Through Age-Progressed Renderings of the Future Self Journal of Marketing Research, 48 (SPL) DOI: 10.1509/jmkr.48.SPL.S23

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Você, que fica adiando o começo da academia, saiba que é um profeta muito míope.

Essa é a conclusão de um estudo sobre a prática de atividade física realizada na University of British Columbia, no Canadá: as pessoas sempre acham que vão gostar menos de fazer exercícios do que acabam gostando no fim das contas. Isso parece acontecer porque nós ficamos pensando no esforço para quebrar a inércia, e – de modo míope – achamos que a atividade inteira será ruim. Essa baixa expectativa de prazer, dizem os cientistas, faz com que muita gente nem sequer comece a se mexer.

Para confirmar isso os pesquisadores pediram a dezenas de pessoas que já treinavam alguma coisa para atribuir uma nota de 0 a 10 para o quanto iriam gostar do treino. No final repetiram a pergunta, e demonstraram que os voluntários gostavam mais do que haviam previsto. Bolaram então um treinamento padronizado, com uma fase de aquecimento, uma fase intensa, e depois um fase de desaceleração. Quando questionadas sobre as expectativas para cada uma das fases, o aquecimento recebia as piores notas, mesmo sendo idêntico à fase final. E, novamente, após o treino todas as fases mostravam-se mais prazerosas do que o estimado.

A boa notícia é que quando pensavam nas fases separadamente, primeiro dando notas para cada um dos momentos e depois para o treino todo, esse acabava tendo uma avaliação mais positiva (e mais próxima do real), contrabalançando a miopia preditiva. E quanto melhor a expectativa de prazer, maiores as chances de a pessoa voltar a se engajar em exercícios.

Portanto, ânimo! Livre-se da visão de curto prazo e comece logo a se mexer. Acredite: você gostará mais do que consegue imaginar.

ResearchBlogging.org Ruby, M., Dunn, E., Perrino, A., Gillis, R., & Viel, S. (2011). The invisible benefits of exercise. Health Psychology, 30 (1), 67-74 DOI: 10.1037/a0021859

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Estou assistindo – e recomendo fortemente – o documentário de doze horas de duração sobre a história do jazz feito pelo historiador e documentarista Ken Burns (que está sendo relançado nas bancas pela editora Duetto). Conduzido por preciosas imagens de arquivo entremeadas com entrevistas recentes, ouvimos numa destas o trompetista Wynton Marsalis resumir com precisão que “O real poder e inovação do jazz é que um grupo de pessoas pode se reunir e criar arte – arte improvisada – negociando uns com os outros suas pautas. E a negociação é a arte”.

É daí que surge uma analogia muito boa entre o jazz e a medicina. Numa consulta, da mesma forma, temos duas (e por vezes mais) pessoas que precisam se reunir e fazer com que esse encontro funcione para todos, usando para isso seu conhecimento prévio mas sendo capazes de improvisar conforme os diálogos se desenrolam. É por isso mesmo que o diretor de educação médica da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, Paul Haidet, vem colocando os estudantes de medicina para ouvir música no seu curso, cujo título pode ser livremente traduzido como “Jazz e a Arte da Medicina: Improvisos na Consulta”.

Haidet era DJ na faculdade, e desde cedo percebeu que a comunicação entre médicos e pacientes muitas vezes é truncada, sem permitir uma real conexão entre as partes. Numa entrevista rígida, por exemplo, na qual o médico dirige todo o diálogo por meio de perguntas sim/não, sobra pouco espaço para manifestações espontâneas do paciente que poderiam ser importantes. Haidet inspira-se nos solos de Miles Davis, que em vez de encher a música de notas, deixava pausas para que toda a banda fosse ouvida, sendo seu instrumento um guia, não um tirano. No curso, ele estimula os alunos a praticarem a pausa nas consultas, contando mentalmente dez segundos após o paciente terminar uma frase antes de dizer algo. Já para cultivar o senso de conjunto (ou “ensemble”, como gostam os jazzistas), pede-se aos médicos que passem duas semanas utilizando frases começando com “O que eu estou entendendo do que você me diz é…” em todas as consultas, a partir daí percebendo quando ela se aplica melhor ou não.

De minha parte, não tenho dúvida que deixar espaço para os pacientes e estimular o senso de conjunto é muito produtivos para a conexão entre médico e paciente. Improvisar não significa tomar as decisões de forma desleixada ou irresponsável: ao contrário, tanto na música como na medicina o improviso adequado só é possível quando há uma sólida base de conhecimento sobre a qual se possa criar. Mas estar aberto para improvisar caminhos que só surgem na interação – e que por isso são diferentes a cada apresentação ou a cada consulta – pode transformar a técnica em arte.

ResearchBlogging.org Sayani, F. (2010). Jazz and the art of conversation Canadian Medical Association Journal, 182 (1), 66-67 DOI: 10.1503/cmaj.092028

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Eu sempre fui do time dos favoráveis à energia nuclear. Sem memória do acidente na usina de Three Mile Island e considerando já distantes as recordações do acidente de Chernobyl, me parecia que, se bem planejada e com medidas de segurança suficientes, essa seria uma boa alternativa energética para o planeta. Agora, como todo mundo, estou revendo minha posição.

