“Um dos traços mais notáveis de nossa cultura é que se fale tanta merda. Todos sabem disso. Cada um de nós contribui com sua parte. Mas tendemos a não perceber esta situação.” Harry Gordon Frankfurt, 1986
“Com fim de aumentar a consciência pública sobre os benefícios a serem obtidos pela pesquisa sobre o cérebro, o Congresso designou a década que se inicia em 1 º de janeiro de 1990 como a ‘Década do Cérebro’.” George Bush, pai, 1990
Depois da neuroeconomia, do neuromarketing, da neuroética, neuroestética, eu proponho oficialmente a criação da neurobullshit. Li recentemente o ensaio On bullshit (Sobre falar merda, editora intrínseca, 2005) e percebi que esse fenômeno descrito pelo filósofo Harry Frankfurt no final dos anos oitenta antecipava exatamente o que viria a acontecer pouco depois com as neurociências. Finda a década do cérebro, nunca se falou tanta bobagem sobre o tema.
O essencial sobre a bullshit, Frankfurt teoriza, não é que se trate de mentiras deliberadas, nem tentativas de enganar. O ponto é que a “bullshitagem” (como já ficou conhecida no português informal) dá de ombros para a verdade. Se é mentira ou não pouco importa, porque o “bullshiteiro” (vocábulo corrente em agências de propaganda) quer mesmo é passar uma determinada impressão sobre si, seja de importância, de sabedoria etc. É aí que entra a neurobullshit – independentemente do rigor das pesquisas científicas citadas, mesmo se os resultados precisarem ser distorcidos para caber no discurso, acrescentar o prefixo “neuro” traz um ar de seriedade, sofisticação e modernidade quase irresistíveis. Daí que jornalistas, blogueiros, palestrantes, médicos, pedagogos, todos queiramos entrar para o clube do cérebro – já que está todo mundo nessa onda, não posso ficar de fora. Como ensina Frankfurt, no entanto, “a produção de merda é estimulada sempre que as obrigações ou oportunidades que uma pessoa tem de se manifestar sobre algum tópico excederem seu conhecimento dos fatos pertinentes”.
Lendo cerca de três mil notícias publicadas nos principais jornais do Reino Unido durante a “Década do cérebro”, entre os anos de 2000 e 2010, cientistas encontraram três grandes grupos de distorções nos artigos sobre neurociências: 1) tratar o cérebro como um capital – o órgão é retratado nessas notícias como um bem a ser trabalhado, aumentando seu poder e nos dando vantagens diversas; 2) usar as pesquisas como meio de segregação – diferenças entre cérebro de gordos e magros, criminosos e cidadãos de bem, homens e mulheres são relatadas como fatos, distorcendo o significado real das pesquisas; 3) invocar o cérebro como prova biológica – a subjetividade humana ganha um status de “real” e “natural” quando alocada no cérebro, por vezes justificando fenômenos como preconceito, teimosia e até mesmo a maldade, como se fossem biologicamente determinados. Na maioria das vezes as notícias eram a definição acabada de bullshit: indiferentes à correta interpretação dos dados, estavam mais preocupadas em produzir manchetes vistosas pincelando verniz de ciência do que em relatar a verdade dos fatos.
Ocorre que as pesquisas em neurociências são em sua maioria muito complexas, cheias de detalhes técnicos, tornando difícil sua interpretação mesmo por cientistas que não dominem a técnica específica usada nesse ou naquele artigo. Imagine a dificuldade de tradução para o público leigo.
Isso não quer dizer que tais pesquisas não devam ser levadas ao conhecimento geral. Ao contrário: a sociedade tem desejo cada vez maior por notícias sobre neurociências. Só que precisa ser informada com qualidade. Se em vez de nos contentarmos com as manchetes fáceis sobre o cérebro nós procurarmos obter maior rigor na informação que nos apresentam, forçando as nossas fontes a estudar mais seriamente o tema, com certeza reduziremos o espaço para a neurobullshitagem, pois, como bem diagnostica o ensaio de Frarkfurt, “É inevitável falar merda toda vez que as circunstâncias exijam de alguém falar sem saber o que está dizendo”.
