O julgamento do mensalão chega na sua reta final olhando para a dosimetria da pena. Só esse nome já mereceria uma análise à parte, mas gostaria de aproveitar o gancho e ir um pouco além, discutindo uma nova proposta, radicalmente diferente de tudo o que já vi sobre cálculo de penas.
Como se calcula, afinal, quanto tempo um criminoso deve ficar preso quando esse é o caso? O fato é que se trata de um sistema extremamente subjetivo, no qual o juiz “atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e conseqüências do crime, bem como ao comportamento da vítima” determina “a quantidade de pena aplicável” que seja “necessári[a] e suficiente para reprovação e prevenção do crime” (artigo 59 e inciso II do Código Penal). Desnecessário dizer que a subjetividade envolvida dá margem a um sem número de críticas e questionamentos, tanto práticos como teóricos. Mas haveria uma forma mais objetiva de cálculo de pena?
Eis que um professor de economia na Faculdade de Direito da Universidade da Pensilvânia bolou uma proposta tão inovadora quanto improvável de ser aceita tranquilamente. Adotando a ética utilitarista de que tudo na sociedade é uma questão de custos e benefícios, ele levantou números sobre os três fatores envolvidos no aprisionamento de criminosos: o custo dos crimes cometidos, o custo do encarceramento e os benefícios esperados da pena. Existem maneiras diversas de calcular, por exemplo, qual o custo social – em dinheiro – de um assalto, de um furto ou mesmo de um estupro ou homicídio. (Sim, não se pode colocar um valor na dignidade ou na vida humana, é óbvio. Mas tais ações criminosas geram um gasto para a sociedade que pode ser calculado, gostemos ou não). Para determinar o peso do encarceramento ele levou em conta não só todo o aparato prisional, mas também quanto essas pessoas poderiam gerar de recursos se reinseridas no mercado, e até mesmo o valor da liberdade e do convívio com a família (mesma ressalva anterior). Finalmente, os benefícios financeiros foram contabilizados levando em conta a probabilidade de a pena prevenir novos crimes, o que também pode ser avaliado em números.
Para testar suas ideias, ele fez as contas do que aconteceria: 1) se fosse reduzido o rigor das punições, prendendo menos gente, 2) se condenados pela primeira vez que estivessem doentes, velhos ou próximos de terminar a pena fossem soltos (aliviando a superpopulação prisional, um problema real também nos EUA). Descobriu que impedir crimes menos graves de serem punidos com prisão é custo-efetivo em todos os casos, exceto para o assalto (como seu custo social é alto, aqui seria até melhor aumentar o rigor, prendendo mais assaltantes). Além disso, para todas as categorias analisadas soltar presos mais cedo valeria a pena financeiramente.
Pensando assim, quanto tempo os mensaleiros deveriam ficar presos? Não sei aplicar as fórmulas econômicas, mas imagino que o ideal seria que ficassem alguns bons anos. Porque o prejuízo social que seus desvios causaram não pode ser subestimado, claro, e muito provavelmente foi maior do que custo de mantê-los presos. Mas mais que isso, porque o maior benefício que se espera de sua prisão é justamente a prevenção de novos crimes, não porque eles serão “curados” na cadeia, mas porque ficarão fora de circulação nesse tempo e, principalmente, por desestimular outros esquemas semelhantes, diante da mudança de status quo que a prisão de políticos influentes e empresários ricos representa nesse país.
Já sei que a gritaria será imensa, com gente achando errado substituir a noção de uma pena “justa” por uma “custo-efetiva”, ou vendo como absurda a tentativa de colocar um preço na liberdade. De fato, é uma quebra de um paradigma muito arraigado e não poderia ser feita de forma apressada. Mas o julgamento do mensalão não foi ele mesmo uma mudança de paradigma?
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Abrams, D. (2012). The Imprisoner’s Dilemma: A Cost Benefit Approach to Incarceration SSRN Electronic Journal DOI: 10.2139/ssrn.2109703
Olha que boa notícia: você ganhou R$ 1.000,00. Não estava esperando esse dinheiro, não é? Então pense como pretende dividi-lo – temos quatro opções: 1) Comprar um presente bonito para uma alguém especial; 2) Investir numa previdência privada; 3) Fazer algo divertido e extravagante; 4) Colocar na conta corrente. Mas antes, pense em você mesmo com 70 anos. Imagine os cabelos brancos, a pele enrugada, as mãos menos firmes. Muda alguma coisa? Provavelmente muda pouco, porque nós não nos reconhecemos totalmente nos idosos que seremos – nossa imaginação é fraca para isso, e então produz certa descontinuidade entre quem somos e quem seremos, dando um pouco a impressão que o nosso eu futuro é outra pessoa. É como o Homer Simpson quando foi alertado pela Marge que teria um grande problema mais tarde se não fizesse nada naquela hora; “Esse é um problema para o Homer do futuro.” raciocinou ele “Caramba, eu não queria estar na pele desse cara!”, completou enquanto comia um pote inteiro de maionese. Em menor grau, somos todos um pouco assim.
