ir para o conteúdo
 • 

Daniel Martins de Barros

Não sei bem a razão, mas há tempos não vejo um lanterninha em ação – os mais jovens podem nem saber que essa categoria profissional já existiu. Quem chegava um pouco atrasado ao cinema, quando as luzes já se haviam apagado, tinha dificuldade de encontrar um lugar até que os olhos se acostumassem à escuridão. Era quando entrava em ação o lanterninha, um sujeito que, de posse de uma pequena lanterna a pilhas, ajudava o atrasado a se orientar dentro do cinema. Não encontro uma explicação definitiva para a extinção da classe, mas saúdo com alegria o lançamento de uma coleção de livros chamada justamente “Coleção lanterninha”, do selo Amarilys da editora Manole. A proposta é publicar livros que deram origem a filmes clássicos do cinema; o nome vem pois a calhar, já que tais obras sem dúvida ajudam o leitor/espectador a se orientar com relação ao filme em questão.

Li de uma sentada um dos primeiros livros, “O inquilino”, que inspirou o filme homônimo do perturbado(r) Roman Polanski, escrito pelo versátil e pouco conhecido entre nós Roland Topor. Conta a história de um rapaz que, após mudar-se para o apartamento de onde a antiga moradora saltara pela janela, progressivamente vai se convencendo de que os vizinhos estão mancomunados num plano para também levá-lo ao suicídio, fazendo-o enlouquecer. Lembro-me de ter visto o filme de Polanski no início da minha especialização em psiquiatria, por recomendação dos professores, justamente pela descrição – em primeira pessoa – da perda gradual do contato com a realidade. Num primeiro surto psicótico a angústia e a perplexidade vêm da sensação de que está tudo muito estranho, até que o delírio se instala definitivamente e o paciente “compreende tudo” – são os vizinhos que o estão espiando e tramando para matá-lo, ou coisas do gênero. Paradoxalmente, a angústia da não compreensão do que está acontecendo diminui, pois agora ele “sabe” qual o problema, mas a raiva aumenta diante da indignação com a injustificável perseguição.

Nesse mês foi publicado um estudo grande, com quase quinhentas pessoas em primeiro surto psicótico (o que é difícil conseguir, pois normalmente os pacientes chegam até os centros de pesquisa já com anos de história). O objetivo era saber se os delírios podiam fazer com que os pacientes se tornassem violentos. O relato de episódios de agressão durante os 12 meses anteriores ao início do tratamento, na presença de sintomas psicóticos, revelou que não são as ideias irreais que fazem, por si sós, aumentar o risco de violência dos pacientes. O que ocorre, e que tanto o filme como o livro descrevem bem, é que três categorias comuns de sintomas – a sensação de estar sendo espionado, perseguido e a existência de uma conspiração contra si – geram raiva em quem os experimenta, podendo levar a alguma reação contra os supostos perseguidores. Nesse estudo, 12% dos pacientes se envolveram em violência grave.

Por acaso ou não esses três sintomas ocorrem com o infeliz protagonista de O inquilino. Sua reação, contudo, é menos explosiva do que poderia, até por seu temperamento pacato prévio, o que a narrativa mostra com bastante coerência ao longo da história. É por essa e por outras que a arte é uma ferramenta preciosa para todos os que lidam com a doença mental – é das melhores formas, e talvez uma das únicas, de se conhecer o sofrimento psíquico dos pacientes de uma perspectiva interna.

ResearchBlogging.org
Coid JW, Ullrich S, Kallis C, Keers R, Barker D, Cowden F, & Stamps R (2013). The Relationship Between Delusions and Violence: Findings From the East London First Episode Psychosis Study. JAMA psychiatry (Chicago, Ill.), 1-7 PMID: 23467760

comentários (2) | comente

É difícil encontrar o tom correto para cobrir tragédias como o incêndio em Santa Maria. Excluídos veículos sensacionalistas, que fazem da repetição ad nauseum das imagens um chamariz para audiência, nem sempre é simples encontrar o meio termo entre a omissão e o exagero.

O risco de informar de menos é não transmitir a exata dimensão da tragédia, minimizando o ocorrido. Seria desrespeitoso com as vítimas, com seus familiares e com a opinião pública, que merece receber a notícia tão precisa quanto possível. Uma falsa sensação de amenidade poderia até mesmo levar a reduzir as implicações legais para os responsáveis pelo desastre.

