“Um bom assassinato, um legítimo assassinato , um belo assassinato”. – declara o policial a repórteres – “Tão belo quanto era de se desejar”.
A frase faz parte da peça Anatomia Woyzeck, que fecha a trilogia da violência da Cia Razões Inversas. Nela, talvez até mais do que em Agreste ou Anatomia Frozen, vê-se como violência é um fenômeno complexo e que resiste a explicações simplistas.
O texto da peça inacabada de Georg Büchner – considerada uma das mais importantes do teatro do século XIX – foi inspirado pelo caso real do soldado Johann Christian Woyzeck, que assassinou sua companheira e mãe de seu filho em 1821 na cidade de Leipzig. Preso, logo foi alegada insanidade mental por sua defesa, levando o caso a se arrastar por dois anos entre avaliações e laudos psiquiátricos. Dos médicos locais até a Faculdade de Medicina da Universidade de Leipzig, muito se debateu sobre a causa do homicídio e a responsabilidade de Woyzeck, até que, a despeito de um quadro psicótico, ele foi executado.
Mas a riqueza da peça, preservada na presente montagem, consiste em não reduzir a discussão a relações de causa e efeito. A violência cometida pelo protagonista já quase no final do espetáculo é só mais uma no meio de tantas que cercam sua vida, desde a subtração de sua autonomia – como soldado ou como cobaia de experiências médicas – até o fascínio com que o crime é escrutinado pela sociedade. O mundo é violento. Ponto.
Psicótico ou não, responsável ou não, a dramatização do caso Woyzeck levanta questões profundas sobre a violência como produto de si mesma, indo além do universo da loucura. Menos do que o quadro clínico, é a perturbação que fica em primeiro plano, representada pela narrativa fragmentada da peça, pela sucessão de cenas em ordem não cronológica e pelo revezamento que os atores fazem em cena. O desconforto que se cria no espectador consegue dar uma ideia de quão perturbado estava Woyzeck, levando a pensar quem, sendo ou não louco, não ficaria violento naquela situação.
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Beckenkamp J (2006). A questão da imputabilidade jurídica entre Racionalismo e Romantismo Dissertatio, 24, 105-115
Não sei bem a razão, mas há tempos não vejo um lanterninha em ação – os mais jovens podem nem saber que essa categoria profissional já existiu. Quem chegava um pouco atrasado ao cinema, quando as luzes já se haviam apagado, tinha dificuldade de encontrar um lugar até que os olhos se acostumassem à escuridão. Era quando entrava em ação o lanterninha, um sujeito que, de posse de uma pequena lanterna a pilhas, ajudava o atrasado a se orientar dentro do cinema. Não encontro uma explicação definitiva para a extinção da classe, mas saúdo com alegria o lançamento de uma coleção de livros chamada justamente “Coleção lanterninha”, do selo Amarilys da editora Manole. A proposta é publicar livros que deram origem a filmes clássicos do cinema; o nome vem pois a calhar, já que tais obras sem dúvida ajudam o leitor/espectador a se orientar com relação ao filme em questão.
Li de uma sentada um dos primeiros livros, “O inquilino”, que inspirou o filme homônimo do perturbado(r) Roman Polanski, escrito pelo versátil e pouco conhecido entre nós Roland Topor. Conta a história de um rapaz que, após mudar-se para o apartamento de onde a antiga moradora saltara pela janela, progressivamente vai se convencendo de que os vizinhos estão mancomunados num plano para também levá-lo ao suicídio, fazendo-o enlouquecer. Lembro-me de ter visto o filme de Polanski no início da minha especialização em psiquiatria, por recomendação dos professores, justamente pela descrição – em primeira pessoa – da perda gradual do contato com a realidade. Num primeiro surto psicótico a angústia e a perplexidade vêm da sensação de que está tudo muito estranho, até que o delírio se instala definitivamente e o paciente “compreende tudo” – são os vizinhos que o estão espiando e tramando para matá-lo, ou coisas do gênero. Paradoxalmente, a angústia da não compreensão do que está acontecendo diminui, pois agora ele “sabe” qual o problema, mas a raiva aumenta diante da indignação com a injustificável perseguição.
