Estou assistindo com entusiasmo a série Once upon a time. Pensada para atrair um público mais jovem, a produção mirou no que viu a atingiu o que não viu: a estreia rendeu o primeiro lugar ao canal Sony entre o público brasileiro de 25 a 49 anos. Não sei se o ritmo se manterá ao longo da temporada, mas o início é promissor: uma maldição lançada sobre os personagens dos contos de fadas os transfere para o nosso “mundo real”; eles trazem consigo suas histórias mas não sabem – nem se perguntam – de onde vieram. Presos no tempo, são condenados a reviver continuamente seus dramas essenciais – “Finais felizes, nunca mais”, diz a bruxa.
Existem diversas chaves de interpretação para os contos de fada – psicanalíticas, sociológicas, pedagógicas e até marxistas. Há os que acham que eles ajudam as crianças a entrar em contato com seus medos, outros que vêem neles instrumentos de propaganda dos sistema. Eu vejo sobretudo a paixão humana por histórias. Desde a Ilíada e a Odisseia, passando pelas narrativas bíblicas, as novelas de cavalaria, o romance moderno e o sucesso mundial as séries e novelas, as pessoas adoram acompanhar a história de personagens mais diversos – seja o herói impossível, seja o semelhante num reality show. A publicidade vem se dando conta disso, e cada vez mais campanhas acompanham histórias de protagonistas que se desenvolvem no tempo.
Mas o que achei mais interessante na proposta do seriado é o paralelo, que até aqui vem sendo muito bem feito, entre o conto original e seu aggiornamento. Como cada episódio mostra simultaneamente os personagens como eram no mundo da fantasia e como estão em sua nova vida real, isso permite aos roteiristas resgatar a própria essência dos temas, que soam um pouco datados nas histórias antigas. Por exemplo: a bruxa má que espalhava medo controlando o poder das trevas, agora é prefeita da cidade, e impõe o mesmo medo controlando o poder institucional. Se na história de Rumpelstiltskin a mocinha, arrependida de ceder ao imediatismo, tem que vencer pela esperteza de um mago, no mundo real é a esperteza de advogados que pode livrá-la do contrato abusivo. Assim, os elementos medievais, como pestes, florestas, lobos e carestia, dão lugar a temas modernos como o estresse, mundo corporativo e violência urbana para traduzir, de forma contextualizada, os mesmos dramas universais como medo, solidão, carência e desejo. E a maldição da bruxa má, de acabar com a possibilidade de finais felizes ao eliminar a magia, é derrotada quando o poder mágico é substituído pelo poder da razão, da urbanidade, da democracia e da ciência.
Talvez esse poder, das instituições modernas, também não passe de um conto da carochinha. Mas hoje é o que temos de melhor, e que tem se revelado mais eficaz do que as velhas poções mágicas. Acho que vem daí o sucesso da série entre o público adulto – renovar a esperança de haver finais felizes mesmo num mundo onde não há mais magia.
Vingança. Esse parecer ser o tema da semana. Ao nos aproximarmos do marco de um ano do massacre de Realengo temos notícia do crime em massa em Oakland, nos Estados Unidos. Enquanto isso, na ficção, o desejo por retaliação é a mola mestra da novela Avenida Brasil, que promete trazer a ambiguidade psicológica para a dramaturgia popular.
Os crimes como o de Realengo e de Oakland são classificados como crimes de vingança porque em sua maioria são motivados por uma sensação de injustiça acumulada ao longo do tempo. As vítimas não são escolhidas de forma casual, mas, ao menos na mente do perpetrador, são de alguma forma relacionadas ao sofrimento que ele passou. E é interessante notar que, mesmo não sendo improvisados (ao contrário, são bem planejados durante um bom tempo), tais eventos costumam acabar com a morte do assassino, ou no mínimo com sua prisão – eles praticamente nunca saem ilesos. A revanche, portanto, tem um preço que o perpetrador antevê mas opta por pagar.
E vingança é assim mesmo.
