Seu filho pequeno pode ser um psicopata? Seu sobrinho, irmãozinho? O tema se impõe por conta de uma longa reportagem na revista do jornal The New York Times que repercutiu mundo a fora: “Você pode chamar uma crianças de 9 anos de psicopata?”.
A discussão central é: 1) Se é possível estabelecer esse diagnóstico em crianças pequenas, já que nelas múltiplos sintomas se misturam, dificultando uma classificação precisa; e 2) se existiriam mesmo crianças tão más que chegam a ser incorrigíveis. Para discutir o tema, hoje não recorrerei à literatura técnica, mas aos dois maiores escritores brasileiros de todos os tempos.
Para mostrar a dificuldade diagnóstica, chamo Machado de Assis. Em seu conto “Verba testamentária” ele descreve uma criança com comportamento tão ruim que só consegue atribuir a uma doença: “Sim, leitor amado, vamos entrar em plena patologia. Esse menino que aí vês (…) não é um produto são, não é um organismo perfeito. Ao contrário, desde os mais tenros anos, manifestou por atos reiterados que há nele algum vício interior, alguma falha orgânica. Não se pode explicar de outro modo a obstinação com que ele corre a destruir os brinquedos dos outros meninos (…). Menos ainda se compreende que, nos casos em que o brinquedo é único, ou somente raro, o jovem Nicolau console a vítima com dois ou três pontapés; nunca menos de um.” “A rua em que ele residia, contava um sem-número de caras quebradas, arranhadas, conspurcadas. As coisas chegaram a tal ponto, que o pai resolveu trancá-lo em casa durante uns três ou quatro meses”. “Mas nem admoestações, nem castigos, valiam nada. O impulso interior do Nicolau era mais eficaz do que todos os bastões paternos”. Com o tempo o menino cresceu e seu comportamento passou a revelar sinais de depressão: “A doença apoderara-se definitivamente do organismo. Nicolau ia, a pouco e pouco, recuando na solidão”. Até que a moléstia foi “descoberta; era um verme do baço”. Logo “a secreção do baço tornou-se perene, e o verme reproduziu-se aos milhões”, até que ele morreu: “Quis ele deixar-se morrer? Assim se poderia supor, ao ver a impassibilidade com que rejeitou os remédios dos principais médicos da corte”.
Claro que a depressão não é causada por um verme no baço, mas a questão levantada no conto é que, mesmo com um comportamento tão disfuncional, no fim das contas o pequeno Nicolau talvez não fosse um psicopata mirim, mas sim que apresentasse sinais de depressão, que na criança não são facilmente identificáveis. É por isso que os entrevistados na matéria do New York Times já receberam literalmente dezenas de diagnósticos diferentes.
Mas existem sim crianças muito más. Cruéis. E incorrigíveis. Chamo agora o médico Guimarães Rosa, que descreve em “Grande sertão: veredas” outro menino mau. “Pois essezinho, essezim, desde que algum entendimento alumiou nele, feito mostrou o que é: pedido madrasto, azedo queimador, gostoso de ruim de dentro do fundo das espécies de sua natureza. Em qual que judia, ao devagar, de todo bicho ou criaçãozinha pequena que pega; uma vez, encontrou uma crioula benta-bêbada dormindo, arranjou um caco de garrafa, lanhou em três pontos a popa da perna dela. O que esse menino babeja vendo, é sangrarem galinha ou esfaquear porco. – “Eu gosto de matar…” – uma ocasião ele pequenino me disse. Abriu em mim um susto; porque: passarinho que se debruça – o vôo já está pronto! Pois, o senhor vigie: o pai, Pedro Pindó, modo de corrigir isso, e a mãe, dão nele, de miséria e mastro – botam o menino sem comer, amarram em árvores no terreiro, ele nu nuelo, mesmo em junho frio, lavram o corpinho dele na peia e na taca, depois limpam a ele do sangue, com cuia de salmoura”.
Aqui a conclusão do sertanejo mostra o niilismo que surge diante de crianças muito más; ao dizer que quando o passarinho se debruça o vôo já está pronto, fica patente que, independente das correções – até brutas – dos pais, o menino se encaminhava para a maldade, inexoravelmente.
