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Daniel Martins de Barros

Não vou comentar a entrevista da Xuxa. Não assisti, mas soube que ela disse ter sido abusada e sentido algo muito comum em vítimas de abuso: culpa. A experiência foi uma das causas de ela se tornar a rainha dos baixinhos. Quero aproveitar esse gancho improvável para conversarmos sobre a Comissão da Verdade.

Sim, porque esse sentimento não é exclusivo das vítimas de crimes sexuais. Em suas memórias, Pérsio Arida, torturado na época da ditadura, diz que se sentia envergonhado por isso: “Era um constrangimento por ter passado por uma experiência vexaminosa, como se, de alguma forma, fosse minha a culpa por tudo o que me aconteceu.(…) Minha vergonha era mais próxima àquela do estuprado, a vergonha por não ter sido capaz de se proteger da maldade do mundo.” O episódio mudou o rumo de seus estudos, ele foi para economia e acabou se tornando um dos pais do Plano Real.

Mas o que a Comissão da Verdade pode fazer diante desse sentimento? Pouco e muito.

Evidentemente trazer à luz a verdade dos fatos, o detalhe sobre as torturas, a realidade de o Estado ter imposto humilhação e desamparo inimagináveis não desfará o que foi feito. Por esse prisma, a Comissão pouco pode fazer.

Mas os seres humanos buscam reconciliação. Se pensamos de forma abstrata num mal-feito, imaginamos que adoraríamos nos vingar. Mas diante dos casos concretos as pessoas preferem a reconciliação – desde que se assumam os erros. Um caso famoso foi o do Hospital de Veteranos em Lexington, nos EUA. Até meados dos anos 80 esse era um dos hospitais da rede de veteranos que mais gastava com indenizações por erros médicos. Então, em 1987, após perder dois processos somando 1,5 milhão de dólares, a diretoria resolveu radicalizar, passando a assumir prontamente todo erro que ocorresse, mesmo que a família ou o paciente não notassem que houvera um problema. Uma reunião era convocada pela equipe com o paciente e o chefe do departamento de risco assumia a culpa, pedia desculpas formalmente e combinava o que poderia ser feito dali por diante. Em menos de uma década o hospital passou a ser um dos que menos gastava com processos. A raiva que sentiam as famílias diante da negação dos responsáveis, motivo de boa parte dos processos, deixava de ser um fator relevante na causa.

Desse ponto de vista a Comissão da Verdade pode contribuir muito, fazendo que responsabilidades sejam assumidas. Não por vingança. Mas porque quando um torturador diz “Sim, eu fiz”, ele mitiga a culpa que sente o torturado: “Foi ele, então; não fui eu”. E a raiva diminui. O filme “A morte e a donzela”, do Roman Polanski, ilustra com maestria essa situação. Nele a atriz Sigourney Weaver interpreta uma vítima de tortura num país recentemente redemocratizado. Certa noite ela e o esposo recebem a visita de um médico, interpretado brilhantemente por Ben Kingsley, cuja voz reconhece como sendo um de seus algozes. Ela consegue amarrá-lo a uma cadeira, mas o marido intervém tentando dissuadi-la de torturá-lo. Ela não quer se vingar, no entanto. Diz que pensou em estuprá-lo, em seviciá-lo, em humilhá-lo além da conta; mas quando se encontrou diante dele percebeu que só queria que ele falasse com ela, que assumisse o mal que praticara – se fizesse isso ela não só poderia deixá-lo viver, mas poderia ela mesma enfim seguir com sua vida.

Não se trata, pois, de revanchismo. Trata-se, isso sim, de finalmente deixar o passado no passado. E seguir em frente.

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Cohen, J. (2000). Apology and Organizations: Exploring an Example from Medical Practice SSRN Electronic Journal DOI: 10.2139/ssrn.238330

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Vingança. Esse parecer ser o tema da semana. Ao nos aproximarmos do marco de um ano do massacre de Realengo temos notícia do crime em massa em Oakland, nos Estados Unidos. Enquanto isso, na ficção, o desejo por retaliação é a mola mestra da novela Avenida Brasil, que promete trazer a ambiguidade psicológica para a dramaturgia popular.