Para estudá-la melhor cientistas criaram o seguinte experimento: voluntários ganhavam 10 Unidades Monetárias (UM) cada um. O primeiro, chamemos de A, podia confiar no segundo, B, e dar toda sua quantia para ele. Se o fizesse, o pesquisador quadriplicava o total, deixando B com 50 UMs e A com zero. Depois disso B podia repartir seus 50 com A, como retribuição pela confiança, ou traí-lo ficar com tudo. Mas aí A podia impor uma pena pela traição; algumas vezes isso não custava nada mas em outras havia também um custo para A (A perderia uma UM para cada duas que cortasse de B). Os resultados não deixaram dúvida: o núcleo estriado do cérebro, área que sinaliza prazer e recompensa, era ativado quando A decidia punir B, mostrando que, para o cérebro, a vingança realmente é doce. Mesmo quando A sabia que a vingança teria um custo pessoal essa região do cérebro era ativada (nesse caso, junto com o córtex pré-frontal medial, região envolvida nos cálculos de custo e benefício). E quanto mais ativada fosse a área da recompensa do voluntário quando não havia custo pessoal, maior era a chance de ele retaliar quando houvesse. Ou seja, quanto maior a satisfação pela vingança, menos importância se dá ao preço a pagar.
Esse balanço entre o custo pessoal e a sensação de recompensa traz a ambiguidade de sentimentos envolvida nas situações de vingança. Na novela a protagonista abandona sua família, seu namorado e sua vida estável na Argentina para voltar ao Brasil tentar se vingar. Paga, portanto, um alto preço pessoal, e, segundo o autor, na expectativa de ter sua recompensa se tonará quase uma vilã nos próximos meses, passando a se questionar até que ponto vale a pena.
Nos assassinatos em massa, por outro lado, os sujeitos sabem de antemão que pagarão alto, possivelmente com suas próprias vidas. Mas talvez a realidade já tenha se tornado intolerável para eles, só restando a tênue promessa de uma recompensa na vingança. Claro que são casos que não têm causa única, originando-se de uma cadeia de fatores que culminam na tragédia. Mas se a variável vingança está quase sempre presente, imagino que se tratarmos os outros como queremos ser tratados e educarmos nossos filhos para fazer o mesmo, talvez possamos prevenir pelos menos parte desses crimes, trabalhando ao mesmo tempo por um mundo menos hostil.
![]()
de Quervain, D. (2004). The Neural Basis of Altruistic Punishment Science, 305 (5688), 1254-1258 DOI: 10.1126/science.1100735
A estreia do reality show “The Ultimate Fighter Brasil – Em busca de campeões”, no qual aspirantes a lutadores profissionais disputam vaga na maior competição mundial de vale-tudo, vem coroar o fenômeno que esse esporte se tornou. Na verdade vale-tudo é – paradoxalmente – o nome antigo de um esporte novo, o Mixed Martial Arts (artes marciais mistas), ou MMA para os iniciados. Eu não gosto particularmente, mas seu crescimento exponencial merece algumas reflexões.
Desde os primórdios da civilização nós humanos desenvolvemos meios ritualizados de expressar a agressividade inerente aos seres vivos. Encontrar maneiras de extravasar a violência sem nos matarmos deve ser até mesmo um pré-requisito para nos tornarmos civilizados. Não por acaso a luta é o esporte mais antigo da humanidade: colocar normas (criando um esporte) nos embates físicos deve ter sido uma das primeiras coisas que fizemos ao construir as sociedades. A partir de então, da luta na antiguidade clássica, passando pelos gladiadores romanos, pelas justas (combates de cavalaria) na idade média, até chegar ao boxe moderno, em cada período um jeito de bater e apanhar com regras conheceu a glória. A pós-modernidade nos trouxe o MMA.