Os dois escritores no confirmam então que 1) estabelecer diagnósticos em crianças é difícil – pois os comportamentos são muito variáveis – e também temerário – pois pode representar um estigma impossível de se remover, selando seu destino. E que 2) existem mesmo crianças que parecem predestinadas para a maldade, para as quais não há correção ou tratamento possível. No entanto, como as pesquisas mostram que 50% das que têm comportamentos antissociais acabam melhorando com o tempo, vale a pena manter a esperança, pois parece que só metade dos passarinhos que debruçam acabam mesmo decolando.
Sabe todos os seus conceitos sobre como a memória funciona? Com o perdão do trocadilho, esqueça-os. Talvez não todos, mas provavelmente boa parte do que você imagina está errado. Duvida? Então diga se você concorda ou não com as quatro afirmações abaixo:
1) Quando uma pessoa sofre de amnésia, normalmente ela não consegue se lembrar de seu nome ou sua identidade.
2) A palavra de uma testemunha honesta, que tem certeza do que viu, poderia bastar para condenar alguém judicialmente.
3) A memória humana funciona aproximadamente como uma câmera, gravando sons e imagens do que acontece para que possamos posteriormente rever na memória.
4) Uma vez que algo tenha sido gravado na memória, essa lembrança não se modifica mais.
E então, qual o escore? Com quantas você concorda? Se acredita que qualquer uma delas está certa, errou. Todos os conceitos são incorretos. Talvez o único consolo é que você não está sozinho: entrevistados 1500 americanos, de todas as camadas sociais, 82,7% das pessoas acreditavam na primeira frase, 37,1% na segunda, 63% na terceira e 47,6% na quarta. E a ficção é em grande parte culpada por isso.
Poucos sintomas neuropsiquiátricos são tão caros ao cinema e à literatura como a amnésia, mas poucos são tão distorcidos. A história típica é a de uma pessoa que leva uma pancada na cabeça, esquece de tudo, inclusive de quem ela é, e só ao levar uma segunda pancada recupera a memória. Mas na verdade traumatismos cranianos raramente produzem essa amnésia total. Ela até pode acontecer diante de traumas psíquicos, mas é raríssima. E obviamente não pode ser revertida com outra pancada. Já a ideia de que temos uma filmadora na cabeça, registrando tudo e guardando em arquivos que podemos posteriormente acessar tem grande apelo justamente pela metáfora tecnológica. Mas não é assim que funciona: quando lembramos de algo nós reconstruímos a cena. Guardamos apenas alguns elementos chave, repletos de lacunas que só são preenchidas pelo cérebro na hora de reencenar a lembrança. Por isso mesmo existem muitas distorções: o contexto em que estamos, as dicas que usamos para lembrar, as expectativas envolvidas, tudo isso influencia nessa reconstrução, podendo levar até mesmo à formação de falsas memórias.
Estive pensando nisso enquanto lia o excelente livro Antes de Dormir (Editora Record), aclamado romance de estreia de S.J. Watson. Ele também usa um conceito incorreto sobre a memória: uma mulher acorda a cada dia sem se lembrar de nada. Exatamente como a Drew Barrymore em Como se fosse a primeira vez. Mas não se trata de uma comédia romântica, e sim de um suspense tão envolvente que percorri as quatrocentas páginas em quatro dias. A criativa estrutura do livro nos coloca na perspectiva da narradora, inicialmente no dia de hoje, quando ela recupera um diário que vinha fazendo há algumas semanas. A segunda parte se constrói toda sobre o diário, que lemos junto com a protagonista descobrindo com ela o que está acontecendo. Na última parte voltamos para o dia de hoje, após terminar de ler as anotações. Só que ao longo das páginas as dúvidas foram se acumulando, pois sem ter memórias sobre as quais construir o conhecimento, ficamos, narradora e leitores, à mercê do que os outros lhe contaram e ela conseguiu escrever. Nem tudo é o que parece, e ao comparar as versões ela vai depurando a história, construindo uma trama que não nos deixa fechar o livro antes do fim. Difícil falar mais alguma coisa sem estragar as surpresas.
Como muitas obras de ficção, esse livro abusa da liberdade poética para tecer sua história, cometendo alguns equívocos graves com relação à memória. Mas é tão bem escrito que, novamente com perdão do trocadilho, são falhas que vale a pena esquecer.