Nesse mês foi publicado um estudo grande, com quase quinhentas pessoas em primeiro surto psicótico (o que é difícil conseguir, pois normalmente os pacientes chegam até os centros de pesquisa já com anos de história). O objetivo era saber se os delírios podiam fazer com que os pacientes se tornassem violentos. O relato de episódios de agressão durante os 12 meses anteriores ao início do tratamento, na presença de sintomas psicóticos, revelou que não são as ideias irreais que fazem, por si sós, aumentar o risco de violência dos pacientes. O que ocorre, e que tanto o filme como o livro descrevem bem, é que três categorias comuns de sintomas – a sensação de estar sendo espionado, perseguido e a existência de uma conspiração contra si – geram raiva em quem os experimenta, podendo levar a alguma reação contra os supostos perseguidores. Nesse estudo, 12% dos pacientes se envolveram em violência grave.
Por acaso ou não esses três sintomas ocorrem com o infeliz protagonista de O inquilino. Sua reação, contudo, é menos explosiva do que poderia, até por seu temperamento pacato prévio, o que a narrativa mostra com bastante coerência ao longo da história. É por essa e por outras que a arte é uma ferramenta preciosa para todos os que lidam com a doença mental – é das melhores formas, e talvez uma das únicas, de se conhecer o sofrimento psíquico dos pacientes de uma perspectiva interna.
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Coid JW, Ullrich S, Kallis C, Keers R, Barker D, Cowden F, & Stamps R (2013). The Relationship Between Delusions and Violence: Findings From the East London First Episode Psychosis Study. JAMA psychiatry (Chicago, Ill.), 1-7 PMID: 23467760
Eu adoro uma polêmica. Mas dessa vou ficar de fora: em 2010 o livro Leite Derramado, do Chico Buarque, ganhou o Prêmio Jabuti de melhor livro do ano, mas ficou em segundo lugar na categoria romance. A gritaria foi imensa: como é o segundo melhor romance, mas o melhor livro? Teve até gente pedindo para ele devolver o prêmio e essas coisas. Fico de fora. O que sei eu de prêmios literários, a não ser que bem gostaria de merecer um?
De toda forma, Leite Derramado é um bom livro. É narrado em primeira pessoa por um senhor muito idoso, internado em algum serviço de saúde não identificado, que conta sua história – do tataravô ao tataraneto – de maneira frequentemente confusa e, não raro, fantasiosa. Nem chegamos a saber se há alguém ouvindo ou se tudo se passa em sua mente. Inspirado na canção “O velho Francisco“, na qual um velho escravo conta sua vida, livro e música mostram como a memória é traiçoeira.
Logo no começo da história Eulálio, o narrador, adverte: “Ao passo que o tempo futuro se estreita, as pessoas mais novas têm de se amontoar de qualquer jeito num canto de minha cabeça. Já para o passado tenho um salão cada vez mais espaçoso, onde cabem com folga meus pais, avós, primos distantes e colegas de faculdade que eu já tinha esquecido, com seus respectivos salões cheios de parentes e contraparentes e penetras com suas amantes, mais as reminiscências dessa gente toda, até o tempo de Napoleão”. E segue nessa toada o tempo todo.
Três padrões surgem da narrativa: fatos coerentemente relatados, confusão nos detalhes, e presença de elementos fantásticos, pouco críveis. Em sua senilidade o narrador nos revela a forma preferencial de a memória nos enganar: as confabulações. Diferentes da mentira corriqueira, as confabulações são falsas memórias: o sujeito relata coisas que não aconteceram, mas sem crítica sobre inverdade do que diz. Presente em síndromes neuropsiquiátricas diversas, elas acontecem também com pessoas saudáveis quando têm que recordar fatos detalhadamente: embora não do tipo fantasioso, nós nos confundimos com a ordem cronológica, detalhes de lugares, nomes ou datas, sem percebermos, e com plena convicção de que lembramos de tudo perfeitamente.
Esse é, para mim, o grande mérito do livro: da mistura de reminiscências e confabulações Chico Buarque elegantemente consegue fazer emergir uma história compreensível, mesmo sem diferenciar o que é verdade do que não é. Leite Derramado mostra em lente de aumento a forma como todos vivemos, afinal: tendo em nossa mente uma história de vida coerente, onde se misturam fatos e ficções de forma indistinguível.
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Kopelman MD (1987). Two types of confabulation. Journal of neurology, neurosurgery, and psychiatry, 50 (11), 1482-7 PMID: 3694207
Seu filho pequeno pode ser um psicopata? Seu sobrinho, irmãozinho? O tema se impõe por conta de uma longa reportagem na revista do jornal The New York Times que repercutiu mundo a fora: “Você pode chamar uma crianças de 9 anos de psicopata?”.