Embora controverso e sujeito a múltiplas definições, o termo pós-modernidade foi consagrado no meio acadêmico e popular como justamente uma espécie de “vale-tudo” do pensamento. Para o filósofo Jean-François Lyotard, do ponto de vista acadêmico a pós-modernidade surge com o fracasso das grandes teorias que se propunham a explicar o mundo – fosse o marxismo, a psicanálise, o feminismo ou qualquer outra -, fracasso esse que traz a sensação de não ser possível chegar a uma verdade. Daí surge a ideia de que há várias verdades possíveis, e as ideologias passam a ser adotadas aos pedaços, conforme a escolha individual. No plano estético também o pós-modernismo é caracterizado pela mistura, pela apropriação de elementos do passado de forma acrítica. Segundo Fredric Jameson, ao contrário da paródia – que faz uma crítica histórica – trata-se de um pastiche, uma “canibalização aleatória de todos os estilos do passado, o jogo aleatório de alusões estilísticas”, que não mantém uma coesão com a história, nem para criticá-la nem para atualizá-la.
O MMA é assim. Como bem diagnosticou o colega Wilson Baldini Jr., no MMA o sujeito “é faixa-preta quarto dan de jiu-jitsu, sexto dan de taekwondo, sétimo de karatê, terceiro de judô… Caramba! Precisa de cinco vidas para somar tanta experiência.” Obviamente isso só é possível se não se domina plenamente uma técnica, mas apenas alguns golpes de uma e de outra. Como no caso das ideologias, pode-se montar um estilo aprendendo artes marciais aos pedaços. Mas essa apropriação superficial, desconectada da modalidade original, leva justamente ao pastiche, com grande prejuízo para a beleza da luta: enquanto o boxe é conhecido como “nobre arte” por requerer muita técnica e pouca briga, os próprios lutadores de MMA dizem que o trabalho deles é brigar.
Quem costuma ler esse blog sabe que não sou um saudosista revoltado. O MMA faz sucesso por refletir uma cosmovisão atual, não adianta lamentar-se e dizer que o boxe era mais nobre ou as justas mais elegantes. Ele também vai passar. Se tem uma coisa que a história ensina é que mais importante (e produtivo) do que lutar pelas coisas que mudaram é lutar contra aquelas que ainda precisam mudar.
Se você usa o tempo que gastaria assistindo Big Brother Brasil para algo mais saudável, como ler jornais ou se manter informado, provavelmente deve ter se deparado, mesmo assim, com o infame BBB nos últimos dias. Uma grande polêmica se armou quando um dos integrantes foi acusado de, aproveitando-se da embriaguez de uma das moças da casa, ter relações sexuais enquanto ela estava inconsciente.
Segundo o código penal, estupro é “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso” (Art. 213). O artigo 217, descreve o estupro de vulnerável: “ter relações com alguém de menos de 14 anos”, e no parágrafo primeiro diz que “incorre na mesma pena quem pratica as ações com alguém que (…) por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência”. Ou seja, se de fato a moça estava dormindo sob efeito do álcool, incapaz de resistir ao ato sexual, este poderá ser considerado estupro.
É a típica situação em que surgem gritas de ambos os lados, uns culpando a vítima, que deveria saber que não se deve convidar um homem para passar a noite em sua cama após uma festa regada a álcool, outros linchando o rapaz como um estuprador em série. Arriscando-me a desagradar aos dois lados (mais uma vez), acho que cabem algumas ponderações.
Em geral, os homens percebem mais interesse sexual por parte das mulheres do que elas realmente demonstram: quase duas em cada três mulheres dizem que já foram mal interpretadas, quando rapazes confundiram amizade com interesse. A cantora Mariana Aydar mesmo já avisou na música Lá em casa: “Só não vá confundir/ Todo esse amor/ Se eu te dou carinho é só/ Pra ser bom/ Nunca passou de amizade”. É óbvio que só uma pequena minoria de pessoas irá ter “comportamentos impróprios”, para usar o termo da Globo, ao julgar erroneamente as intenções alheias, mas existem alguns fatores de risco que contribuem para isso: as características pessoais do sujeito, o comportamento dos envolvidos e o uso de álcool. E pelos menos dois deles estavam presentes nesse caso.