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O’Connor, C., Rees, G., & Joffe, H. (2012). Neuroscience in the Public Sphere Neuron, 74 (2), 220-226 DOI: 10.1016/j.neuron.2012.04.004
Quem conversa com dependentes químicos frequentemente ouve a seguinte explicação para sua incapacidade de conter o impulso de usar a droga: “É um demônio que toma conta de mim, parece que eu não sou eu. Isso é coisa do capeta”. Se desde os primórdios da história os homens põe a culpa pelas suas bobagens no além – a Ilíada registra que Agamenon sequestra a amante de Aquiles e depois diz que o fez por ter sido possuído por espíritos – isso ocorre porque há situações em que se experimenta uma verdadeira perda de controle. O nível de desconexão entre as intenções e os atos se torna tão intenso que tem-se a sensação de que alguma força externa está no comando.
O caso das drogas é característico. Inicialmente usadas por trazerem sensações de prazer, progressivamente esse bem estar se perde, e em mais ou menos tempo a pessoa se vê compelida a usar a droga não mas para se sentir bem, mas apenas para deixar de se sentir mal. Mais curioso ainda é o caso de alguns psicotrópicos sintéticos que não dão prazer algum, mas levam os sujeitos a repetir seu uso de forma contínua, tornando-se dependentes.
O querer e o gostar, tem-se descoberto, são coisas diferentes, não só do ponto de vista psicológico, mas em suas próprias raízes cerebrais. Há muito se sabe que o neurotransmissor dopamina é liberado em atividades prazerosas, levando as pessoas a repetirem-nas – alimentação, sexo e até mesmo solução de problemas trazem um sensação boa, e tendem a ser repetidas. Nem é necessário explicar que o ganho evolutivo por trás disso é evidente, pois nossos antepassados que gostavam mais de comer, de se reproduzir e de resolver os desafios da sobrevivência deixaram mais descendentes. Mais recentemente, contudo, cientistas vêm mostrando que a dopamina não marca o prazer em si, mas a importância daquele comportamento, levando a pessoa a repeti-lo. Por isso, drogas que levam à liberação artificial da dopamina geram a compulsão por seu uso – independente da sensação que produzam. Inversamente, experimentos com ratos revelaram que mesmo com bloqueio artificial da ação da dopamina eles conseguem ter prazer em substâncias (como os cientistas sabem que eles gostaram do que provaram? Contando o número de vezes que eles lambiam os beiços, um marcador de prazer que está presente até mesmo em nós, humanos).
Essa compulsão sem prazer, desmascarada agora pelos cientistas, já fora descrita por C. S. Lewis, coincidentemente (ou não) no livro Cartas de um diabo a seu aprendiz, no qual narra as lições de um demônio experiente a seu jovem sobrinho. Numa das referências que faz ao prazer, o velho diabo ensina que a forma de atazanar os humanos é gerar “Um aumento considerável no desejo pela obtenção cada vez menor do prazer relacionado é a fórmula! Isto dá mais resultado, e é portanto o melhor estilo a adotarmos. Conseguir a alma do homem dando a ele NADA em troca – é o que realmente aquece o coração de Nosso Pai Lá de Baixo”.
A neurociência vem mostrar que o desespero dos dependentes químicos pode até não ser “coisa do demo”. Mas ouvindo o relato deles e lendo essa descrição do C. S. Lewis, temos de convir que a armadilha da dependência parece, por assim dizer, diabólica.
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Morten L. Kringelbach, & Kent C. Berridge (2012). The Joyful Mind Scientific American , 307, 40-45 DOI: 10.1038/scientificamerican0812-40
Vingança. Esse parecer ser o tema da semana. Ao nos aproximarmos do marco de um ano do massacre de Realengo temos notícia do crime em massa em Oakland, nos Estados Unidos. Enquanto isso, na ficção, o desejo por retaliação é a mola mestra da novela Avenida Brasil, que promete trazer a ambiguidade psicológica para a dramaturgia popular.
Os crimes como o de Realengo e de Oakland são classificados como crimes de vingança porque em sua maioria são motivados por uma sensação de injustiça acumulada ao longo do tempo. As vítimas não são escolhidas de forma casual, mas, ao menos na mente do perpetrador, são de alguma forma relacionadas ao sofrimento que ele passou. E é interessante notar que, mesmo não sendo improvisados (ao contrário, são bem planejados durante um bom tempo), tais eventos costumam acabar com a morte do assassino, ou no mínimo com sua prisão – eles praticamente nunca saem ilesos. A revanche, portanto, tem um preço que o perpetrador antevê mas opta por pagar.
