Acho que não demora muito e começarão a aparecer relatos de pessoas que convulsionaram dentro dos cinemas brasileiros ao assistir o filme Amanhecer. A notícia de que um rapaz teve que ser levado às pressas para um hospital fazendo barulhos estranho e sem conseguir respirar após ver a cena do parto da protagonista foi logo seguida pela descoberta de outros casos semelhantes nos Estados Unidos. Ao que parece a sequência do parto é composta por um padrão alternante de luz branca, vermelha e preta, o que foi logo invocado como causa das “convulsões”.
Provavelmente o público-alvo da saga Crepúsculo não era nascido quando um episódio semelhante ocorreu no Japão, durante a transmissão do desenho Pokémon, febre nos anos noventa. Em 16 de dezembro de 1993 Pikachu, o monstro protagonista do desenho, usou seus poderes para disparar um “ataque elétrico”, o que foi representado por luzes piscando. Naquela noite a agência de defesa do Japão relatou que 618 crianças foram levas a pronto-socorros com sintomas variados, indo desde convulsões e desmaios a dores de cabeça e mal-estar. A mídia repercutiu o caso com grande intensidade e preocupação, reprisando a cena e levando a uma segunda onde de crises, cujos números são desconhecidos. Três dias depois, embora o número de crianças levadas a hospitais não fosse modificado, já se falava em cerca de 12.000 afetados com sintomas diversos.
Antes de desistir de ver o filme (por esse motivo), é preciso calma.
Em diversas análises retrospectivas de milhares de estudantes japoneses afetados, descobriu-se que uma parcela mínima deles apresentou de fato convulsões. Ocorre que existem casos de epilepsia sensíveis a certos padrões de estimulação luminosa, mas sua ocorrência é rara (estimada em 1/4.000, ou 0,025% da população), o que não explica a ocorrência maciça daqueles eventos. Levando em conta a grande diversidade de sintomas, a maioria inespecíficos e nada característicos de convulsões epilépticas, o mais provável é que tenha se tratado de um contágio psicológico, uma espécie de histeria coletiva, em grande parte alimentada por coberturas sensacionalistas.
Agora, pensando no sucesso esmagador da série Crepúsculo (praticamente metade de todas as salas de cinema do Brasil exibiram o filme Amanhecer na estreia, recorde absoluto), o alto grau de sugestionabilidade da faixa etária do público-alvo (na maioria adolescentes), e a velocidade de divulgação das notícias em tempos de rede social, imagino ser questão de horas até ouvirmos os primeiros relatos no país. Tomara que esteja errado.
Radford B, & Bartholomew R (2001). Pokémon contagion: photosensitive epilepsy or mass psychogenic illness? Southern medical journal, 94 (2), 197-204 PMID: 11235034
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Promessa é dívida: aí vai o post extra sobre a neuropsiquiatria de Alice no país das maravilhas e Alice através do espelho.
A esta altura muito já se falou sobre a suposta pedofilia do Lewis Carroll, pseudônimo do matemático, religioso e escritor Charles Lutwidge Dodgson (1838-1898). Carroll se tornou amigo da família Lidell, cujas filhas se tornaram próximas a ele; Alice, em especial, foi uma de suas musas. Embora ele negue que a personagem fosse nela inspirada, até as iniciais de seu pseudônimo, LC, formam um trocadilho em inglês com o nome da menina – e ele era todo trocadilhos. Além de escritor, Carroll foi um pioneiro da fotografia, e algumas imagens feitas por ele com meninas transpiram sensualidade. Embora haja a tese de que na época tais fotos tinham um caráter de idealização e louvor da pureza infantil, mais dois elementos ao menos indicam que havia algo de diferente no ar: as “cartas às suas amiguinhas”, nas quais enviava 10 milhões de beijos a elas (quando não pedia cachos de seus cabelos para beijar), e também o rompimento com a família Liddell, já que a mãe de Alice não só proibiu o encontro de suas filhas com o autor, como queimou suas cartas. O que ela teria percebido ninguém jamais soube. A verdade é que nenhum fato foi comprovado contra Lewis Carroll (se não me falha a memória, ele chegou a ser investigado formalmente). Pessoalmente, acredito que ele tenha passado boa parte de sua vida lutando contra seus desejos, sublimados – se me permitem os psicanalistas – nas obras de Alice.
Um problema bem menos controverso diz respeito à enxaqueca da qual ele provavelmente sofria. As alucinações visuais retratadas nas suas obras, sobretudo as distorções de tamanho experimentadas por Alice, são também encontradas nas auras enxaquecosas (alterações que geralmente antecedem as crises de dor de cabeça), nomeadas Síndrome de Alice no país das maravilhas em sua homenagem (I). É bem possível que Carroll tenha se inspirado em sua própria doença para criar tais imagens.
Finalmente, a intoxicação por mercúrio. Chamada hidrargirismo (do latim, hydrargyrum = mercúrio), tal transtorno era comum em chapeleiros, pois eles usavam mercúrio para curtir peles na fabricação de seus produtos, e acabavam por inalar os vapores emanados (II). Provavelmente foi isso que consagrou a expressão “mad as a hatter” (louco como um chapeleiro), famosa na era vitoriana, e que acabou por inspirar Carroll, embora o quadro clínico de tal intoxicação não seja compatível com o do Chapeleiro Maluco: no hidragirismo é mais comum encontrar confusão mental (como desorientação proveniente de sonolência) nos quadros agudos, e timidez excessiva, perda de autoconfiança, irritabilidade, alterações do humor, labilidade afetiva, insegurança, desânimo, insônia, falta de atenção e dificuldade de concentração nos casos crônicos, o que fala contra a hipótese de o Chapeleiro sofrer desse problema realmente (III).
As referências, trocadilhos, brincadeiras e simbolismos presentes nos dois livros Alice são praticamente inesgotáveis. Uma das melhores obras em português para destrinchá-las é a edição comentada publicada pela Jorge Zahar. Além dela, a extensa biografia de Lewis Carroll feita por Morton Cohen e publicada pela editora Record também é recomendável para quem quiser entender melhor esse que foi um dos autores mais influentes de todos os tempos.
(I) Podoll K, & Robinson D (1999). Lewis Carroll’s migraine experiences. Lancet, 353 (9161) (II) O’Carroll, R., Masterton, G., Dougall, N., Ebmeier, K., & Goodwin, G. (1995). The neuropsychiatric sequelae of mercury poisoning. The Mad Hatter’s disease revisited The British Journal of Psychiatry, 167 (1), 95-98 DOI: 10.1192/bjp.167.1.95 (III) Price, T. (1984). Did the Mad Hatter have mercury poisoning? BMJ, 288 (6413), 324-324
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