Quanto mais estereotipada a visão do homem sobre as mulheres, maior a chance de ele julgá-las mais interessadas do que estão. Não conheço a visão de mundo do acusado e portanto não sei se esse fator de risco estava presente. Já no quesito “comportamento dos envolvidos”, sabe-se que convidar para a cama é universalmente considerado um sinal de interesse sexual, não só para homens. A pista dada por ela aqui, convenhamos, não ajudou muito. E a situação fica mais embaralhada pelo uso do álcool por ao menos dois motivos: 1) ele dificulta a interpretação correta dos sinais dados pela outra pessoa; 2) e também interfere com a capacidade de uma das pessoas perceber que está sendo mal interpretada e corrigir os sinais que vem demonstrando. Tanto que seu uso é relatado em 30% das relações coercitivas, pelo homem, mulher ou ambos.
Tudo isso contribui para deixar o caso BBB bastante complexo: nada é claro, nem os sinais de interesse, nem o consentimento prévio, nem mesmo a materialidade da relação (perícias estão sendo feitas nas roupas íntimas, algo que não era notícia desde o caso Monica Lewinsky). Concordo que, se houve sexo sem consentimento, isso é sim problema e que não se pode culpar a vítima. Mas tendo em conta o contexto em que as coisas se deram, embora o rapaz tenha responsabilidade, não acho que demonizá-lo seja uma postura ponderada.
![]()
Farris, C., Treat, T., Viken, R., & McFall, R. (2008). Sexual coercion and the misperception of sexual intent Clinical Psychology Review, 28 (1), 48-66 DOI: 10.1016/j.cpr.2007.03.002
Já viu um professor de química do colegial, à beira da morte, que quase nunca acerta, desbancar um dos médicos mais famosos do mundo, que quase nunca erra? Pois é o que vem acontecendo nos últimos anos: o ator Bryan Cranston, interpretando o professor Walter White, faturou o prêmio de melhor ator em série dramática nos últimos três anos, batendo Hugh Laurie com seu Dr. House. Sim, estou falando de Breaking Bad, o seriado que conta a história do professor White, que descobre ter câncer inoperável no pulmão e teme deixar o filho deficiente físico e a esposa grávida desamparados. Coincidentemente, ele descobre que um ex-aluno trafica metaanfetaminas, e propõe-se a fabricar a droga para garantir o futuro da família.
A força do drama vem do fato de ele ser um homem bom, pacífico, verdadeiramente honesto mas que de repente se vê fazendo mais e mais coisas ruins em nome de um fim bom. É uma versão dramatizada do famoso dilema de Heinz: um homem tem a esposa com uma doença fatal, mas só tem metade do dinheiro para comprar a única droga que pode salvá-la; o farmacêutico, que inventou tal droga, cobra 10 vezes o custo mas recusa-se a vendê-la mais barato. Deve o homem roubar o dinheiro? Por que? Embora haja só duas opções possíveis (roubar ou não), são as justificativas que interessam. E essas, há aos montes.
O professor White metaforicamente opta por “roubar o remédio”, decidindo quebrar leis em nome de um bem maior em que acredita. Poderíamos chamar essa opção de utilitarista. Para tal escola de pensamento moral (Utilitarismo), a ação correta é aquela que tem mais utilidade, medida pela geração de maior felicidade para o maior número de pessoas. O professor White tenta então se convencer que fabricar drogas para garantir o bem da sua família (lembrando que o filho é deficiente e que a esposa está grávida) faz mais bem do que mal no cômputo geral. Mas ele mesmo tem dificuldade em acreditar nisso.
Assistir a primeira temporada me fez lembrar de um estudo recente, que procurou relacionar os tipos de raciocínio moral com a personalidade das pessoas. Duzentas e oito pessoas responderam a 14 dilemas morais, semelhantes ao dilema de Heinz, e tiveram suas respostas correlacionadas com seus traços mais característicos. Eis que descobriu-se que, quanto mais próximo da psicopatia, mais utilitária era a pessoa. O que faz sentido, pois quanto mais indiferente se é aos outros, mais fácil de se ter frieza para raciocinar em termos de custos e benefícios, ignorando normas ou leis.
