Acostumado a se esquivar dos adversários e não se deixar abater nos ringues, David Lourenço dobrou as pernas com o golpe inesperado de não ter sido levado para as Olimpíadas nesse ano. Campeão mundial de 2010 na categoria juvenil e uma das grandes promessas do boxe brasileiro, David reunia chances reais de ir aos jogos de Londres, mas acabou sendo o único atleta cortado da delegação. A frustração parece ter sido demais.
Quando estamos em meio a situações geradoras de grande sofrimento mental é muito comum termos o desejo de desaparecer. Se, por um motivo ou por outro, a pessoa se vê incapaz de lidar com o problema, impossibilitada de sair do conflito, tal desejo pode atingir níveis patológicos, eventualmente levando a episódios de fuga dissociativa. Os transtornos dissociativos são análogos ao que antigamente se denominava histeria, nos quais ocorrem amnésias, alterações da consciência, perda de identidade e do controle dos movimentos, como paralisias. Os quadros não são uniformes, no entanto, e na fuga dissociativa o sujeito pode não ter muito sintomas além do comportamento de se deslocar a esmo, sem destino ou propósito, afastando-se da situação estressante e das pessoas envolvidas nela. É muito comum que, quando localizadas, sintam-se deprimidas, envergonhadas e eventualmente até agressivas, por serem forçadas a novamente lidar com o problema do qual tentavam, inconsciente e inutilmente, fugir.
Talvez seja isso o que tenha acontecido com David, já que o sentimento de rejeição é uma das causas desses comportamentos. Além disso, seu pai diz ter identificado nele os sinais de depressão que fazem parte do final da fuga. Claro que há a possibilidade de que ele tenha desenvolvido também um quadro depressivo, já que um transtorno não exclui o outro.
Se de fato for diagnostica a depressão é importante garantir tratamento adequado. Mas mais do que isso, o apoio da equipe, dos amigos e da família é essencial para auxiliá-lo a lidar com a situação de uma maneira saudável, para que ele possa superar esse episódio e se reerguer da lona.
Uma infeliz conjunção de fatores contribuiu para o bate-boca público em que a atleta Rafaela Silva se envolveu após ser desclassificada na competição de judô por ter aplicado um golpe irregular.
Para os que não acompanharam, o caso teve início poucas horas depois de a atleta sair dos jogos olímpicos por ter agarrado a perna da adversária com as mãos, o que não é mais permitido. Ao checar o que se estava comentando sobre o fato no twitter, Rafaela deparou-se com agressões violentas, chamando-a de macaca, desqualificando-a e dizendo que ela deveria voltar rastejando para o Brasil. Sua resposta foi imediata e no mesmo tom, dando origem a uma escalada de agressividade que foi parar no Comitê Olímpico Brasileiro.
Os fatores que tiveram esse desafortunado encontro foram o estado emocional predisposto à agressividade em que ela se encontrava e o mau uso das redes sociais que frequentemente vemos acontecer.
O judô, como todas as lutas e a maioria dos esportes, é uma maneira ritualizada de expressarmos as tendências agressivas que temos desde sempre, como já conversamos por aqui. Aliás, a luta é o esporte mais antigo da humanidade porque provavelmente foi só quando conseguimos colocar normas nas embates físicos que criamos algo que pudesse ser chamado de sociedade. Historicamente todos os períodos da humanidade conheceram formas de bater e apanhar com regras mínimas, da luta na antiguidade clássica, passando pelos gladiadores romanos, pelas justas na idade média, até chegar ao boxe moderno e finalmente ao MMA.Não espanta, portanto, que as pessoas envolvidas em torneios, sobretudo de lutas, apresentem um nível alto de agressividade, sem o qual nem adianta entrar na disputa. Foi com esse estado de espírito, potencializado pela raiva frustração pela derrota, que Rafaela deu de cara com as agressões na internet.