A discussão central é: 1) Se é possível estabelecer esse diagnóstico em crianças pequenas, já que nelas múltiplos sintomas se misturam, dificultando uma classificação precisa; e 2) se existiriam mesmo crianças tão más que chegam a ser incorrigíveis. Para discutir o tema, hoje não recorrerei à literatura técnica, mas aos dois maiores escritores brasileiros de todos os tempos.
Para mostrar a dificuldade diagnóstica, chamo Machado de Assis. Em seu conto “Verba testamentária” ele descreve uma criança com comportamento tão ruim que só consegue atribuir a uma doença: “Sim, leitor amado, vamos entrar em plena patologia. Esse menino que aí vês (…) não é um produto são, não é um organismo perfeito. Ao contrário, desde os mais tenros anos, manifestou por atos reiterados que há nele algum vício interior, alguma falha orgânica. Não se pode explicar de outro modo a obstinação com que ele corre a destruir os brinquedos dos outros meninos (…). Menos ainda se compreende que, nos casos em que o brinquedo é único, ou somente raro, o jovem Nicolau console a vítima com dois ou três pontapés; nunca menos de um.” “A rua em que ele residia, contava um sem-número de caras quebradas, arranhadas, conspurcadas. As coisas chegaram a tal ponto, que o pai resolveu trancá-lo em casa durante uns três ou quatro meses”. “Mas nem admoestações, nem castigos, valiam nada. O impulso interior do Nicolau era mais eficaz do que todos os bastões paternos”. Com o tempo o menino cresceu e seu comportamento passou a revelar sinais de depressão: “A doença apoderara-se definitivamente do organismo. Nicolau ia, a pouco e pouco, recuando na solidão”. Até que a moléstia foi “descoberta; era um verme do baço”. Logo “a secreção do baço tornou-se perene, e o verme reproduziu-se aos milhões”, até que ele morreu: “Quis ele deixar-se morrer? Assim se poderia supor, ao ver a impassibilidade com que rejeitou os remédios dos principais médicos da corte”.
Claro que a depressão não é causada por um verme no baço, mas a questão levantada no conto é que, mesmo com um comportamento tão disfuncional, no fim das contas o pequeno Nicolau talvez não fosse um psicopata mirim, mas sim que apresentasse sinais de depressão, que na criança não são facilmente identificáveis. É por isso que os entrevistados na matéria do New York Times já receberam literalmente dezenas de diagnósticos diferentes.
Mas existem sim crianças muito más. Cruéis. E incorrigíveis. Chamo agora o médico Guimarães Rosa, que descreve em “Grande sertão: veredas” outro menino mau. “Pois essezinho, essezim, desde que algum entendimento alumiou nele, feito mostrou o que é: pedido madrasto, azedo queimador, gostoso de ruim de dentro do fundo das espécies de sua natureza. Em qual que judia, ao devagar, de todo bicho ou criaçãozinha pequena que pega; uma vez, encontrou uma crioula benta-bêbada dormindo, arranjou um caco de garrafa, lanhou em três pontos a popa da perna dela. O que esse menino babeja vendo, é sangrarem galinha ou esfaquear porco. – “Eu gosto de matar…” – uma ocasião ele pequenino me disse. Abriu em mim um susto; porque: passarinho que se debruça – o vôo já está pronto! Pois, o senhor vigie: o pai, Pedro Pindó, modo de corrigir isso, e a mãe, dão nele, de miséria e mastro – botam o menino sem comer, amarram em árvores no terreiro, ele nu nuelo, mesmo em junho frio, lavram o corpinho dele na peia e na taca, depois limpam a ele do sangue, com cuia de salmoura”.
Aqui a conclusão do sertanejo mostra o niilismo que surge diante de crianças muito más; ao dizer que quando o passarinho se debruça o vôo já está pronto, fica patente que, independente das correções – até brutas – dos pais, o menino se encaminhava para a maldade, inexoravelmente.
Os dois escritores no confirmam então que 1) estabelecer diagnósticos em crianças é difícil – pois os comportamentos são muito variáveis – e também temerário – pois pode representar um estigma impossível de se remover, selando seu destino. E que 2) existem mesmo crianças que parecem predestinadas para a maldade, para as quais não há correção ou tratamento possível. No entanto, como as pesquisas mostram que 50% das que têm comportamentos antissociais acabam melhorando com o tempo, vale a pena manter a esperança, pois parece que só metade dos passarinhos que debruçam acabam mesmo decolando.