É por isso que os prêmios que Breaking Bad e seu protagonista vêm colecionando são mais do que justos: o ator consegue interpretar um mocinho que se torna vilão, cheio de remorso mas sem mudança de atitude. Seu conflito é tão intenso que me levou a acreditar que ser utilitarista é para quem pode, não para quem quer.
Bartels, D., & Pizarro, D. (2011). The mismeasure of morals: Antisocial personality traits predict utilitarian responses to moral dilemmas Cognition, 121 (1), 154-161 DOI: 10.1016/j.cognition.2011.05.010
[tweetmeme]
Acho que alguns leitores podem ficar indignados, mas não consigo deixar de comentar a matéria de capa da Veja da semana passada, Luciano Huck e Angélica mostrando a nova cara do bom-mocismo para um mundo politicamente correto.
Mas o quê nosso blog tem a ver com isso? Tem a ver na medida em que a mídia é uma fonte de modelos mentais para a sociedade, e o modelo apresentado ali é, no mínimo, parcial. É claro que eu torço pela felicidade dos apresentadores (aliás, torço para a felicidade geral das nações), mas pintar a vida como uma comédia romântica, na qual os protagonistas passam por diversos desencontros até finalmente se unir e se tornarem felizes para sempre já se provou uma fórmula prejudicial para a saúde emocional das pessoas.
Para citar apenas um estudo de muitos, numa pesquisa com quase 300 estudantes universitários, encontrou-se uma clara correlação entre a preferência por mídias de conteúdo romântico, como seriados, filmes e revistas, e crenças absolutamente disfuncionais no que se refere a relacionamentos reais, como acreditar que o destino apresentará um parceiro ideal que será imediatamente reconhecido, ou esperar que o parceiro tenha a percepção imediata das necessidades do outro, como se dotado fosse da capacidade de ler sua mente. Nós somos seres sociais, tendemos a nos espelhar no outro, e portanto somos mais sugestionáveis do que gostaríamos. Quando fontes de informação massificam mensagens superficiais e, por que não, mentirosas, acabamos por acreditar naquilo e por viver grandes frustrações.
A matéria da Veja é como os adesivos de carro que viraram moda nos últimos meses: mostram uma família arrumadinha e sorridente, puerilmente retratada como se tudo fossem flores. Claro, ninguém quer colar no seu carro uma cena mostrando a briga com a sogra no almoço de domingo, assim como não seria de se esperar uma reportagem sobre as discussões conjugais de Huck e Angélica. Só quero lembrar que, no dia-a-dia, ser feliz até é possível, mas é mais difícil do que se quer crer e custa um bocado de contrariedades.
Bjarne M. Holmes (2007). In Search of My “One-and-Only”: Romance-Oriented Media and Beliefs in Romantic Relationship Destiny Electronic Journal of Communication, 7 (3)
[tweetmeme]
Coincidência ou não, nesse feriado que começava com o Haloween e terminava com Finados, assisti duas obras que versam sobre a morte. Tão diferentes na superfície, me parecem que são no fundo complementares, numa análise mais detalhada.
Com recorde de audiência de estreia na TV paga americana, o seriado The walking dead conta a história de um mundo assolado por zumbis, impondo aos sobreviventes a árdua tarefa de escapar aos seus ataques e tentar resolver a situação. Para os que não sabem, zumbis são pessoas mortas que mantém sua capacidade de agir, mesmo que o pensamento ou a comunicação sejam precários e a putrefação seja irreversível.
Já o filme A partida, de Yojiro Takita, foi o vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009, e – confesso embaraçado – talvez o único que me fez soluçar desde a adolescência. Conta a história de um violoncelista cuja orquestra em Tóquio é desfeita, forçando-o a voltar para seu interior natal (geográfico e psicológico), onde, sem emprego, começa a trabalhar como agente funerário, preparando os mortos para serem enterrados num belíssimo ritual.