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Simons DJ, & Chabris CF (2011). What people believe about how memory works: a representative survey of the U.S. population. PloS one, 6 (8) PMID: 21826204
A hipnose forense está em alta. Não só o romance “O hipnotista” faz sucesso no Brasil e no mundo como no mesmo ano do lançamento do livro no país (2011) foi reinaugurado um laboratório de hipnose no Instituto de Criminalística do Paraná. Acho que é hora de retomar a campanha por uma Legislação Baseada em Evidências.
Escrito a quatro mãos pelo casal Alexandra e Alexander Ahndoril, o suspense “O hipnotista” é fruto da nova onda do thriller escandinavo. Há alguns anos autores de diversos países do norte da Europa vêm movimentando o cenário mundial dos romances policiais, com histórias cheias de sangue e reviravoltas ambientadas nas lúgubres paisagens de dias curtos e noites longas. Talvez o ápice do sucesso tenha sido atingido por Stieg Larsson com sua Trilogia Millenium, que vendeu dezenas de milhões de livros e foi filmada na Suécia e começa a ser refilmada em Hollywood. O hipnotista não faz jus aos seus pares, no entanto. O argumento é envolvente: uma família é morta de forma brutal a facadas, sobrevivendo apenas um filho adolescente que pode ser uma testemunha valiosa no caso. Como ele está em choque e não consegue falar, é chamado um psiquiatra especialista em trauma que também faz hipnose. Na verdade não faz mais, pois há dez anos algo deu errado e o levou a jurar nunca mais hipnotisar alguém; isso muda quando ele pode ajudar, mas algo dá errado novamente. Parece interessante, não? Mas o livro começa bem, envolvente, só para logo perder o ritmo, já no primeiro terço, parecendo que falta folêgo aos autores para dar conta das histórias paralelas que se abrem ao longo da trama. No final das contas as soluções para o enredo são pouco interessantes e geram um contraste com a expectativa que a sinopse cria. Enfim, se quiser ler mais descendentes vikings depois do Larsson sugiro garimpar outros títulos (e se descobrir um bom, indique para mim).
Mas eis que agora o Brasil poderá contar com seus próprios hipnotistas. Após dez anos de atividade entre 1998 e 2008, durante os quais foi chamado para auxiliar em mais 700 casos criminais, o Laboratório de Hipnose Forense do Paraná – desativado desde então – foi reaberto no final de 2011. Hipnotisando vítimas e testemunhas, a proposta é encontrar “indícios para formação de provas”. Mas funciona?
É aqui que retomo a proposta de uma Legislação Baseada em Evidências. Antes de novas leis ou procedimentos judiciais serem adotados, acho que deveria ser obrigatório realizar uma pesquisa séria sobre o tema. E as revisões sistemáticas da literatura científica mostram que a hipnose não é um meio confiável de resgatar lembranças. A teoria de que memórias de alguma forma reprimidas poderiam ser acessadas por meio dos estados hipnóticos já fora descartada pelo próprio Freud, e os problemas dessa técnica vêm sendo comprovados ao longo dos anos. Resumidamente o que ocorre é que a hipnose aumenta o número de lembranças corretas na mesma proporção em que aumenta as falsas memórias, com o agravante de que torna as pessoas mais confiantes nas lembranças mesmo quando estão erradas. Além disso, a tendência a passar a acreditar em algo que foi “lembrado” sob hipnose é tão forte, independente da acurácia da recordação, que vários estados americanos proíbem pessoas que foram hipnotisadas de serem sequer ouvidas como testemunhas posteriormente. Há que se ressaltar, no entanto, que algumas técnicas de entrevista usadas pelos hipnólogos podem ser úteis, mas por outras razões: enquanto policiais normalmente interrompem o fluxo de ideias na hora de interrogar as pessoas, usam perguntas fechadas (tipo sim/não), induzem respostas e não raro transmitem juízos de valor ao longo do interrogatório, a abordagem do entrevistador afeito à hipnose é em tudo oposta, facilitando o acesso dos sujeitos a suas memórias. Isso sem qualquer relação com um estado transe hipnótico.
Hipnose funciona para uma série de outras coisas, como controle da dor, relaxamento e até mesmo anestesia cirúrgica. Mas quando o assunto é memória ou romances policiais sua eficiência ainda está por ser comprovada.
