Vingança. Esse parecer ser o tema da semana. Ao nos aproximarmos do marco de um ano do massacre de Realengo temos notícia do crime em massa em Oakland, nos Estados Unidos. Enquanto isso, na ficção, o desejo por retaliação é a mola mestra da novela Avenida Brasil, que promete trazer a ambiguidade psicológica para a dramaturgia popular.
Os crimes como o de Realengo e de Oakland são classificados como crimes de vingança porque em sua maioria são motivados por uma sensação de injustiça acumulada ao longo do tempo. As vítimas não são escolhidas de forma casual, mas, ao menos na mente do perpetrador, são de alguma forma relacionadas ao sofrimento que ele passou. E é interessante notar que, mesmo não sendo improvisados (ao contrário, são bem planejados durante um bom tempo), tais eventos costumam acabar com a morte do assassino, ou no mínimo com sua prisão – eles praticamente nunca saem ilesos. A revanche, portanto, tem um preço que o perpetrador antevê mas opta por pagar.
E vingança é assim mesmo.
Para estudá-la melhor cientistas criaram o seguinte experimento: voluntários ganhavam 10 Unidades Monetárias (UM) cada um. O primeiro, chamemos de A, podia confiar no segundo, B, e dar toda sua quantia para ele. Se o fizesse, o pesquisador quadriplicava o total, deixando B com 50 UMs e A com zero. Depois disso B podia repartir seus 50 com A, como retribuição pela confiança, ou traí-lo ficar com tudo. Mas aí A podia impor uma pena pela traição; algumas vezes isso não custava nada mas em outras havia também um custo para A (A perderia uma UM para cada duas que cortasse de B). Os resultados não deixaram dúvida: o núcleo estriado do cérebro, área que sinaliza prazer e recompensa, era ativado quando A decidia punir B, mostrando que, para o cérebro, a vingança realmente é doce. Mesmo quando A sabia que a vingança teria um custo pessoal essa região do cérebro era ativada (nesse caso, junto com o córtex pré-frontal medial, região envolvida nos cálculos de custo e benefício). E quanto mais ativada fosse a área da recompensa do voluntário quando não havia custo pessoal, maior era a chance de ele retaliar quando houvesse. Ou seja, quanto maior a satisfação pela vingança, menos importância se dá ao preço a pagar.
Esse balanço entre o custo pessoal e a sensação de recompensa traz a ambiguidade de sentimentos envolvida nas situações de vingança. Na novela a protagonista abandona sua família, seu namorado e sua vida estável na Argentina para voltar ao Brasil tentar se vingar. Paga, portanto, um alto preço pessoal, e, segundo o autor, na expectativa de ter sua recompensa se tonará quase uma vilã nos próximos meses, passando a se questionar até que ponto vale a pena.
Nos assassinatos em massa, por outro lado, os sujeitos sabem de antemão que pagarão alto, possivelmente com suas próprias vidas. Mas talvez a realidade já tenha se tornado intolerável para eles, só restando a tênue promessa de uma recompensa na vingança. Claro que são casos que não têm causa única, originando-se de uma cadeia de fatores que culminam na tragédia. Mas se a variável vingança está quase sempre presente, imagino que se tratarmos os outros como queremos ser tratados e educarmos nossos filhos para fazer o mesmo, talvez possamos prevenir pelos menos parte desses crimes, trabalhando ao mesmo tempo por um mundo menos hostil.
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de Quervain, D. (2004). The Neural Basis of Altruistic Punishment Science, 305 (5688), 1254-1258 DOI: 10.1126/science.1100735
Aborto é um tema difícil por si só, pois envolve questões como crenças religiosas, ideologias e tabus sociais. Agora vemos surgir no horizonte uma nova variável que, se entrar nesse caldeirão, nos colocará a caminho do caos. A comissão do Senado para a reforma do Código Penal propõe que o aborto não seja considerado crime se for feito “por vontade da gestante até a 12ª semana da gestação, quando o médico constatar que a mulher não apresenta condições psicológicas de arcar com a maternidade” (Íntegra da proposta). Fora o erro óbvio de atribuir avaliação psicológica a médicos, é a própria essência da proposta que está equivocada.