Sabe todos os seus conceitos sobre como a memória funciona? Com o perdão do trocadilho, esqueça-os. Talvez não todos, mas provavelmente boa parte do que você imagina está errado. Duvida? Então diga se você concorda ou não com as quatro afirmações abaixo:
1) Quando uma pessoa sofre de amnésia, normalmente ela não consegue se lembrar de seu nome ou sua identidade.
2) A palavra de uma testemunha honesta, que tem certeza do que viu, poderia bastar para condenar alguém judicialmente.
3) A memória humana funciona aproximadamente como uma câmera, gravando sons e imagens do que acontece para que possamos posteriormente rever na memória.
4) Uma vez que algo tenha sido gravado na memória, essa lembrança não se modifica mais.
E então, qual o escore? Com quantas você concorda? Se acredita que qualquer uma delas está certa, errou. Todos os conceitos são incorretos. Talvez o único consolo é que você não está sozinho: entrevistados 1500 americanos, de todas as camadas sociais, 82,7% das pessoas acreditavam na primeira frase, 37,1% na segunda, 63% na terceira e 47,6% na quarta. E a ficção é em grande parte culpada por isso.
Poucos sintomas neuropsiquiátricos são tão caros ao cinema e à literatura como a amnésia, mas poucos são tão distorcidos. A história típica é a de uma pessoa que leva uma pancada na cabeça, esquece de tudo, inclusive de quem ela é, e só ao levar uma segunda pancada recupera a memória. Mas na verdade traumatismos cranianos raramente produzem essa amnésia total. Ela até pode acontecer diante de traumas psíquicos, mas é raríssima. E obviamente não pode ser revertida com outra pancada. Já a ideia de que temos uma filmadora na cabeça, registrando tudo e guardando em arquivos que podemos posteriormente acessar tem grande apelo justamente pela metáfora tecnológica. Mas não é assim que funciona: quando lembramos de algo nós reconstruímos a cena. Guardamos apenas alguns elementos chave, repletos de lacunas que só são preenchidas pelo cérebro na hora de reencenar a lembrança. Por isso mesmo existem muitas distorções: o contexto em que estamos, as dicas que usamos para lembrar, as expectativas envolvidas, tudo isso influencia nessa reconstrução, podendo levar até mesmo à formação de falsas memórias.
Estive pensando nisso enquanto lia o excelente livro Antes de Dormir (Editora Record), aclamado romance de estreia de S.J. Watson. Ele também usa um conceito incorreto sobre a memória: uma mulher acorda a cada dia sem se lembrar de nada. Exatamente como a Drew Barrymore em Como se fosse a primeira vez. Mas não se trata de uma comédia romântica, e sim de um suspense tão envolvente que percorri as quatrocentas páginas em quatro dias. A criativa estrutura do livro nos coloca na perspectiva da narradora, inicialmente no dia de hoje, quando ela recupera um diário que vinha fazendo há algumas semanas. A segunda parte se constrói toda sobre o diário, que lemos junto com a protagonista descobrindo com ela o que está acontecendo. Na última parte voltamos para o dia de hoje, após terminar de ler as anotações. Só que ao longo das páginas as dúvidas foram se acumulando, pois sem ter memórias sobre as quais construir o conhecimento, ficamos, narradora e leitores, à mercê do que os outros lhe contaram e ela conseguiu escrever. Nem tudo é o que parece, e ao comparar as versões ela vai depurando a história, construindo uma trama que não nos deixa fechar o livro antes do fim. Difícil falar mais alguma coisa sem estragar as surpresas.
Como muitas obras de ficção, esse livro abusa da liberdade poética para tecer sua história, cometendo alguns equívocos graves com relação à memória. Mas é tão bem escrito que, novamente com perdão do trocadilho, são falhas que vale a pena esquecer.
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Simons DJ, & Chabris CF (2011). What people believe about how memory works: a representative survey of the U.S. population. PloS one, 6 (8) PMID: 21826204
A hipnose forense está em alta. Não só o romance “O hipnotista” faz sucesso no Brasil e no mundo como no mesmo ano do lançamento do livro no país (2011) foi reinaugurado um laboratório de hipnose no Instituto de Criminalística do Paraná. Acho que é hora de retomar a campanha por uma Legislação Baseada em Evidências.