Por outro lado, a facilidade com que se produzem e transmitem imagens hoje em dia, aliada à velocidade com que flui a informação, coloca nas mãos da mídia um poder amplificador sem precedentes. Cenas do incêndio, das tentativas de fuga, dos momentos do resgate, do desespero das pessoas, quando veiculadas num looping infinito, podem extrapolar o papel de informar e levar a um verdadeiro desespero contagioso e prejudicial.

Embora a relação ainda seja controversa e siga sob investigação, alguns estudos associam a exposição intensa a imagens de tragédias e o desenvolvimento de sintomas de estresse pós-traumático. De fato, os critérios diagnósticos para tal transtorno incluem a pessoa ter vivenciado ou testemunhado eventos que envolveram morte ou grave ferimento, sejam próprios ou de outros. Embora originalmente isso não diga respeito à transmissão eletrônica de imagens, há trabalhos mostrando risco três vezes e meia maior de desenvolvimento de estresse pós-traumático em pessoas que viram mais de doze horas de notícias sobre os ataques de 11 de setembro.

Isso acontece porque os seres humanos são empáticos por natureza – temos a tendência automática de nos colocarmos no lugar do outro, compartilhando suas emoções. E esse sofrimento conjunto é útil e bom, na medida em que nos mobiliza para tentar aliviar a dor alheia. Torço, pois, para que a imprensa brasileira faça uma cobertura adequada, transmitindo a dor das vítimas de Santa Maria não a ponto de nos levar ao desespero, mas o suficiente para trabalharmos no alívio de sua dor e na prevenção efetiva de novas tragédias como essa.

ResearchBlogging.org
Bernstein, K., Ahern, J., Tracy, M., Boscarino, J., Vlahov, D., & Galea, S. (2007). Television Watching and the Risk of Incident Probable Posttraumatic Stress Disorder The Journal of Nervous and Mental Disease, 195 (1), 41-47 DOI: 10.1097/01.nmd.0000244784.36745.a5

comentários (3) | comente

Causou furor essa semana uma pesquisa mostrando que usar o facebook faz mal: segundo um estudo alemão, na rede social as pessoas passam tempo testemunhando as notícias sobre as férias alheias e a vida social dos outros, sentido assim inveja, tristeza e solidão. A assessoria de imprensa da Universidade de Berlim caprichou no press release e a notícia bombou no mundo. Exercitando meu lado nerd e do contra, resolvi ler o artigo original e posso tranquilizar os leitores: não é bem assim.

A inveja é disseminada na nossa vida desde que somos seres sociais: vivendo em sociedade, necessitando de interações pessoais e coletivas de forma repetida no tempo, o exercício das comparações sempre foi inevitável. Das cavernas ao capitalismo financeiro estamos olhando em volta, para bem e para mal. Tanto que um dado assustador é que a maioria de nós preferiria um salário de R$ 5.000,00 se os amigos ganhassem em média R$ 3.000,00, do que um salário de R$ 8.000,00 se os outros ganhassem R$ 10.000,00. Estranho, não? Pois é: preferimos ter acesso a menos recursos, desde que isso seja mais do que os outros.

Se levarmos em consideração as nossas limitações mentais, no entanto, isso não fica tão absurdo. Nosso cérebro não sabe manipular muito bem valores absolutos, funcionando mais à base de comparações: para dizer se uma cor é clara, precisamos comparar com outras; segurar um objeto e estimar o peso é difícil, mas saber se ele é mais pesado do que outro é imediato. Os contrastes chamam nossa atenção mais do que a homogeneidade – tanto que conseguimos adormecer diante da televisão ligada se estamos no barulho, mas despertamos com pequenos ruídos se cochilamos em silêncio. Sobretudo para valores tão artificiais como salário, renda etc., a régua de medida acaba sendo mesmo a comparação.

Tanto que um dado não comentado nas notícias foi que no estudo, 70% da inveja nossa de cada dia foi sentida mesmo “offline” – é no dia-a-dia que o grosso das comparações ocorrem, e assim como nas redes sociais, as viagens alheias são o tema campeão na geração de inveja. Mais interessante ainda foram as diferenças: as mídias sociais não promovem a inveja do sucesso dos amigos, tema muito importante na “vida real” (como Oscar Wilde já sabia que “Qualquer um pode simpatizar com os sofrimentos de um amigo, mas é preciso que de fato se tenha muito boa índole para se simpatizar com o sucesso de um amigo”). E o lado bom também não foi ressaltado: o estudo concluiu que o problema é o acompanhamento passivo da vida dos outros, porque quem usa o facebook para interagir e se comunicar tinha té melhores índices de qualidade de vida.

