Sexo, drogas e futebol. Ou música. Dois personagens resgatados nos últimos tempos que tiveram suas vidas marcadas pelo exagero desses elementos estão em cartaz em interpretações que vão marcar a história da dramaturgia nacional. Sem exagero.
Em ordem cronológica, comecemos com Heleno de Freitas, jogador de futebol que foi um dos primeiros popstars dos gramados. Formado em Direito, vindo de família abastada, Heleno tinha a empáfia de quem sabe que é melhor do que os outros e uma arrogância que o impedia de disfarçar que sabia disso. Viciado em lança perfume e mulherengo, briguento e estourado, contraiu sífilis jovem e morreu aos 39 anos, quando a doença, atingindo seu cérebro, deixou-o – literalmente – louco. O filme Heleno, do diretor José Henrique Fonseca, traz Rodrigo Santoro no papel título do jogador, numa interpretação cuja força pode ser atestada na balança: para retratar a fase final de Heleno, internado num asilo em Barbacena, Santoro emagreceu doze quilos. Levando em conta que ele já estava em forma para interpretar um atleta de ponta, tem-se a dimensão da entrega ao personagem. É o tipo de sacrifício que o faria por as mãos no Oscar, fosse nos Estados Unidos. Ao fugir da caricatura e optar por mostrar o personagem como um todo, Santoro mergulhou no papel – estudou durante cinco anos para o filme – e voltou à tona com uma das melhores, se não a melhor interpretação de sua carreira.
Entrega semelhante pode ser vista na interpretação teatral que Tiago Abravanel faz de Tim Maia. Após ser aprovado para o papel do músico tijucano, Abravanel fez um laboratório intensivo de seis semanas, não só estudando a biografia de Tim, na qual o espetáculo se baseia, mas assistindo 20 horas de gravações do cantor. Seria injusto dizer que se trata de uma boa imitação. Muito mais do que isso, ele representa a vida de Tim Maia da juventude até a morte – com 55 anos – mudando não só o tamanho da barriga, mas a própria forma de cantar: é notável perceber como a voz límpida do início da carreira vai dando lugar à rouquidão com a decadência física do cantor. Como os grandes ícones da música mundial, a vida de Tim Maia foi vivida numa intensidade incompatível com a longevidade, com romances violentos e, sobretudo, excesso de drogas. Desde que foi introduzido ao mundo dos psicotrópicos não parou mais, experimentando muito de tudo, de maconha a LSD, de álcool a cocaína, por vezes tudo ao mesmo tempo. Os prejuízos não foram só na saúde, mas a carreira e a vida pessoal seguiram o mesmo rumo, história que a peça pontua com canções interpretadas com maestria por Tiago Abravanel em quase três horas de espetáculo.
Popstars morrem mais cedo mesmo. Não é mito: a vida extremada, o contínuo estresse pela performance, a disponibilidade de álcool e drogas, tudo isso faz com que os famosos, pelo menos do mundo da música, morram 70% a mais do que a população geral nos anos seguintes ao sucesso. Só após vinte e cinco anos do início da fama os índices de mortalidade voltam ao normal. Significativo é perceber que o risco era maior para os que estouraram antes de 1980 – do final do século para cá parece que as pessoas estão menos tresloucadas.
Alguns podem achar que é a caretice da nossa época, preocupada demais com a saúde e com o politicamente correto, e que só essa loucura produz verdadeiros talentos. Mas talvez seja o contrário. Heleno de Freitas teve que implorar para conseguir jogar uma só partida no Maracanã – que era seu sonho – por causa de sua decadência física, e Tim Maia viu seus shows rarearem e os discos encalharem depois que sua carreira desandou. Pode ser caretice, mas fico com a impressão que essa loucura toda mais atrapalhou do que ajudou, impedindo-os de brilhar ainda mais.