Mas se pudermos nos ver no futuro – literalmente – isso pode mudar.
O cenário acima foi proposto para dois grupos de voluntários que se submeteram a uma experiência de realidade virtual. Antes de responder o que fariam com o dinheiro eles colocavam um daqueles óculos que imergem a pessoa num mundo gerado por computador, e tinham como tarefa olhar-se num espelho pendurado numa parede da casa virtual. Metade deles via um avatar com a sua cara, enquanto outra metade via a imagem de si mesmos com 70 anos, desenhada previamente por um algoritmo especialmente criado para envelhecer faces. Com isso o grupo que se viu mais velho alocou em média mais do que o dobro de dinheiro na previdência. Os pesquisadores modificaram de várias formas a experiência, expondo as pessoas a si mesmas ou a outras pessoas envelhecidas (novamente só que via a si mesmo velho é que poupava mais), e até sem o uso da realidade virtual – apenas mostrar uma foto do sujeito no presente ou no futuro (envelhecido), já foi suficiente para aumentar as atitudes menos voltadas para a recompensa imediata. Em todos os experimentos ver-se velho aumentou a sensação de continuidade entre o eu de hoje e o eu dos anos à frente, o que explica a mudança de comportamento.
Lembra o famoso Conto de Natal, um dos livros mais conhecidos de Charles Dickens, autor que vem sendo festejado por conta dos 200 anos de seu nascimento. A história já teve versões que vão do teatro às histórias em quadrinhos, passando por cinema e TV, com diferentes formatos e muitas releituras, mas todas guardam o espírito original – um velho sovina, Scrooge, só pensa em dinheiro e espalha o sofrimento ao seu redor por conta disso. Até que numa noite de Natal ele começa a receber a visita de diversos fantasmas. Um deles o leva de volta no tempo, mostrando as agruras que ele sofreu outrora; o segundo mostra o que está acontecendo à sua volta no tempo presente, os dramas que ele simplesmente ignora; e o último revela o que irá acontecer, a miséria de sua vida futura. E é só depois de se ver num futuro desolador que Scrooge se rende, implorando à assombração a chance de voltar para o presente, prometendo mudar: “Não serei o homem que teria sido se não houvesse passado por essa experiência.” (Spoiler alert: ele muda de fato).
Adiar gratificações nem sempre é fácil. E nem sempre necessário, convenhamos. O ideal é procurar o equilíbrio entre a poupança e o desfrute, sabendo, no entanto, que agir no presente em favor do futuro é a única maneira de melhorar aquilo que, um dia, será nosso passado.
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Hershfield, H., Goldstein, D., Sharpe, W., Fox, J., Yeykelis, L., Carstensen, L., & Bailenson, J. (2011). Increasing Saving Behavior Through Age-Progressed Renderings of the Future Self Journal of Marketing Research, 48 (SPL) DOI: 10.1509/jmkr.48.SPL.S23
Já deixei claro por aqui que o tanto de coisas das quais eu não tenho a menor noção é enorme. Posso dizer como Millôr Fernandes:
“Há os que não sabem antropologia
e os que ignoram trigonometria.
Mas só de mim ninguém pode falar nada:
minha ignorância
não é
especializada”.
Enologia é um desses campos que me parecem misteriosos. Ouvir gente descrevendo as propriedades organolépticas, a complexidade e o teor de tanino de vinhos em goles tão pequenos me faz pensar como cabem tantas palavras em tão poucos mililitros. Quem não entende tanto como os connoisseurs chega a ficar desconfiado: será que esses caras não estão enrolando a gente? Pois descobriu-se que embora eles não estejam tentando nos enganar, também não estão sendo totalmente sinceros. Eles estão enganando a si mesmos, como denunciou a desconcertante pesquisa feita na Universidade de Bordeaux: com a justificativa de verificar a diferença entre o vocabulário utilizado para descrever vinhos brancos e tintos, os cientistas pediram a 54 especialistas que identificassem os odores típicos de cada um deles; no entanto, em vez de oferecer os dois tipos de vinho, ofereceram apenas o branco. O vinho “tinto” era vinho branco com corante, e mesmo assim nenhum dos experts notou a diferença, identificando nele as características exclusivas dos tintos. O estudo foi entitulado “As cores do cheiro”, provando a existência de uma ilusão perceptual na qual um sentindo (visão) inflenciou fortemente outro (olfato) (I).
