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Daniel Martins de Barros

Vingança. Esse parecer ser o tema da semana. Ao nos aproximarmos do marco de um ano do massacre de Realengo temos notícia do crime em massa em Oakland, nos Estados Unidos. Enquanto isso, na ficção, o desejo por retaliação é a mola mestra da novela Avenida Brasil, que promete trazer a ambiguidade psicológica para a dramaturgia popular.

Os crimes como o de Realengo e de Oakland são classificados como crimes de vingança porque em sua maioria são motivados por uma sensação de injustiça acumulada ao longo do tempo. As vítimas não são escolhidas de forma casual, mas, ao menos na mente do perpetrador, são de alguma forma relacionadas ao sofrimento que ele passou. E é interessante notar que, mesmo não sendo improvisados (ao contrário, são bem planejados durante um bom tempo), tais eventos costumam acabar com a morte do assassino, ou no mínimo com sua prisão – eles praticamente nunca saem ilesos. A revanche, portanto, tem um preço que o perpetrador antevê mas opta por pagar.

E vingança é assim mesmo.

Para estudá-la melhor cientistas criaram o seguinte experimento: voluntários ganhavam 10 Unidades Monetárias (UM) cada um. O primeiro, chamemos de A, podia confiar no segundo, B, e dar toda sua quantia para ele. Se o fizesse, o pesquisador quadriplicava o total, deixando B com 50 UMs e A com zero. Depois disso B podia repartir seus 50 com A, como retribuição pela confiança, ou traí-lo ficar com tudo. Mas aí A podia impor uma pena pela traição; algumas vezes isso não custava nada mas em outras havia também um custo para A (A perderia uma UM para cada duas que cortasse de B). Os resultados não deixaram dúvida: o núcleo estriado do cérebro, área que sinaliza prazer e recompensa, era ativado quando A decidia punir B, mostrando que, para o cérebro, a vingança realmente é doce. Mesmo quando A sabia que a vingança teria um custo pessoal essa região do cérebro era ativada (nesse caso, junto com o córtex pré-frontal medial, região envolvida nos cálculos de custo e benefício). E quanto mais ativada fosse a área da recompensa do voluntário quando não havia custo pessoal, maior era a chance de ele retaliar quando houvesse. Ou seja, quanto maior a satisfação pela vingança, menos importância se dá ao preço a pagar.

Esse balanço entre o custo pessoal e a sensação de recompensa traz a ambiguidade de sentimentos envolvida nas situações de vingança. Na novela a protagonista abandona sua família, seu namorado e sua vida estável na Argentina para voltar ao Brasil tentar se vingar. Paga, portanto, um alto preço pessoal, e, segundo o autor, na expectativa de ter sua recompensa se tonará quase uma vilã nos próximos meses, passando a se questionar até que ponto vale a pena.

Nos assassinatos em massa, por outro lado, os sujeitos sabem de antemão que pagarão alto, possivelmente com suas próprias vidas. Mas talvez a realidade já tenha se tornado intolerável para eles, só restando a tênue promessa de uma recompensa na vingança. Claro que são casos que não têm causa única, originando-se de uma cadeia de fatores que culminam na tragédia. Mas se a variável vingança está quase sempre presente, imagino que se tratarmos os outros como queremos ser tratados e educarmos nossos filhos para fazer o mesmo, talvez possamos prevenir pelos menos parte desses crimes, trabalhando ao mesmo tempo por um mundo menos hostil.

ResearchBlogging.org
de Quervain, D. (2004). The Neural Basis of Altruistic Punishment Science, 305 (5688), 1254-1258 DOI: 10.1126/science.1100735

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Imagine um livro que fosse no formato de um pequeno e flexível computador, com tela no lugar de páginas e uma capa de plástico. Agora imagine que seu conteúdo abrangesse todo o conhecimento disponível, e que apesar de alguns funcionários e colaboradores fixos dessa enciclopédia, qualquer pessoa pudesse contribuir para os verbetes, atualizados por meio de uma rede. Não, não estamos falando de iPads e Wikipedias. Estamos falando de um tempo em que isso era ficção cientítica; das boas.