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Bellis, M., Hennell, T., Lushey, C., Hughes, K., Tocque, K., & Ashton, J. (2007). Elvis to Eminem: quantifying the price of fame through early mortality of European and North American rock and pop stars Journal of Epidemiology & Community Health, 61 (10), 896-901 DOI: 10.1136/jech.2007.059915
Se você tem estômago fraco, não leia esse post. Eu bem que não queria escrever sobre canibalismo, mas não tenho como fugir.
Para quem ainda não teve o desgosto de ouvir a narrativa do crime bizarro, trata-se de um homem, Jorge Negromonte da Silveira, que fundou uma seita chamada “Cartel” e vive com a esposa Isabel Cristina Torreão Pires da Silveira e a amante de Bruna Cristina Oliveira da Silva, com quem se envolveu quando ela tinha 16 anos, situação aceita pela esposa. Esse trio foi preso por homicídio de várias mulheres (as mortes podem chegar a oito, suspeita-se), cujos corpos foram consumidos como refeições rituais. Segundo Jorge existem duas entidades que falam com ele desde jovem, às quais ele chama de arcanjo e querubim, escolhem quem serão as vítimas, mortas em missões para eliminar mulheres do mal que estariam superpovoando a Terra, e o canibalismo completava o ritual de purificação. A carne estocada, além de consumida durante alguns dias, acabou sendo usada para rechear os salgados que Isabel vendia na cidade. Com eles morava ainda uma menor de idade, provavelmente filha de uma das vítimas, que também era inserida nas práticas canibais. Se não bastasse, há ainda um vídeo de Isabel contando alguns detalhes dos crimes, e um filme caseiro, chamdo Espírito, teria sido encontrado, no qual haveria cenas de homicídios e canibalismo.
Enauseante a história. Faço aqui uma pausa, para o leitor retomar o fôlego. O pior do relato já foi. Só faltou dizer que Jorge diz ser esquizofrênico, mas parou de tomar os remédios quando jovem e não acha que é louco, embora os outros digam o contrário. Ele mesmo registrou em cartório um livro com título “Revelações de um esquizofrênico”, no qual detalha sua seita e sua missão.
Mas seriam essas pessoas todas doentes mentais? Quais são as chances de três pessoas com o mesmo transtorno terem o mesmo tipo de delírio, a ponto de se reunirem nessa quadrilha macabra? Posso estar errado, mas avaliando a situação aqui de longe me parece ser um caso de transtorno psicótico induzido. Já conversamos sobre esse diagnóstico antes, quando um artigo nosso no British Journal of Psychiatry mostrou que a doença havia sido descrita num conto de Machado de Assis antes de sua descoberta (leia). Trata-se de um problema que se caracteriza pelo aparecimento de sintomas psicóticos coincidentes nos membros da família vivendo isolados e em estreita associação, pela transmissão de delírios de uma pessoa doente para uma ou mais pessoas saudáveis. Tenho a impressão que Jorge, que parece ser a pessoa mais articulada, desenvolveu essas crenças delirantes e as transmitiu para as suas mulheres.
Se for esse mesmo o caso, a situação jurídica do trio pode dar muito pano para manga. Mais de uma vez já se alegou transtorno psicótico induzido nos tribunais americanos, mas tem sido raro os sujeitos serem considerados inocentes por conta dele. Isso acontece porque é difícil delimitar, sobretudo em casos de seitas, onde termina uma crença mística e onde começa o delírio – ou seja, não é simples dizer que o sujeito deixou de ser apenas um fiel seguidor para se tornar um doente inimputável.
Sempre vale a pena ressaltar que a maioria esmagadora dos esquizofrênicos não comete crimes e lembrar que pacientes psiquiátricos são muito mais vítimas do que perpetradores de violência. Aliás, nem tenho certeza absoluta de que essas pessoas sejam doentes. Mas dessa vez acho que eu até prefiro acreditar que sim.