Eu mesmo fui vítima de um auto-engano desse tipo nesse carnaval, visitando grandes amigos no Chile.
Almoçando dentro de uma vinícola, foi-me dito que o vinho Malbec daquela empresa ganhara um importante concurso, sendo eleito o melhor do mundo. E eu, que não sei a diferença de Malbec e Cabernet, vi-me diante de uma garrafa de milhares de Pesos Chilenos (cujo câmbio de 300 para 1 frente ao Real fazia parecer o preço ainda maior). Apesar da ignorância assumida, no entanto, consegui saborear o vinho, em grande parte graças a essa ajuda do preço alto: num estudo mais recente, cientistas da Califórnia realizaram Ressonância Magnética Funcional em vinte sujeitos para ver o que acontecia no cérebro quando experimentavam vinhos de diferentes preços. Mas sem que os sujeitos soubessem o mesmo vinho era oferecido duas vezes, em garrafas marcadas com preço baixo ou alto. O resultado foi não apenas a melhor avaliação subjetiva dos vinhos caros, mas também objetivamente a região do córtex órbito-frontal medial, conhecida por estar envolvida na identificação de prazer em diversos contextos, foi consistentemente mais ativada quando os voluntários achavam que estavam bebendo o vinho mais caro (II).
Portanto, tomar um vinho levando em conta o seu preço – alto – ajuda o cérebro a valorizar a experiência. E mesmo que não haja tanta diferença entre as bebidas, pode valer a pena pelo prazer do momento.
(I) Morrot, G. (2001). The Color of Odors Brain and Language, 79 (2), 309-320 DOI: 10.1006/brln.2001.2493 (II) Plassmann, H., O’Doherty, J., Shiv, B., & Rangel, A. (2008). Marketing actions can modulate neural representations of experienced pleasantness Proceedings of the National Academy of Sciences, 105 (3), 1050-1054 DOI: 10.1073/pnas.0706929105
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Os motoboys já foram descritos como um mal necessário. Se não me engano foi o Dimenstein que falou, num documentário muito interessante sobre esses profissionais, que as grandes cidades no Brasil vivem uma relação paradoxal com eles: não os toleram, mas não vivem sem seus serviços. Não se é tão necessário, pois qualquer viagem a outros países mostra que há vida sem motoboys, mas um estudo brasileiro publicado esse mês mostra que de fato é um mal. Ou no mínimo, um perigo.
Recrutando motoboys em um pronto-socorro, uma agência de motofrete e um estacionamento de motos, os pesquisadores de Porto Alegre (RS) examinaram 101 motoqueiros que toparam participar. Os resultados assustam: só 37 deles era legalizado na profissão; 60 trabalhavam 6 ou 7 dias na semana, e todos numa média de quase 10 horas por dia. O grande problema vem agora: 75% deles tinha histórico de ao menos um transtorno mental, e 54% de dois ou mais diagnósticos psiquiátricos. Os principais eram o uso de álcool e maconha, seguido de depressão, (43.6%, 39.6% e 31.7%). Mas o pior de tudo foram as prevalências de Transtorno de Déficit de Atenção (14,9%) e Transtorno de Personalidade Antissocial (13,9%) – nesses casos, verificou-se aumento significativo de risco de acidentes ou de violações de tráfico tráfego, respectivamente.
Ao fim e ao cabo, vê-se que ser motoboy é um risco para a saúde mental: ou faz as pessoas enlouquecerem, com perdão do trocadilho, ou então é um emprego que atrai pessoas com alta taxa de doença. Qualquer que seja a causa, esses resultados apontam para um problema de saúde pública que não pode mais ser ignorado pela sociedade.
Kieling RR, Szobot CM, Matte B, Coelho RS, Kieling C, Pechansky F, & Rohde LA (2010). Mental disorders and delivery motorcycle drivers (motoboys): A dangerous association. European psychiatry : the journal of the Association of European Psychiatrists PMID: 20538435
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Inteligência: sinônimo de riqueza e fidelidade? Como havia prometido, volto ao tópico: duas pesquisas recentes mostram resultados interessantes advindo de um maior QI relacionados a temas que costumam dar muita audiência – dinheiro e sexo.
