Daniel Martins de Barros

Seu filho pequeno pode ser um psicopata? Seu sobrinho, irmãozinho? O tema se impõe por conta de uma longa reportagem na revista do jornal The New York Times que repercutiu mundo a fora: “Você pode chamar uma crianças de 9 anos de psicopata?”.

A discussão central é: 1) Se é possível estabelecer esse diagnóstico em crianças pequenas, já que nelas múltiplos sintomas se misturam, dificultando uma classificação precisa; e 2) se existiriam mesmo crianças tão más que chegam a ser incorrigíveis. Para discutir o tema, hoje não recorrerei à literatura técnica, mas aos dois maiores escritores brasileiros de todos os tempos.

Para mostrar a dificuldade diagnóstica, chamo Machado de Assis. Em seu conto “Verba testamentária” ele descreve uma criança com comportamento tão ruim que só consegue atribuir a uma doença: “Sim, leitor amado, vamos entrar em plena patologia. Esse menino que aí vês (…) não é um produto são, não é um organismo perfeito. Ao contrário, desde os mais tenros anos, manifestou por atos reiterados que há nele algum vício interior, alguma falha orgânica. Não se pode explicar de outro modo a obstinação com que ele corre a destruir os brinquedos dos outros meninos (…). Menos ainda se compreende que, nos casos em que o brinquedo é único, ou somente raro, o jovem Nicolau console a vítima com dois ou três pontapés; nunca menos de um.” “A rua em que ele residia, contava um sem-número de caras quebradas, arranhadas, conspurcadas. As coisas chegaram a tal ponto, que o pai resolveu trancá-lo em casa durante uns três ou quatro meses”. “Mas nem admoestações, nem castigos, valiam nada. O impulso interior do Nicolau era mais eficaz do que todos os bastões paternos”. Com o tempo o menino cresceu e seu comportamento passou a revelar sinais de depressão: “A doença apoderara-se definitivamente do organismo. Nicolau ia, a pouco e pouco, recuando na solidão”. Até que a moléstia foi “descoberta; era um verme do baço”. Logo “a secreção do baço tornou-se perene, e o verme reproduziu-se aos milhões”, até que ele morreu: “Quis ele deixar-se morrer? Assim se poderia supor, ao ver a impassibilidade com que rejeitou os remédios dos principais médicos da corte”.

Claro que a depressão não é causada por um verme no baço, mas a questão levantada no conto é que, mesmo com um comportamento tão disfuncional, no fim das contas o pequeno Nicolau talvez não fosse um psicopata mirim, mas sim que apresentasse sinais de depressão, que na criança não são facilmente identificáveis. É por isso que os entrevistados na matéria do New York Times já receberam literalmente dezenas de diagnósticos diferentes.

Mas existem sim crianças muito más. Cruéis. E incorrigíveis. Chamo agora o médico Guimarães Rosa, que descreve em “Grande sertão: veredas” outro menino mau. “Pois essezinho, essezim, desde que algum entendimento alumiou nele, feito mostrou o que é: pedido madrasto, azedo queimador, gostoso de ruim de dentro do fundo das espécies de sua natureza. Em qual que judia, ao devagar, de todo bicho ou criaçãozinha pequena que pega; uma vez, encontrou uma crioula benta-bêbada dormindo, arranjou um caco de garrafa, lanhou em três pontos a popa da perna dela. O que esse menino babeja vendo, é sangrarem galinha ou esfaquear porco. – “Eu gosto de matar…” – uma ocasião ele pequenino me disse. Abriu em mim um susto; porque: passarinho que se debruça – o vôo já está pronto! Pois, o senhor vigie: o pai, Pedro Pindó, modo de corrigir isso, e a mãe, dão nele, de miséria e mastro – botam o menino sem comer, amarram em árvores no terreiro, ele nu nuelo, mesmo em junho frio, lavram o corpinho dele na peia e na taca, depois limpam a ele do sangue, com cuia de salmoura”.

Aqui a conclusão do sertanejo mostra o niilismo que surge diante de crianças muito más; ao dizer que quando o passarinho se debruça o vôo já está pronto, fica patente que, independente das correções – até brutas – dos pais, o menino se encaminhava para a maldade, inexoravelmente.

Os dois escritores no confirmam então que 1) estabelecer diagnósticos em crianças é difícil – pois os comportamentos são muito variáveis – e também temerário – pois pode representar um estigma impossível de se remover, selando seu destino. E que 2) existem mesmo crianças que parecem predestinadas para a maldade, para as quais não há correção ou tratamento possível. No entanto, como as pesquisas mostram que 50% das que têm comportamentos antissociais acabam melhorando com o tempo, vale a pena manter a esperança, pois parece que só metade dos passarinhos que debruçam acabam mesmo decolando.

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Descobri que faz mais de sessenta anos que psicopatia vende bem. No filme clássico “Crepúsculo dos Deuses”, de 1950, há um diálogo entre dois personagens debatendo um roteiro em que estão trabalhando: “Para começar, acho que você deveria jogar fora toda essa coisa psicológica de explorar a mente doentia de um assassino.” ele diz, sendo imediatamente contestado por ela: “Mas psicopatas vendem como pão quente”.

