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Daniel Martins de Barros

Não sei se você já percebeu como os animais facilitam a conversa. Quando existe um cachorro presente raramente falta assunto para as pessoas, e as relações humanas parecem facilitadas. Se em vez de um cão forem duzentos animais selvagens, vários deles ameaçados de extinção, além de uma boa conversa isso pode render um bom filme.

Compramos um zoológico, filme do diretor Cameron Crowe com Matt Damon e Scarlett Johansson, retrata essa situação. É a história real do escritor americano Benjamin Mee que decidiu, junto com a mulher, dois filhos, o irmão e a mãe comprar um zoológico falido, mudando-se com a família para lá. Durante o processo, logo antes da inauguração, a esposa faleceu de um tumor cerebral, mas o projeto foi em frente, não apenas ressuscitando o zoo mas dando origem a um livro e posteriormente ao filme homônimo. No filme a história foi ligeiramente modificada, mas a “essência foi preservada”, de acordo com o próprio autor.

Matt Damon está mais velho e com cara de paizão (às vezes lembra o Philip Seymour Hoffman), e Scarlett Johansson está “tão feia quanto é possível”, como disse o crítico Luiz Carlos Merten. Melhor, porque assim presta-se menos atenção neles e mais nos personagens – pessoas comuns tendo que dar um jeito de lidar com crises universais: sobrecarga de trabalho, orçamento curto, frustrações familiares. É onde entram os bichos.

Embora o efeito terapêutico do contato com animais seja algo intuitivo, é uma área só recentemente estudada de forma científica. Os benefícios, no entanto, já vêm sendo estabelecidos, e não apenas para o convívio animais domésticos, mas também com animais de grande porte, sobretudo quando isso implica a aquisição de novas habilidades. Quatro mecanismos principais formam a base teórica para a eficácia dessas intervenções: 1) os animais atuam como mediadores sociais, facilitando a comunicação entre as pessoas; 2) aumentam a auto-confiança e eficácia, já que lidar com eles leva a necessidade de realizar tarefas específicas; 3) tornam-se objetos de afeto, ajudando a preencher a necessidade de ligação que todos têm; 4) promovem alterações fisiológicas, tendo sido demonstrado desde redução da pressão arterial até aumento de neurotransmissores.

Fora o item 4, todos os outros são explícitos em Compramos um zoológico. Com destaque para o papel dos animais na interação humana, na bela cena em que pai e filho, que passam o filme todo sem conseguir falar um com o outro, conseguem fazê-lo indiretamente, diante de um tigre à beira da morte.

Talvez não seja uma obra que entre para a história do cinema. Mas vale a visita por ser um filme que lida honestamente com o luto, a resiliência e as dificuldades e alegrias de ser gente, ambas amplificadas pelo monte de bichos em volta.

ResearchBlogging.org
Bente Berget, & Bjarne Olai Braastad (2008). Theoretical Framework for Animal-Assisted Interventions – Implications for Practice therapeutic communities international journal of therapeutic communities, 29 (3), 323-337

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Nem vou tentar fugir do tema natalino. Eu gosto de ritos, pessoalmente e profissionalmente, e o Natal tem tanta importância na nossa sociedade que vale a pena pensar um pouco sobre ele.

Duvido que você não se enquadre em pelo menos uma (senão em todas) as seguintes categorias, já que pesquisas indicam que existem sete principais atividades e experiências natalinas: 1) Passar tempo com a família; 2) Participar de atividades religiosas; 3) Manter tradições da época; 4) Gastar dinheiro com as pessoas comprando presentes; 5) Receber presentes das pessoas; 6) Ajudar os necessitados; 7) Desfrutar os prazeres da época, como as comidas típicas. Bateu?

Mas no meio da ambiguidade desse período, quando nós nos esforçamos para finalizar logo coisas que não queremos deixar para o ano seguinte ao mesmo tempo em que tentamos empurrar para o ano que vem aquilo que não queremos resolver já, é possível ter um Natal agradável.