E vingança é assim mesmo.
Para estudá-la melhor cientistas criaram o seguinte experimento: voluntários ganhavam 10 Unidades Monetárias (UM) cada um. O primeiro, chamemos de A, podia confiar no segundo, B, e dar toda sua quantia para ele. Se o fizesse, o pesquisador quadriplicava o total, deixando B com 50 UMs e A com zero. Depois disso B podia repartir seus 50 com A, como retribuição pela confiança, ou traí-lo ficar com tudo. Mas aí A podia impor uma pena pela traição; algumas vezes isso não custava nada mas em outras havia também um custo para A (A perderia uma UM para cada duas que cortasse de B). Os resultados não deixaram dúvida: o núcleo estriado do cérebro, área que sinaliza prazer e recompensa, era ativado quando A decidia punir B, mostrando que, para o cérebro, a vingança realmente é doce. Mesmo quando A sabia que a vingança teria um custo pessoal essa região do cérebro era ativada (nesse caso, junto com o córtex pré-frontal medial, região envolvida nos cálculos de custo e benefício). E quanto mais ativada fosse a área da recompensa do voluntário quando não havia custo pessoal, maior era a chance de ele retaliar quando houvesse. Ou seja, quanto maior a satisfação pela vingança, menos importância se dá ao preço a pagar.
Esse balanço entre o custo pessoal e a sensação de recompensa traz a ambiguidade de sentimentos envolvida nas situações de vingança. Na novela a protagonista abandona sua família, seu namorado e sua vida estável na Argentina para voltar ao Brasil tentar se vingar. Paga, portanto, um alto preço pessoal, e, segundo o autor, na expectativa de ter sua recompensa se tonará quase uma vilã nos próximos meses, passando a se questionar até que ponto vale a pena.
Nos assassinatos em massa, por outro lado, os sujeitos sabem de antemão que pagarão alto, possivelmente com suas próprias vidas. Mas talvez a realidade já tenha se tornado intolerável para eles, só restando a tênue promessa de uma recompensa na vingança. Claro que são casos que não têm causa única, originando-se de uma cadeia de fatores que culminam na tragédia. Mas se a variável vingança está quase sempre presente, imagino que se tratarmos os outros como queremos ser tratados e educarmos nossos filhos para fazer o mesmo, talvez possamos prevenir pelos menos parte desses crimes, trabalhando ao mesmo tempo por um mundo menos hostil.
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de Quervain, D. (2004). The Neural Basis of Altruistic Punishment Science, 305 (5688), 1254-1258 DOI: 10.1126/science.1100735
Imagine um livro que fosse no formato de um pequeno e flexível computador, com tela no lugar de páginas e uma capa de plástico. Agora imagine que seu conteúdo abrangesse todo o conhecimento disponível, e que apesar de alguns funcionários e colaboradores fixos dessa enciclopédia, qualquer pessoa pudesse contribuir para os verbetes, atualizados por meio de uma rede. Não, não estamos falando de iPads e Wikipedias. Estamos falando de um tempo em que isso era ficção cientítica; das boas.
No final da década de 70 o escritor Douglas Adams escreveu a série “Guia do Mochileiro das Galáxias”. Tal guia tinha na capa o slogan “Não entre em pânico!”, e sempre trazia conselhos aos personagens envolvidos nas mais improváveis situações, que se não eram úteis eram ao menos bastante divertidos. Concebida como trilogia, a série chegou a cinco livros escritos por Adams, falecido em 2001. Agora, após quase vinte anos da publicação do último livro, a viúva de Adams autorizou Eoin Colfer (autor dos livros da série Artemis Fowl) a escrever uma continuação, publicada no Brasil em parceria pela Record e a Arqueiro (selo literário da Sextante) com o título “E tem outra coisa…”.
Colfer resgata os personagens e mantém o ritmo tresloucado da série, recheando a trama de menções aos livros anteriores. Como neles, a história é entremeada por transcrições literais dos verbetes do Guia, e apesar de o autor abusar um pouco deles não chega a comprometer o desenrolar da história. Embora seja um livro de humor, sem pretensões proféticas, creio que ele acerte numa previsão quando um dos personagens diz: “Li sobre isso numa coisa que tem páginas. Um negócio antigo, onde você vira páginas”.