O quê as duas obras têm em comum? Embora a morte seja a resposta óbvia é o luto que faz o contraponto mais interessante. No primeiro episódio do seriado um dos protagonistas vê sua mulher se transformar em zumbi e tenta matá-la (o que é possível destruindo o cérebro) para poupá-la de uma existência tão miserável. Em lágrimas, não consegue. Ela não fez a passagem, não foi enterrada, não morreu de fato; não poderá, portanto ser eliminada por ele, e pelo visto seguirá o assombrando séria afora. Fazer essa passagem é justamente o trabalho do músico/coveiro em A partida. Em diversas cenas do filme fica evidente como o estresse e a tensão das famílias enlutadas é aliviado quando o ritual é completado, quando eles conseguem se despedir dos mortos e enterrá-los. Numa das cenas mais belas ele mesmo passa por essa experiência de liberação – não conto mais para não estragar.
O estudo sobre o luto evoluiu bastante nas últimas décadas, e até hoje não foi encontrado um tratamento ou espécie de intervenção comprovadamente eficaz para “resolver” o luto. Numa revisão ampla sobre o tema publicada em 2010 por cientistas da Bélgica, não foi identificada uma terapia específica que possa ser amplamente aplicada para as pessoas enlutadas. Suporte social, psicoterapia, intervenção antes da morte, nada parece muito útil. Como coloca Phylllis Silverman, especialista no tema, “O luto não é algo que você supere. A perda permanece com você, mas você se acomoda e segue com a vida, transformada pelo que aconteceu”.
É por isso que os rituais de passagem são importantes; para que, a despeito da presença daquela ausência, a vida possa ser retomada em sua nova configuração. Sem isso, os zumbis continuam sua perseguição, impedindo a vida de seguir. Como disse Nietzsche “Somente onde há sepulturas pode haver ressurreições”.
Henk SCHUT, & Margaret STROEBE (2010). EFFECTS OF SUPPORT, COUNSELLING AND THERAPY
BEFORE AND AFTER THE LOSS: CAN WE REALLY HELP
BEREAVED PEOPLE? Psychologica Belgica, 50 (1&2), 89-102
[tweetmeme]
Uns jogam objetos voadores não identificados na cabeça do candidato, outros atiram bexigas d’água na carreata da candidata: a violência surgiu nas ruas nesse segundo turno após o tom agressivo aparecer nas interações entre Serra e Dilma. Seria coincidência? Acho que não.
Um fato que detestamos admitir é que a televisão tem um enorme poder sobre nós e nossos comportamentos. Gostamos de pensar que estamos acima dessa influência, mas os trabalhos do cientista Albert Bandura estão aí para nos desmentir.
Na década de 60 ele ficou famoso com um experimento no qual crianças entre três e seis anos eram apresentadas a uma situação de agressão: eles viam um adulto agredir um boneco “joão-bobo” de forma propositalmente mais intensa do que o esperado para o brinquedo – além de socos, havia chutes, marretadas, seguidos de frases agressivas, como “Soque-o no nariz!” etc. O estímulo foi feito de três maneiras: ao vivo ou por meio de um vídeo, que mostrava ou a mesma agressão ou um adulto vestido de gato, como nos parques de diversão, enquanto um grupo controle não via tais cenas. No segundo momento as crianças eram levadas a uma sala de brinquedos e observava-se se elas teriam comportamentos agressivos e em que medida imitariam o adulto. Não surpreende que as crianças submetidas ao estímulo foram muito mais agressivas do que as no grupo controle. Surpreendeu, contudo, que o estímulo que mais as levou a comportamentos imitativos foi ver o vídeo dos adultos agressivos.
Acho que já comentei aqui, mas vale a pena citar novamente uma declaração do Woody Allen que disse conhecer diversas pessoas frustradas por não terem a vida que viam nos filmes, como se aquele fosse um gabarito com qual medir o sucesso real dos indivíduos. O problema é que nós somos seres necessariamente influenciáveis, e imitamos inconscientemente o comportamento alheio para decidir o que fazer. Somos programados para isso, pois é mais rápido e econômico do que pensar a todo momento em cada decisão individual. Na sociedade atual a televisão potencializa esse efeito, e nela nos espelhamos – em maior ou menor grau, queiramos ou não – para pautar nosso comportamento.