Estudando quais dessas atividades apresentam maiores correlações com sentimentos positivos, sentimentos negativos, estresse e bem-estar geral, confirma-se o que o bom senso por si só já nos indica: são fatores associados ao bem-estar nessa época o envolvimento com a família e as atividades religiosas. Quem se preocupa principalmente com presentes tem menos bem-estar e mais sentimentos negativos, tanto faz se o foco é dar ou receber presentes. Já se concentrar nas tradições, banquetes ou voluntariado não demonstra alterar significativamente os estados emocionais natalinos.

Celebrar a possibilidade de um mundo melhor, a começar por nossas famílias, é, acredito, o sentido do Natal. O título do post vem lembrar que o Papai Noel não deve tomar o lugar de Jesus mesmo para os não cristãos: até mesmo cientistas ateus convictos frequentam atividades religiosas, por motivos semelhantes aos que trazem alegria ao Natal – pela família e pela inserção numa comunidade, ainda que mantendo o ceticismo.

Assim, mesmo para quem não comemora o nascimento de Cristo, fico à vontade para desejar um Feliz Natal.

ResearchBlogging.org
Kasser, T., & Sheldon, K. (2002). WHAT MAKES FOR A MERRY CHRISTMAS? Journal of Happiness Studies, 3 (4), 313-329 DOI: 10.1023/A:1021516410457
Ecklund, E., & Lee, K. (2011). Atheists and Agnostics Negotiate Religion and Family Journal for the Scientific Study of Religion, 50 (4), 728-743 DOI: 10.1111/j.1468-5906.2011.01604.x

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07.setembro.2011 18:35:21

A trabalhosa felicidade

Entremear minhas férias com o trabalho de inaugurar este novo espaço foi motivo de grande alegria. Primeiro pela oportunidade de integrar um time tão ilustre ao juntar-me ao grupo Estado (só os novos vizinhos do site já valeriam o esforço). Mas, além disso, também porque o trabalho duro nos faz mais felizes do que a folga.

Atravessando o Reino Unido de carro com minha esposa e meus pais, indo das terras altas da Escócia até o sul da Inglaterra através de cidades pequenas e estradas minúsculas, esse tema já vinha passando por minha cabeça. Tudo começou quando, notando que o carro alugado fazia grande parte do trabalho sozinho, já que era equipado com GPS, meu pai fez um comentário com o qual concordei imediatamente: “Viajar com GPS perde um pouco a graça, não é?”. Concordei, mas não sem certo conflito – se nem ele nem eu somos saudosistas que acham que tudo era melhor antigamente, nem tampouco tecnófobos, desconfiados de qualquer coisa que use pilhas, por que sentíamos que outras viagens – com mapa no colo, estudando pontos de referência e debatendo qual via seguir – eram mais recompensadoras do que as mais recentes, guiadas por satélite?

Justamente porque aquelas davam mais trabalho.

É claro que é mais fácil apertar dois ou três botões e seguir as indicações; tecnologia serve para isso mesmo, facilitar a vida. Mas não se pode negar que, se ganhamos em conforto, perdemos em realização, privados do sentimento de vitória ao decifrar um labirinto de estradas e conseguir chegar ao destino.

Essa foi a mesma conclusão de um grupo de pesquisadores da escola de negócios da Universidade de Chicago no ano passado. Eles apresentaram um formulário a voluntários, oferecendo em troca uma barra de chocolate. Os sujeitos podiam esperar 15 minutos e pegá-la ali mesmo, ou gastar esse tempo indo a pé buscá-la em outro local. Mesmo variando o tipo de chocolate (escuro ou ao leite) e o grau de liberdade das pessoas para escolher o que fazer, todos que tiveram mais trabalho se sentiram mais felizes do que quem teve folga. Os pesquisadores concluíram que o ócio na verdade nos aflige, e o que queremos mesmo é ficar ocupados – só precisamos de um motivo.

Creio que a partir de agora motivos para ficar ocupados não faltarão nem a mim – que passo a ter um blog a sustentar –, nem aos leitores – que terão mais textos para ler. Mas sinceramente espero que acompanhar esse blog dê tanto trabalho quanto escrevê-lo,  para assim compartilharmos da alegria que é estar aqui.

