Pelo visto o Rafinha Bastos não leu a Carta aberta aos comediantes brasileiros, que publiquei há pouco tempo. Depois de ser obrigado a pedir desculpas ao vivo para uma apresentadora, foi suspenso do CQC por piada feita com Wanessa Camargo. Isso poucos meses após ter que prestar depoimento à polícia por piada com estupro. É chato dizer, mas eu avisei.
Antes que leitores furiosos me acusem de censurar a liberdade de expressão, de não entender o humor, blábláblá, aviso: eu pouco ou nada sei sobre o que deve ser proibido, permitido, estimulado ou criminalizado. Só sei que piadas causam um impacto em quem as ouve. Claro que seria ridículo crer que alguém ouve uma piada sobre estupro e pensa: “Puxa, é mesmo. Nunca tinha visto por esse lado. Vou estuprar a primeira mulher que eu encontrar”. Mas independentemente de se “levar a sério” uma anedota, ela pode reforçar comportamentos indesejáveis.
O melhor estudo que conheço sobre o tema chama-se “Mais do que só uma piada: a função liberadora-de-preconceitos do humor sexista”, publicado em 2007. Setenta e três estudantes masculinos foram divididos entre os muito e pouco preconceituosos. A seguir os cientistas os separaram em três grupos: um leu piadas sexistas, outro piadas diversas, e outro frases sexistas sérias. Depois disso, mostraram uma falsa notícia de jornal pedindo doações financeiras para uma ONG atuante com direitos das mulheres, e perguntaram quanto os sujeitos dariam, entre nada e US$ 20. Os resultados mostraram os sexistas que tinham lido piadas dessa natureza eram os que menos doavam (menos até do que os preconceituosos que liam frases sérias com as quais em tese concordavam). Numa segunda etapa, outros 30 rapazes também foram separados entre mais ou menos preconceituosos, e assistiram vídeos cômicos com ou sem referência a estereótipos femininos. Informou-se então que a universidade iria ter que cortar 20% das verbas de associações de estudantes no ano seguinte e pediu-se a eles que distribuíssem os cortes entre cinco grupos, um deles voltado para questões de gênero. Embora todos cortassem homogeneamente 20% de cada associação, os mais preconceituosos que tinham assistido vídeos sexistas foram os únicos a cortar mais da associação envolvida com direitos femininos do que das outras. Para os pesquisadores, o humor não faz ninguém assumir posturas contrárias a suas crenças, mas tem o poder de criar um ambiente onde determinadas posturas preconceituosas parecem mais socialmente aceitas. E isso tem um impacto real no comportamento das pessoas.
É por conta disso que dizer “é só uma piada, não deve ser levada a sério”, não é um salvo conduto para se falar qualquer coisa. E, para descontentamento de muitos, é o problema central na propaganda de lingerie da Gisele Bündchen. Você pode pensar que não tem nada de mais, que é uma brincadeira, que os homens é que são ridicularizados ali. Eu, particularmente, também penso assim. Mas infelizmente os machões que acreditam que o principal papel da mulher é o sexual são muitos (lembram do Ciro Gomes?), e uma propaganda estimulando o riso coletivo sobre o tema tende a dizer-lhes que estão certos, dificultando o caminho para a quebra do preconceito.
Ford, T., Boxer, C., Armstrong, J., & Edel, J. (2007). More Than “Just a Joke”: The Prejudice-Releasing Function of Sexist Humor Personality and Social Psychology Bulletin, 34 (2), 159-170 DOI: 10.1177/0146167207310022
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Pensando na questão israelo-palestina, lembrei-me de um estudo clássico sobre o diagnóstico psiquiátrico, e compartilho as reflexões.
O ódio ao inimigo, bem como os transtornos mentais, têm a ver com estigmas. Estigmas são poderosos, pois uma vez atribuídos a alguém têm a capacidade de explicar tudo sobre ele, ao mesmo tempo em que bloqueiam qualquer possibilidade de explicação alternativa. Além disso é muito difícil retirar um rótulo após assumirmos sua pertinência.