No final da década de 70 o escritor Douglas Adams escreveu a série “Guia do Mochileiro das Galáxias”. Tal guia tinha na capa o slogan “Não entre em pânico!”, e sempre trazia conselhos aos personagens envolvidos nas mais improváveis situações, que se não eram úteis eram ao menos bastante divertidos. Concebida como trilogia, a série chegou a cinco livros escritos por Adams, falecido em 2001. Agora, após quase vinte anos da publicação do último livro, a viúva de Adams autorizou Eoin Colfer (autor dos livros da série Artemis Fowl) a escrever uma continuação, publicada no Brasil em parceria pela Record e a Arqueiro (selo literário da Sextante) com o título “E tem outra coisa…”.

Colfer resgata os personagens e mantém o ritmo tresloucado da série, recheando a trama de menções aos livros anteriores. Como neles, a história é entremeada por transcrições literais dos verbetes do Guia, e apesar de o autor abusar um pouco deles não chega a comprometer o desenrolar da história. Embora seja um livro de humor, sem pretensões proféticas, creio que ele acerte numa previsão quando um dos personagens diz: “Li sobre isso numa coisa que tem páginas. Um negócio antigo, onde você vira páginas”.

Acho que é esse o destino dos livros. Note que no trecho acima fica claro que eles não desapareceram totalmente; estão por aí, o personagem até já leu um, mas não são mais a fonte primária de informação.

Sustenta essa perspectiva uma pesquisa realizada pela Universidade Johaness Gütemberg de Mainz, Alemanha, em parceria com uma empresa de marketing daquele país. Vinte voluntários com média de idade de 26 anos e dez com média de 64 anos foram convidados a ler nove textos, três num iPad, três num Kindle (e-book da Amazon) e três em papel, com diferentes níveis de complexidade. Além de testes de compreensão e fixação de conteúdos, os sujeitos foram submetidos a eletroencefalograma (EEG) e rastreamento de movimento dos olhos.

Embora quase todos dissessem, numa avaliação subjetiva, que preferiam ler em papel, não houve diferença quanto à compreensão e fixação das informações em qualquer dos suportes, em ambas faixas etárias. O EEG mediu as variações de ondas Theta, que refletem esforço cognitivo ou estresse, e surpreendentemente houve menos variação na leitura do iPad, indicando menor esforço cognitivo nesta tarefa. O movimento dos olhos – que tende a ser mais lento em leituras mais trabalhosas – não mostrou diferenças entre aparelhos ou grupos. Outra diferença inesperada foi que, nos mais idosos, a leitura em tablet foi mais rápida do que em e-book ou papel, sem prejuízo de entendimento.

Não encontrei o estudo publicado numa revista científica, e deve-se ter em mente que, embora realizado por uma equipe universitária séria, o patrocinador é dono da maior plataforma de livros eletrônicos alemã. Feitas essas ressalvas, contudo, creio mesmo que a leitura não seja prejudicada pelo meio em que é feita, sejam tablets, e-books ou papel. Sendo só uma questão de costume acho que, diante das facilidades que os meios eletrônicos apresentam, logo os livros serão de fato “um negócio antigo”. Mas o seu cérebro não notará diferença, por isso, “Não entre em pânico!”.

Relatório da pesquisa (em alemão) aqui.

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Sexo – ou, mais especificamente, a falta de sexo – pode ter sido importante no Prêmio Nobel da Paz de 2011. Das três as vencedoras, mulheres reconhecidas “por sua luta não violenta pela segurança das mulheres e pelos seus direitos a participar dos processos de paz”, como disse o comitê, uma é do Iêmen – a jornalista Tawakkul Karman – e as outras duas da Libéria – Ellen Johnson Sirleaf, presidente do país, e a ativista Leymah Gbowee, que liderou uma greve de sexo das mulheres em seu país.

Assistente social nos tempos da guerra civil que assolava a Libéria, Leymah resolveu agir em prol do fim dos conflitos, convocando as mulheres a orarem pela paz, independente de seu credo ou religião. A mobilização feminina cresceu até chegar à proposta de negar sexo aos homens até que eles resolvessem integrá-las no processo de negociação da paz, o que acabou realmente acontecendo. Nas palavras de Leymah, era um “exército de mulheres vestidas de branco, que se ergueram quando ninguém queria fazê-lo, sem medo, porque as piores coisas imagináveis já haviam ocorrido conosco”.