Os crimes como o de Realengo e de Oakland são classificados como crimes de vingança porque em sua maioria são motivados por uma sensação de injustiça acumulada ao longo do tempo. As vítimas não são escolhidas de forma casual, mas, ao menos na mente do perpetrador, são de alguma forma relacionadas ao sofrimento que ele passou. E é interessante notar que, mesmo não sendo improvisados (ao contrário, são bem planejados durante um bom tempo), tais eventos costumam acabar com a morte do assassino, ou no mínimo com sua prisão – eles praticamente nunca saem ilesos. A revanche, portanto, tem um preço que o perpetrador antevê mas opta por pagar.

E vingança é assim mesmo.

Para estudá-la melhor cientistas criaram o seguinte experimento: voluntários ganhavam 10 Unidades Monetárias (UM) cada um. O primeiro, chamemos de A, podia confiar no segundo, B, e dar toda sua quantia para ele. Se o fizesse, o pesquisador quadriplicava o total, deixando B com 50 UMs e A com zero. Depois disso B podia repartir seus 50 com A, como retribuição pela confiança, ou traí-lo ficar com tudo. Mas aí A podia impor uma pena pela traição; algumas vezes isso não custava nada mas em outras havia também um custo para A (A perderia uma UM para cada duas que cortasse de B). Os resultados não deixaram dúvida: o núcleo estriado do cérebro, área que sinaliza prazer e recompensa, era ativado quando A decidia punir B, mostrando que, para o cérebro, a vingança realmente é doce. Mesmo quando A sabia que a vingança teria um custo pessoal essa região do cérebro era ativada (nesse caso, junto com o córtex pré-frontal medial, região envolvida nos cálculos de custo e benefício). E quanto mais ativada fosse a área da recompensa do voluntário quando não havia custo pessoal, maior era a chance de ele retaliar quando houvesse. Ou seja, quanto maior a satisfação pela vingança, menos importância se dá ao preço a pagar.

Esse balanço entre o custo pessoal e a sensação de recompensa traz a ambiguidade de sentimentos envolvida nas situações de vingança. Na novela a protagonista abandona sua família, seu namorado e sua vida estável na Argentina para voltar ao Brasil tentar se vingar. Paga, portanto, um alto preço pessoal, e, segundo o autor, na expectativa de ter sua recompensa se tonará quase uma vilã nos próximos meses, passando a se questionar até que ponto vale a pena.

Nos assassinatos em massa, por outro lado, os sujeitos sabem de antemão que pagarão alto, possivelmente com suas próprias vidas. Mas talvez a realidade já tenha se tornado intolerável para eles, só restando a tênue promessa de uma recompensa na vingança. Claro que são casos que não têm causa única, originando-se de uma cadeia de fatores que culminam na tragédia. Mas se a variável vingança está quase sempre presente, imagino que se tratarmos os outros como queremos ser tratados e educarmos nossos filhos para fazer o mesmo, talvez possamos prevenir pelos menos parte desses crimes, trabalhando ao mesmo tempo por um mundo menos hostil.

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de Quervain, D. (2004). The Neural Basis of Altruistic Punishment Science, 305 (5688), 1254-1258 DOI: 10.1126/science.1100735

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Que as escolas de samba se movem perigosamente próximas a uma área de sombras, interagindo com grupos historicamente violentos como as torcidas organizadas, é senso comum. Embora tal fato não seja a causa dos tumultos ocorridos durante a apuração dos desfiles paulistanos, essa vizinhança pode ter potencializado o desdobrar dos acontecimentos.

O estudo formal do comportamento das massas teve seu início em meados do século XIX, justamente pela necessidade de as elites da Europa tentarem entender – e prevenir – os movimentos revolucionários da patuleia. À época, contudo, o pensamento científico era ainda contaminado por uma grande carga de preconceito, marcado por ideias como antropologia racial, atavismo dos instintos e criminosos biológicos. Durante muito tempo acreditou-se que a violência das multidões era consequência da degeneração de pessoas inferiores que perdiam sua individualidade nos tumultos – as massas seriam, portanto, irracionais, exibindo comportamentos sem qualquer sentido.