Quando penso no espírito da lei, creio que ela não está falando sobre pessoas com transtornos mentais graves. A redação “condições psicológicas de arcar com a maternidade” aponta, a meu ver, para outra direção. Mesmo porque a existência de doenças psiquiátricas não retira, por si só, a capacidade de alguém ser mãe. O principal fator que prejudica a relação entre mãe e filho nas mulheres com transtornos mentais é a falta de insight, a baixa capacidade de perceber sua condição de doente, o que não se atrela automaticamente a um ou outro diagnóstico. Parece difícil que doenças tão graves que prejudiquem o insight, a ponto de incapacitar para a maternidade, não incapacitem também para tomar a decisão autônoma de fazer um aborto. A lei ficaria então incoerente ao se referir à “vontade da gestante”.
Mas se, como imagino, o que a lei pretende é levar em conta a opinião das mulheres que dizem não se sentir psicologicamente aptas para ter e criar um filho, o erro é achar que médicos seriam capazes de atestar se tal alegação é verdadeira. Não são. Nem médicos, nem psicólogos, nem qualquer categoria de profissionais tem treinamento técnico-científico suficiente para responder a essa pergunta de modo objetivo. Sendo a maternidade é uma condição essencialmente subjetiva, como verificar se existem condições de “arcar” com ela? Repito: não é possível. Mesmo os testes psicológicos, que pretendem objetivar um pouco o exame do psiquismo humano, são também sujeitos a interpretações; além disso não foram desenvolvidos para esse fim específico e portanto não existem evidências de que tenham correlação com os comportamentos maternais reais.
Penso em duas soluções possíveis para impedir que a confusão se arme. Das duas uma: ou bem a pergunta sobre “condições psicológicas” não deve ser feita ou bem só quem pode respondê-la é a própria mulher. Tenho o palpite de que a posição de cada um em relação à descriminalização do aborto determinará qual a opção preferida. Qual sua escolha?
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Mullick M, Miller LJ, & Jacobsen T (2001). Insight into mental illness and child maltreatment risk among mothers with major psychiatric disorders. Psychiatric services (Washington, D.C.), 52 (4), 488-92 PMID: 11274495
Se você usa o tempo que gastaria assistindo Big Brother Brasil para algo mais saudável, como ler jornais ou se manter informado, provavelmente deve ter se deparado, mesmo assim, com o infame BBB nos últimos dias. Uma grande polêmica se armou quando um dos integrantes foi acusado de, aproveitando-se da embriaguez de uma das moças da casa, ter relações sexuais enquanto ela estava inconsciente.
Segundo o código penal, estupro é “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso” (Art. 213). O artigo 217, descreve o estupro de vulnerável: “ter relações com alguém de menos de 14 anos”, e no parágrafo primeiro diz que “incorre na mesma pena quem pratica as ações com alguém que (…) por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência”. Ou seja, se de fato a moça estava dormindo sob efeito do álcool, incapaz de resistir ao ato sexual, este poderá ser considerado estupro.
É a típica situação em que surgem gritas de ambos os lados, uns culpando a vítima, que deveria saber que não se deve convidar um homem para passar a noite em sua cama após uma festa regada a álcool, outros linchando o rapaz como um estuprador em série. Arriscando-me a desagradar aos dois lados (mais uma vez), acho que cabem algumas ponderações.
Em geral, os homens percebem mais interesse sexual por parte das mulheres do que elas realmente demonstram: quase duas em cada três mulheres dizem que já foram mal interpretadas, quando rapazes confundiram amizade com interesse. A cantora Mariana Aydar mesmo já avisou na música Lá em casa: “Só não vá confundir/ Todo esse amor/ Se eu te dou carinho é só/ Pra ser bom/ Nunca passou de amizade”. É óbvio que só uma pequena minoria de pessoas irá ter “comportamentos impróprios”, para usar o termo da Globo, ao julgar erroneamente as intenções alheias, mas existem alguns fatores de risco que contribuem para isso: as características pessoais do sujeito, o comportamento dos envolvidos e o uso de álcool. E pelos menos dois deles estavam presentes nesse caso.