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Kebbell MR, & Wagstaff GF (1998). Hypnotic interviewing: the best way to interview eyewitnesses? Behavioral sciences & the law, 16 (1), 115-29 PMID: 9549881
Erdelyi, M. (2010). The ups and downs of memory. American Psychologist, 65 (7), 623-633 DOI: 10.1037/a0020440
Sempre que você entra numa livraria sofre o ataque de uma onda de livros que pulam diante dos seus olhos, exibindo-se como “Livros Que, Se Você Tivesse Mais Vidas Para Viver, Certamente Leria De Boa Vontade”; “Livros Que Tem A Intenção De Ler Mas Antes Deve Ler Outros”; “Livros Caros Que Podem Esperar Para Ser Comprados Quando Forem Revendidos Pela Metade do Preço”; “Livros Que Todo Mundo Leu E É Como Se Você Também Os Tivesse Lido”; e assim por diante. Essa descrição perfeita, que figura na introdução do romance “Se um viajante numa noite de inverno”, do escritor Ítalo Calvino, é seguida por uma ainda melhor, do sujeito lendo o livro no meio do trabalho: “isso não lhe parece uma falta de respeito? De respeito, entenda bem, não para com o trabalho (ninguém pretende julgar seu rendimento profissional; vamos pressupor que suas tarefas sejam regularmente inseridas no sistema das atividades improdutivas que ocupam boa parte da economia nacional e mundial) mas para com o livro”.
Essa sensação de “ah, então não é só comigo” que temos diante dessas passagens, além de atestarem a fina capacidade de observação do escritor, mostram como o trabalho é mal organizado de forma geral. Na maioria das vezes as pessoas são forçadas a cumprir horários rígidos, independente do que façam nesse tempo (imagine o que Calvino não escreveria em tempos de facebook e youtube), o que lhes engessa a vida e não contribui necessariamente para a produtividade das empresas.
Tentando extrair fatos a partir dessa percepção, um grupo de pesquisadores americanos propôs introduzir um modelo batizado de Ambiente de Trabalho Só de Resultados (Results Only Work Enviroment – ROWE) na sede da Best Buy. Seiscentos e cinquenta e nove empregados passaram a ser cobrados exclusivamente por sua produtividade, flexibilizando seus horários de trabalho, entrada e saída, desobrigando-os até mesmo de pedir para ir embora, se quisessem. Há muito tempo sabe-se que conferir autonomia às pessoas, mesmo que pequena, traz impacto psíquico positivo (e que reduzi-la é um dos fatores mais estressantes que existem), e de fato com tal mudança os funcionários passaram a ter menos conflitos trabalho-família, passaram a cuidar melhor de sua saúde e ganharam inclusive mais tempo de sono, apresentando aumento significativo em suas medidas de bem estar.
Agora, se já não resta dúvida de que permitir que as pessoas organizem seus próprios horários tendo em vista suas tarefas é positivo para os empregados, falta comprovar que também é bom para os empregadores. Supostamente eles faltarão menos e estarão mais motivados, mas os gestores querem ver os números, não palpites. Até que tais evidências surjam, portanto, ainda iremos nos dividir entre um daqueles “Livros Que Você Sempre Fingiu Ter Lido e Que Já Seria Hora De Se Decidir A Lê-los Realmente”, o novo clip da Lady Gaga e uma ou outra tarefa, enquanto não batem as dezoito horas.
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Moen, P., Kelly, E., Tranby, E., & Huang, Q. (2011). Changing Work, Changing Health: Can Real Work-Time Flexibility Promote Health Behaviors and Well-Being? Journal of Health and Social Behavior, 52 (4), 404-429 DOI: 10.1177/0022146511418979
Imagine um livro que fosse no formato de um pequeno e flexível computador, com tela no lugar de páginas e uma capa de plástico. Agora imagine que seu conteúdo abrangesse todo o conhecimento disponível, e que apesar de alguns funcionários e colaboradores fixos dessa enciclopédia, qualquer pessoa pudesse contribuir para os verbetes, atualizados por meio de uma rede. Não, não estamos falando de iPads e Wikipedias. Estamos falando de um tempo em que isso era ficção cientítica; das boas.
No final da década de 70 o escritor Douglas Adams escreveu a série “Guia do Mochileiro das Galáxias”. Tal guia tinha na capa o slogan “Não entre em pânico!”, e sempre trazia conselhos aos personagens envolvidos nas mais improváveis situações, que se não eram úteis eram ao menos bastante divertidos. Concebida como trilogia, a série chegou a cinco livros escritos por Adams, falecido em 2001. Agora, após quase vinte anos da publicação do último livro, a viúva de Adams autorizou Eoin Colfer (autor dos livros da série Artemis Fowl) a escrever uma continuação, publicada no Brasil em parceria pela Record e a Arqueiro (selo literário da Sextante) com o título “E tem outra coisa…”.