A partir do século XX, especialmente após os anos 60 – quando muitos dos cientistas sociais que estudavam os fenômenos das multidões acabaram tomando parte, eles mesmos, de passeatas contra a Guerra do Vietnã ou pelos direitos civis das minorias – o pensamento sobre as massas foi sendo gradualmente transformado, sobretudo em termos de sua racionalidade: diante do novo contexto já não era possível sustentar que as multidões eram acéfalas e incoerentes. O comportamento dos grupos passou a ser analisado em termos das relações intergrupos e dos contextos políticos e históricos dos indivíduos. De irracionais as multidões passaram a ser vistas como possuidoras de um pensamento, uma racionalidade que surgia não só do pano de fundo das pessoas, mas também da força da identificação entre elas. E o risco de o comportamento do grupo se tornar violento dependeria principalmente de dois fatores: o quanto de legitimidade se confere à polícia e o quanto de poder o grupo vê em si. A atuação policial agressiva poderia gerar um antagonismo na massa, que passaria a medir forças com os soldados.

As imagens dos sujeitos exibindo comportamentos de vandalismo ao longo da Marginal Tietê mesmo escoltados pela polícia pode ser analisada de acordo com esse modelo: as pessoas eram membros de torcidas organizadas, que têm um histórico muito rico de conflitos com a PM – isso lhes confere um senso de identificação interna muito grande, além de minar a legitimidade da atuação da polícia de seu ponto de vista. Além disso, o grande número de torcedores aumenta a sensação de poder na medida em que fica clara a insuficiência do contingente policial para conter seus atos de vandalismo. Com base nesse modelo, algumas experiências feitas na Europa para controlar o comportamento dos hooligans foram bem sucedidas, paradoxalmente, ao reduzir o policiamento ostensivo, marcando a presença do poder do estado mas desestimulando demonstrações de força policial.

Funcionaria para o Brasil? Não sei. Mas se quisermos preservar as imagens das tão decantadas “paixões nacionais” já passou da hora de pensarmos cientificamente na questão das torcidas organizadas, tanto no samba como no futebol.

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Drury, J., & Stott, C. (2011). Contextualising the crowd in contemporary social science Contemporary Social Science, 6 (3), 275-288 DOI: 10.1080/21582041.2011.625626

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Impossível não tratar do caso do artista plástico Michel Goldfarb Costa, de 34 anos, que há dois dias saiu pelas ruas da cidade atirando a esmo, roubando quatro carros e ferindo ao menos duas pessoas. A polícia e o advogado já falam em “surto psicótico” para explicar os eventos, que seriam contraditórios com a personalidade prévia de Costa e incompatíveis com um assalto comum. Pode ser. Mas também pode não ser.

O problema de invocar desde já um quadro psiquiátrico que explique o ocorrido é o surgimento precoce do “viés de confirmação”. Como outros erros cognitivos dessa natureza, o viés de confirmação é a tendência a um tipo de raciocínio automático que os seres humanos apresentam, que embora poupe esforço (já que pensar cansa) frequentemente nos leva a conclusões apressadas e errôneas, por ignorar elementos importantes. Nesse caso, trata-se da inclinação que temos de buscar somente informações que confirmem o que já pensamos, além de interpretar todos fatos como evidências de nossa hipótese inicial. Na história de Michel Costa, uma vez que se acredite que ele “em um dia de fúria e loucura teria pego uma arma e um colete e efetuado vários disparos em via pública”, conforme disse o tenente da Polícia Militar Guilherme Willian Pacheco, corre-se o risco de enviesar todo seu histórico. Ora, o fato de ele possuir doze cachorros pode ser visto como um ato de caridade com animais, mas se acharmos que ele é doente, pode facilmente ser encarado como um sintoma de “loucura”. Da mesma forma, a partir da declaração de sua namorada de que ele era fechado, de poucos amigos e pouco contato familiar pode-se inferir tanto que ele é um artista algo excêntrico como também que é um paciente que prefere viver isolado. E a partir do momento que começamos a procurar provas do que já cremos em vez de buscar informações que nos esclareçam, o erro é quase certo.