Isso ficou claro no estudo “On being sane in insane places”, publicado em 1973 na revista Science. Era um experimento para verificar se seria possível diferenciar doentes mentais de pessoas sãs durante uma internação psiquiátrica. Oito pessoas sem qualquer diagnóstico psiquiátrico se apresentaram, em diferentes momentos, a 12 hospitais psiquiátricos queixando-se de estar ouvindo vozes pouco claras, dizendo palavras como “vazio” ou “tum”, sem nenhum outro sintoma. Todos receberam o diagnóstico de esquizofrenia e foram internados. A partir daí comportavam-se de maneira absolutamente usual e passavam a dizer já não ouvir mais vozes. Apesar disso, as internações duraram entre 7 e 52 dias, com um média de 19, até que recebessem alta (sem que nenhum fosse descoberto como falso paciente).
As notas das internações revelam como, uma vez estabelecido o diagnóstico, todo o comportamento dos sujeitos passava a ser interpretado como sintoma. Mais do que isso, seu histórico pregresso era encaixado para se moldar ao que se esperava de um paciente com esquizofrenia. Após pregado o rótulo, ninguém da equipe, psiquiatras, psicólogos ou enfermeiros, foi capaz de não vê-los como doentes.
Penso que assim como “louco”, “inimigo” é um rótulo forte. E útil, pois ele explica toda a hostilidade que alguém nos dirige, e ainda melhor, explica nosso ódio a algumas pessoas. Claro que seria ingênuo reduzir todo o conflito do Oriente Médio a uma questão de estigma – nas altas esferas da geopolítica internacional importam muito pouco as pessoas envolvidas no front, se são boas ou más, bem ou mal-intencionadas, os interesses são outros. No rés do chão, entretanto, no dia-a-dia do cidadão que apóia um ou outro lado, a figura do inimigo é fundamental, pois por meio da despersonalização que o estigma traz é muito mais fácil convencer alguém de que outro ser humano merece ser assassinado.
Mas há um antídoto interessante para o estigma, encontrado por acaso na experiência com os falsos pacientes: embora nenhum deles tenha sido descoberto pela equipe, quase 30% dos reais doentes internados descobriram a verdade. “Você não é louco.” “Você deve ser um jornalista.” diziam eles. Por que? Provavelmente porque eles passavam muito mais tempo do que a equipe junto com os falsos pacientes, e essa proximidade os permitou ver a pessoa além do estigma. Talvez seja por isso que em locais longe da guerra, onde judeus e árabes são vizinhos e compartilham o cotidiano, eles não se veem necessariamente como inimigos, mas como indivíduos – a proximidade os leva a enxergar além dos rótulos.
Resolve a questão israelo-palestina? Não. Mas poderia resolver muito do ódio que se vê nos olhos das pessoas.
Rosenhan, D. (1973). On Being Sane in Insane Places Science, 179 (4070), 250-258 DOI: 10.1126/science.179.4070.250
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É certo os gays poderem adotar filhos? Ah, as polêmicas. Polêmicas só podem resistir num território de opiniões. Quando em vez de opiniões tratamos com conhecimento, a chance para discussões estéreis fica reduzida. Afinal, o conhecimento é um tipo de opinião, mas uma opinião verdadeira e justificada, já ensinava Aristóteles ao discorrer sobre o tema.
Então, se vamos falar de adoção por casais gays, que tal irmos aos fatos? Qualquer um pode ser contrário ou favorável, mas quando começam a falar que crescer com duas figuras do mesmo sexo é prejudicial, na minha cabeça acende uma luz amarela: prejudicial como? Quem disse? Quais as evidências? Intuitivamente pode-se imaginar que cause alguma confusão nas crianças ter dois pais ou duas mães, mas alguém já testou essa hipótese?
Já.
Cito dois artigos importantes sobre o tema.
O primeiro data de mais de trinta anos atrás (I). Em 1978 Richard Green, um psiquiatra e advogado americano, especializado em sexologia, estudou trinta e sete crianças criadas por mulheres homossexuais ou transsexuais. Os filhos tinham em média 9 anos (de 3 até 20) e conviviam com as mães em média há 5 anos (indo de 1 até 16). Green relata que das trinta e sete, trinta e seis tinha desejos, jogos, brincadeiras e vestimentas idênticos aos esperados para sua a idade e gênero.