Quanto mais estereotipada a visão do homem sobre as mulheres, maior a chance de ele julgá-las mais interessadas do que estão. Não conheço a visão de mundo do acusado e portanto não sei se esse fator de risco estava presente. Já no quesito “comportamento dos envolvidos”, sabe-se que convidar para a cama é universalmente considerado um sinal de interesse sexual, não só para homens. A pista dada por ela aqui, convenhamos, não ajudou muito. E a situação fica mais embaralhada pelo uso do álcool por ao menos dois motivos: 1) ele dificulta a interpretação correta dos sinais dados pela outra pessoa; 2) e também interfere com a capacidade de uma das pessoas perceber que está sendo mal interpretada e corrigir os sinais que vem demonstrando. Tanto que seu uso é relatado em 30% das relações coercitivas, pelo homem, mulher ou ambos.
Tudo isso contribui para deixar o caso BBB bastante complexo: nada é claro, nem os sinais de interesse, nem o consentimento prévio, nem mesmo a materialidade da relação (perícias estão sendo feitas nas roupas íntimas, algo que não era notícia desde o caso Monica Lewinsky). Concordo que, se houve sexo sem consentimento, isso é sim problema e que não se pode culpar a vítima. Mas tendo em conta o contexto em que as coisas se deram, embora o rapaz tenha responsabilidade, não acho que demonizá-lo seja uma postura ponderada.
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Farris, C., Treat, T., Viken, R., & McFall, R. (2008). Sexual coercion and the misperception of sexual intent Clinical Psychology Review, 28 (1), 48-66 DOI: 10.1016/j.cpr.2007.03.002
Você já ouviu falar em eletroconvulsoterapia (ECT)? Sim, o velho eletrochoque, que – felizmente – continua sendo utilizado nos hospitais mais sérios do mundo. Mas que – infelizmente – ainda é cercado de preconceito e criticado por pessoas que ignoram as condições de sua aplicação, as indicações e, sobretudo, a eficácia e segurança. Deixe-me então dizer algumas coisas.
Cegadas por uma ideologia burra apesar de supostamente bem intencionada (promover a humanização em saúde mental), campanhas contra ECT só fazem aumentar o preconceito, o medo e o estigma, contaminando todo o campo de tratamentos biológicos em psiquiatria e levando à desumanização, ao impedir que doentes graves sejam adequadamente tratados.
A culpa é, em parte, do Romantismo. Na aurora desse movimento, influenciada pela atmosfera gótica, uma jovem de 18 para 19 anos, então chamada Mary Wollstonecraft Godwin, passava férias com seu futuro marido, Percy Shelley e o escritor Lord Byron, quando este lançou o desafio de que cada um escrevesse uma história de fantasmas. O ano era 1816, e a medicina estava deslumbrada com a eletricidade – domesticada há pouco pela ciência. Luigi Galvani conseguira fazer rãs mortas se mexerem, experiência repetida com humanos por seu sobrinho Giovanni Aldini, que obtivera movimentos em membros e face estimulando o cérebro de cadáveres. Assim inspirada, Mary escreveu o que alguns consideram a primeira obra de ficção científica moderna, ao contar a história de um estudante que junta partes de diversos cadáveres e, usando eletricidade, o faz viver. Seu nome, Victor Frankenstein. Deve ter começado aí a o medo das pessoas do uso antiético da eletricidade na medicina.
Em meados do século XX, quando o eletrochoque começou a ser utilizado, sua eficácia empolgou tanto os médicos que ele passou a ser aplicado indiscriminadamente, sem indicações precisas e sem cuidados adequados. Além disso, não raras vezes era uma forma de punição em pacientes agressivos. O movimento da anti-psiquiatria dos anos 60 e 70 utilizou-se disso como um dos argumentos para denunciar os abusos dos psiquiatras. No entanto as indicações foram sendo aprimoradas, os cuidados anestésicos melhorados, fazendo dele um tratamento hoje com eficácia comprovada, indolor e de recuperação rápida. Obviamente, como qualquer tratamento, tem efeitos colaterais. Mas é irresponsável acusá-lo de ser antiético ou desumano. Antiético e desumano é privar pessoas do mais eficaz tratamento disponível.
Diversas outras técnicas utilizando eletricidade e eletromagnetismo estão sendo cada vez mais estudadas na disciplina chamada neuromodulação. O primeiro livro brasileiro sobre o tema – bibliografia do post de hoje – será lançado nesta semana, durante o III Simpósio Internacional de Neuromodulação, realizado na Universidade Mackenzie. Os autores são neurologistas e psiquiatras brasileiros, um deles professor em Harvard, que vêm ajudando a desenvolver esse campo que consegue ser, ao mesmo tempo, antigo e inovador, promissor e estigmatizado, temido e esperado.