Quando psiquiatras iniciam a abordagem de um caso com uma hipótese diagnóstica em mente, por exemplo, eles podem seguir por dois caminhos principais: buscar evidências comprobatórias ou contraditórias desse diagnóstico. Recentemente mostrou-se num estudo que nos casos em que a hipótese inical estava errada, se os médicos só procuravam sinais que confirmassem sua ideia eles erravam o diagnóstico 70% das vezes. No entanto, mesmo com a hipótese inicial errada, se a investigação fosse feita de modo balanceado, fugindo do viés de confirmação, o dignóstico era corrigido e o erro caía para menos de 30%.

A sugestão que os pesquisadores dão para tentar reduzir os efeitos desse erro cognitivo é a mesma que podemos usar no caso de Michel Costa – estar atento para explicações alternativas e buscar informações balanceadas pode ser um meio eficaz de evitar conclusões apressadas, e, sobretudo, erradas.

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Mendel, R., Traut-Mattausch, E., Jonas, E., Leucht, S., Kane, J., Maino, K., Kissling, W., & Hamann, J. (2011). Confirmation bias: why psychiatrists stick to wrong preliminary diagnoses Psychological Medicine, 41 (12), 2651-2659 DOI: 10.1017/S0033291711000808

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Pós-escrito

Após ouvir algumas declarações de Michel Goldfarb Costa e ver entrevistas, fico com a impressão de que o que ele refere como perseguições e ameaças extrapolam a realidade, talvez configurando de fato um quadro psicótico. De qualquer forma, o mais importante é, na busca por esclarecimento, ter sempre em mente que “pode não ser”, não apenas na situação dele, mas diante de todos os casos.

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O Brasil já passou pelo que a Europa está passando. Não, não vou falar sobre a crise econômica, mas do assassino Anders Behring Breivik, aquele que matou mais de 70 pessoas em julho, na Noruega, agora declarado insano.

Embora no calor da hora a justiça tenha declarado que ele não deveria ser considerado doente mental, já que havia planejado tudo tão minuciosamente durante tanto tempo (anos, ao que consta), havia também no ar o sentimento de que só mesmo um maluco para cometer tal atrocidade. Essa dicotomia persiste agora, quatro meses depois, quando o relatório de mais de duzentas páginas dos psiquiatras que o avaliaram concluiu que ele não é responsável pelos atos por sofrer de psicose, vivendo num mundo à parte em meio a seus delírios: 48% da população norueguesa (numa pesquisa com mil cidadãos) não concorda, considerando que ele deveria ser considerado criminoso comum. Mais: o próprio assassino discorda do relatório, tendo se sentido insultado pelo diagnóstico.

Como disse, nós já estivemos lá. No final do século XIX um sujeito chamado Custódio Alves Serrão assassinou o tutor de seus irmãos, o comendador Belarmino Brasiliense Pessoa de Melo. Seus irmãos sofriam de transtornos mentais e Custódio acreditava que o comendador tinha planos de interná-lo também num manicômio; atirou nele após uma discussão e se entregou ao primeiro policial que encontrou. No dia seguinte foi levado para o Hospício Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro, contra a vontade do então diretor, João Carlos Teixeira Brandão, que não o queria acolher por se tratar de um louco criminoso. Nas primeiras avaliações a que foi submetido Custódio foi considerado “degenerado”, mas não doente, o que o faria responsável por seus atos. No entanto a sociedade estava dividida, pois aparentemente aquele homem era uma ameaça em razão de seu estado mental, e a conclusão do laudo foi revista, passando-se a considerá-lo insano. Assim como o norueguês Breivik, contudo, Custódio não queria ser internado, mas julgado e preso como mentalmente são, pois alegava estar consciente de seus atos; por essa razão fugiu do hospício, gerando verdadeira comoção social.

Embora os crimes sejam diferentes, o paralelo se justifica por se tratar de atos cometidos por pessoas cuja sanidade é posta em xeque, já que motivadas por crenças exóticas. Como nem sempre é simples identificar se tais pensamentos configuram de fato delírios, quebrando com a realidade, é comum haver discordância sobre a responsabilidade dos sujeitos. Do fato não se acreditarem insanos não se pode concluir que de fato não sejam, já que, por definição, autocrítica não é o ponto forte dos psicóticos delirantes.