ResearchBlogging.org

Hsee CK, Yang AX, & Wang L (2010). Idleness aversion and the need for justifiable busyness. Psychological science, 21 (7), 926-30 PMID: 20548057

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08.fevereiro.2011 11:56:15

Conversa desagradável

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Acho que alguns leitores podem ficar indignados, mas não consigo deixar de comentar a matéria de capa da Veja da semana passada, Luciano Huck e Angélica mostrando a nova cara do bom-mocismo para um mundo politicamente correto.

Mas o quê nosso blog tem a ver com isso? Tem a ver na medida em que a mídia é uma fonte de modelos mentais para a sociedade, e o modelo apresentado ali é, no mínimo, parcial. É claro que eu torço pela felicidade dos apresentadores (aliás, torço para a felicidade geral das nações), mas pintar a vida como uma comédia romântica, na qual os protagonistas passam por diversos desencontros até finalmente se unir e se tornarem felizes para sempre já se provou uma fórmula prejudicial para a saúde emocional das pessoas.

Para citar apenas um estudo de muitos, numa pesquisa com quase 300 estudantes universitários, encontrou-se uma clara correlação entre a preferência por mídias de conteúdo romântico, como seriados, filmes e revistas, e crenças absolutamente disfuncionais no que se refere a relacionamentos reais, como acreditar que o destino apresentará um parceiro ideal que será imediatamente reconhecido, ou esperar que o parceiro tenha a percepção imediata das necessidades do outro, como se dotado fosse da capacidade de ler sua mente. Nós somos seres sociais, tendemos a nos espelhar no outro, e portanto somos mais sugestionáveis do que gostaríamos. Quando fontes de informação massificam mensagens superficiais e, por que não, mentirosas, acabamos por acreditar naquilo e por viver grandes frustrações.

A matéria da Veja é como os adesivos de carro que viraram moda nos últimos meses: mostram uma família arrumadinha e sorridente, puerilmente retratada como se tudo fossem flores. Claro, ninguém quer colar no seu carro uma cena mostrando a briga com a sogra no almoço de domingo, assim como não seria de se esperar uma reportagem sobre as discussões conjugais de Huck e Angélica. Só quero lembrar que, no dia-a-dia, ser feliz até é possível, mas é mais difícil do que se quer crer e custa um bocado de contrariedades.

ResearchBlogging.org Bjarne M. Holmes (2007). In Search of My “One-and-Only”: Romance-Oriented Media and Beliefs in Romantic Relationship Destiny Electronic Journal of Communication, 7 (3)

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Está rolando nas redes sociais a campanha “troque o BBB por um livro”: pessoas indicam bons livros que estejam lendo e que achem valer mais a pena do que acompanhar o dia-a-dia dos futuros ex-famosos. Eu não creio que essa campanha convença ninguém a desligar a TV e abrir um livro, mas ainda assim vou dar minha pequena contribuição.

Em 2009 foi publicado um estudo que bisbilhotou as conversas de 79 pessoas durante 4 dias. Um gravador automático registrava os sons ambientes durante 30 segundos a cada 12,5 minutos, gerando mais de 20.000 clips, que mostravam desde silêncio até as conversas reservadas. Os pesquisadores então codificaram os momentos em solidão, conversas superficiais ou conversas significativas. As superficiais apenas tratavam de assuntos banais, sem troca de informações relevantes, enquanto as significativas revelavam algum envolvimento entre os interlocutores. Em dois momentos as pessoas tinham também que preencher questionários de satisfação com a vida e bem estar. Os resultados não deixam margem a dúvida: as pessoas que estavam mais tempo sozinhas são as mais infelizes – os mais satisfeitos passavam 25% menos tempo sozinhos e 70% mais tempo falando.

Mas onde entra o BBB nessa história?

Entra porque os resultados também mostraram que as pessoas mais felizes tinham dois terços a menos de conversas superficiais, engajando-se no dobro de conversas significativas. Falar banalidades, portanto, parece estar associado a menor satisfação com a vida e menos felicidade.

Os pesquisadores interpretaram os resultados pensando nos vínculos sociais que nos unem: papo furado e superficialidade não marcam relacionamentos verdadeiros; só com o envolvimento no mínimo um pouco além da trivialidade é que passamos a conversar sobre assuntos relevantes. E desde muito tempo se sabe que vínculos e amizades profundas são importantes para o bem estar das pessoas.