As redes sociais entraram como catalisadoras da reação, que se torna explosiva. De fato, não são poucos os casos que temos visto de brigas, discussões e ofensas por esses meios onde, envolvidos numa aparente imunidade dada pela sensação de distanciamento com que as pessoas interagem, verdadeiras guerras verbais acabam acontecendo. Associado à publicidade imediata e abrangente que esses meios trazem em si, os casos ganham uma repercussão enorme, e, o que é pior, duradoura.
No fim das contas Rafaela se desculpou e diz que não pretende levar o caso em frente. Melhor. Ela tem uma históriade vida emocionantes, tendo sido revelada para o mundo por um projeto social na Cidade de Deus, e como todos nós merece ser lembrada por suas conquistas, muito mais do que por seus tropeços.
Você, que fica adiando o começo da academia, saiba que é um profeta muito míope.
Essa é a conclusão de um estudo sobre a prática de atividade física realizada na University of British Columbia, no Canadá: as pessoas sempre acham que vão gostar menos de fazer exercícios do que acabam gostando no fim das contas. Isso parece acontecer porque nós ficamos pensando no esforço para quebrar a inércia, e – de modo míope – achamos que a atividade inteira será ruim. Essa baixa expectativa de prazer, dizem os cientistas, faz com que muita gente nem sequer comece a se mexer.
Para confirmar isso os pesquisadores pediram a dezenas de pessoas que já treinavam alguma coisa para atribuir uma nota de 0 a 10 para o quanto iriam gostar do treino. No final repetiram a pergunta, e demonstraram que os voluntários gostavam mais do que haviam previsto. Bolaram então um treinamento padronizado, com uma fase de aquecimento, uma fase intensa, e depois um fase de desaceleração. Quando questionadas sobre as expectativas para cada uma das fases, o aquecimento recebia as piores notas, mesmo sendo idêntico à fase final. E, novamente, após o treino todas as fases mostravam-se mais prazerosas do que o estimado.
A boa notícia é que quando pensavam nas fases separadamente, primeiro dando notas para cada um dos momentos e depois para o treino todo, esse acabava tendo uma avaliação mais positiva (e mais próxima do real), contrabalançando a miopia preditiva. E quanto melhor a expectativa de prazer, maiores as chances de a pessoa voltar a se engajar em exercícios.
Portanto, ânimo! Livre-se da visão de curto prazo e comece logo a se mexer. Acredite: você gostará mais do que consegue imaginar.
Ruby, M., Dunn, E., Perrino, A., Gillis, R., & Viel, S. (2011). The invisible benefits of exercise. Health Psychology, 30 (1), 67-74 DOI: 10.1037/a0021859
[tweetmeme]
Acho que estou influenciado pelo slogan de uma emissora de TV, que diz que quando é tempo de Copa do Mundo, nada mais importa. Não chego a tanto, mas descobri recentemente mais dois estudos interessantes sobre a ciência da cobrança de pênaltis, que bem poderiam ajudar nossos jogadores caso situações como a final de 1994 se repitam.
Em sua tese de doutorado, o pesquisador Nelson Toshiyiki Miyamoto, da USP, descobriu que, ao contrário do que se imagina, a torcida pode mais atrapalhar do que ajudar. Ele estudou a resposta motora de voluntários numa espécie de videogame que simulava a cobrança de pênaltis – o sujeito deveria inclinar uma alavanca para esquerda, direita ou deixá-la parada, tentando fazer com que a bola desviasse do goleiro, marcando o gol virtual. Em condições de laboratório, o aproveitamento dos voluntários foi de praticamente 100%. Depois disso, eles tinham que repetir a tarefa, mas sob o olhar (e gritos) de outros 70 alunos, simulando a torcida. O desempenho caiu para 80%, próximo da média mundial de conversão de penalidades em gols. Miyamoto sugere que o estresse adicional pela presença da torcida piora a perícia motora, e que talvez os jogadores devessem treinar mais a cobrança de pênaltis. Imagino se colocar um fone de ouvido com gritos da torcida não ajudaria também a acostumar com a pressão.