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Newman WJ, & Harbit MA (2010). Folie a deux and the courts. The journal of the American Academy of Psychiatry and the Law, 38 (3), 369-75 PMID: 20852223
Aborto é um tema difícil por si só, pois envolve questões como crenças religiosas, ideologias e tabus sociais. Agora vemos surgir no horizonte uma nova variável que, se entrar nesse caldeirão, nos colocará a caminho do caos. A comissão do Senado para a reforma do Código Penal propõe que o aborto não seja considerado crime se for feito “por vontade da gestante até a 12ª semana da gestação, quando o médico constatar que a mulher não apresenta condições psicológicas de arcar com a maternidade” (Íntegra da proposta). Fora o erro óbvio de atribuir avaliação psicológica a médicos, é a própria essência da proposta que está equivocada.
Quando penso no espírito da lei, creio que ela não está falando sobre pessoas com transtornos mentais graves. A redação “condições psicológicas de arcar com a maternidade” aponta, a meu ver, para outra direção. Mesmo porque a existência de doenças psiquiátricas não retira, por si só, a capacidade de alguém ser mãe. O principal fator que prejudica a relação entre mãe e filho nas mulheres com transtornos mentais é a falta de insight, a baixa capacidade de perceber sua condição de doente, o que não se atrela automaticamente a um ou outro diagnóstico. Parece difícil que doenças tão graves que prejudiquem o insight, a ponto de incapacitar para a maternidade, não incapacitem também para tomar a decisão autônoma de fazer um aborto. A lei ficaria então incoerente ao se referir à “vontade da gestante”.
Mas se, como imagino, o que a lei pretende é levar em conta a opinião das mulheres que dizem não se sentir psicologicamente aptas para ter e criar um filho, o erro é achar que médicos seriam capazes de atestar se tal alegação é verdadeira. Não são. Nem médicos, nem psicólogos, nem qualquer categoria de profissionais tem treinamento técnico-científico suficiente para responder a essa pergunta de modo objetivo. Sendo a maternidade é uma condição essencialmente subjetiva, como verificar se existem condições de “arcar” com ela? Repito: não é possível. Mesmo os testes psicológicos, que pretendem objetivar um pouco o exame do psiquismo humano, são também sujeitos a interpretações; além disso não foram desenvolvidos para esse fim específico e portanto não existem evidências de que tenham correlação com os comportamentos maternais reais.
Penso em duas soluções possíveis para impedir que a confusão se arme. Das duas uma: ou bem a pergunta sobre “condições psicológicas” não deve ser feita ou bem só quem pode respondê-la é a própria mulher. Tenho o palpite de que a posição de cada um em relação à descriminalização do aborto determinará qual a opção preferida. Qual sua escolha?
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Mullick M, Miller LJ, & Jacobsen T (2001). Insight into mental illness and child maltreatment risk among mothers with major psychiatric disorders. Psychiatric services (Washington, D.C.), 52 (4), 488-92 PMID: 11274495
Não sei se você já percebeu como os animais facilitam a conversa. Quando existe um cachorro presente raramente falta assunto para as pessoas, e as relações humanas parecem facilitadas. Se em vez de um cão forem duzentos animais selvagens, vários deles ameaçados de extinção, além de uma boa conversa isso pode render um bom filme.
Compramos um zoológico, filme do diretor Cameron Crowe com Matt Damon e Scarlett Johansson, retrata essa situação. É a história real do escritor americano Benjamin Mee que decidiu, junto com a mulher, dois filhos, o irmão e a mãe comprar um zoológico falido, mudando-se com a família para lá. Durante o processo, logo antes da inauguração, a esposa faleceu de um tumor cerebral, mas o projeto foi em frente, não apenas ressuscitando o zoo mas dando origem a um livro e posteriormente ao filme homônimo. No filme a história foi ligeiramente modificada, mas a “essência foi preservada”, de acordo com o próprio autor.