Assim, trocar o BBB por um livro não vai fazer de ninguém uma pessoa mais feliz. Mas conversar sobre a vinda da família real portuguesa ao Brasil ou sobre os usos da arte da guerra na empresa em vez de comentar as fofocas de terceiros pode ser um começo.

ResearchBlogging.org Mehl, M., Vazire, S., Holleran, S., & Clark, C. (2010). Eavesdropping on Happiness: Well-Being Is Related to Having Less Small Talk and More Substantive Conversations Psychological Science, 21 (4), 539-541 DOI: 10.1177/0956797610362675

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Pensei muito no que escreveria como último post de 2010. Como poderia fugir do lugar comum dos balanços de final de ano, planos para o ano novo e que tais. Antes que tivesse tempo, eis que os últimos dias de 2010 se tornaram tão tumultuados que nem pude fazer um último artigo, e o tema surgiu sozinho.

O plano era chegar em Springfield logo após o Natal, com intuito de passar o Reveillon na Times Square.

Pousando em Chicago, no entanto, soubemos da nevasca na costa leste dos EUA e do cancelamento de todos os vôos para lá. Fomos remarcados para o dia seguinte, mas no “dia seguinte” fomos re-remarcados para dali a 3 dias. Só sairíamos no dia 30 de dezembro, e com conexão no interior do Arkansas. A esta altura eu achava que já aprendera a lição de como são frágeis nossos planos. Mas não o suficiente: ocorre que o tal vôo para Arkansas atrasou, o que nos levaria a perder a conexão; foi-nos, portanto, recomendado não embarcar, pois era uma cidade tão pequena que não teríamos como deixá-la por dias. Em poucas linhas não é possível descrever o desespero que tomou conta de mim. Minha cara de choro foi tão evidente que comoveu a atendente a ponto de ela fazer o imposssível de nos embarcar naquela noite. Já era quase início da manhã do dia 31 quando chegamos ao destino inicial.

Até aqui atestara que os planos são falhos. Em seguida lembraria como as expectativas também são.

A ideia de passar o Reveillon em Times Square sempre teve apelo para mim. Ser urbano que sou, já tendo passado na Avenida Paulista, amante de NYC, achava que seria tudo lindo. Sim, estava frio. Sim, a infra-estrutura seria precária. Pouca comida, pouco transporte, nenhum banheiro, horas de espera, nada disso tiraria o brilho da festa. Mas estava muito frio, a comida era nenhuma (só depois uns vendedores de pizza salvariam a noite), os rins não paravam de encher a bexiga, e transcorridas 3 horas, quando ainda faltavam 4 para a virada, lembrei de como somos incapazes de criar cenários emocionais realistas antecipadamente (traduzindo: bateu um arrependimento). Para quê tudo aquilo? Só para ver a bola cair? Não valia a pena. Afinal, não sabia eu como as expectativas nos enganam?

Evidentemente que não, pois quando finalmente a bola desceu em Times Saquare e choveu papel picado ao som de New York, New York na voz do Sinatra, duas lágrimas brotaram. Brega. Como qualquer coisa emocionante.

Mais uma vez eu me esquecera de que não somos capazes de antever nossas reações emocionais a cenários futuros. Errei ao prever quão ruim a tarde seria. Mas errei também ao prever quão boa seria a noite.

Daniel Gilbert já escreveu abundantemente sobre essa nossa incapacidade, e como ela nos gera infelicidade (o artigo citado abaixo é 100% ilustrado pelas aventuras dessa última semana que acabei de contar: nossas previsões são enviesadas, parciais, truncadas, resumidas e dependente do contexto – tudo o que nos ocorreu).

A receita para um ano novo feliz, portanto, é maneirar nos planos e nas expectativas. Pouca coisa sai exatamente como planejamos, e mesmo quando isso ocorre, a emoção é sempre diferente do que fantasiamos. Então, que 2011 corra mais solto, e que assim sejamos felizes.

Pós-escrito: muitos acharam que o texto estava muito negativo. Fiz uma errata no post seguinte – Cérebro: os bastidores da história

ResearchBlogging.org Gilbert, D., & Wilson, T. (2009). Why the brain talks to itself: sources of error in emotional prediction Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 364 (1521), 1335-1341 DOI: 10.1098/rstb.2008.0305

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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