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Daniel Martins de Barros

Nem vou tentar fugir do tema natalino. Eu gosto de ritos, pessoalmente e profissionalmente, e o Natal tem tanta importância na nossa sociedade que vale a pena pensar um pouco sobre ele.

Duvido que você não se enquadre em pelo menos uma (senão em todas) as seguintes categorias, já que pesquisas indicam que existem sete principais atividades e experiências natalinas: 1) Passar tempo com a família; 2) Participar de atividades religiosas; 3) Manter tradições da época; 4) Gastar dinheiro com as pessoas comprando presentes; 5) Receber presentes das pessoas; 6) Ajudar os necessitados; 7) Desfrutar os prazeres da época, como as comidas típicas. Bateu?

Mas no meio da ambiguidade desse período, quando nós nos esforçamos para finalizar logo coisas que não queremos deixar para o ano seguinte ao mesmo tempo em que tentamos empurrar para o ano que vem aquilo que não queremos resolver já, é possível ter um Natal agradável.

Estudando quais dessas atividades apresentam maiores correlações com sentimentos positivos, sentimentos negativos, estresse e bem-estar geral, confirma-se o que o bom senso por si só já nos indica: são fatores associados ao bem-estar nessa época o envolvimento com a família e as atividades religiosas. Quem se preocupa principalmente com presentes tem menos bem-estar e mais sentimentos negativos, tanto faz se o foco é dar ou receber presentes. Já se concentrar nas tradições, banquetes ou voluntariado não demonstra alterar significativamente os estados emocionais natalinos.

Celebrar a possibilidade de um mundo melhor, a começar por nossas famílias, é, acredito, o sentido do Natal. O título do post vem lembrar que o Papai Noel não deve tomar o lugar de Jesus mesmo para os não cristãos: até mesmo cientistas ateus convictos frequentam atividades religiosas, por motivos semelhantes aos que trazem alegria ao Natal – pela família e pela inserção numa comunidade, ainda que mantendo o ceticismo.

Assim, mesmo para quem não comemora o nascimento de Cristo, fico à vontade para desejar um Feliz Natal.

ResearchBlogging.org
Kasser, T., & Sheldon, K. (2002). WHAT MAKES FOR A MERRY CHRISTMAS? Journal of Happiness Studies, 3 (4), 313-329 DOI: 10.1023/A:1021516410457
Ecklund, E., & Lee, K. (2011). Atheists and Agnostics Negotiate Religion and Family Journal for the Scientific Study of Religion, 50 (4), 728-743 DOI: 10.1111/j.1468-5906.2011.01604.x

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Às vésperas do Natal, quando temas religiosos costumam aflorar, a Atea – Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, causa polêmica com uma campanha para veiculação de cartazes em defesa do ateísmo em ônibus de algumas cidades brasileiras.

Gostaria de aproveitra a própria campanha para discutir um pouco o sentido fundamental do Natal, que sempre precisa ser relembrado. Cristo. O nome por trás dessa história toda.

Um dos cartazes da Atea apresenta a foto de Chaplin e de Hitler, lado a lado. Sob o primeiro lê-se “Não acredita em Deus”, e sob o segundo “Acredita em Deus”. Uma frase conclui: “Religião não define o caráter”.

Nem pretendo discutir isso, já que é óbvio. O sujeito pode ser um pulha cristão ou um santo ateu. E vice-versa. O que esse cartaz em particular não mostra é o discurso que Chaplin faz ao final de “O grande ditador”, quando diz “No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, mas dos homens todos!” Apesar de judeu, apesar de ateu, Chaplin invoca palavras de Cristo para reforçar a mensagem de que o povo tem poder, ”o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela… de faze-la uma aventura maravilhosa”.

Esse é o sentido do Natal. Celebrar o nascimento de Cristo lembrando suas ideias (de prefêrencia pondo-as em prática). Coisa que pode ser feita, como mostra Chaplin, tanto por ateus como por crentes. Celebrar a possibilidade de fazer desse mundo um lugar melhor (“o Reino de Deus chegou”), trabalhando ativamente pelo bem das pessoas (“amar o próximo”), promovendo justiça social (“amparar os órfão e as viúvas, eis a verdareira religião”) e assim por diante.

Num estudo de 2003, psicólogos americanos se propuseram a pesquisar qual o sentido da vida para pessoas eminentes. Levantaram 238 frases de 195 pessoas que, sendo bem conhecidas, funcionam como formadoras de opinião e também como reflexo da opinião das pessoas. Com métodos qualitativos descobriram que juntas, posturas como ajudar o próximo, aprimorar-se como ser humano, contribuir com algo superior a nós mesmos e servir a Deus ou ao mundo espiritual descrevem o sentido da vida para a maioria das pessoas (36% da amostra). Uma minoria acha que vida é um absurdo (4%), e uma parte acha que a vida não tem sentido em si mesma, ou que este precisa ser criado por nós (16%).

O real sentido do Natal como o vejo, portanto, vai além da mera religião. Ao resgatar a pregação de Cristo, independente de qualquer religião cristã oficial, e tentando vivê-la, resgatamos o sentido da própria vida.

ResearchBlogging.org Kinnier, R., Kernes, J., Tribbensee, N., & Van Puymbroeck, C. (2003). What Eminent People Have Said About The Meaning Of Life Journal of Humanistic Psychology, 43 (1), 105-118 DOI: 10.1177/0022167802238816

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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