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Daniel Martins de Barros

Não tem como escapar: volto à novela Avenida Brasil. À parte o prêmio Emmy de melhor atriz que Adriana Esteves merece pelo papel da Carminha, que garantiu seu ingresso no restrito clube de grandes atrizes da dramaturgia nacional, a Psiquiatria tornou-se protagonista nos últimos dias. Assédio moral, internação involuntária, surtos de agressividade, a novela está parecendo um compêndio de psiquiatria forense.

Para os que não sabem, a Carminha está sendo chantageada por sua ex-enteada, Nina, que armou uma vingança cruel. Sem entrar em detalhes, basta dizer que a moça colocou a ex-madrasta numa situação de absoluto cerco, submetida aos seus caprichos sem a menor possibilidade de escapar. Usando o poder que adquiriu sobre ela ao fotografá-la com o amante, subtraiu-lhe totalmente a autonomia, humilhou-a continuamente e a ameaçou durante dias. Essa é uma situação análoga ao assédio moral, tão em moda hoje em dia. Às vezes ouço pessoas preocupadas, dizendo que não se pode mais repreender um funcionário por medo de processos por assédio, mas na verdade não se trata disso. É essa situação de cerco inescapável armado por algum tipo de poder que caracteriza o assédio moral. Ele não é um transtorno psiquiátrico por si só, mas sim um problema jurídico. Ocorre que é muito comum as pessoas a ele submetidas não aguentarem a pressão e adoecerem ou “surtarem”, aí sim a questão se torna um problema médico. Ao que parece Carminha não surtou de fato, não adoeceu, mas perdeu o controle por diversos momentos, ficando agressiva, pulando a janela da casa até ser considerada louca pela família, que não sabe da chantagem.

Após algum tempo os parentes decidiram que ela estava mesmo fora do controle e resolveram interná-la. Obviamente, sabendo que não está doente, ela foi contra, o que motivou a sempre traumática internação involuntária. Embora possa parecer uma arbitrariedade, um abuso do poder médico, não é raro que tal modalidade de internação seja de fato necessária. Alguns pacientes perdem a noção da realidade por conta de suas doenças psiquiátricas, e passam a se recusar a tomar remédios, fazer exames ou ir a consultas. Não é uma decisão livre e racional, obviamente, mas fruto de delírios, ausência da capacidade de distinguir o real do irreal; por conta disso, desrespeitar tal “vontade” é o melhor que se pode fazer, tratando-os na marra até que o surto melhore, quando então a autonomia é recuperada, ao menos parcialmente (o que não costuma demorar). A lei brasileira é bastante clara com relação a essas internações: a psiquiatria é uma das poucas especialidades médicas que tem uma lei própria para sua regulamentação, justamente para evitar abusos.

E por fim o médico da novela disse que Carminha poderia ser bipolar, o que talvez explicasse seus comportamentos instáveis. Esse é mais um diagnóstico psiquiátrico que, caindo no gosto popular, vem sendo mal utilizado como sinônimo de instabilidade. Transtorno bipolar não é isso. Nele a pessoa tem fases claras de depressão, aquelas com profunda tristeza, desânimo, choro e pensamentos negativos durante um tempo, mas em outras ocasiões fica exatamente o oposto: com excessiva alegria (excessiva mesmo, exagerada), energia sem fim, desinibida, rindo à toa, falando muito rápido. E além disso, entre essas fases fica normal, sem qualquer sintoma. Ou seja, não basta estar um pouco mais triste num dia e feliz num outro. Nem sequer basta ser alguém “de lua”. Usar um diagnóstico de forma leviana pode estimular o uso de medicamentos de forma inadequada, com prejuízos para todos.

Pelo ritmo de seriado que essa novela tem imagino que a Carminha logo saia da tal clínica e novos elementos da história surgirão. Não sei não, mas acho que essa ainda não é a última vez que falamos sobre Avenida Brasil.

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É muito interessante perceber que existem diagnósticos da moda e fora de moda. E entre eles, os com charme e os sem charme. Quando dou palestras e explico os critérios para determinar se alguém tem déficit de atenção, todo mundo leva as mãos à cabeça e pensa: “Meu Deus, eu tenho isso”; a mesma coisa acontece com ansiedade e até mesmo depressão. Já quando explico o que é psicopata e o que é histérica, novamente tudo mundo se desespera, mas dessa vez pensando: “Meu Deus, meu chefe é um psicopata” ou “Minha chefe é histérica” – ser deprimido ou desatento vá lá, mas psicopata ou histérico são só os outros.

Uma busca no acervo on-line do Estadão mostra um fenômeno curioso: da década de 80 para cá, o termo “histérica” aparece mais ou menos 15 vezes por ano no jornal, numa taxa estável. Já o termo “psicopata” subiu das mesmas 15 vezes por ano nos anos 80 para 45 vezes/ano nos anos 90 e chegou a quase 70 vezes/ano nos anos 2000. E só em 2010 a apareceu em 164 ocasiões no jornal. Já “déficit de atenção” começou a surgir nos anos 90 no jornal (4 vezes na década), subiu para 5 vezes por ano nos anos 2000 e em 2010 apareceu 30 vezes.

Arrisco uma explicação para essas tendências: o diagnóstico de histeria não consta mais dos manuais médicos desde os anos 80. Ao cair em desuso no meio acadêmico, com o tempo saiu também de moda entre a população geral. Fenômeno exatamente oposto ao da psicopatia e déficit de atenção. O primeiro foi resgatado pela academia a partir dos trabalhos do canadense de Robert Hare, nos anos 70, e após sua consolidação no meio científico foi sendo incorporado pela sociedade. E o diagnóstico “transtorno de déficit de atenção e hiperatividade” surgiu com esse nome no fim dos anos 80, seguindo a mesma via.

O conhecimento científico normalmente caminha dos periódicos técnicos para os veículos de divulgação de ciência, desses para a mídia leiga e finalmente ganham a massa. Mas essa é uma via de mão dupla, como fica claro quando lidamos com o comportamento humano: a psicologia do senso comum é influenciada pela ciência e ao mesmo tempo em que a influencia (antes de serem cientistas, os pesquisadores são pessoas).

Esse não é o problema – é bom que saiba-se que doenças existem e podem ser tratadas. O risco é que nesse verdadeiro telefone sem fio muitas vezes a informação vai sendo distorcida, levando a um abismo entre o que os cientistas dizem e o que as pessoas repetem. E na ânsia de encontrar explicações – e principalmente soluções – para seus sentimentos e sofrimentos, às vezes as pessoas começam a ver doença onde não tem, recorrendo remédios inutilmente.

Nesses casos, inverte-se a recomendação, pois ao persistirem os sintomas vemos que o médico nem deveria ter sido consultado.

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CALSAMIGLIA, H. (2003). Popularization Discourse Discourse Studies, 5 (2), 139-146 DOI: 10.1177/1461445603005002307

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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