Matt Damon está mais velho e com cara de paizão (às vezes lembra o Philip Seymour Hoffman), e Scarlett Johansson está “tão feia quanto é possível”, como disse o crítico Luiz Carlos Merten. Melhor, porque assim presta-se menos atenção neles e mais nos personagens – pessoas comuns tendo que dar um jeito de lidar com crises universais: sobrecarga de trabalho, orçamento curto, frustrações familiares. É onde entram os bichos.
Embora o efeito terapêutico do contato com animais seja algo intuitivo, é uma área só recentemente estudada de forma científica. Os benefícios, no entanto, já vêm sendo estabelecidos, e não apenas para o convívio animais domésticos, mas também com animais de grande porte, sobretudo quando isso implica a aquisição de novas habilidades. Quatro mecanismos principais formam a base teórica para a eficácia dessas intervenções: 1) os animais atuam como mediadores sociais, facilitando a comunicação entre as pessoas; 2) aumentam a auto-confiança e eficácia, já que lidar com eles leva a necessidade de realizar tarefas específicas; 3) tornam-se objetos de afeto, ajudando a preencher a necessidade de ligação que todos têm; 4) promovem alterações fisiológicas, tendo sido demonstrado desde redução da pressão arterial até aumento de neurotransmissores.
Fora o item 4, todos os outros são explícitos em Compramos um zoológico. Com destaque para o papel dos animais na interação humana, na bela cena em que pai e filho, que passam o filme todo sem conseguir falar um com o outro, conseguem fazê-lo indiretamente, diante de um tigre à beira da morte.
Talvez não seja uma obra que entre para a história do cinema. Mas vale a visita por ser um filme que lida honestamente com o luto, a resiliência e as dificuldades e alegrias de ser gente, ambas amplificadas pelo monte de bichos em volta.
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Bente Berget, & Bjarne Olai Braastad (2008). Theoretical Framework for Animal-Assisted Interventions – Implications for Practice therapeutic communities international journal of therapeutic communities, 29 (3), 323-337
Polêmica: é certo permitir a internação compulsória dos usuários de crack? Ok, é um assunto polêmico. Mas já falei dele antes (aqui), e acho que há outro debate importante nessa questão para a qual não se deu até agora a devida importância: afinal, o crack é ou não uma epidemia?
Enquanto Paulina Duarte, a secretária nacional de Políticas Sobre Drogas, diz que falar isso é “bobagem” que alimenta a “pedagogia do terror”, o ministro da Saúde Alexandre Padilha afirmou que “No conceito técnico, estamos diante de uma epidemia de crack”. Até onde vi a mídia só repercutiu a história no nível do bate-boca político, mas há uma segunda camada de leitura muito mais profunda e com impactos sérios na forma como abordaremos o problema do crack, pois as palavras que usarmos podem ditar os rumos que tomaremos.
Para quem acha exagero, vale a pena citar um trabalho que esse ano mostrou o impacto das metáforas na definição de políticas públicas. Dois cientistas da Universidade de Stanford pediram a 485 estudantes que propusessem soluções para os crimes numa determinada cidade. O cenário era descrito num breve parágrafo, mas para metade deles comparava-se a criminalidade a um vírus que se disseminava, e para os outros, a uma fera predadora à solta. Analisando as respostas notou-se diferença significativa entre os dois grupos: os que leram o texto pensando em vírus sugeriram mais ações preventivas e de identificação das causas do crime, enquanto os que pensaram no predador apresentaram mais propostas repressivas e de encarceramento dos criminosos. Mas praticamente nenhum dos voluntários (3%) notou a influência da metáfora nas suas sugestões: independente da solução proposta, quase todos disseram que foram as estatísticas apresentadas (as mesmas nos dois grupos) que os levaram àquelas ideias.
Portanto acho capcioso falar em epidemia de crack. Quando se diz isso pode-se apenas estar querendo dizer que houve um grande aumento do seu uso num determinado período de tempo. Mas a palavra epidemia arrasta nosso pensamento para a ideia de contágio e de um agente causal (bactéria, vírus). E sem perceber acabamos por acreditar que este é um problema que a Medicina irá resolver.