Torço para que as pesquisas avancem para que mais pessoas sejam beneficiadas, e também para que a sociedade o fiscalize de forma rigorosa mas sem preconceito, lembrando que, em saúde, não há ética sem técnica.
Fregni F, Boggio PS, Brunoni AR. Neuromodulação terapêutica: Princípios e Avanços da Estimulação Cerebral não Invasiva em Neurologia Reabilitação, Psiquiatria. São Paulo:Sarvier, 2011.
Pelo visto o Rafinha Bastos não leu a Carta aberta aos comediantes brasileiros, que publiquei há pouco tempo. Depois de ser obrigado a pedir desculpas ao vivo para uma apresentadora, foi suspenso do CQC por piada feita com Wanessa Camargo. Isso poucos meses após ter que prestar depoimento à polícia por piada com estupro. É chato dizer, mas eu avisei.
Antes que leitores furiosos me acusem de censurar a liberdade de expressão, de não entender o humor, blábláblá, aviso: eu pouco ou nada sei sobre o que deve ser proibido, permitido, estimulado ou criminalizado. Só sei que piadas causam um impacto em quem as ouve. Claro que seria ridículo crer que alguém ouve uma piada sobre estupro e pensa: “Puxa, é mesmo. Nunca tinha visto por esse lado. Vou estuprar a primeira mulher que eu encontrar”. Mas independentemente de se “levar a sério” uma anedota, ela pode reforçar comportamentos indesejáveis.
O melhor estudo que conheço sobre o tema chama-se “Mais do que só uma piada: a função liberadora-de-preconceitos do humor sexista”, publicado em 2007. Setenta e três estudantes masculinos foram divididos entre os muito e pouco preconceituosos. A seguir os cientistas os separaram em três grupos: um leu piadas sexistas, outro piadas diversas, e outro frases sexistas sérias. Depois disso, mostraram uma falsa notícia de jornal pedindo doações financeiras para uma ONG atuante com direitos das mulheres, e perguntaram quanto os sujeitos dariam, entre nada e US$ 20. Os resultados mostraram os sexistas que tinham lido piadas dessa natureza eram os que menos doavam (menos até do que os preconceituosos que liam frases sérias com as quais em tese concordavam). Numa segunda etapa, outros 30 rapazes também foram separados entre mais ou menos preconceituosos, e assistiram vídeos cômicos com ou sem referência a estereótipos femininos. Informou-se então que a universidade iria ter que cortar 20% das verbas de associações de estudantes no ano seguinte e pediu-se a eles que distribuíssem os cortes entre cinco grupos, um deles voltado para questões de gênero. Embora todos cortassem homogeneamente 20% de cada associação, os mais preconceituosos que tinham assistido vídeos sexistas foram os únicos a cortar mais da associação envolvida com direitos femininos do que das outras. Para os pesquisadores, o humor não faz ninguém assumir posturas contrárias a suas crenças, mas tem o poder de criar um ambiente onde determinadas posturas preconceituosas parecem mais socialmente aceitas. E isso tem um impacto real no comportamento das pessoas.
É por conta disso que dizer “é só uma piada, não deve ser levada a sério”, não é um salvo conduto para se falar qualquer coisa. E, para descontentamento de muitos, é o problema central na propaganda de lingerie da Gisele Bündchen. Você pode pensar que não tem nada de mais, que é uma brincadeira, que os homens é que são ridicularizados ali. Eu, particularmente, também penso assim. Mas infelizmente os machões que acreditam que o principal papel da mulher é o sexual são muitos (lembram do Ciro Gomes?), e uma propaganda estimulando o riso coletivo sobre o tema tende a dizer-lhes que estão certos, dificultando o caminho para a quebra do preconceito.
Ford, T., Boxer, C., Armstrong, J., & Edel, J. (2007). More Than “Just a Joke”: The Prejudice-Releasing Function of Sexist Humor Personality and Social Psychology Bulletin, 34 (2), 159-170 DOI: 10.1177/0146167207310022
O filme “Não me abandone jamais”, baseado no livro de Kazuo Ishiguro, é de 2010, mas passou pelos cinemas brasileiros no início desse ano e já está disponível em DVD. É a história de um triângulo amoroso num universo de ficção científica. Kathy e Tommy se amam, mas Tommy acaba namorando Ruth, que não queria ser deixada de lado. Ocorre que os três são clones humanos, destinados a doar seus órgãos num programa oficial do governo até que cheguem a suas conclusões, terminologia oficial para suas mortes.