Escrito a quatro mãos pelo casal Alexandra e Alexander Ahndoril, o suspense “O hipnotista” é fruto da nova onda do thriller escandinavo. Há alguns anos autores de diversos países do norte da Europa vêm movimentando o cenário mundial dos romances policiais, com histórias cheias de sangue e reviravoltas ambientadas nas lúgubres paisagens de dias curtos e noites longas. Talvez o ápice do sucesso tenha sido atingido por Stieg Larsson com sua Trilogia Millenium, que vendeu dezenas de milhões de livros e foi filmada na Suécia e começa a ser refilmada em Hollywood. O hipnotista não faz jus aos seus pares, no entanto. O argumento é envolvente: uma família é morta de forma brutal a facadas, sobrevivendo apenas um filho adolescente que pode ser uma testemunha valiosa no caso. Como ele está em choque e não consegue falar, é chamado um psiquiatra especialista em trauma que também faz hipnose. Na verdade não faz mais, pois há dez anos algo deu errado e o levou a jurar nunca mais hipnotisar alguém; isso muda quando ele pode ajudar, mas algo dá errado novamente. Parece interessante, não? Mas o livro começa bem, envolvente, só para logo perder o ritmo, já no primeiro terço, parecendo que falta folêgo aos autores para dar conta das histórias paralelas que se abrem ao longo da trama. No final das contas as soluções para o enredo são pouco interessantes e geram um contraste com a expectativa que a sinopse cria. Enfim, se quiser ler mais descendentes vikings depois do Larsson sugiro garimpar outros títulos (e se descobrir um bom, indique para mim).
Mas eis que agora o Brasil poderá contar com seus próprios hipnotistas. Após dez anos de atividade entre 1998 e 2008, durante os quais foi chamado para auxiliar em mais 700 casos criminais, o Laboratório de Hipnose Forense do Paraná – desativado desde então – foi reaberto no final de 2011. Hipnotisando vítimas e testemunhas, a proposta é encontrar “indícios para formação de provas”. Mas funciona?
É aqui que retomo a proposta de uma Legislação Baseada em Evidências. Antes de novas leis ou procedimentos judiciais serem adotados, acho que deveria ser obrigatório realizar uma pesquisa séria sobre o tema. E as revisões sistemáticas da literatura científica mostram que a hipnose não é um meio confiável de resgatar lembranças. A teoria de que memórias de alguma forma reprimidas poderiam ser acessadas por meio dos estados hipnóticos já fora descartada pelo próprio Freud, e os problemas dessa técnica vêm sendo comprovados ao longo dos anos. Resumidamente o que ocorre é que a hipnose aumenta o número de lembranças corretas na mesma proporção em que aumenta as falsas memórias, com o agravante de que torna as pessoas mais confiantes nas lembranças mesmo quando estão erradas. Além disso, a tendência a passar a acreditar em algo que foi “lembrado” sob hipnose é tão forte, independente da acurácia da recordação, que vários estados americanos proíbem pessoas que foram hipnotisadas de serem sequer ouvidas como testemunhas posteriormente. Há que se ressaltar, no entanto, que algumas técnicas de entrevista usadas pelos hipnólogos podem ser úteis, mas por outras razões: enquanto policiais normalmente interrompem o fluxo de ideias na hora de interrogar as pessoas, usam perguntas fechadas (tipo sim/não), induzem respostas e não raro transmitem juízos de valor ao longo do interrogatório, a abordagem do entrevistador afeito à hipnose é em tudo oposta, facilitando o acesso dos sujeitos a suas memórias. Isso sem qualquer relação com um estado transe hipnótico.
Hipnose funciona para uma série de outras coisas, como controle da dor, relaxamento e até mesmo anestesia cirúrgica. Mas quando o assunto é memória ou romances policiais sua eficiência ainda está por ser comprovada.
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Kebbell MR, & Wagstaff GF (1998). Hypnotic interviewing: the best way to interview eyewitnesses? Behavioral sciences & the law, 16 (1), 115-29 PMID: 9549881
Erdelyi, M. (2010). The ups and downs of memory. American Psychologist, 65 (7), 623-633 DOI: 10.1037/a0020440
Sempre que você entra numa livraria sofre o ataque de uma onda de livros que pulam diante dos seus olhos, exibindo-se como “Livros Que, Se Você Tivesse Mais Vidas Para Viver, Certamente Leria De Boa Vontade”; “Livros Que Tem A Intenção De Ler Mas Antes Deve Ler Outros”; “Livros Caros Que Podem Esperar Para Ser Comprados Quando Forem Revendidos Pela Metade do Preço”; “Livros Que Todo Mundo Leu E É Como Se Você Também Os Tivesse Lido”; e assim por diante. Essa descrição perfeita, que figura na introdução do romance “Se um viajante numa noite de inverno”, do escritor Ítalo Calvino, é seguida por uma ainda melhor, do sujeito lendo o livro no meio do trabalho: “isso não lhe parece uma falta de respeito? De respeito, entenda bem, não para com o trabalho (ninguém pretende julgar seu rendimento profissional; vamos pressupor que suas tarefas sejam regularmente inseridas no sistema das atividades improdutivas que ocupam boa parte da economia nacional e mundial) mas para com o livro”.