Impossível não lembrar da comédia Lisístrata, de Aristófanes, escrita mais de 400 anos antes de Cristo na Grécia Antiga. Durante a Guerra do Peloponeso, que opôs Atenas e Esparta, uma mulher chamada Lisístrata se levanta e conclama as cidadãs gregas a deixarem seus homens sem sexo até que eles acabassem com aquela guerra interminável. Receosas inicialmente, elas aderem, e apesar de uma ou outra tentativa de “furar a greve”, o movimento se mantém até que a paz é restabelecida (entre as cidades e entre os gêneros). O paralelo com a Libéria fica ainda mais evidente quando Lisístrata fala da frustração que as mulheres sentem nos tempos de guerra, quando os homens ignoram suas opiniões e tomam decisões estúpidas, que afetam a vida de todos.

Para além dos significados e leituras sócio-antropológicas que as duas histórias têm, existe aí também um aspecto bio-psicológico que me arrisco a apontar.

O hormônio testosterona está associado tanto ao comportamento sexual dos machos como a alguns padrões de agressividade, não apenas no reino animal: as diversas pesquisas sobre o tema já não deixam dúvida que os humanos também são suscetíveis a tal influência. O nível desse hormônio tende aumentar após a relação sexual, a manter-se mais altos em períodos de atividade sexual frequente, a declinar na ausência de relações e a subir mesmo em algumas situações como flerte, que só ocasionalmente poderia levar ao sexo. Ao mesmo tempo, testosterona alta predispõe a reações mais agressivas em cenários competitivos, além de aumentar a agressividade em disputas por dominância, quer seja do grupo ou do território.

O comportamento humano não pode ser reduzido a meras respostas a flutuações hormonais, é claro. Mas acho no mínimo divertido imaginar que, privados de sexo os homens – de políticos a soldados – a testosterona de toda nação possa ser reduzida, tornando-a menos agressiva e territorialista e dando uma chance à paz.

ResearchBlogging.org Archer, J. (2006). Testosterone and human aggression: an evaluation of the challenge hypothesis Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 30 (3), 319-345 DOI: 10.1016/j.neubiorev.2004.12.007

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Alguns episódios dos Simpsons me fazem rir sozinho. Em um desses Homer transforma sem querer sua torradeira numa máquina do tempo, e voltando à pré-história causa alterações bizarras no presente ao interferir minimamente no passado. Quando espirra na cara de um dinossauro causando a grande extinção da espécie, por exemplo, volta ao presente e encontra sua família milionária, os filhos educadíssimos, a esposa linda; mas ao descobrir que ninguém sabe o que são rosquinhas, se desespera e volta para arrumar aquele estrago. A essa altura eu já estava rindo, mas assim que ele sai a Marge comenta com naturalidade que estava chovendo de novo, e a cena mostra milhares de rosquinhas caindo do céu. Gargalhadas.

Ok, pode não ser tão engraçado assim quando eu conto (assista e depois me conte – é o episódio “A casa do horror V”, da sexta temporada). Mas não foi por isso que lembrei do episódio, e sim porque ele mostra a grande penetração na cultura pop dos conceitos da teoria do caos, segundo a qual nos sistemas caóticos mudanças infinitesimais nas condições iniciais levam a enormes alterações mais tarde.

Acabo de ler um livrinho interessante sobre o tema, “Introducing Chaos – a graphic guide“. Claro que isso não me fez um especialista no tema, mas pela primeira vez percebi com clareza que essa abordagem poderá ajudar a compreender algumas questões centrais das neurociências.

Como surge a mente? Ou seja, nossos pensamentos, emoções, o amor, a saudade, a lembrança da fórmula de Báscara e a aflição ao ouvir o motorzinho do dentista, tudo isso pode ser explicado apenas pelos impulsos elétricos viajando entre os neurônios? Tendemos a achar que não, pois são subjetivos, experimentados como não-materiais; como seriam explicados apenas pela matéria bruta, pouco mais de um quilo de miolos? Por outro lado, se não forem causados pelo cérebro, o que os causa? (Alma e espírito não estão em questão, por serem matéria de fé e não de ciência). Se no cérebro material não causa a mente imaterial, surgiria ela literalmente “do nada”?