Proponho duas soluções: em primeiro, tendo conhecimento disso, ficarmos mais atentos àquilo que nos influencia. E em segundo, nos inspirarmos em Groucho Marx, que dizia achar a TV muito educativa, já que sempre que alguém ligava o aparelho ia para biblioteca ler um livro.
Bandura, A., Ross, D., & Ross, S. (1963). Imitation of film-mediated aggressive models. The Journal of Abnormal and Social Psychology, 66 (1), 3-11 DOI: 10.1037/h0048687
[tweetmeme]
Minha esposa não gosta muito que eu assista ao seriado House. Acho que ela teme que eu me inspire nele.
Para os que não sabem, o Dr. Gregory House é um médico muito, muito inteligente, capaz de fazer os diagnósticos mais difíceis e curar os doentes mais improváveis, mas que no meio do caminho desdenha de maneira deliberada dos sentimentos de seus pacientes, atropela qualquer coisa que se assemelhe à ética e personifica a misantropia.
O ator Hugh Laurie levou o Globo de Ouro de melhor ator duas vezes, além de receber mais de vinte indicações a outros prêmios por interpretar com perfeição o personagem, que de tão carismático leva praticamente sozinho o seriado. O que o torna tão envolvente é que suas características humanas – que todos temos – são levadas a extremos: enquanto nós às vezes achamos nossos colegas menos capazes, ele sempre os humilha exibindo sua superioridade. Se nós deixamos de lado algumas regras por achar que elas mais atrapalham do que ajudam, ele as despreza todos os dias – e mais do que criar as suas próprias, age como se não existisse nenhuma lei entre ele e seus objetivos. E se todos agimos de vez em quando baseados mais nos nossos interesses do que no bem coletivo, House simplesmente não sabe o que significa essa última expressão. A ambiguidade do personagem se dá porque, embora sua motivação seja altamente egoísta, o fim acaba sendo sempre ajudar o próximo. Ainda que por vaidade, o que ele quer é salvar vidas. Ele é a quintessência do anti-herói pós-moderno: não só faz coisas boas apesar de suas falhas, ele as faz por causa de seus defeitos.
O que você prefere, um médico que te trate bem ou que salve sua vida?, ele parece perguntar a cada episódio. A resposta não é simples: primeiro porque mais cedo ou mais tarde a morte sempre vence, e o que se quer nessa hora é simplesmente ser bem tratado (mas nós nunca queremos que essa hora chegue; e se ser mal tratado for o preço para adiá-la?). Além disso, o conceito “salvar a vida” é muito restrito quando os episódios duram menos que uma hora: nos casos de emergências muitas vezes resolve-se a queixa aguda e o paciente tem alta apenas para morrer um mês depois (o que não aparece na série). Esses trinta dias a mais de vida valeram os maus-tratos do médico? É isso a questão é pertinente: a ausência de uma resposta fácil.
Por isso que acho ingênuo o ponto de vista do recente artigo que analisa a ética dos seriados (I). Após avaliar o conteúdo de 46 episódios de séries médicas (House e Grey´s anatomy), foram detectadas 179 questões éticas, desde o consentimento do informado para transplante de órgãos até a sonegação de informações para o paciente. (Em Grey´s anatomy o principal problema encontrado foi o grande número de relacionamentos sexuais entre os profissionais de saúde em contexto inadequado – 58 casos – além de 27 relações entre um profissional e um paciente).
Para mim, dizer que o Dr. House é antiético é como dizer que o Homer Simpson é burro: simplesmente aponta a característica que melhor define o personagem e que o torna tão humano e fascinante.
(I) Czarny, M., Faden, R., & Sugarman, J. (2010). Bioethics and professionalism in popular television medical dramas Journal of Medical Ethics, 36 (4), 203-206 DOI: 10.1136/jme.2009.033621
2012
2011
2010