Colfer resgata os personagens e mantém o ritmo tresloucado da série, recheando a trama de menções aos livros anteriores. Como neles, a história é entremeada por transcrições literais dos verbetes do Guia, e apesar de o autor abusar um pouco deles não chega a comprometer o desenrolar da história. Embora seja um livro de humor, sem pretensões proféticas, creio que ele acerte numa previsão quando um dos personagens diz: “Li sobre isso numa coisa que tem páginas. Um negócio antigo, onde você vira páginas”.
Acho que é esse o destino dos livros. Note que no trecho acima fica claro que eles não desapareceram totalmente; estão por aí, o personagem até já leu um, mas não são mais a fonte primária de informação.
Sustenta essa perspectiva uma pesquisa realizada pela Universidade Johaness Gütemberg de Mainz, Alemanha, em parceria com uma empresa de marketing daquele país. Vinte voluntários com média de idade de 26 anos e dez com média de 64 anos foram convidados a ler nove textos, três num iPad, três num Kindle (e-book da Amazon) e três em papel, com diferentes níveis de complexidade. Além de testes de compreensão e fixação de conteúdos, os sujeitos foram submetidos a eletroencefalograma (EEG) e rastreamento de movimento dos olhos.
Embora quase todos dissessem, numa avaliação subjetiva, que preferiam ler em papel, não houve diferença quanto à compreensão e fixação das informações em qualquer dos suportes, em ambas faixas etárias. O EEG mediu as variações de ondas Theta, que refletem esforço cognitivo ou estresse, e surpreendentemente houve menos variação na leitura do iPad, indicando menor esforço cognitivo nesta tarefa. O movimento dos olhos – que tende a ser mais lento em leituras mais trabalhosas – não mostrou diferenças entre aparelhos ou grupos. Outra diferença inesperada foi que, nos mais idosos, a leitura em tablet foi mais rápida do que em e-book ou papel, sem prejuízo de entendimento.
Não encontrei o estudo publicado numa revista científica, e deve-se ter em mente que, embora realizado por uma equipe universitária séria, o patrocinador é dono da maior plataforma de livros eletrônicos alemã. Feitas essas ressalvas, contudo, creio mesmo que a leitura não seja prejudicada pelo meio em que é feita, sejam tablets, e-books ou papel. Sendo só uma questão de costume acho que, diante das facilidades que os meios eletrônicos apresentam, logo os livros serão de fato “um negócio antigo”. Mas o seu cérebro não notará diferença, por isso, “Não entre em pânico!”.
Relatório da pesquisa (em alemão) aqui.
Você já ouviu falar em eletroconvulsoterapia (ECT)? Sim, o velho eletrochoque, que – felizmente – continua sendo utilizado nos hospitais mais sérios do mundo. Mas que – infelizmente – ainda é cercado de preconceito e criticado por pessoas que ignoram as condições de sua aplicação, as indicações e, sobretudo, a eficácia e segurança. Deixe-me então dizer algumas coisas.
Cegadas por uma ideologia burra apesar de supostamente bem intencionada (promover a humanização em saúde mental), campanhas contra ECT só fazem aumentar o preconceito, o medo e o estigma, contaminando todo o campo de tratamentos biológicos em psiquiatria e levando à desumanização, ao impedir que doentes graves sejam adequadamente tratados.
A culpa é, em parte, do Romantismo. Na aurora desse movimento, influenciada pela atmosfera gótica, uma jovem de 18 para 19 anos, então chamada Mary Wollstonecraft Godwin, passava férias com seu futuro marido, Percy Shelley e o escritor Lord Byron, quando este lançou o desafio de que cada um escrevesse uma história de fantasmas. O ano era 1816, e a medicina estava deslumbrada com a eletricidade – domesticada há pouco pela ciência. Luigi Galvani conseguira fazer rãs mortas se mexerem, experiência repetida com humanos por seu sobrinho Giovanni Aldini, que obtivera movimentos em membros e face estimulando o cérebro de cadáveres. Assim inspirada, Mary escreveu o que alguns consideram a primeira obra de ficção científica moderna, ao contar a história de um estudante que junta partes de diversos cadáveres e, usando eletricidade, o faz viver. Seu nome, Victor Frankenstein. Deve ter começado aí a o medo das pessoas do uso antiético da eletricidade na medicina.