A teoria do caos e dos sistemas complexos oferece uma possibilidade de explicar como o cérebro limitado causa a mente ilimitada, utilizando conceitos como não-linearidade e feedback.

Nos sistemas lineares, quando você sabe o estado atual é possível dizer exatamente qual será o próximo estado. Mas em sistemas não-lineares, é muito difícil prever o que irá acontecer no momento seguinte, mesmo conhecendo o presente – justamente porque ele não é linear. Já o feedback faz com que os resultados de um sistemas influenciem em seu funcionamento – como na microfonia, quando o microfone capta o som que ele mesmo gera no alto-falante.

O cérebro é um sistema complexo, já que nossos 100 bilhões de neurônios geram 100 trilhões de sinapses, estima-se. São muitas variáveis independentes (os neurônios), mas conectadas (as sinapses), produzindo um sistema não-linear que influencia a si mesmo de diversas maneiras. A mente, ou a consciência, pode então ser entendida como o resultado que emerge desse sistema. Ela pode, sim, ter uma causa física, mas ao se configurar como um sistema caótico, torna-se imprevisível e aparentemente aleatória, onde modificações imperceptíveis num momento podem levar a transformações radicas em outro. Tudo isso confere a ela sua característica essencial de imaterialidade.

É claro que a compreensão profunda das implicações da teoria do caos para a psiquiatria depende de muito mais matemática do que eu sou capaz sequer de imaginar. Mas se mesmo sabendo tão pouco tive um insight importante (para mim, pelo menos) sobre a relação mente-cérebro, nem imagino o que pode acontecer quando os neurocientistas se apropriarem desse conhecimento. Acho que é imprevisível.

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     Peço constrangida licença aos leitores para fazer jabá. Ao que me consta isso não é lá muito elegante nos meios jornalístico ou científico, mas é uma forma de os leitores do blog saberem que novamente estou me aventurando no papel, não só na rede: no dia 18 de novembro iremos lançar o livro Machado de Assis: a loucura e as leis – Direito, Psiquiatria e Sociedade em 12 contos machadianos.

Se o leitor atentar para o subtítulo do livro irá notar uma coincidência com o nome deste blog: Psiquiatria e Sociedade. Não é por acaso. Quem acompanha os artigos semanais já notou que minha ideia é dialogar de forma ampla com a sociedade a partir dos conhecimentos sobre mente, cérebro e comportamento. As pesquisas nessas áreas são tantas, e tão interessantes, que acredito poderem elucidar muito sobre nós mesmos, ajudando-nos a nos entender um pouco mais; no final das contas, creio que esse conhecimento acumulado pode ser de grande ajuda em nossa caminhada vida afora. Não queremos todos fazer desse mundo um lugar melhor, afinal? Essa é minha contribuição.

O livro reúne 12 contos do Machado de Assis que de alguma forma dizem respeito à loucura e à forma como a sociedade lida com ela, refletida sobretudo nas leis. Após cada um dos contos eu apresento um breve ensaio, destacando e discutindo esses aspectos, tanto do ponto vista histórico como atual. Como digo na introdução, não pretendo oferecer uma leitura reducionista da obra machadiana, mas sim ampliar suas possibilidades, acrescentando um ponto de vista até então inexplorado.

Espero que muitos dos que se interessam por esse diálogo entre Psiquiatria e Sociedade possam comparecer ao lançamento, para que finalmente possamos dialogar ao vivo. Aos que não puderem, continuamos a conversar por aqui mesmo. Até lá.

Onde comprar:
Livraria Cultura
Livraria Resposta
Disal
Livraria da Folha
Book Stop Livraria
Saraiva
Siciliano
Martins Fontes Paulista

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28.setembro.2010 14:02:37

O mundo acinzentado

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Lembro-me quando um posto de gasolina foi aberto bem próximo de onde eu morava. “Que bom”, pensei, “dá até para ir a pé”, mas no mesmo instante me dei conta da minúscula utilidade que é poder ir sem carro a um posto. O otimismo, por mais agradável que seja, é meio burro, distante da realidade; por menos que gostemos, o pessimismo está mais próximo de refletir as coisas como são. Existem teorias bastante estudadas sobre o “realismo depressivo”, confirmada por diversos experimentos (I), segundo a qual a depressão impede as pessoas de exercer o auto-engano, e quando solicitadas a estimar quanto tempo gastarão numa tarefa, ou qual será sua performance, elas o fazem com mais precisão dos que as pessoas não deprimidas. O otimismo atrapalha.