Quanto à divisão da sociedade, quer seja no Rio do século XIX ou na Escandinávia do século XXI a reação das pessoas sempre será ambígua, pois ao mesmo tempo em que tememos que transtornos mentais sejam usados como desculpa, por outro lado preferimos que esses criminosos sejam doentes, suspirando aliviados porque, sendo insanos, tais assassinos não são como “um de nós”, como disse uma senhora norueguesa ao ser entrevistada. Ao ler a notícia sobre o laudo de Breivik imagino que ela tenha dormido mais tranquila.

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Maciel, L. (1999). Um lugar para aprisionar a loucura criminosa História, Ciências, Saúde-Manguinhos, 6 (2), 445-452 DOI: 10.1590/S0104-59701999000300013

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Acho que não demora muito e começarão a aparecer relatos de pessoas que convulsionaram dentro dos cinemas brasileiros ao assistir o filme Amanhecer. A notícia de que um rapaz teve que ser levado às pressas para um hospital fazendo barulhos estranho e sem conseguir respirar após ver a cena do parto da protagonista foi logo seguida pela descoberta de outros casos semelhantes nos Estados Unidos. Ao que parece a sequência do parto é composta por um padrão alternante de luz branca, vermelha e preta, o que foi logo invocado como causa das “convulsões”.

Provavelmente o público-alvo da saga Crepúsculo não era nascido quando um episódio semelhante ocorreu no Japão, durante a transmissão do desenho Pokémon, febre nos anos noventa. Em 16 de dezembro de 1993 Pikachu, o monstro protagonista do desenho, usou seus poderes para disparar um “ataque elétrico”, o que foi representado por luzes piscando. Naquela noite a agência de defesa do Japão relatou que 618 crianças foram levas a pronto-socorros com sintomas variados, indo desde convulsões e desmaios a dores de cabeça e mal-estar. A mídia repercutiu o caso com grande intensidade e preocupação, reprisando a cena e levando a uma segunda onde de crises, cujos números são desconhecidos. Três dias depois, embora o número de crianças levadas a hospitais não fosse modificado, já se falava em cerca de 12.000 afetados com sintomas diversos.

Antes de desistir de ver o filme (por esse motivo), é preciso calma.

Em diversas análises retrospectivas de milhares de estudantes japoneses afetados, descobriu-se que uma parcela mínima deles apresentou de fato convulsões. Ocorre que existem casos de epilepsia sensíveis a certos padrões de estimulação luminosa, mas sua ocorrência é rara (estimada em 1/4.000, ou 0,025% da população), o que não explica a ocorrência maciça daqueles eventos. Levando em conta a grande diversidade de sintomas, a maioria inespecíficos e nada característicos de convulsões epilépticas, o mais provável é que tenha se tratado de um contágio psicológico, uma espécie de histeria coletiva, em grande parte alimentada por coberturas sensacionalistas.

Agora, pensando no sucesso esmagador da série Crepúsculo (praticamente metade de todas as salas de cinema do Brasil exibiram o filme Amanhecer na estreia, recorde absoluto), o alto grau de sugestionabilidade da faixa etária do público-alvo (na maioria adolescentes), e a velocidade de divulgação das notícias em tempos de rede social, imagino ser questão de horas até ouvirmos os primeiros relatos no país. Tomara que esteja errado.

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Radford B, & Bartholomew R (2001). Pokémon contagion: photosensitive epilepsy or mass psychogenic illness? Southern medical journal, 94 (2), 197-204 PMID: 11235034

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Sexo – ou, mais especificamente, a falta de sexo – pode ter sido importante no Prêmio Nobel da Paz de 2011. Das três as vencedoras, mulheres reconhecidas “por sua luta não violenta pela segurança das mulheres e pelos seus direitos a participar dos processos de paz”, como disse o comitê, uma é do Iêmen – a jornalista Tawakkul Karman – e as outras duas da Libéria – Ellen Johnson Sirleaf, presidente do país, e a ativista Leymah Gbowee, que liderou uma greve de sexo das mulheres em seu país.