Essa sensação de “ah, então não é só comigo” que temos diante dessas passagens, além de atestarem a fina capacidade de observação do escritor, mostram como o trabalho é mal organizado de forma geral. Na maioria das vezes as pessoas são forçadas a cumprir horários rígidos, independente do que façam nesse tempo (imagine o que Calvino não escreveria em tempos de facebook e youtube), o que lhes engessa a vida e não contribui necessariamente para a produtividade das empresas.
Tentando extrair fatos a partir dessa percepção, um grupo de pesquisadores americanos propôs introduzir um modelo batizado de Ambiente de Trabalho Só de Resultados (Results Only Work Enviroment – ROWE) na sede da Best Buy. Seiscentos e cinquenta e nove empregados passaram a ser cobrados exclusivamente por sua produtividade, flexibilizando seus horários de trabalho, entrada e saída, desobrigando-os até mesmo de pedir para ir embora, se quisessem. Há muito tempo sabe-se que conferir autonomia às pessoas, mesmo que pequena, traz impacto psíquico positivo (e que reduzi-la é um dos fatores mais estressantes que existem), e de fato com tal mudança os funcionários passaram a ter menos conflitos trabalho-família, passaram a cuidar melhor de sua saúde e ganharam inclusive mais tempo de sono, apresentando aumento significativo em suas medidas de bem estar.
Agora, se já não resta dúvida de que permitir que as pessoas organizem seus próprios horários tendo em vista suas tarefas é positivo para os empregados, falta comprovar que também é bom para os empregadores. Supostamente eles faltarão menos e estarão mais motivados, mas os gestores querem ver os números, não palpites. Até que tais evidências surjam, portanto, ainda iremos nos dividir entre um daqueles “Livros Que Você Sempre Fingiu Ter Lido e Que Já Seria Hora De Se Decidir A Lê-los Realmente”, o novo clip da Lady Gaga e uma ou outra tarefa, enquanto não batem as dezoito horas.
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Moen, P., Kelly, E., Tranby, E., & Huang, Q. (2011). Changing Work, Changing Health: Can Real Work-Time Flexibility Promote Health Behaviors and Well-Being? Journal of Health and Social Behavior, 52 (4), 404-429 DOI: 10.1177/0022146511418979
Imagine um livro que fosse no formato de um pequeno e flexível computador, com tela no lugar de páginas e uma capa de plástico. Agora imagine que seu conteúdo abrangesse todo o conhecimento disponível, e que apesar de alguns funcionários e colaboradores fixos dessa enciclopédia, qualquer pessoa pudesse contribuir para os verbetes, atualizados por meio de uma rede. Não, não estamos falando de iPads e Wikipedias. Estamos falando de um tempo em que isso era ficção cientítica; das boas.
No final da década de 70 o escritor Douglas Adams escreveu a série “Guia do Mochileiro das Galáxias”. Tal guia tinha na capa o slogan “Não entre em pânico!”, e sempre trazia conselhos aos personagens envolvidos nas mais improváveis situações, que se não eram úteis eram ao menos bastante divertidos. Concebida como trilogia, a série chegou a cinco livros escritos por Adams, falecido em 2001. Agora, após quase vinte anos da publicação do último livro, a viúva de Adams autorizou Eoin Colfer (autor dos livros da série Artemis Fowl) a escrever uma continuação, publicada no Brasil em parceria pela Record e a Arqueiro (selo literário da Sextante) com o título “E tem outra coisa…”.
Colfer resgata os personagens e mantém o ritmo tresloucado da série, recheando a trama de menções aos livros anteriores. Como neles, a história é entremeada por transcrições literais dos verbetes do Guia, e apesar de o autor abusar um pouco deles não chega a comprometer o desenrolar da história. Embora seja um livro de humor, sem pretensões proféticas, creio que ele acerte numa previsão quando um dos personagens diz: “Li sobre isso numa coisa que tem páginas. Um negócio antigo, onde você vira páginas”.