Agora um estudo diferente comprovou que pacientes deprimidos têm dificuldade de perceber o contraste entre preto e branco, vendo o mundo acinzentado (II). Os cientistas mostravam uma figura semelhante a um tabuleiro de xadrez, com casas pretas e brancas que se alternavam 12 vezes por segundo, com níveis diferentes de contraste entre o preto e o branco. Ao mesmo tempo, mediam a percepção do contraste com eletrodos colocados nos olhos dos sujeitos, avaliando diretamente a resposta ao estímulo, independente da consciência. Conforme aumentava o contraste entre os estímulos, mais aumentava a resposta da retina nos voluntários normais, mas isso não acontecia entre os deprimidos, mostrando que eles não percebem os contrastes tão bem, vendo tudo mais cinza.

Ao saber disso fiquei tentado a fazer um paralelo com a visão de mundo pessimista, que tende a ver as coisas mais como elas são de fato: não seria possível imaginar que os não deprimidos é que pintam o mundo com tons fortes, exagerando nos contrastes? Vai ver o preto e o branco não estão assim tão longe, mas só os que sofrem do realismo depressivo enxergam (e aceitam) que o mundo é mesmo cinza.

ResearchBlogging.org (I) Allan, L., Siegel, S., & Hannah, S. (2007). The sad truth about depressive realism The Quarterly Journal of Experimental Psychology, 60 (3), 482-495 DOI: 10.1080/17470210601002686 (II) Bubl E, Kern E, Ebert D, Bach M, & Tebartz van Elst L (2010). Seeing gray when feeling blue? Depression can be measured in the eye of the diseased. Biological psychiatry, 68 (2), 205-8 PMID: 20359698

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“O seu problema é que você não tem rádio no carro!” – disse-me certa vez o Marcelo Leite (que não é o jornalista de ciência, mas um dos amigos mais inteligentes que já tive). Éramos solteiros e queríamos nos dar bem, como todo solteiro, mas um pouco por ser do contra, um pouco por ser sovina, nada me convencia a instalar um CD player no carro. “Se você cria um clima, as coisas ficam mais fáceis”. – garantia ele. Como também estava sozinho não tinha lá muito crédito, mas cientistas franceses acabam de comprovar que tinha razão (não disse que ele era inteligente?).

Cento e oitenta e três estudantes, mulheres entre 18 e 20 anos, foram convidadas para testar um biscoito orgânico e compará-lo com o regular. Mas na verdade a condição real de teste era outra: a voluntária esperava três minutos numa sala, até que uma auxiliar a levasse ao entrevistador; na espera havia uma música de fundo que podia ser uma famosa canção romântica francesa – Je l’aime à mourir – ou uma música neutra. O entrevistador fora um rapaz escolhido como o que tinha a aparência mais mediana dentre doze voluntários, de acordo com um ranking feito por dezoito outras mulheres. Ao cabo de cinco minutos de entrevista (onde não havia mais música), após provar os dois biscoitos, a conversa era interrompida pela auxiliar, que pedia aos dois que a esperassem voltar com um questionário dali a dois a três minutos. Nesse ínterim o rapaz – que também não sabia o propósito real da pesquisa – devia dizer: “Meu nome é Antoine, como você sabe, e eu te acho muito bonita, e estava pensando se você me daria seu telefone. Eu te telefono depois e a gente poderia beber alguma coisa semana que vem”. O procedimento era padronizado, e deveria ser iniciado e finalizado com um sorriso.

Embora logo após a experiência nenhuma das moças lembrasse qualquer coisa sobre a música de fundo na sala de espera, a diferença entre os dois grupos foi notável: mais da metade das mulheres que aguardaram com um fundo de música romântica deu o telefone (52,2%), contra apenas pouco mais de um quarto delas quando influenciada por música neutra (27,9%).