Em meados do século XX, quando o eletrochoque começou a ser utilizado, sua eficácia empolgou tanto os médicos que ele passou a ser aplicado indiscriminadamente, sem indicações precisas e sem cuidados adequados. Além disso, não raras vezes era uma forma de punição em pacientes agressivos. O movimento da anti-psiquiatria dos anos 60 e 70 utilizou-se disso como um dos argumentos para denunciar os abusos dos psiquiatras. No entanto as indicações foram sendo aprimoradas, os cuidados anestésicos melhorados, fazendo dele um tratamento hoje com eficácia comprovada, indolor e de recuperação rápida. Obviamente, como qualquer tratamento, tem efeitos colaterais. Mas é irresponsável acusá-lo de ser antiético ou desumano. Antiético e desumano é privar pessoas do mais eficaz tratamento disponível.
Diversas outras técnicas utilizando eletricidade e eletromagnetismo estão sendo cada vez mais estudadas na disciplina chamada neuromodulação. O primeiro livro brasileiro sobre o tema – bibliografia do post de hoje – será lançado nesta semana, durante o III Simpósio Internacional de Neuromodulação, realizado na Universidade Mackenzie. Os autores são neurologistas e psiquiatras brasileiros, um deles professor em Harvard, que vêm ajudando a desenvolver esse campo que consegue ser, ao mesmo tempo, antigo e inovador, promissor e estigmatizado, temido e esperado.
Torço para que as pesquisas avancem para que mais pessoas sejam beneficiadas, e também para que a sociedade o fiscalize de forma rigorosa mas sem preconceito, lembrando que, em saúde, não há ética sem técnica.
Fregni F, Boggio PS, Brunoni AR. Neuromodulação terapêutica: Princípios e Avanços da Estimulação Cerebral não Invasiva em Neurologia Reabilitação, Psiquiatria. São Paulo:Sarvier, 2011.
Acho que nunca vamos deixar de nos espantar com a genialidade do Machado de Assis. Uma coisa é ter o dom narrativo, escrever “bem”. Outra coisa é ter uma capacidade de observação humana tão profunda a ponto de ser capaz de descrever doenças psiquiátricas ainda não descobertas.
O competente editor de ciência da Folha de São Paulo, Reinaldo José Lopes, repercutiu em sua editoria a notícia sobre um artigo que publicamos esse ano no British Journal of Psychiatry, mostrando que o “bruxo do Cosme Velho” – apelido famoso de Machado – escreveu um conto no qual os personagens desenvolvem um quadro típico de folie a deux, conhecido como transtorno psicótico induzido.
Acho que vale a pena enriquecer a notíca com detalhes que não cabem na versão impressa.
Folie a deux significa, literalmente, loucura a dois, e foi formalmente descrito pelos franceses Lasegue e Falret, em 1877. O relato original descrevia a doença como uma síndrome de ocorrência mais prevalente entre mulheres vivendo confinadas, marcada por: 1) aparecimento de sintomas psicóticos coincidentes nos membros da família enquanto vivendo juntos; 2) sintomas psicóticos em duas pessoas em estreita associação; 3) transmissão de sintomas psicóticos de uma pessoa doente para uma ou mais pessoas saudáveis. É interessante que essas mesmas características foram incluídas nos critérios diagnósticos desde as primeiras propostas, e modificaram-se pouco desde sua elaboração até hoje.
O conto “O anjo Rafael” – disponível on line, descreve a vida de um homem que, acreditando ser o próprio anjo Rafael enviado por Deus à Terra, isola-se com sua filha em uma fazenda. Mantém-na nessa condição, sem contato com o mundo exterior, desde a infância até os quinze anos, quando, pouco antes de morrer, manda chamar para ela um noivo. Esse futuro marido descobre que a moça está sendo contaminada por delírios de seu pai: ela não só acredita que ele é um anjo, como defende tal ideia ante a incredulidade do noivo. Morto o pai, contudo, ela é levada para a cidade e após três meses está livre das crenças delirantes. Ou seja, a história faz o relato de um quadro que reúne todos os elementos posteriormente descritos por Lasegue e Falret: trata-se de uma mulher, confinada, vivendo em estreita associação com um familiar, que apesar de saudável desenvolve sintomas psicóticos coincidentes com os dele, causados por sua influência. Quando o pai morre e ela é afastada dele, os sintomas desaparecem.