Assistente social nos tempos da guerra civil que assolava a Libéria, Leymah resolveu agir em prol do fim dos conflitos, convocando as mulheres a orarem pela paz, independente de seu credo ou religião. A mobilização feminina cresceu até chegar à proposta de negar sexo aos homens até que eles resolvessem integrá-las no processo de negociação da paz, o que acabou realmente acontecendo. Nas palavras de Leymah, era um “exército de mulheres vestidas de branco, que se ergueram quando ninguém queria fazê-lo, sem medo, porque as piores coisas imagináveis já haviam ocorrido conosco”.

Impossível não lembrar da comédia Lisístrata, de Aristófanes, escrita mais de 400 anos antes de Cristo na Grécia Antiga. Durante a Guerra do Peloponeso, que opôs Atenas e Esparta, uma mulher chamada Lisístrata se levanta e conclama as cidadãs gregas a deixarem seus homens sem sexo até que eles acabassem com aquela guerra interminável. Receosas inicialmente, elas aderem, e apesar de uma ou outra tentativa de “furar a greve”, o movimento se mantém até que a paz é restabelecida (entre as cidades e entre os gêneros). O paralelo com a Libéria fica ainda mais evidente quando Lisístrata fala da frustração que as mulheres sentem nos tempos de guerra, quando os homens ignoram suas opiniões e tomam decisões estúpidas, que afetam a vida de todos.

Para além dos significados e leituras sócio-antropológicas que as duas histórias têm, existe aí também um aspecto bio-psicológico que me arrisco a apontar.

O hormônio testosterona está associado tanto ao comportamento sexual dos machos como a alguns padrões de agressividade, não apenas no reino animal: as diversas pesquisas sobre o tema já não deixam dúvida que os humanos também são suscetíveis a tal influência. O nível desse hormônio tende aumentar após a relação sexual, a manter-se mais altos em períodos de atividade sexual frequente, a declinar na ausência de relações e a subir mesmo em algumas situações como flerte, que só ocasionalmente poderia levar ao sexo. Ao mesmo tempo, testosterona alta predispõe a reações mais agressivas em cenários competitivos, além de aumentar a agressividade em disputas por dominância, quer seja do grupo ou do território.

O comportamento humano não pode ser reduzido a meras respostas a flutuações hormonais, é claro. Mas acho no mínimo divertido imaginar que, privados de sexo os homens – de políticos a soldados – a testosterona de toda nação possa ser reduzida, tornando-a menos agressiva e territorialista e dando uma chance à paz.

ResearchBlogging.org Archer, J. (2006). Testosterone and human aggression: an evaluation of the challenge hypothesis Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 30 (3), 319-345 DOI: 10.1016/j.neubiorev.2004.12.007

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Steve Jobs sabia que tinha revolucionado diversas áreas da sociedade, desde a forma como nos relacionamos com a música até jeito de lermos livros, mas morreu sem ver a transformação que os aparelhos da Apple prometem trazer para o estudo da cognição humana.

No mês passado foi publicado um trabalho inédito, que utilizou um aplicativo disponibilizado na iTunes App Store para avaliar o tempo de resposta a estímulos léxicos. Esse é um teste clássico, no qual o indivíduo deve responder, o mais rapidamente possível, se determinada sequência de letras é uma palavra (ex.: MESA) ou não (ex.: MISA).

Até aí nada de novo.

Mas como dá muito trabalho (e gera custos) convencer as pessoas a saírem de suas casas ou de seus trabalhos, irem até a universidade, esperarem para ser finalmente avaliadas com aparelhos capazes de medir com precisão seu tempo de reação, a novidade foi que, utilizando essa base de voluntários Apple-maníacos, que podiam baixar de graça o aplicativo e depois voluntariamente enviar os resultados por e-mail, os pesquisadores reuniram em quatro meses a mesma quantidade de dados que havia levado mais de três anos no modelo tradicional (4157 participantes). Mais do que isso, os resultados não foram diferentes daqueles colhidos em laboratórios, com todas as condições controladas.