Acho que é esse o destino dos livros. Note que no trecho acima fica claro que eles não desapareceram totalmente; estão por aí, o personagem até já leu um, mas não são mais a fonte primária de informação.
Sustenta essa perspectiva uma pesquisa realizada pela Universidade Johaness Gütemberg de Mainz, Alemanha, em parceria com uma empresa de marketing daquele país. Vinte voluntários com média de idade de 26 anos e dez com média de 64 anos foram convidados a ler nove textos, três num iPad, três num Kindle (e-book da Amazon) e três em papel, com diferentes níveis de complexidade. Além de testes de compreensão e fixação de conteúdos, os sujeitos foram submetidos a eletroencefalograma (EEG) e rastreamento de movimento dos olhos.
Embora quase todos dissessem, numa avaliação subjetiva, que preferiam ler em papel, não houve diferença quanto à compreensão e fixação das informações em qualquer dos suportes, em ambas faixas etárias. O EEG mediu as variações de ondas Theta, que refletem esforço cognitivo ou estresse, e surpreendentemente houve menos variação na leitura do iPad, indicando menor esforço cognitivo nesta tarefa. O movimento dos olhos – que tende a ser mais lento em leituras mais trabalhosas – não mostrou diferenças entre aparelhos ou grupos. Outra diferença inesperada foi que, nos mais idosos, a leitura em tablet foi mais rápida do que em e-book ou papel, sem prejuízo de entendimento.
Não encontrei o estudo publicado numa revista científica, e deve-se ter em mente que, embora realizado por uma equipe universitária séria, o patrocinador é dono da maior plataforma de livros eletrônicos alemã. Feitas essas ressalvas, contudo, creio mesmo que a leitura não seja prejudicada pelo meio em que é feita, sejam tablets, e-books ou papel. Sendo só uma questão de costume acho que, diante das facilidades que os meios eletrônicos apresentam, logo os livros serão de fato “um negócio antigo”. Mas o seu cérebro não notará diferença, por isso, “Não entre em pânico!”.
Relatório da pesquisa (em alemão) aqui.
Você já ouviu falar em eletroconvulsoterapia (ECT)? Sim, o velho eletrochoque, que – felizmente – continua sendo utilizado nos hospitais mais sérios do mundo. Mas que – infelizmente – ainda é cercado de preconceito e criticado por pessoas que ignoram as condições de sua aplicação, as indicações e, sobretudo, a eficácia e segurança. Deixe-me então dizer algumas coisas.
Cegadas por uma ideologia burra apesar de supostamente bem intencionada (promover a humanização em saúde mental), campanhas contra ECT só fazem aumentar o preconceito, o medo e o estigma, contaminando todo o campo de tratamentos biológicos em psiquiatria e levando à desumanização, ao impedir que doentes graves sejam adequadamente tratados.
A culpa é, em parte, do Romantismo. Na aurora desse movimento, influenciada pela atmosfera gótica, uma jovem de 18 para 19 anos, então chamada Mary Wollstonecraft Godwin, passava férias com seu futuro marido, Percy Shelley e o escritor Lord Byron, quando este lançou o desafio de que cada um escrevesse uma história de fantasmas. O ano era 1816, e a medicina estava deslumbrada com a eletricidade – domesticada há pouco pela ciência. Luigi Galvani conseguira fazer rãs mortas se mexerem, experiência repetida com humanos por seu sobrinho Giovanni Aldini, que obtivera movimentos em membros e face estimulando o cérebro de cadáveres. Assim inspirada, Mary escreveu o que alguns consideram a primeira obra de ficção científica moderna, ao contar a história de um estudante que junta partes de diversos cadáveres e, usando eletricidade, o faz viver. Seu nome, Victor Frankenstein. Deve ter começado aí a o medo das pessoas do uso antiético da eletricidade na medicina.
Em meados do século XX, quando o eletrochoque começou a ser utilizado, sua eficácia empolgou tanto os médicos que ele passou a ser aplicado indiscriminadamente, sem indicações precisas e sem cuidados adequados. Além disso, não raras vezes era uma forma de punição em pacientes agressivos. O movimento da anti-psiquiatria dos anos 60 e 70 utilizou-se disso como um dos argumentos para denunciar os abusos dos psiquiatras. No entanto as indicações foram sendo aprimoradas, os cuidados anestésicos melhorados, fazendo dele um tratamento hoje com eficácia comprovada, indolor e de recuperação rápida. Obviamente, como qualquer tratamento, tem efeitos colaterais. Mas é irresponsável acusá-lo de ser antiético ou desumano. Antiético e desumano é privar pessoas do mais eficaz tratamento disponível.