Acho que é esse o destino dos livros. Note que no trecho acima fica claro que eles não desapareceram totalmente; estão por aí, o personagem até já leu um, mas não são mais a fonte primária de informação.
Sustenta essa perspectiva uma pesquisa realizada pela Universidade Johaness Gütemberg de Mainz, Alemanha, em parceria com uma empresa de marketing daquele país. Vinte voluntários com média de idade de 26 anos e dez com média de 64 anos foram convidados a ler nove textos, três num iPad, três num Kindle (e-book da Amazon) e três em papel, com diferentes níveis de complexidade. Além de testes de compreensão e fixação de conteúdos, os sujeitos foram submetidos a eletroencefalograma (EEG) e rastreamento de movimento dos olhos.
Embora quase todos dissessem, numa avaliação subjetiva, que preferiam ler em papel, não houve diferença quanto à compreensão e fixação das informações em qualquer dos suportes, em ambas faixas etárias. O EEG mediu as variações de ondas Theta, que refletem esforço cognitivo ou estresse, e surpreendentemente houve menos variação na leitura do iPad, indicando menor esforço cognitivo nesta tarefa. O movimento dos olhos – que tende a ser mais lento em leituras mais trabalhosas – não mostrou diferenças entre aparelhos ou grupos. Outra diferença inesperada foi que, nos mais idosos, a leitura em tablet foi mais rápida do que em e-book ou papel, sem prejuízo de entendimento.
Não encontrei o estudo publicado numa revista científica, e deve-se ter em mente que, embora realizado por uma equipe universitária séria, o patrocinador é dono da maior plataforma de livros eletrônicos alemã. Feitas essas ressalvas, contudo, creio mesmo que a leitura não seja prejudicada pelo meio em que é feita, sejam tablets, e-books ou papel. Sendo só uma questão de costume acho que, diante das facilidades que os meios eletrônicos apresentam, logo os livros serão de fato “um negócio antigo”. Mas o seu cérebro não notará diferença, por isso, “Não entre em pânico!”.
Relatório da pesquisa (em alemão) aqui.
Sexo – ou, mais especificamente, a falta de sexo – pode ter sido importante no Prêmio Nobel da Paz de 2011. Das três as vencedoras, mulheres reconhecidas “por sua luta não violenta pela segurança das mulheres e pelos seus direitos a participar dos processos de paz”, como disse o comitê, uma é do Iêmen – a jornalista Tawakkul Karman – e as outras duas da Libéria – Ellen Johnson Sirleaf, presidente do país, e a ativista Leymah Gbowee, que liderou uma greve de sexo das mulheres em seu país.
Assistente social nos tempos da guerra civil que assolava a Libéria, Leymah resolveu agir em prol do fim dos conflitos, convocando as mulheres a orarem pela paz, independente de seu credo ou religião. A mobilização feminina cresceu até chegar à proposta de negar sexo aos homens até que eles resolvessem integrá-las no processo de negociação da paz, o que acabou realmente acontecendo. Nas palavras de Leymah, era um “exército de mulheres vestidas de branco, que se ergueram quando ninguém queria fazê-lo, sem medo, porque as piores coisas imagináveis já haviam ocorrido conosco”.
Impossível não lembrar da comédia Lisístrata, de Aristófanes, escrita mais de 400 anos antes de Cristo na Grécia Antiga. Durante a Guerra do Peloponeso, que opôs Atenas e Esparta, uma mulher chamada Lisístrata se levanta e conclama as cidadãs gregas a deixarem seus homens sem sexo até que eles acabassem com aquela guerra interminável. Receosas inicialmente, elas aderem, e apesar de uma ou outra tentativa de “furar a greve”, o movimento se mantém até que a paz é restabelecida (entre as cidades e entre os gêneros). O paralelo com a Libéria fica ainda mais evidente quando Lisístrata fala da frustração que as mulheres sentem nos tempos de guerra, quando os homens ignoram suas opiniões e tomam decisões estúpidas, que afetam a vida de todos.
Para além dos significados e leituras sócio-antropológicas que as duas histórias têm, existe aí também um aspecto bio-psicológico que me arrisco a apontar.