E por que todo mundo está revendo suas posições? Porque um acidente nuclear muda o que se chama de framing (literalmente, enquadramento ou emolduramento) – que é a forma como um problema é apresentado. Isso foi explorado pelos psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky, rendendo ao primeiro um prêmio Nobel de economia (Tversky já tinha morrido, e o Nobel nunca é póstumo), e quando um psicólogo ganha um Nobel de economia, vale a pena saber do que se trata.

Numa série de experimentos clássicos, eles mostram que, nas tomadas de decisão, mesmo que as probabilidades sejam idênticas a forma de expor a situação muda o jeito de as pessas pensarem sobre ela. Eles apresentaram problemas a centenas de indivíduos, mudando apenas o enunciado. Por exemplo: uma epidemia fatal está para eclodir, na qual calcula-se que 600 pessoas morrerão se nada for feito. Dois programas são então sugeridos para tentar evitar esta mortandade, mas:
1. Se o Programa A for adotado, 200 pessoas serão salvas;
2. Se o Programa B for adotado, há 1/3 de chances de as 600 pessoas serem salvas e 2/3 de chances de ninguém ser salvo.
Qual o melhor programa? Embora o resultado esperado dos dois programas seja estatisticamente idêntico (200 salvos, 400 mortos), quase 3 em cada 4 pessoas preferem o programa A, pois tendem a fugir do risco do desfecho apresentado, no caso, um desfecho negativo.

Só que dois outros programas são propostos para lidar com a catástrofe, com a seguinte ressalva:
3. Se o Programa C for adotado, 400 pessoas morrerão;
4. Se o Programa D for adotado, há 1/3 de chances de ninguém morrer e 2/3 de chances de todos morrerem.
Nesse caso, quase 80% das pessoas escolhe o programa D, preferindo correr o risco, já que o desfecho é apresentado de forma positiva. Note-se, contudo, que o resultado esperado continua sendo estatisticamente igual – risco de 400 mortos e 200 sobreviventes.

E o que tudo isso tem a ver com o acidente nuclear? A meu ver ele muda o framing. Pois embora estejamos falando do mesmo risco, a nós parece diferente saber que existe uma fonte de energia que não gera CO2, que não precisa inundar áreas de florestas e não polui, e que a cada 20 anos pode gerar um problema de grandes proporções ou saber que centenas de milhares de pessoas estão sendo obrigadas a abandonar suas casas, correndo risco de ter câncer e tendo seus alimentos contaminados por conta de uma fonte de energia elétrica limpa.

Vale o risco? Depende do ângulo que você encara.

ResearchBlogging.org Kahneman, D., & Tversky, A. (1984). Choices, values, and frames. American Psychologist, 39 (4), 341-350 DOI: 10.1037/0003-066X.39.4.341

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Acho que estou influenciado pelo slogan de uma emissora de TV, que diz que quando é tempo de Copa do Mundo, nada mais importa. Não chego a tanto, mas descobri recentemente mais dois estudos interessantes sobre a ciência da cobrança de pênaltis, que bem poderiam ajudar nossos jogadores caso situações como a final de 1994 se repitam.

Em sua tese de doutorado, o pesquisador Nelson Toshiyiki Miyamoto, da USP, descobriu que, ao contrário do que se imagina, a torcida pode mais atrapalhar do que ajudar. Ele estudou a resposta motora de voluntários numa espécie de videogame que simulava a cobrança de pênaltis – o sujeito deveria inclinar uma alavanca para esquerda, direita ou deixá-la parada, tentando fazer com que a bola desviasse do goleiro, marcando o gol virtual. Em condições de laboratório, o aproveitamento dos voluntários foi de praticamente 100%. Depois disso, eles tinham que repetir a tarefa, mas sob o olhar (e gritos) de outros 70 alunos, simulando a torcida. O desempenho caiu para 80%, próximo da média mundial de conversão de penalidades em gols. Miyamoto sugere que o estresse adicional pela presença da torcida piora a perícia motora, e que talvez os jogadores devessem treinar mais a cobrança de pênaltis. Imagino se colocar um fone de ouvido com gritos da torcida não ajudaria também a acostumar com a pressão.

Outra pesquisa desfavorável aos jogadores mostra que eles sem saber dão pistas de onde vão chutar a bola (I). Filmando com 14 câmeras jogadores batendo na bola, os cientistas criaram vídeos que reproduzem o ponto de vista do goleiro na hora do pênalti. Analisando as imagens, descobriram uma série de dicas sobre a direção a ser tomada pela bola, sendo as principais o ângulo do quadril e a posição do pé de apoio. Segundo eles, no entanto, as informações podem não ser úteis para os goleiros, na verdade, pois dado o tempo extremamente curto entre o chute e a entrada (ou não) da bola, o arqueiro tem que pular muito rapidamente, sem tempo hábil para interpretar as informações e decidir para qual lado ir.

Aparantemnte as ciências cognitivas têm estudado o futebol há algum tempo, e o efeito da Copa é só dar mais publicidade a elas, não estimular que mais pesquisas sejam feitas. Se esse efeito ocorrer também com outros eventos relevantes para o país, em poucos meses devem vir à luz novos estudos sobre corrupção.

ResearchBlogging.org
(I) Diaz, G., Fajen, B., & Ehlinger, D. (2010). Learning to anticipate the actions of others: The goal-keeper problem Journal of Vision, 9 (8), 608-608 DOI: 10.1167/9.8.608

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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