Será que Machado de Assis conhecia um caso assim e nele se inspirou? Se for este o caso, sua precisão no relato surpreende por ser no mínimo equivalente à dos médicos da época. Mas se tudo não passou de fruto de sua criatividade literária, sua genialidade fica ainda mais patente, e reforça o que o próprio Freud diria mais tarde: “O tratamento poético de um tema psiquiátrico pode ser correto, sem prejuízo de sua beleza”.
Barros, DM., & Filho, G. (2011). First fictional report of folie a deux – extra The British Journal of Psychiatry, 198 (1), 30-30 DOI: 10.1192/bjp.198.1.30
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A primeira palavra que li foi num gibi do Chico Bento. Daí para frente, aprendi a gostar de ler com o Maurício de Sousa e com a Ruth Rocha, e talvez por isso nunca tenha considerado os quadrinhos numa categoria muito diferente da literatura. Hoje, embora não seja um fã da “nona arte” (as histórias em quadrinhos), acompanho notícias dessas obras ganhando prêmios literários e respeito no mundo acadêmico.
Assim que o livro Logicomix foi uma das maiores surpresas que tive nesse ano. A proeza desses autores gregos foi fazer um livro sobre a vida e as ideias de Bertrand Russell, um dos mais importantes logicistas de todos os tempos, em quadrinhos. Com belíssimos desenhos e o conteúdo complexo, eles ainda conseguiram tratar da relação entre genialidade e loucura, levando o livro a obter resenhas elogiosas até mesmo em revistas acadêmicas (1).
A narrativa é conduzida pelo recurso metalinguístico de os autores desenharem a si mesmos tentando criar o livro. As reuniões de pauta, discussões temáticas e soluções históricas vão sendo apresentandas enquanto a biografia propriamente é apresentada. Isso ainda é feito com o requinte de retratarem o próprio Russell contando sua vida, numa palestra que ficou famosa, na qual pediram a ele que se posicionasse sobre a Segunda Guerra Mundial. Russell, mesmo sendo um pacifista convicto, usa suas experiências para mostrar que a Lógica, ponto de encontro entre a Matemática e a Filosofia, por mais rigorosa e precisa que seja, não consegue dar conta de tudo. O mundo dos homens e suas relações é muito mais complexo do que a ciência. Tanto que muitos dos matemáticos que fizeram da lógica sua vida, ou da sua vida um exercício lógico, acabaram por enlouquecer, literalmente, após suas contribuições para a ciência. Os quadrinhos retratam-nos internados em hospícios e em meio a seus delírios, em tristes finais para homens tão brilhantes.
No final das contas, não há uma resposta definitiva sobre a guerra ou a paz, sobre a associação entre genialidade e insanidade, nem mesmo sobre a importância do legado de Russell. Mas se entendermos a mensagem não daremos muita importância a tais lacunas. Afinal, a vida não é lógica.
(1) Apt, K. (2010). Logicomix: An Epic Search for Truth by Apostolos Doxiadis, Christos H. Papadimitriou, Alecos Papadatos, Annie di Donna The Mathematical Intelligencer, 32 (3), 51-52 DOI: 10.1007/s00283-009-9111-5
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Nenhum livro é tão ruim que não tenha alguma utilidade, disse Plínio, o velho. A famigerada auto-ajuda, tão atacada e desacreditada, vem mostrando que tem – e muita – utilidade segundo pesquisas internacionais.
A biblioterapia, que ganha cada vez mais espaço nos países de língua inglesa, consiste basicamente em prescrever aos pacientes com quadros psiquiátricos leves alguma literatura de auto-ajuda, em lugar de medicamentos ou de psicoterapia, fazendo um acompanhamento mais esparso. Desnecessário dizer que esta abordagem torna o tratamento bem mais barato, o que faz dele uma alternativa interessante em termos de atenção primária a saúde, já que há uma sobrecarga crescente de pacientes com problemas psiquiátricos nos ambulatórios gerais, a maioria absoluta com quadros leves; se fossem todos encaminhados para psiquiatras não haveria médicos para todos, e ainda por cima faltariam especialistas para os quadros graves.