O hormônio testosterona está associado tanto ao comportamento sexual dos machos como a alguns padrões de agressividade, não apenas no reino animal: as diversas pesquisas sobre o tema já não deixam dúvida que os humanos também são suscetíveis a tal influência. O nível desse hormônio tende aumentar após a relação sexual, a manter-se mais altos em períodos de atividade sexual frequente, a declinar na ausência de relações e a subir mesmo em algumas situações como flerte, que só ocasionalmente poderia levar ao sexo. Ao mesmo tempo, testosterona alta predispõe a reações mais agressivas em cenários competitivos, além de aumentar a agressividade em disputas por dominância, quer seja do grupo ou do território.
O comportamento humano não pode ser reduzido a meras respostas a flutuações hormonais, é claro. Mas acho no mínimo divertido imaginar que, privados de sexo os homens – de políticos a soldados – a testosterona de toda nação possa ser reduzida, tornando-a menos agressiva e territorialista e dando uma chance à paz.
Archer, J. (2006). Testosterone and human aggression: an evaluation of the challenge hypothesis Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 30 (3), 319-345 DOI: 10.1016/j.neubiorev.2004.12.007
Alguns episódios dos Simpsons me fazem rir sozinho. Em um desses Homer transforma sem querer sua torradeira numa máquina do tempo, e voltando à pré-história causa alterações bizarras no presente ao interferir minimamente no passado. Quando espirra na cara de um dinossauro causando a grande extinção da espécie, por exemplo, volta ao presente e encontra sua família milionária, os filhos educadíssimos, a esposa linda; mas ao descobrir que ninguém sabe o que são rosquinhas, se desespera e volta para arrumar aquele estrago. A essa altura eu já estava rindo, mas assim que ele sai a Marge comenta com naturalidade que estava chovendo de novo, e a cena mostra milhares de rosquinhas caindo do céu. Gargalhadas.
Ok, pode não ser tão engraçado assim quando eu conto (assista e depois me conte – é o episódio “A casa do horror V”, da sexta temporada). Mas não foi por isso que lembrei do episódio, e sim porque ele mostra a grande penetração na cultura pop dos conceitos da teoria do caos, segundo a qual nos sistemas caóticos mudanças infinitesimais nas condições iniciais levam a enormes alterações mais tarde.
Acabo de ler um livrinho interessante sobre o tema, “Introducing Chaos – a graphic guide“. Claro que isso não me fez um especialista no tema, mas pela primeira vez percebi com clareza que essa abordagem poderá ajudar a compreender algumas questões centrais das neurociências.
Como surge a mente? Ou seja, nossos pensamentos, emoções, o amor, a saudade, a lembrança da fórmula de Báscara e a aflição ao ouvir o motorzinho do dentista, tudo isso pode ser explicado apenas pelos impulsos elétricos viajando entre os neurônios? Tendemos a achar que não, pois são subjetivos, experimentados como não-materiais; como seriam explicados apenas pela matéria bruta, pouco mais de um quilo de miolos? Por outro lado, se não forem causados pelo cérebro, o que os causa? (Alma e espírito não estão em questão, por serem matéria de fé e não de ciência). Se no cérebro material não causa a mente imaterial, surgiria ela literalmente “do nada”?
A teoria do caos e dos sistemas complexos oferece uma possibilidade de explicar como o cérebro limitado causa a mente ilimitada, utilizando conceitos como não-linearidade e feedback.
Nos sistemas lineares, quando você sabe o estado atual é possível dizer exatamente qual será o próximo estado. Mas em sistemas não-lineares, é muito difícil prever o que irá acontecer no momento seguinte, mesmo conhecendo o presente – justamente porque ele não é linear. Já o feedback faz com que os resultados de um sistemas influenciem em seu funcionamento – como na microfonia, quando o microfone capta o som que ele mesmo gera no alto-falante.
O cérebro é um sistema complexo, já que nossos 100 bilhões de neurônios geram 100 trilhões de sinapses, estima-se. São muitas variáveis independentes (os neurônios), mas conectadas (as sinapses), produzindo um sistema não-linear que influencia a si mesmo de diversas maneiras. A mente, ou a consciência, pode então ser entendida como o resultado que emerge desse sistema. Ela pode, sim, ter uma causa física, mas ao se configurar como um sistema caótico, torna-se imprevisível e aparentemente aleatória, onde modificações imperceptíveis num momento podem levar a transformações radicas em outro. Tudo isso confere a ela sua característica essencial de imaterialidade.