Ocorre que a questão, sobretudo nos moldes que o uso dessa droga tomou no país, vai muito além de uma temática exclusivamente médica. Sua complexidade é tal que não pode ser reduzida aos seus aspectos psiquiátricos, sendo primordial levar em conta as interfaces sociais, policiais, educacionais, familiares, urbanísticas, éticas. Até onde percebo nenhuma dessas esferas é incluída na metáfora da epidemia, mas se elas não forem consideradas, não estaremos nem perto de lidar seriamente com ela.
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Thibodeau, P., & Boroditsky, L. (2011). Metaphors We Think With: The Role of Metaphor in Reasoning PLoS ONE, 6 (2) DOI: 10.1371/journal.pone.0016782
O Brasil já passou pelo que a Europa está passando. Não, não vou falar sobre a crise econômica, mas do assassino Anders Behring Breivik, aquele que matou mais de 70 pessoas em julho, na Noruega, agora declarado insano.
Embora no calor da hora a justiça tenha declarado que ele não deveria ser considerado doente mental, já que havia planejado tudo tão minuciosamente durante tanto tempo (anos, ao que consta), havia também no ar o sentimento de que só mesmo um maluco para cometer tal atrocidade. Essa dicotomia persiste agora, quatro meses depois, quando o relatório de mais de duzentas páginas dos psiquiatras que o avaliaram concluiu que ele não é responsável pelos atos por sofrer de psicose, vivendo num mundo à parte em meio a seus delírios: 48% da população norueguesa (numa pesquisa com mil cidadãos) não concorda, considerando que ele deveria ser considerado criminoso comum. Mais: o próprio assassino discorda do relatório, tendo se sentido insultado pelo diagnóstico.
Como disse, nós já estivemos lá. No final do século XIX um sujeito chamado Custódio Alves Serrão assassinou o tutor de seus irmãos, o comendador Belarmino Brasiliense Pessoa de Melo. Seus irmãos sofriam de transtornos mentais e Custódio acreditava que o comendador tinha planos de interná-lo também num manicômio; atirou nele após uma discussão e se entregou ao primeiro policial que encontrou. No dia seguinte foi levado para o Hospício Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro, contra a vontade do então diretor, João Carlos Teixeira Brandão, que não o queria acolher por se tratar de um louco criminoso. Nas primeiras avaliações a que foi submetido Custódio foi considerado “degenerado”, mas não doente, o que o faria responsável por seus atos. No entanto a sociedade estava dividida, pois aparentemente aquele homem era uma ameaça em razão de seu estado mental, e a conclusão do laudo foi revista, passando-se a considerá-lo insano. Assim como o norueguês Breivik, contudo, Custódio não queria ser internado, mas julgado e preso como mentalmente são, pois alegava estar consciente de seus atos; por essa razão fugiu do hospício, gerando verdadeira comoção social.
Embora os crimes sejam diferentes, o paralelo se justifica por se tratar de atos cometidos por pessoas cuja sanidade é posta em xeque, já que motivadas por crenças exóticas. Como nem sempre é simples identificar se tais pensamentos configuram de fato delírios, quebrando com a realidade, é comum haver discordância sobre a responsabilidade dos sujeitos. Do fato não se acreditarem insanos não se pode concluir que de fato não sejam, já que, por definição, autocrítica não é o ponto forte dos psicóticos delirantes.
Quanto à divisão da sociedade, quer seja no Rio do século XIX ou na Escandinávia do século XXI a reação das pessoas sempre será ambígua, pois ao mesmo tempo em que tememos que transtornos mentais sejam usados como desculpa, por outro lado preferimos que esses criminosos sejam doentes, suspirando aliviados porque, sendo insanos, tais assassinos não são como “um de nós”, como disse uma senhora norueguesa ao ser entrevistada. Ao ler a notícia sobre o laudo de Breivik imagino que ela tenha dormido mais tranquila.