Diversas outras técnicas utilizando eletricidade e eletromagnetismo estão sendo cada vez mais estudadas na disciplina chamada neuromodulação. O primeiro livro brasileiro sobre o tema – bibliografia do post de hoje – será lançado nesta semana, durante o III Simpósio Internacional de Neuromodulação, realizado na Universidade Mackenzie. Os autores são neurologistas e psiquiatras brasileiros, um deles professor em Harvard, que vêm ajudando a desenvolver esse campo que consegue ser, ao mesmo tempo, antigo e inovador, promissor e estigmatizado, temido e esperado.
Torço para que as pesquisas avancem para que mais pessoas sejam beneficiadas, e também para que a sociedade o fiscalize de forma rigorosa mas sem preconceito, lembrando que, em saúde, não há ética sem técnica.
Fregni F, Boggio PS, Brunoni AR. Neuromodulação terapêutica: Princípios e Avanços da Estimulação Cerebral não Invasiva em Neurologia Reabilitação, Psiquiatria. São Paulo:Sarvier, 2011.
Acho que nunca vamos deixar de nos espantar com a genialidade do Machado de Assis. Uma coisa é ter o dom narrativo, escrever “bem”. Outra coisa é ter uma capacidade de observação humana tão profunda a ponto de ser capaz de descrever doenças psiquiátricas ainda não descobertas.
O competente editor de ciência da Folha de São Paulo, Reinaldo José Lopes, repercutiu em sua editoria a notícia sobre um artigo que publicamos esse ano no British Journal of Psychiatry, mostrando que o “bruxo do Cosme Velho” – apelido famoso de Machado – escreveu um conto no qual os personagens desenvolvem um quadro típico de folie a deux, conhecido como transtorno psicótico induzido.
Acho que vale a pena enriquecer a notíca com detalhes que não cabem na versão impressa.
Folie a deux significa, literalmente, loucura a dois, e foi formalmente descrito pelos franceses Lasegue e Falret, em 1877. O relato original descrevia a doença como uma síndrome de ocorrência mais prevalente entre mulheres vivendo confinadas, marcada por: 1) aparecimento de sintomas psicóticos coincidentes nos membros da família enquanto vivendo juntos; 2) sintomas psicóticos em duas pessoas em estreita associação; 3) transmissão de sintomas psicóticos de uma pessoa doente para uma ou mais pessoas saudáveis. É interessante que essas mesmas características foram incluídas nos critérios diagnósticos desde as primeiras propostas, e modificaram-se pouco desde sua elaboração até hoje.
O conto “O anjo Rafael” – disponível on line, descreve a vida de um homem que, acreditando ser o próprio anjo Rafael enviado por Deus à Terra, isola-se com sua filha em uma fazenda. Mantém-na nessa condição, sem contato com o mundo exterior, desde a infância até os quinze anos, quando, pouco antes de morrer, manda chamar para ela um noivo. Esse futuro marido descobre que a moça está sendo contaminada por delírios de seu pai: ela não só acredita que ele é um anjo, como defende tal ideia ante a incredulidade do noivo. Morto o pai, contudo, ela é levada para a cidade e após três meses está livre das crenças delirantes. Ou seja, a história faz o relato de um quadro que reúne todos os elementos posteriormente descritos por Lasegue e Falret: trata-se de uma mulher, confinada, vivendo em estreita associação com um familiar, que apesar de saudável desenvolve sintomas psicóticos coincidentes com os dele, causados por sua influência. Quando o pai morre e ela é afastada dele, os sintomas desaparecem.
Será que Machado de Assis conhecia um caso assim e nele se inspirou? Se for este o caso, sua precisão no relato surpreende por ser no mínimo equivalente à dos médicos da época. Mas se tudo não passou de fruto de sua criatividade literária, sua genialidade fica ainda mais patente, e reforça o que o próprio Freud diria mais tarde: “O tratamento poético de um tema psiquiátrico pode ser correto, sem prejuízo de sua beleza”.
Barros, DM., & Filho, G. (2011). First fictional report of folie a deux – extra The British Journal of Psychiatry, 198 (1), 30-30 DOI: 10.1192/bjp.198.1.30
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