É claro que a compreensão profunda das implicações da teoria do caos para a psiquiatria depende de muito mais matemática do que eu sou capaz sequer de imaginar. Mas se mesmo sabendo tão pouco tive um insight importante (para mim, pelo menos) sobre a relação mente-cérebro, nem imagino o que pode acontecer quando os neurocientistas se apropriarem desse conhecimento. Acho que é imprevisível.
Peço constrangida licença aos leitores para fazer jabá. Ao que me consta isso não é lá muito elegante nos meios jornalístico ou científico, mas é uma forma de os leitores do blog saberem que novamente estou me aventurando no papel, não só na rede: no dia 18 de novembro iremos lançar o livro Machado de Assis: a loucura e as leis – Direito, Psiquiatria e Sociedade em 12 contos machadianos.
Se o leitor atentar para o subtítulo do livro irá notar uma coincidência com o nome deste blog: Psiquiatria e Sociedade. Não é por acaso. Quem acompanha os artigos semanais já notou que minha ideia é dialogar de forma ampla com a sociedade a partir dos conhecimentos sobre mente, cérebro e comportamento. As pesquisas nessas áreas são tantas, e tão interessantes, que acredito poderem elucidar muito sobre nós mesmos, ajudando-nos a nos entender um pouco mais; no final das contas, creio que esse conhecimento acumulado pode ser de grande ajuda em nossa caminhada vida afora. Não queremos todos fazer desse mundo um lugar melhor, afinal? Essa é minha contribuição.
O livro reúne 12 contos do Machado de Assis que de alguma forma dizem respeito à loucura e à forma como a sociedade lida com ela, refletida sobretudo nas leis. Após cada um dos contos eu apresento um breve ensaio, destacando e discutindo esses aspectos, tanto do ponto vista histórico como atual. Como digo na introdução, não pretendo oferecer uma leitura reducionista da obra machadiana, mas sim ampliar suas possibilidades, acrescentando um ponto de vista até então inexplorado.
Espero que muitos dos que se interessam por esse diálogo entre Psiquiatria e Sociedade possam comparecer ao lançamento, para que finalmente possamos dialogar ao vivo. Aos que não puderem, continuamos a conversar por aqui mesmo. Até lá.
Onde comprar:
Livraria Cultura
Livraria Resposta
Disal
Livraria da Folha
Book Stop Livraria
Saraiva
Siciliano
Martins Fontes Paulista
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Lembro-me quando um posto de gasolina foi aberto bem próximo de onde eu morava. “Que bom”, pensei, “dá até para ir a pé”, mas no mesmo instante me dei conta da minúscula utilidade que é poder ir sem carro a um posto. O otimismo, por mais agradável que seja, é meio burro, distante da realidade; por menos que gostemos, o pessimismo está mais próximo de refletir as coisas como são. Existem teorias bastante estudadas sobre o “realismo depressivo”, confirmada por diversos experimentos (I), segundo a qual a depressão impede as pessoas de exercer o auto-engano, e quando solicitadas a estimar quanto tempo gastarão numa tarefa, ou qual será sua performance, elas o fazem com mais precisão dos que as pessoas não deprimidas. O otimismo atrapalha.
Agora um estudo diferente comprovou que pacientes deprimidos têm dificuldade de perceber o contraste entre preto e branco, vendo o mundo acinzentado (II). Os cientistas mostravam uma figura semelhante a um tabuleiro de xadrez, com casas pretas e brancas que se alternavam 12 vezes por segundo, com níveis diferentes de contraste entre o preto e o branco. Ao mesmo tempo, mediam a percepção do contraste com eletrodos colocados nos olhos dos sujeitos, avaliando diretamente a resposta ao estímulo, independente da consciência. Conforme aumentava o contraste entre os estímulos, mais aumentava a resposta da retina nos voluntários normais, mas isso não acontecia entre os deprimidos, mostrando que eles não percebem os contrastes tão bem, vendo tudo mais cinza.
Ao saber disso fiquei tentado a fazer um paralelo com a visão de mundo pessimista, que tende a ver as coisas mais como elas são de fato: não seria possível imaginar que os não deprimidos é que pintam o mundo com tons fortes, exagerando nos contrastes? Vai ver o preto e o branco não estão assim tão longe, mas só os que sofrem do realismo depressivo enxergam (e aceitam) que o mundo é mesmo cinza.