Embora eu não seja um dos fãs incondicionais da Apple ou do Jobs que fecham os olhos para os seus defeitos, não posso negar que o homem era visionário. A tal ponto que os ecos do seu trabalho continuarão a ser ouvidos muito tempo após sua partida, como parece mostrar esse estudo.

ResearchBlogging.org Dufau, S., Duñabeitia, J., Moret-Tatay, C., McGonigal, A., Peeters, D., Alario, F., Balota, D., Brysbaert, M., Carreiras, M., Ferrand, L., Ktori, M., Perea, M., Rastle, K., Sasburg, O., Yap, M., Ziegler, J., & Grainger, J. (2011). Smart Phone, Smart Science: How the Use of Smartphones Can Revolutionize Research in Cognitive Science PLoS ONE, 6 (9) DOI: 10.1371/journal.pone.0024974

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Pelo visto o Rafinha Bastos não leu a Carta aberta aos comediantes brasileiros, que publiquei há pouco tempo. Depois de ser obrigado a pedir desculpas ao vivo para uma apresentadora, foi suspenso do CQC por piada feita com Wanessa Camargo. Isso poucos meses após ter que prestar depoimento à polícia por piada com estupro. É chato dizer, mas eu avisei.

Antes que leitores furiosos me acusem de censurar a liberdade de expressão, de não entender o humor, blábláblá, aviso: eu pouco ou nada sei sobre o que deve ser proibido, permitido, estimulado ou criminalizado. Só sei que piadas causam um impacto em quem as ouve. Claro que seria ridículo crer que alguém ouve uma piada sobre estupro e pensa: “Puxa, é mesmo. Nunca tinha visto por esse lado. Vou estuprar a primeira mulher que eu encontrar”. Mas independentemente de se “levar a sério” uma anedota, ela pode reforçar comportamentos indesejáveis.

O melhor estudo que conheço sobre o tema chama-se “Mais do que só uma piada: a função liberadora-de-preconceitos do humor sexista”, publicado em 2007. Setenta e três estudantes masculinos foram divididos entre os muito e pouco preconceituosos. A seguir os cientistas os separaram em três grupos: um leu piadas sexistas, outro piadas diversas, e outro frases sexistas sérias. Depois disso, mostraram uma falsa notícia de jornal pedindo doações financeiras para uma ONG atuante com direitos das mulheres, e perguntaram quanto os sujeitos dariam, entre nada e US$ 20. Os resultados mostraram os sexistas que tinham lido piadas dessa natureza eram os que menos doavam (menos até do que os preconceituosos que liam frases sérias com as quais em tese concordavam). Numa segunda etapa, outros 30 rapazes também foram separados entre mais ou menos preconceituosos, e assistiram vídeos cômicos com ou sem referência a estereótipos femininos. Informou-se então que a universidade iria ter que cortar 20% das verbas de associações de estudantes no ano seguinte e pediu-se a eles que distribuíssem os cortes entre cinco grupos, um deles voltado para questões de gênero. Embora todos cortassem homogeneamente 20% de cada associação, os mais preconceituosos que tinham assistido vídeos sexistas foram os únicos a cortar mais da associação envolvida com direitos femininos do que das outras. Para os pesquisadores, o humor não faz ninguém assumir posturas contrárias a suas crenças, mas tem o poder de criar um ambiente onde determinadas posturas preconceituosas parecem mais socialmente aceitas. E isso tem um impacto real no comportamento das pessoas.

É por conta disso que dizer “é só uma piada, não deve ser levada a sério”, não é um salvo conduto para se falar qualquer coisa. E, para descontentamento de muitos, é o problema central na propaganda de lingerie da Gisele Bündchen. Você pode pensar que não tem nada de mais, que é uma brincadeira, que os homens é que são ridicularizados ali. Eu, particularmente, também penso assim. Mas infelizmente os machões que acreditam que o principal papel da mulher é o sexual são muitos (lembram do Ciro Gomes?), e uma propaganda estimulando o riso coletivo sobre o tema tende a dizer-lhes que estão certos, dificultando o caminho para a quebra do preconceito.

