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Daniel Martins de Barros

Descobri que faz mais de sessenta anos que psicopatia vende bem. No filme clássico “Crepúsculo dos Deuses”, de 1950, há um diálogo entre dois personagens debatendo um roteiro em que estão trabalhando: “Para começar, acho que você deveria jogar fora toda essa coisa psicológica de explorar a mente doentia de um assassino.” ele diz, sendo imediatamente contestado por ela: “Mas psicopatas vendem como pão quente”.

O desprendimento que esses sujeitos aparentam, vivendo de acordo com seus impulsos sem se importar com a rede social de que fazem parte é, de alguma forma, sedutor – já imaginou, fazer o que bem entender, dane-se o mundo? Esse desprezo pelos outros me fez pensar: será que eles bocejam?

Uma pesquisa laureada com o prêmio IgNobel – uma paródia do prêmio Nobel para os trabalhos que fazem as pessoas primeiro rirem, depois pensarem (slogan que per se vale um post futuro) – mostrou que o famoso bocejo contagiante provavelmente depende de empatia, da capacidade de se colocar no lugar do outro, ou ao menos de um sentido de coletividade. Diversos animais sofrem desse contágio, e se você boceja na frente de alguém há 50% de chance de que ele venha a bocejar também. Seria isso um reflexo puro, automático, ou seria uma forma de interação social?

Para testar essa hipótese os bem-humorados cientistas escolheram um grupo de sete tartarugas, pois embora tenham um bom convívio social, sendo répteis elas carecem de empatia como nós definimos. Pacientemente treinaram uma delas para bocejar toda vez que via um quadrado vermelho, e a partir daí passaram a testar se o bocejo era contagioso entre as companheiras cascudas. Não era. Em diversos momentos, ao vivo ou em vídeo, nenhuma exposição ao bocejo da Alexandra (sim, elas tinham nomes) fez com que as outras bocejassem significativamente mais. Concluiu-se que o contágio do bocejo não pode ser considerado mero reflexo automático, dependendo no mínimo de um sentimento de coletividade (ainda que inconsciente) ou então da real capacidade de empatia.

Agora, se psicopatas têm déficit na capacidade de empatia, desprezo pela rede social que os cerca, podemos supor que, assim como as tartarugas, o bocejo não os contamine. Quem se propuser a testar essa hipótese tornar-se-á um forte candidato ao próximo IgNobel.

ResearchBlogging.org
Anna WILKINSON, Natalie SEBANZ, Isabella MANDL, Ludwig HUBER (2011). No Evidence Of Contagious Yawning in the Red-Footed Tortoise Geochelone carbonaria Current Zoology (formerly Acta Zoologica Sinica), 57 (4), 477-484

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Na semana que passou tive o grande prazer de assistir John Malkovich no Teatro Municipal de São Paulo na peça The infernal comedy. No papel de Johann Unterweger, Malkovich contracena com duas sopranos, que, cantando trechos de óperas famosas, pontuam seu monólogo de pouco menos de duas horas sobre as desventuras desse famoso serial killer. A peça é uma comédia a la Guilherme Arantes, na qual não é possível “sorrir sem um travo de amargura”.

Embora eu seja um crítico implacável da banalização do diagnóstico de psicopatia, hoje em dia utilizado levianamente como sinônimo de vilania ou maldade, acredito que Unterweger tenha sido mesmo um psicopata. Mas sua história ilustra dois aspectos dessas pessoas: há uma linha de estudo nova que procura diferenças entre os psicopatas bem e mal-sucedidos. E ele foi um pouco de cada.

Com uma carreira criminal de início precoce, passou a adolescência e início da idade adulta entrando e saindo de reformatórios e prisões, até ser preso por assassinar uma prostituta em Viena, estrangulando-a com seu próprio sutiã. Até aqui ele não se diferenciava dos psicopatas mal-sucedidos. Mas então ele começou a escrever. E seus artigos passaram a fazer sucesso entre a elite austríaca. Convenceu escritores e intelectuais de sua reabilitação e levou-os a interceder por ele junto à justiça, conseguindo finalmente uma condicional em sua sentença (originalmente prisão perpétua). Libertado, o que já seria por si só um sinal de sucesso, passou a escrever regularmente para revistas sobre prostituição e criminalidade, o que lhe dava acesso irrestrito (e insuspeito) a prostitutas, chegando a acompanhar diligências policiais em investigações de novos assassinatos. Foram necessários mais alguns anos para que se descobrisse que após sua libertação ele matara mais seis prostitutas em Viena, e outras três em Los Angeles, onde fora morar no ano seguinte, sempre estranguladas com seus sutiãs. Condenado, cometeu suicídio ao saber da sentença, usando uma corda feita de cadarços com nós idênticos aos utilizados no assassinato das suas vítimas.