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Maciel, L. (1999). Um lugar para aprisionar a loucura criminosa História, Ciências, Saúde-Manguinhos, 6 (2), 445-452 DOI: 10.1590/S0104-59701999000300013
Duas notícias do último final de semana, aparentemente não relacionadas, se tocam num ponto curioso, e têm importância para a psiquiatria: caiu um satélite da Nasa e caíram as touradas em Barcelona. Vamos por partes.
Os satélites geoestacionários são aqueles que orbitam a Terra na mesma velocidade de rotação do planeta, na região do Equador, ficando dessa maneira sempre sobre o mesmo ponto em relação a nós. A altitude em que eles devem permanecer, pouco mais de 30.000 km de altura, foi pela primeira vez proposta pelo escritor Arthur C. Clarke (aquele de 2001, uma odisseia no espaço) num artigo publicado em 1954 em que ele sugeria que esses satélites artificiais poderiam ser usados para telecomunicações. Por isso até hoje a órbita geoestacionária é também chamada de Órbita Clarke, em sua homenagem.
É esse autor que faz a conexão entre as duas notícias, porque também previu, no livro O fim da infância (publicado um ano antes, em 1953) uma forma de acabarem as touradas. O livro conta a história de naves que chegam à Terra mas, durante décadas, seus pilotos alienígenas não dão as caras. Ainda assim eles resolvem todos os problemas do planeta, da fome à guerra, passando pelo respeito aos animais. Particularmente na questão das touradas eles dão um ultimato, avisando que elas deveriam ser interrompidas imediatamente ou haveria consequências. Os humanos insistem, e no dia do próximo espetáculo, quando o toureiro espeta a primeira espada no lombo do touro, houve-se um horrendo grito de dor coletivo, pois todos os espectadores sentem a dor da estocada ao mesmo tempo. Foi a última.
E aí chegamos à psiquiatria.
O que Clarke descreveu foi uma maneira que os aliens usaram para que as pessoas sentissem a mesma coisa que os touros sentiam. Isso se chama empatia. Essa capacidade de se colocar no lugar do outro, sentindo o que ele sente, é um dos fatores constituintes do caráter. E as teorias atuais sobre a personalidade humana postulam que esta é resultado da interação entre nossos traços de temperamento e o nosso caráter. Não significa, no entanto, que quem é a favor das touradas tem baixa empatia e por isso é mau caráter. Empatia por gente é diferente de empatia por bichos.
Num estudo do começo da década uma pesquisadora avaliou os graus de empatia por humanos e animais em 514 pessoas, por meio de questionários padronizados, e notou que embora houvesse uma certa relação estatística entre eles (quanto maior a empatia por um, maior por outro), tal correlação era pequena. Ou seja, é possível se compadecer do próximo e não se importar com os bichos. O fator que mais aumentava a empatia por animais, não surpreende, era ter (ou já ter tido) algum bicho de estimação (enquanto ter crianças em casa aumentava a empatia por humanos).
Quando vivenciamos algumas coisas, quando sentimos na pele ou convivemos intimamente com determinadas situações, nossa visão de mundo se modifica. O círculo dos que são abarcados por nossa empatia se amplia, de alguma forma moldando nosso caráter. Exemplos como o de Barcelona, onde a população trouxe para a esfera da sua empatia o sofrimento animal, mostram que o também o caráter coletivo e a personalidade de um povo inteiro podem se modificar com o tempo.
Paul, E. (2000). Empathy with Animals and with Humans: Are they Linked? Anthrozoos: A Multidisciplinary Journal of The Interactions of People & Animals, 13 (4), 194-202 DOI: 10.2752/089279300786999699
Todo mundo gosta de saber a origem dos ditos populares. Eu tenho a grata satisfação de – até onde sei – ter descoberto uma, a de “Queimar a língua” (aquela em que, quando alguém fala algo que não se confirma ou uma mentira posteriormente descoberta, dizemos que ele “queimou a língua”).