ResearchBlogging.org Ford, T., Boxer, C., Armstrong, J., & Edel, J. (2007). More Than “Just a Joke”: The Prejudice-Releasing Function of Sexist Humor Personality and Social Psychology Bulletin, 34 (2), 159-170 DOI: 10.1177/0146167207310022

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Duas notícias do último final de semana, aparentemente não relacionadas, se tocam num ponto curioso, e têm importância para a psiquiatria: caiu um satélite da Nasa e caíram as touradas em Barcelona. Vamos por partes.

Os satélites geoestacionários são aqueles que orbitam a Terra na mesma velocidade de rotação do planeta, na região do Equador, ficando dessa maneira sempre sobre o mesmo ponto em relação a nós. A altitude em que eles devem permanecer, pouco mais de 30.000 km de altura, foi pela primeira vez proposta pelo escritor Arthur C. Clarke (aquele de 2001, uma odisseia no espaço) num artigo publicado em 1954 em que ele sugeria que esses satélites artificiais poderiam ser usados para telecomunicações. Por isso até hoje a órbita geoestacionária é também chamada de Órbita Clarke, em sua homenagem.

É esse autor que faz a conexão entre as duas notícias, porque também previu, no livro O fim da infância (publicado um ano antes, em 1953) uma forma de acabarem as touradas. O livro conta a história de naves que chegam à Terra mas, durante décadas, seus pilotos alienígenas não dão as caras. Ainda assim eles resolvem todos os problemas do planeta, da fome à guerra, passando pelo respeito aos animais. Particularmente na questão das touradas eles dão um ultimato, avisando que elas deveriam ser interrompidas imediatamente ou haveria consequências. Os humanos insistem, e no dia do próximo espetáculo, quando o toureiro espeta a primeira espada no lombo do touro, houve-se um horrendo grito de dor coletivo, pois todos os espectadores sentem a dor da estocada ao mesmo tempo. Foi a última.

E aí chegamos à psiquiatria.

O que Clarke descreveu foi uma maneira que os aliens usaram para que as pessoas sentissem a mesma coisa que os touros sentiam. Isso se chama empatia. Essa capacidade de se colocar no lugar do outro, sentindo o que ele sente, é um dos fatores constituintes do caráter. E as teorias atuais sobre a personalidade humana postulam que esta é resultado da interação entre nossos traços de temperamento e o nosso caráter. Não significa, no entanto, que quem é a favor das touradas tem baixa empatia e por isso é mau caráter. Empatia por gente é diferente de empatia por bichos.

Num estudo do começo da década uma pesquisadora avaliou os graus de empatia por humanos e animais em 514 pessoas, por meio de questionários padronizados, e notou que embora houvesse uma certa relação estatística entre eles (quanto maior a empatia por um, maior por outro), tal correlação era pequena. Ou seja, é possível se compadecer do próximo e não se importar com os bichos. O fator que mais aumentava a empatia por animais, não surpreende, era ter (ou já ter tido) algum bicho de estimação (enquanto ter crianças em casa aumentava a empatia por humanos).

Quando vivenciamos algumas coisas, quando sentimos na pele ou convivemos intimamente com determinadas situações, nossa visão de mundo se modifica. O círculo dos que são abarcados por nossa empatia se amplia, de alguma forma moldando nosso caráter. Exemplos como o de Barcelona, onde a população trouxe para a esfera da sua empatia o sofrimento animal, mostram que o também o caráter coletivo e a personalidade de um povo inteiro podem se modificar com o tempo.

ResearchBlogging.org Paul, E. (2000). Empathy with Animals and with Humans: Are they Linked? Anthrozoos: A Multidisciplinary Journal of The Interactions of People & Animals, 13 (4), 194-202 DOI: 10.2752/089279300786999699

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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  • Roger: Porque democráticos foram os militares que tomaram o poder, não?
  • Pacheco: Daniel concordaria com a tese se, à semelhança do exemplo do hospital, houvesse ocorrido erros. Eu,...
  • Marco: Tá, então vamos combinar o seguinte. Que todos os interessados em investigações e na busca da historia e...

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