Se três minutos fizeram tanta diferença, imagine uma carona inteira. Acho que foi por isso que o meu amigo casou antes do que eu.
ResearchBlogging.org Gueguen, N., Jacob, C., & Lamy, L. (2010). ‘Love is in the air’: Effects of songs with romantic lyrics on compliance with a courtship request Psychology of Music, 38 (3), 303-307 DOI: 10.1177/0305735609360428

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Em tempo de Copa do Mundo, a neurociência pode ajudar na hora de bater um pênalti. Assim como os motoqueiros que fazem rally aprendem logo que a melhor maneira para desviar de um buraco é não olhar para ele, um estudo acaba de mostrar que não fixar os olhos no goleiro pode ser a chave para um pênalti bem cobrado.

Os pesquisadores colocaram um aparelho para rastrear o olhar de catorze jogadores de futebol universitário da Inglaterra, todos destros e com idade média de 20 anos. Para um grupo era pedido que batesse o pênalti da melhor forma possível, enquanto para outro foram incluídos estímulos para aumentar a ansiedade, como oferecer 50 libras para o melhor jogador e avisar que seria feito um ranking público com as performances.

Os resultados mostraram que os jogadores na condição de ansiedade logo fixavam o olhar no goleiro, e o mantinham fixo nele por mais tempo do que os outros participantes, mais tranqüilos. Isso se refletiu de duas maneiras: os ansiosos tenderam a chutar mais próximo ao centro do gol, ao alcance do goleiro, e também chutaram para fora mais do que os jogadores calmos.

Assim como fazem os torcedores angustiados na hora dos pênaltis, parece ser uma boa ideia também para os jogadores “olhar para outro lado”.

ResearchBlogging.org Wilson MR, Wood G, & Vine SJ (2009). Anxiety, attentional control, and performance impairment in penalty kicks. Journal of sport & exercise psychology, 31 (6), 761-75 PMID: 20384011

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Já disse alhures que se os homens são de Marte e as mulheres são de Vênus, os médicos são de Mercúrio e os advogados de Netuno – estão mais distantes e a comunicação é ainda mais difícil. Mas assim como no caso dos gêneros, esse é um diálogo do qual não adianta fugir, sendo que o mais inteligente a fazer é buscar formas de se entender.

Penso nisso lendo sobre o uso de imagens de ressonância magnética funcional (fRMI) nos tribunais, como um novo detector de mentiras. Empresas americanas já vendem esse serviço a clientes com causas judiciais, como mostra reportagem da Wired, mas a conversa não é assim tão simples.

São diversos os problemas, mas gostaria de ressaltar um, que surge de um estudo publicado esse mês na PNAS (1).

Neste experimento os pesquisadores pediram que dezesseis voluntários avaliassem 210 fotos de faces, durante 4 segundos cada. Depois de uma hora eles tinha que ver 400 fotos, separando as já vistas (“antigas”) das que não tinham visto (“novas”). Um software analisava as áreas do cérebro ativas na tentativa de separar o conhecido do desconhecido. Com esses dados o pesquisador podia dizer, apenas com base na região do cérebro ativa, se o indivíduo estava vendo uma face familiar ou nova. Seria uma maneira de avaliar as memórias dos sujeitos, e dizer se eles estão ou não mentido sobre determinado aspecto, certo?

Errado, por um motivo que diz respeito à maior dificuldade de conversa entre Direito e Medicina: o nível de significância. Dizemos que o cientista conseguia identificar as memórias porque ele acertava entre 75 e 95% das vezes, dependendo dos voluntários. O grau estatístico de acerto é acima do esperado pelo acaso, portanto, é verdade que funciona. Isso em termos médicos. Já em termos jurídicos, quão válida é uma evidência que tem entre 5 a 25% de chance de estar errada? Sintomaticamente, o nível de significância era chamado antigamente de “certeza moral”, e foi Bernoulli, se não me engano, que disse que definir o grau de tal certeza deveria ser uma atribuição dos magistrados, não dos cientistas.

O avanço das neurociências é um fato, e devemos estar preparados para seu uso nos tribunais, como já argumentei em artigo prévio. Problemas como esse, no entanto, não podem ser simplesmente ignorados. Reconhecer esses obstáculos à transposição pura e simples do saber médico para o tribunal pode parecer um balde de água fria ânimos mais impetuosos, mas é a única maneira de evitar injustiças potencialmente graves no futuro.