Então, obviamente, o problema não está nas redes sociais. Na internet, assim como da janela de casa, nós podemos ficar apenas olhando e comentando a vida dos outros, ou então podemos buscar construir relacionamentos com aqueles que nos cercam. E isso, já foi provado, é o que torna a vida significativa.

comentários (2) | comente

“Resoluções para 2013: começar a cumprir as promessas feitas em 2009″.

Essa piadinha que está rolando nas redes sociais ilustra um dos primeiros princípios de como não fazer resoluções de ano novo. Um pouco de evidência científica nesse tema tão batido pode nos dar algumas dicas de como não planejar mudanças para 2013. O profícuo Richard Wiseman estudou três mil voluntários ao longo de 2007 e compilou resultados interessantes.

Em primeiro lugar, não voltar a decisões antigas evita frustrações. Eventualmente, abordar o mesmo problema por vias diferentes pode ser uma saída – em vez de se propor a emagrecer, planejar como comer melhor, por exemplo.

Além disso, metas genéricas são muito mais difíceis de seguir. Em lugar de resolver fazer mais exercícios, é melhor definir qual atividade física será, em quais dias da semana, onde e em qual horário. Há que se manter humilde, também: estabelecer muitos objetivos de uma só vez é pedir para acumular fracassos, pondo todo o resto a perder.

Finalmente houve algumas diferenças específicas para os gêneros. Com homens funcionou melhor propor objetivos intermediários, e não apenas um grande objetivo final (ex.: “ler um livro por mês”, em vez de “ler ao menos dez livros no ano”), estabelecendo recompensas para cada pequena vitória. Já para as mulheres foi mais útil tornar as metas públicas, comentando com familiares e amigos, não só pelo suporte recebido, mas também pela sensação de maior compromisso que isso traz. Além disso, para elas foi importante tranquilizar-se diante de recaídas, reafirmando que falhas pontuais não significam um fracasso global.

Frase ideal, aliás, para fechar o ano e adotar como lema para 2013: “falhas pontuais não significam um fracasso global”. Feliz ano novo!

sem comentários | comente

O julgamento do mensalão chega na sua reta final olhando para a dosimetria da pena. Só esse nome já mereceria uma análise à parte, mas gostaria de aproveitar o gancho e ir um pouco além, discutindo uma nova proposta, radicalmente diferente de tudo o que já vi sobre cálculo de penas.

Como se calcula, afinal, quanto tempo um criminoso deve ficar preso quando esse é o caso? O fato é que se trata de um sistema extremamente subjetivo, no qual o juiz “atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e conseqüências do crime, bem como ao comportamento da vítima” determina “a quantidade de pena aplicável” que seja “necessári[a] e suficiente para reprovação e prevenção do crime” (artigo 59 e inciso II do Código Penal). Desnecessário dizer que a subjetividade envolvida dá margem a um sem número de críticas e questionamentos, tanto práticos como teóricos. Mas haveria uma forma mais objetiva de cálculo de pena?

Eis que um professor de economia na Faculdade de Direito da Universidade da Pensilvânia bolou uma proposta tão inovadora quanto improvável de ser aceita tranquilamente. Adotando a ética utilitarista de que tudo na sociedade é uma questão de custos e benefícios, ele levantou números sobre os três fatores envolvidos no aprisionamento de criminosos: o custo dos crimes cometidos, o custo do encarceramento e os benefícios esperados da pena. Existem maneiras diversas de calcular, por exemplo, qual o custo social – em dinheiro – de um assalto, de um furto ou mesmo de um estupro ou homicídio. (Sim, não se pode colocar um valor na dignidade ou na vida humana, é óbvio. Mas tais ações criminosas geram um gasto para a sociedade que pode ser calculado, gostemos ou não). Para determinar o peso do encarceramento ele levou em conta não só todo o aparato prisional, mas também quanto essas pessoas poderiam gerar de recursos se reinseridas no mercado, e até mesmo o valor da liberdade e do convívio com a família (mesma ressalva anterior). Finalmente, os benefícios financeiros foram contabilizados levando em conta a probabilidade de a pena prevenir novos crimes, o que também pode ser avaliado em números.