Até recentemente, quando havia duas testemunhas contando histórias conflitantes os beduínos árabes pediam que elas dessem suas versões e em seguida lambessem um ferro quente. Como a ansiedade faz a boca secar, com medo de ser descoberta a testemunha mentirosa produzia pouca saliva e acabava queimando a língua, revelando que sua história era a falsa. Embora tenha pesquisado bastante, até hoje não encontrei outra explicação para a origem da expressão “queimar a língua”, e por isso acredito que venha daí.
Esse estudo de como os estados emocionais alteram o funcionamento do corpo e vice-versa, numa via de mão dupla com tráfego intenso e constante, é chamado de psicofisiologia, e traz resultados práticos interessantes, não só para os beduínos de antigamente, mas também para os fóbicos sociais de hoje em dia.
Dois psiquiatras do Rio de Janeiro publicaram esse ano um relato de caso em que usam a toxina botulínica (os famosos Botox ou Dysport) no tratamento de um paciente com fobia social. Pessoas com tal transtorno sofrem de uma ansiedade patológica diante de situações de interação social. Dentre os sintomas, um dos que mais incomoda é a sudorese excessiva, pois visivelmente suados os pacientes pensam que todos estão percebendo (e muitas vezes estão), ficando mais ansiosos, suando mais ainda, numa espiral crescente de mal estar. A toxina botulínica reduz a atividade das glândulas sudoríparas, e foi assim capaz de quebrar esse círculo vicioso, auxiliando na aplicação da terapia cognitivo-comportamental. Embora a mente continuasse a influenciar o corpo, a influência desse sobre a mente foi freada à força, ajudando na remissão dos sintomas.
Mente e cérebro, corpo e alma, rugas e ansiedade. Posso afirmar que logo abandonaremos a distinção entre nossos lados “de dentro” e “de fora”. Espero não queimar minha língua.
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Kleinmuntz, B., & Szucko, J. (1984). Lie detection in ancient and modern times: A call for contemporary scientific study. American Psychologist, 39 (7), 766-776 DOI: 10.1037/0003-066X.39.7.766
Larissa da Rocha Lessa, & Leonardo F. Fontenelle (2011). Toxina botulínica como tratamento para fobia social generalizada com hiperidrose Revista de Psiquiatria Clínica, 38 (2) pp 84-86
Já viu um professor de química do colegial, à beira da morte, que quase nunca acerta, desbancar um dos médicos mais famosos do mundo, que quase nunca erra? Pois é o que vem acontecendo nos últimos anos: o ator Bryan Cranston, interpretando o professor Walter White, faturou o prêmio de melhor ator em série dramática nos últimos três anos, batendo Hugh Laurie com seu Dr. House. Sim, estou falando de Breaking Bad, o seriado que conta a história do professor White, que descobre ter câncer inoperável no pulmão e teme deixar o filho deficiente físico e a esposa grávida desamparados. Coincidentemente, ele descobre que um ex-aluno trafica metaanfetaminas, e propõe-se a fabricar a droga para garantir o futuro da família.
A força do drama vem do fato de ele ser um homem bom, pacífico, verdadeiramente honesto mas que de repente se vê fazendo mais e mais coisas ruins em nome de um fim bom. É uma versão dramatizada do famoso dilema de Heinz: um homem tem a esposa com uma doença fatal, mas só tem metade do dinheiro para comprar a única droga que pode salvá-la; o farmacêutico, que inventou tal droga, cobra 10 vezes o custo mas recusa-se a vendê-la mais barato. Deve o homem roubar o dinheiro? Por que? Embora haja só duas opções possíveis (roubar ou não), são as justificativas que interessam. E essas, há aos montes.