(I) Allan, L., Siegel, S., & Hannah, S. (2007). The sad truth about depressive realism The Quarterly Journal of Experimental Psychology, 60 (3), 482-495 DOI: 10.1080/17470210601002686 (II) Bubl E, Kern E, Ebert D, Bach M, & Tebartz van Elst L (2010). Seeing gray when feeling blue? Depression can be measured in the eye of the diseased. Biological psychiatry, 68 (2), 205-8 PMID: 20359698
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“O seu problema é que você não tem rádio no carro!” – disse-me certa vez o Marcelo Leite (que não é o jornalista de ciência, mas um dos amigos mais inteligentes que já tive). Éramos solteiros e queríamos nos dar bem, como todo solteiro, mas um pouco por ser do contra, um pouco por ser sovina, nada me convencia a instalar um CD player no carro. “Se você cria um clima, as coisas ficam mais fáceis”. – garantia ele. Como também estava sozinho não tinha lá muito crédito, mas cientistas franceses acabam de comprovar que tinha razão (não disse que ele era inteligente?).
Cento e oitenta e três estudantes, mulheres entre 18 e 20 anos, foram convidadas para testar um biscoito orgânico e compará-lo com o regular. Mas na verdade a condição real de teste era outra: a voluntária esperava três minutos numa sala, até que uma auxiliar a levasse ao entrevistador; na espera havia uma música de fundo que podia ser uma famosa canção romântica francesa – Je l’aime à mourir – ou uma música neutra. O entrevistador fora um rapaz escolhido como o que tinha a aparência mais mediana dentre doze voluntários, de acordo com um ranking feito por dezoito outras mulheres. Ao cabo de cinco minutos de entrevista (onde não havia mais música), após provar os dois biscoitos, a conversa era interrompida pela auxiliar, que pedia aos dois que a esperassem voltar com um questionário dali a dois a três minutos. Nesse ínterim o rapaz – que também não sabia o propósito real da pesquisa – devia dizer: “Meu nome é Antoine, como você sabe, e eu te acho muito bonita, e estava pensando se você me daria seu telefone. Eu te telefono depois e a gente poderia beber alguma coisa semana que vem”. O procedimento era padronizado, e deveria ser iniciado e finalizado com um sorriso.
Embora logo após a experiência nenhuma das moças lembrasse qualquer coisa sobre a música de fundo na sala de espera, a diferença entre os dois grupos foi notável: mais da metade das mulheres que aguardaram com um fundo de música romântica deu o telefone (52,2%), contra apenas pouco mais de um quarto delas quando influenciada por música neutra (27,9%).
Se três minutos fizeram tanta diferença, imagine uma carona inteira. Acho que foi por isso que o meu amigo casou antes do que eu.
Gueguen, N., Jacob, C., & Lamy, L. (2010). ‘Love is in the air’: Effects of songs with romantic lyrics on compliance with a courtship request Psychology of Music, 38 (3), 303-307 DOI: 10.1177/0305735609360428
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Em tempo de Copa do Mundo, a neurociência pode ajudar na hora de bater um pênalti. Assim como os motoqueiros que fazem rally aprendem logo que a melhor maneira para desviar de um buraco é não olhar para ele, um estudo acaba de mostrar que não fixar os olhos no goleiro pode ser a chave para um pênalti bem cobrado.
Os pesquisadores colocaram um aparelho para rastrear o olhar de catorze jogadores de futebol universitário da Inglaterra, todos destros e com idade média de 20 anos. Para um grupo era pedido que batesse o pênalti da melhor forma possível, enquanto para outro foram incluídos estímulos para aumentar a ansiedade, como oferecer 50 libras para o melhor jogador e avisar que seria feito um ranking público com as performances.
Os resultados mostraram que os jogadores na condição de ansiedade logo fixavam o olhar no goleiro, e o mantinham fixo nele por mais tempo do que os outros participantes, mais tranqüilos. Isso se refletiu de duas maneiras: os ansiosos tenderam a chutar mais próximo ao centro do gol, ao alcance do goleiro, e também chutaram para fora mais do que os jogadores calmos.
Assim como fazem os torcedores angustiados na hora dos pênaltis, parece ser uma boa ideia também para os jogadores “olhar para outro lado”.
Wilson MR, Wood G, & Vine SJ (2009). Anxiety, attentional control, and performance impairment in penalty kicks. Journal of sport & exercise psychology, 31 (6), 761-75 PMID: 20384011
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