O desprendimento que esses sujeitos aparentam, vivendo de acordo com seus impulsos sem se importar com a rede social de que fazem parte é, de alguma forma, sedutor – já imaginou, fazer o que bem entender, dane-se o mundo? Esse desprezo pelos outros me fez pensar: será que eles bocejam?

Uma pesquisa laureada com o prêmio IgNobel – uma paródia do prêmio Nobel para os trabalhos que fazem as pessoas primeiro rirem, depois pensarem (slogan que per se vale um post futuro) – mostrou que o famoso bocejo contagiante provavelmente depende de empatia, da capacidade de se colocar no lugar do outro, ou ao menos de um sentido de coletividade. Diversos animais sofrem desse contágio, e se você boceja na frente de alguém há 50% de chance de que ele venha a bocejar também. Seria isso um reflexo puro, automático, ou seria uma forma de interação social?

Para testar essa hipótese os bem-humorados cientistas escolheram um grupo de sete tartarugas, pois embora tenham um bom convívio social, sendo répteis elas carecem de empatia como nós definimos. Pacientemente treinaram uma delas para bocejar toda vez que via um quadrado vermelho, e a partir daí passaram a testar se o bocejo era contagioso entre as companheiras cascudas. Não era. Em diversos momentos, ao vivo ou em vídeo, nenhuma exposição ao bocejo da Alexandra (sim, elas tinham nomes) fez com que as outras bocejassem significativamente mais. Concluiu-se que o contágio do bocejo não pode ser considerado mero reflexo automático, dependendo no mínimo de um sentimento de coletividade (ainda que inconsciente) ou então da real capacidade de empatia.

Agora, se psicopatas têm déficit na capacidade de empatia, desprezo pela rede social que os cerca, podemos supor que, assim como as tartarugas, o bocejo não os contamine. Quem se propuser a testar essa hipótese tornar-se-á um forte candidato ao próximo IgNobel.

ResearchBlogging.org
Anna WILKINSON, Natalie SEBANZ, Isabella MANDL, Ludwig HUBER (2011). No Evidence Of Contagious Yawning in the Red-Footed Tortoise Geochelone carbonaria Current Zoology (formerly Acta Zoologica Sinica), 57 (4), 477-484

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Já falei em outra ocasião, mas não custa repetir: psicopata não é sinônimo de bandido. No ano passado introduzi uma aula sobre o tema com a seguinte comparação: nos anos noventa o personagem mau da novela era o vilão, hoje é o psicopata. O Pimenta Neves matou a ex-namorada e foi chamado de vilão, o goleiro Bruno supostamente fez a mesma coisa e foi chamado de psicopata. O Jorginho da Rua Cuba, acusado de matar os pais, era conhecido como assassino, enquanto anos depois a Suzane Von Richthofen ficou famosa como psicopata. Ou seja, estamos usando um diagnóstico para descrever comportamentos criminosos, de maneira superficial e leviana. Isso é um perigo, pois usar instrumental médico para fins sociais é um passo para abuso de poder, basta lembrar d’O Alienista.

Mas eu entendo o entusiamso com os psicopatas. Eles são fascinantes em sua amoralidade, agindo em proveito próprio ignorando quaisquer entraves. Há até um livro sobre isso chamado “Homens maus fazem o que os homens bons sonham”. Para além da ausência de amarras, contudo, há uma hipótese interessante, que diz que no fundo a sociedade e os psicopatas precisam um do outro.

Sabendo que há uma forte influência genética no temperamento e na personalidade dos indivíduos, pode-se perguntar por que os genes de comportamentos tão individualistas não foram extintos, uma vez que as sociedades humanas dependem da cooperação. Pesquisadores franceses, utilizando modelos da teoria dos jogos, acreditam que os psicopatas têm um elevado ganho em interações de curto prazo, já que trapaceiam sempre que podem e levam a melhor às custos do prejuízo alheio, mas com o tempo eles acabam ficando marcados, e as vantagens se perdem, transformando-se em desvantagem. Nesse meio tempo, no entanto, seu comportamento faria com que a sociedade ficasse sempre alerta, preparada para qualquer tentativa de engodo. Esses cientistas imaginam que grupamentos humanos onde não havia sequer uma pessoa com tendência antissocial foram dizimados, ou explorados até a última gota, por não estarem aptos a lidar com o engano deliberado. O equilíbrio entre as vantagens para si e para a comunidade, e as desvantagens para todos explicaria porque a taxa de psicopatas na população se mantém estável em cerca de 1% independente do lugar ou época. Eles seriam um mal necessário.

É uma hipótese. Mas acho difícil testá-la, pois na vida real é muito improvável encontrarmos um grupo sem nenhum psicopata. Quem sabe na próxima novela?

Em tempo: essa é a última semana para concorrer a uma cópia autografada do livro Machado de Assis: a loucura e as leis. Serão dois sorteios, só no twitter. Participe!

ResearchBlogging.org MIRIC, D., HALLETMATHIEU, A., & AMAR, G. (2005). Etiology of antisocial personality disorder: Benefits for society from an evolutionary standpoint Medical Hypotheses, 65 (4), 665-670 DOI: 10.1016/j.mehy.2005.05.027

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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