Como não podia deixar de ser, o trabalho sobre dinheiro foi feito por economistas (1), correlacionando o QI com os ganhos médios anuais de 12.500 pessoas ao longo de quase trinta anos. Constatou-se que os inteligentes ganhavam pouco além de cem dólares por mês a mais do que os menos dotados no início da carreira, chegando a superá-los, contudo, em mais de três mil dólares por mês após 28 anos de trabalho. Segundo os cálculos isso significava ter ganho meio milhão de dólares a mais por volta da meia idade. Isso ocorre não apenas porque eles adquiriram mais conhecimentos e habilidades, mas também por saber usar melhor seus talentos e se vender bem dentro de suas carreiras.
Vamos ao sexo. Num outro estudo (2) um psicólogo evolucionista testou a hipótese de que assumir comportamentos “novos”, ou seja, não programados geneticamente, demandaria esforço cerebral. Nesse modelo, a fidelidade masculina exigiria inteligência, pois evolutivamente os machos em geral não são direcionados para a monogamia. Entrevistando mais de cinco mil adultos, a hipótese foi comprovada, encontrando-se relação direta entre o QI e fidelidade, indicada pelo grau de concordância com a afirmação de que a monogamia é um elemento fundamental para um casamento ou relacionamento bem sucedidos.
O fato de a inteligência ser um conceito fluido, difícil de definir e mais ainda de relacionar com variáveis diversas, não impede que algumas estimativas como o QI, ainda que criticáveis, pareçam mesmo ter correlações comportamentais. Independentemente do que signifique ser inteligente, provavelmente isso está relacionado de alguma forma a flexibilidade mental, criatividade e improvisação, além manipulação de conceitos abstratos. Antecipar resultados, planejar no longo prazo e adiar gratificações são alguns elementos chave, e sem dúvida conferem vantagens competitivas na política profissional e na disputa por parceiros.
Com certeza o sucesso (reprodutivo, financeiro ou o que for) não é exclusividade dos inteligentes, mas os dados mostram que possivelmente os menos espertos têm que ralar mais para chegar lá.
(1)Judge, T., Klinger, R., & Simon, L. (2010). Time is on my side: Time, general mental ability, human capital, and extrinsic career success. Journal of Applied Psychology, 95 (1), 92-107 DOI: 10.1037/a0017594 (2)Kanazawa, S. (2010). Why Liberals and Atheists Are More Intelligent Social Psychology Quarterly DOI: 10.1177/0190272510361602
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Nunca esqueço de uma questão que errei na prova do concurso para residência médica: qual o fator que mais reduz a mortalidade no trânsito? Lembro que marquei uso do cinto de segurança, mas o fiz com muita dúvida, pois no fundo achava que a correta poderia ser “investir em educação”. Era.
Qual o segredo? Cinto de segurança não é importante? É, e muito. Mas quando há mais educação as pessoas não só usam mais o cinto, como também adotam outros comportamentos seguros e saudáveis. Essa é a principal hipótese a explicar porquê os anos de estudo são a variável que mais prolonga a expectativa de vida de uma pessoa (1). Não é o fato de pessoas que estudam mais terem maior probabilidade de ter mais dinheiro – mesmo após controlar fatores como renda, raça, sexo, exposição a violência, os economistas veem maior longevidade quanto mais se estuda, o que é provavelmente fruto da maior capacidade de tomar atitudes não imediatistas, adiando gratificações em nome da saúde: por exemplo, cada ano a mais de educação equivale a 1,4% menos chance de ser obeso (2). No Brasil, uma dissertação de mestrado recente mostrou correlação positiva entre nível de escolaridade e realização de atividades físicas de lazer (Link – em pdf).
Quanto mais a pessoa estuda, inferem os cientistas, mais ela se torna capaz de traduzir o conhecimento em ações. Não se trata de saber mais, mas de processar a informação de forma distinta, pagando muitas vezes um preço desconfortável no presente (como fazer dieta ou exercícios físicos) em nome de um ganho futuro (mais saúde e um envelhecimento com qualidade).
Será que é por isso que pessoas inteligentes ganham até meio milhão de dólares a mais ao chegar à meia idade? E também a razão para homens com QI mais baixo traírem mais suas esposas? Temas interessantes que estarão disponíveis só para quem conseguir adiar a gratificação.
(1) Lleras-Muney, A. (2005). The Relationship Between Education and Adult Mortality in the United States Review of Economic Studies, 72 (1), 189-221 DOI: 10.1111/0034-6527.00329 (2) Cutler, D., & Lleras-Muney, A. (2010). Understanding differences in health behaviors by education Journal of Health Economics, 29 (1), 1-28 DOI: 10.1016/j.jhealeco.2009.10.003
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