A certa altura uma personagem responsável pelo serviço de educação dos doadores explica que “as pessoas” (excluindo os clones dessa categoria) não aceitariam voltar a um tempo em que as doenças eram fatais, recusando-se a abolir o programa de clonagem e doação. Elas nem sabem se os clones têm alma.
O filme é belíssimo e vai além disso, mas me fez pensar no aspecto da bioética que discute o enfoque holístico (total) versus o biológico do ser humano doente. Vejamos como é interessante o universo moral da medicina.
Investigando como os médicos lidam com tais questões, pesquisadores noruegueses observaram cerca de cem horas de atendimento de 15 médicos diferentes, perseguindo-os ao longo de seus dias de trabalho por onde quer que fossem, além de conduzir entrevistas com esses profissionais. O resultado foi que, independente da especialidade, os médicos tendiam a ouvir as histórias dos pacientes e recontá-las reduzindo-as a queixas, sinais e sintomas pertencentes ao universo biológico. Excluia-se qualquer significado subjetivo das situações (morais), focando apenas os aspectos funcionais dos indivíduos (biológicos). Menos do que uma falta ética, no entanto, essa desumanização pareceu ser resultado de os médicos se focarem apenas no princípio da beneficência, buscando fazer o bem para os pacientes, levando em conta apenas seus “organismos”. Os pesquisadores questionam mesmo se é factível uma medicina totalmente humanizada, dadas as demandas reais da prática clínica.
Uma coisa que o artigo não investigou, mas que acho relevante e faz ligação com o filme, é o que os pacientes pensam disso. Embora todos desejem um medicina ética, quando o que está em jogo é a vida ou a morte, surge uma zona cinzenta (sobre a qual já discutimos aqui), na qual parece que encarar o ser humano como uma máquina biológica que pode ser consertada muitas vezes pesa mais do que levar em conta que a realidade humana vai muito além do biológico, envolvendo aspectos subjetivos, tanto individuais como coletivos. Talvez nós mesmos prefiramos assim. É esse raciocínio estritamente biológico, afinal, que permitiu àquelas “pessoas” (morais, isto é, com alma) do filme aceitarem receber órgão de clones (biológicos, sem alma) considerados “não-pessoas”. E como uma delas diz, ninguém aceitaria voltar atrás.
Óbvio ululante que o programa do filme nos parece moralmente inaceitável. Mas o fato de aquela sociedade o aceitar moldou sua prática médica. Donde concluo duas coisas: os médicos são o que as pessoas esperam que sejam. E exatamente por isso, não há ética médica independente da sociedade.
Agledahl, K., Førde, R., & Wifstad, �. (2010). Clinical essentialising: a qualitative study of doctors’ medical and moral practice Medicine, Health Care and Philosophy, 13 (2), 107-113 DOI: 10.1007/s11019-009-9193-z
A prefeitura de São Paulo está disposta a retirar os usuários de crack das ruas, mesmo que seja à força, alegando, para tanto, que a dependência química é uma doença psiquiátrica, podendo justificar a internação involuntária desses indivíduos.
Embora sempre sujeitas a questionamentos por serem uma forma extra-judicial de restringir a liberdade de alguém, as internações involuntárias são uma das opções terapêuticas disponíveis em Psiquiatria, ainda que sejam medida de exceção. Os Estados de direito reconhecem a necessidade de legislar sobre a internação de pessoas que, em virtude de terem seu autocontrole ou sua capacidade racional prejudicadas por uma doença psiquiátrica reconhecida, coloquem em risco suas vidas ou a vida de terceiros. O que traz legitimidade a uma internação involuntária é a perda da autonomia do indivíduo, decorrente de uma condição médica que o impede de compreender e entender o caráter patológico de seu estado e, por isso, não consente com o tratamento. Quadros psicóticos graves que apresentem delírios ou depressão com risco de suicídio ilustram bem essa condição. Mas há quadros que, mesmo não apresentando quebra total com a realidade, não raras vezes colocam sujeitos em perigo e prejudicam a capacidade de consentimento dos pacientes; é o caso da anorexia com risco de morte ou de dependências químicas graves.