ResearchBlogging.org (1) Rissman, J., Greely, H., & Wagner, A. (2010). Detecting individual memories through the neural decoding of memory states and past experience Proceedings of the National Academy of Sciences DOI: 10.1073/pnas.1001028107

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Promessa é dívida: aí vai o post extra sobre a neuropsiquiatria de Alice no país das maravilhas e Alice através do espelho.

A esta altura muito já se falou sobre a suposta pedofilia do Lewis Carroll, pseudônimo do matemático, religioso e escritor Charles Lutwidge Dodgson (1838-1898). Carroll se tornou amigo da família Lidell, cujas filhas se tornaram próximas a ele; Alice, em especial, foi uma de suas musas. Embora ele negue que a personagem fosse nela inspirada, até as iniciais de seu pseudônimo, LC, formam um trocadilho em inglês com o nome da menina – e ele era todo trocadilhos. Além de escritor, Carroll foi um pioneiro da fotografia, e algumas imagens feitas por ele com meninas transpiram sensualidade. Embora haja a tese de que na época tais fotos tinham um caráter de idealização e louvor da pureza infantil, mais dois elementos ao menos indicam que havia algo de diferente no ar: as “cartas às suas amiguinhas”, nas quais enviava 10 milhões de beijos a elas (quando não pedia cachos de seus cabelos para beijar), e também o rompimento com a família Liddell, já que a mãe de Alice não só proibiu o encontro de suas filhas com o autor, como queimou suas cartas. O que ela teria percebido ninguém jamais soube. A verdade é que nenhum fato foi comprovado contra Lewis Carroll (se não me falha a memória, ele chegou a ser investigado formalmente). Pessoalmente, acredito que ele tenha passado boa parte de sua vida lutando contra seus desejos, sublimados – se me permitem os psicanalistas – nas obras de Alice.

Um problema bem menos controverso diz respeito à enxaqueca da qual ele provavelmente sofria. As alucinações visuais retratadas nas suas obras, sobretudo as distorções de tamanho experimentadas por Alice, são também encontradas nas auras enxaquecosas (alterações que geralmente antecedem as crises de dor de cabeça), nomeadas Síndrome de Alice no país das maravilhas em sua homenagem (I). É bem possível que Carroll tenha se inspirado em sua própria doença para criar tais imagens.

Finalmente, a intoxicação por mercúrio. Chamada hidrargirismo (do latim, hydrargyrum = mercúrio), tal transtorno era comum em chapeleiros, pois eles usavam mercúrio para curtir peles na fabricação de seus produtos, e acabavam por inalar os vapores emanados (II). Provavelmente foi isso que consagrou a expressão “mad as a hatter” (louco como um chapeleiro), famosa na era vitoriana, e que acabou por inspirar Carroll, embora o quadro clínico de tal intoxicação não seja compatível com o do Chapeleiro Maluco: no hidragirismo é mais comum encontrar confusão mental (como desorientação proveniente de sonolência) nos quadros agudos, e timidez excessiva, perda de autoconfiança, irritabilidade, alterações do humor, labilidade afetiva, insegurança, desânimo, insônia, falta de atenção e dificuldade de concentração nos casos crônicos, o que fala contra a hipótese de o Chapeleiro sofrer desse problema realmente (III).

As referências, trocadilhos, brincadeiras e simbolismos presentes nos dois livros Alice são praticamente inesgotáveis. Uma das melhores obras em português para destrinchá-las é a edição comentada publicada pela Jorge Zahar. Além dela, a extensa biografia de Lewis Carroll feita por Morton Cohen e publicada pela editora Record também é recomendável para quem quiser entender melhor esse que foi um dos autores mais influentes de todos os tempos.

(I) Podoll K, & Robinson D (1999). Lewis Carroll’s migraine experiences. Lancet, 353 (9161) (II) O’Carroll, R., Masterton, G., Dougall, N., Ebmeier, K., & Goodwin, G. (1995). The neuropsychiatric sequelae of mercury poisoning. The Mad Hatter’s disease revisited The British Journal of Psychiatry, 167 (1), 95-98 DOI: 10.1192/bjp.167.1.95 (III) Price, T. (1984). Did the Mad Hatter have mercury poisoning? BMJ, 288 (6413), 324-324

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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