Ok, essas crianças eram criadas por um homossexual, não por casais, pode-se objetar.
Pensando nisso, a psicóloga britânica Fiona Tasker, outra estudiosa do tema, fez uma revisão sistemática da literatura sobre a criação por homossexuais, tanto sozinhos como em casais (II). Os dados encontrados mostram que as crianças criadas nesses lares têm o mesmo desenvolvimento psicossocial que as outras crianças, vivenciando experiências familiares semelhantes. Se elas têm algo de diferente é a exposição precoce à existência de outras realidades familiares e a questões como diversidade sexual, tolerância e homofobia. Nada disso provou ter impacto negativo em seu desenvolvimento.
Isso significa que é certo casais gays poderem adotar? Nem sim, nem não. Definir se é certo ou errado vai além disso, envolvendo valores da sociedade, legislação federal etc. O que os estudos mostram, contudo, é que aqueles que quiserem se manifestar contra esse direito, que o façam invocando seus próprios interesses, sem brandir, hipocritamente, os efeitos deletérios sobre as crianças. Esses, os fatos até aqui mostram que são mera opinião infundada.
(I) Green R (1978). Sexual identity of 37 children raised by homosexual or transsexual parents. The American journal of psychiatry, 135 (6), 692-7 PMID: 655279 (II) Tasker F (2005). Lesbian mothers, gay fathers, and their children: a review. Journal of developmental and behavioral pediatrics : JDBP, 26 (3), 224-40 PMID: 15956875
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Já ouvi alguma vezes que a existência do Dia Internacional da Mulher é bobagem, que as mulheres já conseguiram seu lugar e que isso seria um reforço ao preconceito. Discordo.
As mulheres ainda podem ser consideradas minorias. São minoria não por estar em menor número, mas porque têm menos acesso a direitos e garantias, sofrem discriminação. No mercado de trabalho, por exemplo, elas já estão em maior número, mas ganham em média menos do que os homens, mesmo exercendo as mesmas funções. Uma data dedicada a elas, portanto, é bem vinda por nos lembrar do preconceito que ainda viceja nas relações de gênero.
É necessário, contudo, fugir do radicalismo que propõe a plena igualdade entre homens e mulheres. Um exemplo interessante das diferenças homem x mulher diz respeito às reações diante das ameaças. Durante muitas décadas acreditou-se que a única resposta ao estresse era a de fuga-ou-luta, até que uma pesquisadora questionou tal modelo. Os estudos eram quase todos realizados com machos e quase nunca com fêmeas; mas se o papel deles era lutar com o inimigo ou fugir, talvez a evolução inclinasse as fêmeas não para fugir nem para combater, mas para cuidar de sua prole. No início da década Shelley Taylor publicou um artigo que modificou o paradigma no estudo do estresse (1), mostrando que em fêmeas a adrenalina não agia sozinha na hora do perigo, mas era contrabalançada pela occitocina, neuropeptídeo sabidamente envolvido no comportamento afetivo e na maternagem, e diversas pesquisas vêm comprovando esse modelo desde então.
Preconceitos e determinantes culturais à parte, essas pesquisas mostram que o instinto feminino é diferente do masculino, o que é, no fim das contas, algo que sempre imaginamos: os homens estão mais prontos para briga, as mulheres, mais preocupadas com os filhos. Se é na diversidade que está a riqueza é bom que homens e mulheres sejam diferentes. O ruim é fazer dessas diferenças motivo de discriminação e preconceito.
Feliz Dia Internacional da Mulher para todas e todos.
Mulheres e homens: diferença e preconceito – baixe em PDF
(1)Taylor, S., Klein, L., Lewis, B., Gruenewald, T., Gurung, R., & Updegraff, J. (2000). Biobehavioral responses to stress in females: Tend-and-befriend, not fight-or-flight. Psychological Review, 107 (3), 411-429 DOI: 10.1037//0033-295X.107.3.411
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