Outra pesquisa desfavorável aos jogadores mostra que eles sem saber dão pistas de onde vão chutar a bola (I). Filmando com 14 câmeras jogadores batendo na bola, os cientistas criaram vídeos que reproduzem o ponto de vista do goleiro na hora do pênalti. Analisando as imagens, descobriram uma série de dicas sobre a direção a ser tomada pela bola, sendo as principais o ângulo do quadril e a posição do pé de apoio. Segundo eles, no entanto, as informações podem não ser úteis para os goleiros, na verdade, pois dado o tempo extremamente curto entre o chute e a entrada (ou não) da bola, o arqueiro tem que pular muito rapidamente, sem tempo hábil para interpretar as informações e decidir para qual lado ir.
Aparantemnte as ciências cognitivas têm estudado o futebol há algum tempo, e o efeito da Copa é só dar mais publicidade a elas, não estimular que mais pesquisas sejam feitas. Se esse efeito ocorrer também com outros eventos relevantes para o país, em poucos meses devem vir à luz novos estudos sobre corrupção.
![]()
(I) Diaz, G., Fajen, B., & Ehlinger, D. (2010). Learning to anticipate the actions of others: The goal-keeper problem Journal of Vision, 9 (8), 608-608 DOI: 10.1167/9.8.608
[tweetmeme]
Se você receber uma cantada de um corintiano (ou corintiana) nos próximos dias, cuidado. Isso pode ser um bom ou um mau sinal.
Depois que terminar o jogo do Corinthians contra o Flamengo pela Libertadores pode-se esperar um impacto significativo na nação alvinegra. Como já foi demonstrado durante a final da Copa dos Estados Unidos, quando o nível de testosterona dos brasileiros subiu enquanto o dos italianos caiu após o Brasil bater a Itália nos pênaltis, os torcedores sofrem influências hormonais intensas dependendo da performance de seus times.
Um dos estudos mais interessantes sobre o tema foi feito há alguns anos (I), comparando o efeito do resultado de jogos de basquete sobre os torcedores. Cento e cinquenta e sete estudantes fãs de um time universitário, entre homens e mulheres, foram convidados a assistir a um jogo da temporada. Após a partida, tinham que estimar não só qual seria a performance futura do time no campeonato, como também qual seria sua própria performance em determinadas tarefas. Como esperado, quando o time ganhava as pessoas tendiam a superestimar suas chances no campeonato, e quando perdia, dava-se o contrário.
O pitoresco se deu na estimativa de habilidades sociais: eram apresentados aos indivíduos doze fotos de pessoas do sexo oposto, quatro muito atraentes, quatro na média e quatro pouco atraentes, e perguntava-se aos torcedores: “O que esta pessoa responderia se você a chamasse para sair?” As alternativas eram: (a) Você deve estar de brincadeira; (b) Sinto muito, mas tenho trabalho a fazer; (c) Claro, porque não?; ou (d) Eu adoraria. Os resultados foram uma surpresa, porque aqueles que tinham visto seu time ganhar superestimavam as chances de se darem bem com o sexo oposto, mas apenas com as pessoas mais atraentes. Comparando os fãs que testemunharam a vitória ou a derrota, os que viram o time perder achavam que tinham menos chance com as pessoas mais bonitas, mas sentiam que tinham maiores possibilidades do que os outros de conseguir um encontro com as pessoas menos atraentes.
Por isso, cuidado. Se alguém que torce pelo Corinthians te convidar para sair amanhã, pode ser um sinal que não te acha lá essas coisas, mas pode também ser um grande elogio. Tudo depende do placar.
Hirt, E., Zillmann, D., Erickson, G., & Kennedy, C. (1992). Costs and benefits of allegiance: Changes in fans’ self-ascribed competencies after team victory versus defeat. Journal of Personality and Social Psychology, 63 (5), 724-738 DOI: 10.1037/0022-3514.63.5.724
2013
2012
2011
2010