No Brasil, a Lei Federal 10.216/2001 se dispõe a proteger os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais. Com relação às internações psiquiátricas, no artigo 6º, parágrafo único define internação involuntária: aquela que se dá sem o consentimento escrito do usuário e a pedido de terceiro. Assim, embora a autonomia seja um dos pilares da atuação ética na assistência à saúde, há ocasiões em que a capacidade de decidir autonomamente do indivíduo está prejudicada, como pode ser o caso de dependentes químicos em estágios avançados. O grande risco é utilizar essa justificativa médica simplesmente como medida higienista, independente da real necessidade psiquiátrica de internação.
Cabe à sociedade em geral, e aos médicos em particular, a atenção para não deixar que isso ocorra.
Barros, Daniel Martins de, & Serafim, Antonio de Pádua. (2009). Parâmetros legais para a internação involuntária no Brasil Revista de Psiquiatria Clínica, 36 (4), 168-170
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O quê diferencia informação relevante de fofoca? Como diferenciar segredos legítimos de mentiras torpes? Ultimamente essas perguntas rondam o WikiLeaks.
O site, que coleciona prêmios, conta com colaboradores que vão de repórteres experientes até dissidentes de governos totalitários, promovendo o vazamento de informações sigilosas e trazendo à luz fatos que governos dos mais variados naipes gostariam de manter ocultos: vídeos de um helicóptero americano matando civis no Iraque; relatório sobre a política de extermínio no Quênia; dezenas de milhares de documentos sobre as guerras do Iraque e do Afeganistão, o manual da prisão de Guantánamo etc. É louvável em sua propagação da transparência e honestidade.
No entanto, seu crescimento e sucesso vem sendo acompanhado de dois riscos: descambar para a fofoca e colocar pessoas e causas em risco real.
A divulgação de telegramas diplomáticos dos Estados Unidos, é – a meu ver – fofoca inútil. Saber que Hillary Clinton perguntou se Cristina Kirchner toma remédios psiquiátricos; que o Rio de Janeiro teme ser alvo terrorista nas Olimpíadas de 2016; ou mesmo que o Itamaraty é antiamericano me parecem intrigas tão comezinhas quando as conversas de pé-de-ouvido de qualquer reality show. Nas relações humanas, segredos e omissões são fundamentais, pois algumas mentiras bobas muitas vezes ajudam a manter os vínculos que a plena sinceridade destruiria.
Mais que isso, contudo, há verdades que, gostemos ou não, vindo à luz são prejudiciais. Esconder a tortura a prisioneiros é sempre ruim, mas não revelar que determinada autoridade está desaparecida, nem sempre. A literatura sobre o tema classifica algumas inverdades como “mentiras azuis” (em alusão à farda de policiais que mentiram para garantir o sucesso de uma ação do governo contra o crime). E o mais interessante é que, desde crianças, desenvolvemos progressivamente a noção de que mentir de forma egoísta é errado, mas de forma altruísta, em prol do grupo, pode ser aceitável. Em um estudo com crianças de 7, 9 e 11 anos que poderiam mentir ou falar a verdade, prejudicando toda sua classe de colegas, psicólogos verificaram 7.2, 16.7 e 29.7% delas optaram por mentir em prol do grupo, respectivamente; de forma paralela, conforme aumenta a idade há menos aceitação para mentia em benefício próprio.
Embora a transparência seja um valor, não é um valor absoluto. O juiz Louis Brandeis estava certo ao dizer que “A luz do sol é o melhor desinfetante”, mas vale lembrar que a mesma luz, em excesso ou no lugar errado, pode causar graves prejuízos.
Fu, G., Evans, A., Wang, L., & Lee, K. (2008). Lying in the name of the collective good: a developmental study Developmental Science, 11 (4), 495-503 DOI: 10.1111/j.1467-7687.2008.00695.x
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Diga qualquer filme nacional que você tenha gostado e eu digo por que Tropa de elite 2 é melhor.
Mas só posso falar depois que você assistir. A única coisa que dá para contar antes é que, após se afastar do BOPE, o capitão Nascimento torna-se Sub-secretário de Segurança do Rio de Janeiro, quando passa a conhecer o motor por trás das engrenagens policiais. Nesse novo cargo ele continua a sua guerra contra os bandidos, mas vê nascer novos inimigos na figura das milícias, enquanto ainda tenta dar conta de sua cada vez mais complicada vida pessoal. Aos esculachos e às torturas o filme acrescenta novas camadas – econômica, social e política – adquirindo uma complexidade muito maior; assim como Nascimento, Tropa 2 amadureceu, enveredou-se pela política e descobriu que o mundo é um lugar muito, muito complicado. O grande vilão a ser combatido, Nascimento descobre, é o “sistema”.
