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Daniel Martins de Barros

“Eu não sou elitista, só acho que exitem dois grupos: nós e o resto”, dizia o ímpar professor Juarez Montanaro, figura inesquecível para os que com ele estudaram medicina legal. A piada, como muitas outras, disfarça uma tendência comum a todo ser humano: julgar melhor os que são do “nosso grupo” (qualquer que seja ele) do que os que são de fora. Esse é um viés cognitivo chamado de viés intragrupo, e pode ser considerado um efeito colateral do amor. Isso mesmo, depois de tratarmos das belezas da occitocina e dos vínculos que ela ajuda a criar, vale a pena dar uma olhada num outro lado dessa história.

Do ponto de vista evolutivo foi um desafio explicar por que somos altruístas – se os genes são selecionados na medida em que ajudam a perpetuar a si mesmos, como seria possível o sacrifício em favor dos outros? Isso aparentemente contradizia a seleção natural. Embora o próprio Darwin já tivesse discutido a questão, foi na década de 60 que o biólogo Willian D. Hamilton desenvolveu melhor o conceito que ficou conhecido como “seleção de parentesco”. Segundo ele, quanto mais próximos forem os parentes, mais semelhantes serão suas cargas genéticas; assim, o sucesso reprodutivo não só de um indivíduo, mas também de sua família, seria favorecido pela evolução. Morrer por um filho, assim, embora impeça o sujeito de continuar passando adiante seus genes aumenta a chance de que seus descendentes o façam.

Fica claro que isso só tem sentido para relações próximas – biologicamente não há razão para ser altruísta com não-parentes. Agora, se lembrarmos que a occitocina fortalece os vínculos familiares, surge a pergunta: será que ela favoreceria o viés intragrupo? Ou seja: se biologicamente temos a tendência de nos sacrificarmos por parentes próximos, será que o efeito da occitocina poderia nos fazer mais prontos a agir em favor do nosso grupo, e não de grupos vistos como “outros”?

Parece que sim.

Estudando as atitudes de alunos holandeses com relação a mulçumanos e alemães, psicólogos descobriram que em cenários de um naufrágio, por exemplo, o uso de um spray de occitocina aumentava a chance de os voluntários salvarem um sujeito chamado Maarten (nome típico holandês), mas não alterava em nada sua tendência de salvar um Mohammed ou mesmo um Markus (nomes mulçumano e alemão, respectivamente). Da mesma forma, após uma dose de occitocina os sujeitos associavam com mais rapidez características positivas a holandeses e característcas negativas a mulçumanos e alemães. Os cientistas então sugerem que o etnocentrismo – favorecimento de seu grupo e não os outros – também tem raízes biológicas, e não apenas sócio-culturais.

É desnecessário dizer que isso tudo não justifica o preconceito ou a discriminação. Nossa biologia nos impõe uma série enorme de tendências, impulsos e inclinações contra as quais lutamos em prol de vivermos numa sociedade civilizada – são só as bestas-feras que cedem irrestritamente aos chamados da natureza (ok, alguns humanos também o fazem – por isso os denominamos animais). Combater o preconceito e relembrar que ser “dos nossos” não faz ninguém melhor do que ser “dos outros” é uma tarefa contínua, como contínuo deve ser o esforço para apagar as próprias fronteiras entre “nós” e “eles”.

ResearchBlogging.org
De Dreu, C., Greer, L., Van Kleef, G., Shalvi, S., & Handgraaf, M. (2011). Oxytocin promotes human ethnocentrism Proceedings of the National Academy of Sciences, 108 (4), 1262-1266 DOI: 10.1073/pnas.1015316108

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[tweetmeme]Afinal de contas, será que podemos explicar a sedução das obras de M. C. Escher? Após a hipótese existencial que arrisquei no último post, volto-me agora para uma explicação mais mundana, baseada nos estudos de Daniel E. Berlyne.

Berlyne foi um professor de psicologia interessado sobretudo em estética e suas relações com a psicobiologia, ou seja, com os aspectos orgânicos, biológicos, da experiência do belo. Estudando as respostas fisiológicas, como aumento de hormônios ou frequência cardíaca diante de estímulos visuais, percebeu que a complexidade, a ambiguidade e a novidade geravam um estado de alerta que influenciava diretamente nessas respostas, bem como no prazer que os estímulos geravam.

Em um de seus trabalhos seminais, Berlyne apresentou figuras com diferentes graus de complexidade a dezenas de sujeitos, variando o tempo e a repetição de exposição às figuras. Os voluntários tinham que classificar as figuras de muito agradáveis até muito desagradáveis, em diferentes momentos da experiência. Os resultados mostraram que figuras simples e estímulos monótonos praticamente não despertavam os indivíduos, sendo considerados menos prazerosos a cada apresentação. Já os estímulos novos e os complexos estimulavam o alerta; se tal estímulo fosse moderado as figuras eram consideradas agradáveis, mas se fosse muito intenso, havia um certo desprazer. No entanto, com a apresentação repetida das figuras complexas, a novidade reduzia-se lentamente, não a ponto de tornar a experiência tediosa, mas suficiente para reduzir a intensidade do alerta gerado, tornando a experiência agradável. A sensação de compreender melhor a figura a cada nova apresentação levava à redução do alerta, produzindo prazer semelhante à resolução de um enigma.

Escher aparentemente sabia disso. Suas gravuras levam a uma sensação de estranhamento inicial que a cada nova exposição diminui um pouco. No entanto, como possuem algo de insolúveis, sempre sobra uma tensão suficiente para estimular nosso alerta, dando à experiência estética um sabor constante de novidade.

Ao falar sobre suas criações Escher mostrou que, mesmo não sendo psicólogo, compreendeu perfeitamente esse processo, pois sabia que “Deve haver um certo enigma nelas, mas que não seja captado imediatamente pelo olhar”.

Sedução geométrica – Versão PDF

ResearchBlogging.org Berlyne, D. (1970). Novelty, complexity, and hedonic value Perception & Psychophysics, 8 (5), 279-286 DOI: 10.3758/BF03212593

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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