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Daniel Martins de Barros

“Tomei um porre de uísque e Rivotril”, disse o cantor Luciano em entrevista gravada no programa do Jô Soares. Para quem não sabe do que estamos falando, trata-se de um episódio recente na história dos dois filhos de Francisco, no qual Zezé di Camargo subiu ao palco sozinho, dizendo ter havido um desentendimento com o irmão no camarim e que por isso faria o show sozinho. Minutos depois Luciano apareceu, disse que cantaria até o final do ano e depois Zezé seguiria carreira solo. “Quando subi no palco, ainda no ímpeto da discussão, falei que ia parar e Zezé seguiria sozinho. Eu tava certo de que queria fazer isso”, confessou Luciano. Agora ambos declaram que a dupla não terminará e aparentemente está tudo bem.

Pelo visto, Luciano estava na fase do leão.

Reza uma lenda judaica que Noé estava plantando uma vinha quando satã se aproximou, curioso sobre aquelas uvas. “Delas sairá uma bebida que alegrará o coração dos homens”, disse Noé. O diabo ofereceu-se para ser sócio naquela empreitada, e tendo sido aceito, sacrificou ali um cordeiro, um macaco, um leão e um porco, espalhando o sangue deles sobre a plantação. Assim fazendo, fez com que as pessoas passassem a consumir o sangue desses animais quando bebiam o vinho, com consequências claras: inicialmente são tranquilas como o cordeiro, mas conforme bebem mais, tornam-se desinibidas e falantes, gracejando como um macaco; depois vão ficando confusas e perdem o medo, ganhando coragem como um leão; e por fim perdem o controle de si mesmas, rolando em sua própria sujeira como um porco. Tudo isso teria acontecido com o pobre Noé.

Embora sejam calmantes, e portanto sirvam para acalmar, os benzodiazepínicos podem levar a reações chamadas paradoxais, quando, em vez de fazer o sujeito se tranquilizar torna-o irritado, agitado, ansioso e por vezes agressivo. Estima-se que tal efeito seja raro, provavelmente menor do que 1%, mas isso pode não ser pouco se pensarmos que esses remédios estão entre os mais consumidos do mundo (o Rivotril sozinho é o segundo remédio mais vendido do Brasil). Não se sabe exatamente por que tal agitação ocorre, mas as principais hipóteses são de que, ao inibir a atividade cerebral de forma global, esses medicamentos inibem também as regiões responsáveis pelo autocontrole; além disso, a menor capacidade de atenção e percepção dos sinais sociais tornaria as pessoas mais propensas a reações exageradas em momentos de discussão ou hostilidade. O consumo concomitante de álcool é um fator de risco para essas reações paradoxais, e elas geralmente ocorrem em reposta a provocações e são percebidas pelos outros, mas não pela própria pessoa.

Então, fica a dica: se beber, não tome Rivotril. O codeiro pode virar leão e acabar a noite como porco, mais rápido do que se imagina.

ResearchBlogging.org
Paton, C. (2002). Benzodiazepines and disinhibition: a review Psychiatric Bulletin, 26 (12), 460-462 DOI: 10.1192/pb.26.12.460

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Eu não recebo dinheiro da indústria farmacêutica, não sou ligado a nenhum laboratório e sou também dos que acham que existe uma pressão para a venda de medicamentos em geral, e medicamentos psiquiátricos em particular, aproveitando-se da intolerância das pessoas ao sofrimento. Quando eu ainda era aluno ouvi o ilustre professor György Böhm chamar esse fenômeno de “sociedade do analgésico”, já que, para ele, desde que se tornara fácil aliviar as dores as pessoas vinham se tornando progressivamente mais incapazes de lidar com o sofrimento.

Apesar de tudo isso não acho que os números de aumento de venda dos calmantes, relatados pela Folha, sejam unicamente negativos. A reportagem mostrava que o clonazepam teve um incremento de 36% nas vendas entre 2006 e 2010, sendo hoje o Rivotril o segundo remédio mais vendido no país. A partir daí a matéria destacava que há exagero na prescrição desse remédio (e de calmantes em geral), que é um problema o médico não psiquiatra prescrevê-los, e que as pessoas estão abusando do seu uso.

Sim, há indicações erradas e abusos. Frequentemente recebo no consultório pacientes que tomam calmantes sem precisar. Mas há que se lembrar que a prevalência de transtornos mentais é muito alta, e que a melhora das condições econômicas e o progressivo desenvolvimento do país inevitavelmente aumentam o acesso da população a atendimento médico para tratar de problemas até então ignorados.

Num dos maiores e mais bem feitos levantamentos epidemiológicos do país, os pesquisadores do Instituto de Psiquiatria do HC (USP), aplicaram instrumentos padronizados e rigorosos para o diagnóstico de transtornos mentais de acordo com a Classificação Internacional de Doenças em quase 1500 pessoas na cidade de São Paulo. Descobriram que perto de metade (45,9%) delas apresentava pelos menos um diagnóstico psiquiátrico no último ano (aí incluindo tabagismo, o que elevou os números). Para transtornos de ansiedade, indicação bem comum de calmantes, 12,5% dos entrevistados preenchiam critérios. Se os números forem minimamente representativos de taxas nacionais, estamos falando de quase 24 milhões de brasileiros com ansiedade patológica (e não meramente ansiosos), que poderiam se beneficiar do uso de calmantes. E com tanta gente precisando, já é mais do que sabido no mundo inteiro (inclusive aqui), que o tratamento não pode ser exclusividade dos psiquiatras, por absoluta incapacidade de os especialistas darem conta de tal demanda.

Conclusão: com certeza há muita gente que abusa de calmante ou toma o famoso Rivotril sem precisar. Mas o aumento das vendas não deve ser só por prescrições indevidas, refletindo também o maior acesso ao remédio de pessoas que realmente precisam dele.

ResearchBlogging.org Andrade L, Walters EE, Gentil V, & Laurenti R (2002). Prevalence of ICD-10 mental disorders in a catchment area in the city of São Paulo, Brazil. Social psychiatry and psychiatric epidemiology, 37 (7), 316-25 PMID: 12111023

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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