O professor White metaforicamente opta por “roubar o remédio”, decidindo quebrar leis em nome de um bem maior em que acredita. Poderíamos chamar essa opção de utilitarista. Para tal escola de pensamento moral (Utilitarismo), a ação correta é aquela que tem mais utilidade, medida pela geração de maior felicidade para o maior número de pessoas. O professor White tenta então se convencer que fabricar drogas para garantir o bem da sua família (lembrando que o filho é deficiente e que a esposa está grávida) faz mais bem do que mal no cômputo geral. Mas ele mesmo tem dificuldade em acreditar nisso.
Assistir a primeira temporada me fez lembrar de um estudo recente, que procurou relacionar os tipos de raciocínio moral com a personalidade das pessoas. Duzentas e oito pessoas responderam a 14 dilemas morais, semelhantes ao dilema de Heinz, e tiveram suas respostas correlacionadas com seus traços mais característicos. Eis que descobriu-se que, quanto mais próximo da psicopatia, mais utilitária era a pessoa. O que faz sentido, pois quanto mais indiferente se é aos outros, mais fácil de se ter frieza para raciocinar em termos de custos e benefícios, ignorando normas ou leis.
É por isso que os prêmios que Breaking Bad e seu protagonista vêm colecionando são mais do que justos: o ator consegue interpretar um mocinho que se torna vilão, cheio de remorso mas sem mudança de atitude. Seu conflito é tão intenso que me levou a acreditar que ser utilitarista é para quem pode, não para quem quer.
Bartels, D., & Pizarro, D. (2011). The mismeasure of morals: Antisocial personality traits predict utilitarian responses to moral dilemmas Cognition, 121 (1), 154-161 DOI: 10.1016/j.cognition.2011.05.010
A prefeitura de São Paulo está disposta a retirar os usuários de crack das ruas, mesmo que seja à força, alegando, para tanto, que a dependência química é uma doença psiquiátrica, podendo justificar a internação involuntária desses indivíduos.
Embora sempre sujeitas a questionamentos por serem uma forma extra-judicial de restringir a liberdade de alguém, as internações involuntárias são uma das opções terapêuticas disponíveis em Psiquiatria, ainda que sejam medida de exceção. Os Estados de direito reconhecem a necessidade de legislar sobre a internação de pessoas que, em virtude de terem seu autocontrole ou sua capacidade racional prejudicadas por uma doença psiquiátrica reconhecida, coloquem em risco suas vidas ou a vida de terceiros. O que traz legitimidade a uma internação involuntária é a perda da autonomia do indivíduo, decorrente de uma condição médica que o impede de compreender e entender o caráter patológico de seu estado e, por isso, não consente com o tratamento. Quadros psicóticos graves que apresentem delírios ou depressão com risco de suicídio ilustram bem essa condição. Mas há quadros que, mesmo não apresentando quebra total com a realidade, não raras vezes colocam sujeitos em perigo e prejudicam a capacidade de consentimento dos pacientes; é o caso da anorexia com risco de morte ou de dependências químicas graves.
No Brasil, a Lei Federal 10.216/2001 se dispõe a proteger os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais. Com relação às internações psiquiátricas, no artigo 6º, parágrafo único define internação involuntária: aquela que se dá sem o consentimento escrito do usuário e a pedido de terceiro. Assim, embora a autonomia seja um dos pilares da atuação ética na assistência à saúde, há ocasiões em que a capacidade de decidir autonomamente do indivíduo está prejudicada, como pode ser o caso de dependentes químicos em estágios avançados. O grande risco é utilizar essa justificativa médica simplesmente como medida higienista, independente da real necessidade psiquiátrica de internação.
Cabe à sociedade em geral, e aos médicos em particular, a atenção para não deixar que isso ocorra.
Barros, Daniel Martins de, & Serafim, Antonio de Pádua. (2009). Parâmetros legais para a internação involuntária no Brasil Revista de Psiquiatria Clínica, 36 (4), 168-170
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