Quem pensa que isso é só um clichê deveria conhecer o famoso Experimento da Prisão de Stanford, sobre o qual já conversamos antes (leia). Voluntários normais, sem desvios de personalidade, tornaram-se verdadeiros carrascos, agindo de forma maldosa e irreconhecível quando colocados como guardas de uma falsa prisão, cuidando de outros voluntários. Os “guardas” sabiam que não se tratavam de bandidos de verdade, mas ainda assim a escalada de violência fez com que o experimento tivesse de ser interrompido.
“O policial não puxa o gatilho sozinho”, diz Nascimento a certa altura do filme. Philip Zimbardo, o pesquisador por trás do experimento, concorda com ele: “Antes de culpar os indivíduos, a coisa certa a fazer é descobrir em que situações eles estavam que poderiam ter provocado esse comportamento maldoso. Porque não assumir que são boas maçãs em um cesto podre, ao invés de maçãs podres em um cesto bom?” ele pergunta sobre os soldados americanos que torturaram prisioneiros em Abu Ghraib. A influência das circunstâncias, do “sistema” enfim, foi chamada por ele de Efeito Lúcifer (título de um de seus livros), tamanho seu poder de levar pessoas boas a praticar maldades.
Tropa de Elite 2 é sábio o suficiente para saber que as maçãs podem sim ser boas ou podres, mas que não adianta encontra-las se não cuidarmos também do cesto. Não é um filme que agradará a tantos como o primeiro, mas é sem dúvida muito mais cinema.
Shermer M (2007). Bad apples and bad barrels. Lessons in evil from Stanford to Abu Ghraib. Scientific American, 297 (2), 34-6 PMID: 17894169
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De vez em quado as pessoas dizem que eu sou do contra. Nem tão de vez em quando assim, para falar a verdade, mas de vez em quando eu mesmo concordo com elas (ainda que seja raro eu concordar…). De qualquer maneira, a ciência acaba de descobrir a falta que faz uma boa posição – não que isso seja grande novidade para nós, que acompanhamos um triste filme nesses tempos de eleição.
Estudando a dinâmica de interação entre líderes e liderados, pesquisadores da Flórida conduziram 5 experimentos diferentes, avaliando o perfil dos chefes e seu padrão de comportamento com relação a seus subalternos, identificando duas abordagens principais nos mandatários: a do domínio e a do prestígio. Levando em conta que em qualquer relacionamento desse tipo as pessoas cedem privilégios e direitos em favor de um líder, para que este trabalhe para o bem coletivo, existe uma tensão constante entre o quanto de poder as pessoas abrem mão – querendo fazê-lo sempre na menor quantidade possível – e o quanto de poder o líder ganha – tendendo a querer sempre o máximo possível. Aqueles líderes que utilizam a estratégia do prestígio, por um lado, aproveitam-se de seu status elevado em benefício do grupo todo; os que se voltam para o domínio, contudo, preferem forçar a distância entre o poder que conseguem obter e quanto o povo quer conceder; com isso, também conseguem trabalhar para o bem coletivo, mas são os mais tentados a usurpar o poder em proveito próprio: em situações experimentais nas quais a hierarquia era internamente fragilizada tais líderes passavam a privilegiar o próprio poder em detrimento do interesse geral – omitiam informações relevantes para o grupo, excluíam pessoas competentes e buscavam esvaziar a influência de outras pessoas – que não sua própria – sobre o grupo. Tais efeitos perniciosos não se manifestavam, no entanto, se houvesse um grupo opositor, pois isso ativava características alternativas de liderança.
Soa bastante familiar, pelos menos aos meus ouvidos. Mas pelo andar da carruagem haverá muito tempo para a oposição aprender a se comportar como tal no Brasil.
Maner, J., & Mead, N. (2010). The essential tension between leadership and power: When leaders sacrifice group goals for the sake of self-interest. Journal of Personality and Social Psychology, 99 (3), 482-497 DOI: 10.1037/a0018559
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