Tem-se proposto que os psicopatas de sucesso são aqueles mais para manipuladores do que para violentos, muitas vezes conseguindo escapar das condenações, ao contrário dos mal-sucedidos, que são mais agressivos, impulsivos e que acabam por ser presos. Os primeiros resultados das pesquisas apontam para diferenças no funcionamento fisiológico e cognitivo, sendo os bem sucedidos menos prejudicados em termos de capacidade de planejamento, condicionamento pelo medo e mesmo empatia.

Johann Unterweger transitou entre os dois universos – conseguiu manipular e fugir da justiça, mas não abandonou os crimes violentos que acabaram por condená-lo definitivamente. A explicação, no seu caso, pode ser menos neuropsiquiátrica e mais biográfica: como ele mesmo diz na peça (quando ressuscita para lançar sua autobiografia), antes de matar pela primeira vez ele era só mais um bandido. Depois do primeiro homicídio ganhou certo status, adquirindo respeito e mesmo uma identidade “respeitada”. A chave da resposta talvez esteja, portanto, seja sua própria frase: “Entre ser um assassino e ser ninguém, prefiro ser um assassino”.

ResearchBlogging.org
Gao, Y., & Raine, A. (2010). Successful and unsuccessful psychopaths: A neurobiological model Behavioral Sciences & the Law DOI: 10.1002/bsl.924

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Duas notícias do último final de semana, aparentemente não relacionadas, se tocam num ponto curioso, e têm importância para a psiquiatria: caiu um satélite da Nasa e caíram as touradas em Barcelona. Vamos por partes.

Os satélites geoestacionários são aqueles que orbitam a Terra na mesma velocidade de rotação do planeta, na região do Equador, ficando dessa maneira sempre sobre o mesmo ponto em relação a nós. A altitude em que eles devem permanecer, pouco mais de 30.000 km de altura, foi pela primeira vez proposta pelo escritor Arthur C. Clarke (aquele de 2001, uma odisseia no espaço) num artigo publicado em 1954 em que ele sugeria que esses satélites artificiais poderiam ser usados para telecomunicações. Por isso até hoje a órbita geoestacionária é também chamada de Órbita Clarke, em sua homenagem.

É esse autor que faz a conexão entre as duas notícias, porque também previu, no livro O fim da infância (publicado um ano antes, em 1953) uma forma de acabarem as touradas. O livro conta a história de naves que chegam à Terra mas, durante décadas, seus pilotos alienígenas não dão as caras. Ainda assim eles resolvem todos os problemas do planeta, da fome à guerra, passando pelo respeito aos animais. Particularmente na questão das touradas eles dão um ultimato, avisando que elas deveriam ser interrompidas imediatamente ou haveria consequências. Os humanos insistem, e no dia do próximo espetáculo, quando o toureiro espeta a primeira espada no lombo do touro, houve-se um horrendo grito de dor coletivo, pois todos os espectadores sentem a dor da estocada ao mesmo tempo. Foi a última.

E aí chegamos à psiquiatria.

O que Clarke descreveu foi uma maneira que os aliens usaram para que as pessoas sentissem a mesma coisa que os touros sentiam. Isso se chama empatia. Essa capacidade de se colocar no lugar do outro, sentindo o que ele sente, é um dos fatores constituintes do caráter. E as teorias atuais sobre a personalidade humana postulam que esta é resultado da interação entre nossos traços de temperamento e o nosso caráter. Não significa, no entanto, que quem é a favor das touradas tem baixa empatia e por isso é mau caráter. Empatia por gente é diferente de empatia por bichos.

Num estudo do começo da década uma pesquisadora avaliou os graus de empatia por humanos e animais em 514 pessoas, por meio de questionários padronizados, e notou que embora houvesse uma certa relação estatística entre eles (quanto maior a empatia por um, maior por outro), tal correlação era pequena. Ou seja, é possível se compadecer do próximo e não se importar com os bichos. O fator que mais aumentava a empatia por animais, não surpreende, era ter (ou já ter tido) algum bicho de estimação (enquanto ter crianças em casa aumentava a empatia por humanos).

Quando vivenciamos algumas coisas, quando sentimos na pele ou convivemos intimamente com determinadas situações, nossa visão de mundo se modifica. O círculo dos que são abarcados por nossa empatia se amplia, de alguma forma moldando nosso caráter. Exemplos como o de Barcelona, onde a população trouxe para a esfera da sua empatia o sofrimento animal, mostram que o também o caráter coletivo e a personalidade de um povo inteiro podem se modificar com o tempo.

ResearchBlogging.org Paul, E. (2000). Empathy with Animals and with Humans: Are they Linked? Anthrozoos: A Multidisciplinary Journal of The Interactions of People & Animals, 13 (4), 194-202 DOI: 10.2752/089279300786999699

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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