“Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais”
Poucos ignoram a belíssima Tocando em frente, de Almir Sater e Renato Teixeira, que mostra um pouco da sabedoria caipira. Tenho guardado, em algum lugar da memória, misturada com entulhos de lembranças posteriores, uma entrevista do Almir Sater dizendo que a música fora inspirada por seu desejo de fazer algo tão belo como uma poesia de Drummond que havia lido. Não sei se é uma falsa memória, mas não me parece impossível que seja algo assim, pois a letra, muito simples e muito verdadeira, toca em temas inerentes à condição humana, elevando-a à categoria de arte, como um poema.
“Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente”
Tocar em frente parece ser um dos grandes segredos de uma vida boa. As alternativas – ficar parado ou olhando para trás – são fatores hoje reconhecidamente associados a depressão, e grande parte dos tratamentos para pacientes deprimidos passam justamente por tentar fazer com as pessoas deixem de remoer pensamentos e “toquem em frente”. Todos tendemos a dar valor negativo às situações adversas que ocorrem na vida. Mas a capacidade de reavaliá-las, no sentido literal da palavra, “rever o valor” que damos às coisas, parece ser uma das maneiras mais eficazes de lidar com os altos e baixos da vida. Tal habilidade só se desenvolve com o tempo, quer seja por maturação do córtex frontal do cérebro – fundamental para essa função – quer seja pela prática.
“Como um velho boiadeiro
Levando a boiada
Eu vou tocando os dias”
Os idosos, está comprovado, gastam menos tempo remoendo problemas do que os jovens. Tais ruminações, que levam o sujeito a adotar uma perspectiva pessimista da realidade, gastando mais energia com tais pensamentos negativos do que com atitudes positivas, estão associadas não somente a depressão como também a menores índices de satisfação com a vida. Mas parece que levamos um bom tempo para aprender que a maioria dos problemas pode ser vista – sem demora – de ângulos menos sombrios.
Percebendo essa realidade o velho caipira pode concluir:
“Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
E ser feliz”.
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Stefan Sütterlin, Muirne C.S. Paap, Stana Babic, Andrea Kübler, & Claus Vögele (2012). Rumination and age: some things get better Journal of Aging Research
“Foi por medo de avião
Que eu segurei
Pela primeira vez
A tua mão”.
Já dizia o reaparecido Belchior na música “Medo de avião“. Podem me chamar de brega, mas eu gosto da música dele – a voz rouca, as letras interessantes que muitas vezes dão o que pensar. Nessa, por exemplo, ele tinha boa dose de razão.
Descobri esses dias um estudo antigo, da década de 70, que mostra o papel do medo na atração entre os sexos. Oitenta e cinco rapazes bem intencionados foram divididos em dois grupos, um deles foi colocado numa daquelas pontes suspensas que dá muito medo atravessar, outro numa ponte que não dava medo. No meio da ponte eles encontravam uma entrevistadora bonita, que apresentava a figura de uma mulher com o rosto coberto e pedia que eles inventassem uma história para ela (era uma das imagens do famoso teste de apercepção temática – TAT). Ela descaradamente dava o telefone para os sujeitos, dizendo que estaria disponível para discutir a pesquisa mais tarde, naquela noite.
Nada menos que metade dos homens entrevistados na situação de medo ligaram para a bonitona. Isso é muito ou pouco? Não sei, mas sei que só 12,5% dos outros, que foram abordados na ponte “segura”, deu o telefonema. Quatro vezes menos. Além disso, a historinha que os estes voluntários contavam tinha muito menos conotação sexual do que dos outros.
Enfim, parece que fortes emoções facilitam mesmo a atração sexual. Deve ser porque o famoso frio na barriga que a gente sente no avião é praticamente o mesmo que acontece quando pegamos “naquela” mão.
Sábio Belchior.
Dutton, D., & Aron, A. (1974). Some evidence for heightened sexual attraction under conditions of high anxiety. Journal of Personality and Social Psychology, 30 (4), 510-517 DOI: 10.1037/h0037031
Estou assistindo – e recomendo fortemente – o documentário de doze horas de duração sobre a história do jazz feito pelo historiador e documentarista Ken Burns (que está sendo relançado nas bancas pela editora Duetto). Conduzido por preciosas imagens de arquivo entremeadas com entrevistas recentes, ouvimos numa destas o trompetista Wynton Marsalis resumir com precisão que “O real poder e inovação do jazz é que um grupo de pessoas pode se reunir e criar arte – arte improvisada – negociando uns com os outros suas pautas. E a negociação é a arte”.
É daí que surge uma analogia muito boa entre o jazz e a medicina. Numa consulta, da mesma forma, temos duas (e por vezes mais) pessoas que precisam se reunir e fazer com que esse encontro funcione para todos, usando para isso seu conhecimento prévio mas sendo capazes de improvisar conforme os diálogos se desenrolam. É por isso mesmo que o diretor de educação médica da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, Paul Haidet, vem colocando os estudantes de medicina para ouvir música no seu curso, cujo título pode ser livremente traduzido como “Jazz e a Arte da Medicina: Improvisos na Consulta”.
Haidet era DJ na faculdade, e desde cedo percebeu que a comunicação entre médicos e pacientes muitas vezes é truncada, sem permitir uma real conexão entre as partes. Numa entrevista rígida, por exemplo, na qual o médico dirige todo o diálogo por meio de perguntas sim/não, sobra pouco espaço para manifestações espontâneas do paciente que poderiam ser importantes. Haidet inspira-se nos solos de Miles Davis, que em vez de encher a música de notas, deixava pausas para que toda a banda fosse ouvida, sendo seu instrumento um guia, não um tirano. No curso, ele estimula os alunos a praticarem a pausa nas consultas, contando mentalmente dez segundos após o paciente terminar uma frase antes de dizer algo. Já para cultivar o senso de conjunto (ou “ensemble”, como gostam os jazzistas), pede-se aos médicos que passem duas semanas utilizando frases começando com “O que eu estou entendendo do que você me diz é…” em todas as consultas, a partir daí percebendo quando ela se aplica melhor ou não.
De minha parte, não tenho dúvida que deixar espaço para os pacientes e estimular o senso de conjunto é muito produtivos para a conexão entre médico e paciente. Improvisar não significa tomar as decisões de forma desleixada ou irresponsável: ao contrário, tanto na música como na medicina o improviso adequado só é possível quando há uma sólida base de conhecimento sobre a qual se possa criar. Mas estar aberto para improvisar caminhos que só surgem na interação – e que por isso são diferentes a cada apresentação ou a cada consulta – pode transformar a técnica em arte.
Sayani, F. (2010). Jazz and the art of conversation Canadian Medical Association Journal, 182 (1), 66-67 DOI: 10.1503/cmaj.092028
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