Hoje já existem diversos estudos comparando a eficácia da biblioterapia com os outros tratamentos. Um deles foi inteligentemente desenhado para comparar o uso de livros com o “tratamento habitual”: 6 médicos se voluntariaram para tratar de um grupo de 38 pacientes; para 19 deviam prescrever o tratamento que melhor conviesse (o que eles bem entendessem, no português mais claro), e para outros 19 eles podiam apenas recomendar a leitura do livro Feeling Good, de David D. Burns. Trata-se de um manual de auto-ajuda recheado de técnicas cognitivo-comportamentais publicado em 1999. Durante 6 semanas os pacientes deviam ou ler cerca de 11 páginas por dia, ou simplesmente seguir o tratamento, que em todos os casos baseou-se em medicamentos ou psicoterapia. Após esse período havia um retorno em 1 e 3 meses.
A esta altura você já não se surpreenderá ao saber que os tratamentos foram comparáveis em todos os aspectos: adesão dos pacientes, adesão dos médicos, custo do tratamento e eficácia não apresentaram diferença, quer com remédios ou terapia, quer com o livro de auto-ajuda. Sabendo que os remédios no longo prazo têm custo mais elevado, que há efeitos colaterais, interações medicamentosas etc, torna-se claro que em casos leves a biblioterapia pode ser uma boa pedida. Excluídos os casos graves, a principal limitação para tal tratamento fica mesmo por conta da compreensão da linguagem escrita por parte do paciente.
Isso signfica, por exemplo, que se o Tiririca não pudesse assumir o cargo de deputado em razão de analfabetismo (total ou funcional) e por isso ficasse deprimido, não haveria livro capaz de dar jeito. Com mais de um milhão de votos, ele é um símbolo da inviabilidade de sequer pensarmos tal tratamento no Brasil, onde de cada 4 cidadãos (cidadãos?) apenas 1 compreende plenamente o que lê.
Naylor, E., Antonuccio, D., Litt, M., Johnson, G., Spogen, D., Williams, R., McCarthy, C., Lu, M., Fiore, D., & Higgins, D. (2010). Bibliotherapy as a Treatment for Depression in Primary Care Journal of Clinical Psychology in Medical Settings, 17 (3), 258-271 DOI: 10.1007/s10880-010-9207-2
Peço constrangida licença aos leitores para fazer jabá. Ao que me consta isso não é lá muito elegante nos meios jornalístico ou científico, mas é uma forma de os leitores do blog saberem que novamente estou me aventurando no papel, não só na rede: no dia 18 de novembro iremos lançar o livro Machado de Assis: a loucura e as leis – Direito, Psiquiatria e Sociedade em 12 contos machadianos.
Se o leitor atentar para o subtítulo do livro irá notar uma coincidência com o nome deste blog: Psiquiatria e Sociedade. Não é por acaso. Quem acompanha os artigos semanais já notou que minha ideia é dialogar de forma ampla com a sociedade a partir dos conhecimentos sobre mente, cérebro e comportamento. As pesquisas nessas áreas são tantas, e tão interessantes, que acredito poderem elucidar muito sobre nós mesmos, ajudando-nos a nos entender um pouco mais; no final das contas, creio que esse conhecimento acumulado pode ser de grande ajuda em nossa caminhada vida afora. Não queremos todos fazer desse mundo um lugar melhor, afinal? Essa é minha contribuição.
O livro reúne 12 contos do Machado de Assis que de alguma forma dizem respeito à loucura e à forma como a sociedade lida com ela, refletida sobretudo nas leis. Após cada um dos contos eu apresento um breve ensaio, destacando e discutindo esses aspectos, tanto do ponto vista histórico como atual. Como digo na introdução, não pretendo oferecer uma leitura reducionista da obra machadiana, mas sim ampliar suas possibilidades, acrescentando um ponto de vista até então inexplorado.
Espero que muitos dos que se interessam por esse diálogo entre Psiquiatria e Sociedade possam comparecer ao lançamento, para que finalmente possamos dialogar ao vivo. Aos que não puderem, continuamos a conversar por aqui mesmo. Até lá.
Onde comprar:
Livraria Cultura
Livraria Resposta
Disal
Livraria da Folha
Book Stop Livraria
Saraiva
Siciliano
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