Para testar suas ideias, ele fez as contas do que aconteceria: 1) se fosse reduzido o rigor das punições, prendendo menos gente, 2) se condenados pela primeira vez que estivessem doentes, velhos ou próximos de terminar a pena fossem soltos (aliviando a superpopulação prisional, um problema real também nos EUA). Descobriu que impedir crimes menos graves de serem punidos com prisão é custo-efetivo em todos os casos, exceto para o assalto (como seu custo social é alto, aqui seria até melhor aumentar o rigor, prendendo mais assaltantes). Além disso, para todas as categorias analisadas soltar presos mais cedo valeria a pena financeiramente.

Pensando assim, quanto tempo os mensaleiros deveriam ficar presos? Não sei aplicar as fórmulas econômicas, mas imagino que o ideal seria que ficassem alguns bons anos. Porque o prejuízo social que seus desvios causaram não pode ser subestimado, claro, e muito provavelmente foi maior do que custo de mantê-los presos. Mas mais que isso, porque o maior benefício que se espera de sua prisão é justamente a prevenção de novos crimes, não porque eles serão “curados” na cadeia, mas porque ficarão fora de circulação nesse tempo e, principalmente, por desestimular outros esquemas semelhantes, diante da mudança de status quo que a prisão de políticos influentes e empresários ricos representa nesse país.

Já sei que a gritaria será imensa, com gente achando errado substituir a noção de uma pena “justa” por uma “custo-efetiva”, ou vendo como absurda a tentativa de colocar um preço na liberdade. De fato, é uma quebra de um paradigma muito arraigado e não poderia ser feita de forma apressada. Mas o julgamento do mensalão não foi ele mesmo uma mudança de paradigma?

ResearchBlogging.org
Abrams, D. (2012). The Imprisoner’s Dilemma: A Cost Benefit Approach to Incarceration SSRN Electronic Journal DOI: 10.2139/ssrn.2109703

comentários (37) | comente

Recebi algumas críticas muito consistentes sobre a questão dos partos domiciliares e sua proibição pelo Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro. Por isso, conforme prometido, volto ao tema.

Primeira crítica a meu post anterior: os dados não são tão simples. De fato, depois de ler trabalhos e artigos que me foram recomendados, vejo que, como quase tudo em ciência, a questão central não é destituída de controvérsia. Há evidências que mostram aumento do risco de morte para os recém-nascidos, outras que mostram risco igual. Aqui cada ideólogo escolherá os dados que melhor lhe convier. Como não sou ideólogo, escolho a angústia da incerteza, e não poderei me fiar dessas evidências para formar opinião.

Segunda crítica (autocrítica, essa): aumento de risco quando os números são muito pequenos podem não ser tão importantes – se ficar privado de determinada comida reduzir em 50% seu risco de ter uma doença grave e rara, por exemplo, o risco cairia de um em um cem mil para meio em cem mil – vale a pena o sacrifício? Eu não entrei nesse ponto, mas é porque creio que, SE o risco fosse realmente aumentado, mesmo que os números absolutos fossem pequenos, a decisão do CREMERJ estaria correta. Mas já não sei se o risco é ou não maior. Menos um ponto para me ajudar a decidir.

Agora a terceira crítica: se as pessoas farão partos domiciliares de qualquer jeito, não seria mais ético liberar a participação do médico, numa estratégia de redução de danos? Essa estratégia, para que não conhece, propõe que, se alguns comportamentos trazem risco para as pessoas mas são impossíveis de se coibir – como ingerir álcool em excesso, ter múltiplas relações sexuais etc – é mais proveitoso investir energia e dinheiro tentando fazer que com que os danos sejam reduzidos – como não dirigir, já que vai beber; usar preservativo, já que terá múltiplas relações. Por essa linha de raciocínio, já que não se quer proibir as mulheres de ter o filho onde quiserem, então pelo menos que haja um médico por perto, para reduzir os problemas que podem advir dessa prática.

Dessa não só discordo, como ela me ajudou a firmar opinião contrária à presença do médico em partos domiciliares: partos em casa são cuidadosamente escolhidos, e só as gestações com condições ideais é que terminam assim. Os riscos associados, são, portanto, baixos. A morte dos recém nascidos, quando ocorre, é por complicações respiratórias graves que carecem de intervenção médica em ambiente hospitalar, e portanto, não adiantaria nada ter um médico por perto. O treinamento dos obstetras, aliás, é justamente para fazer partos hospitalares, não domésticos. Não encontrei estudos sobre o tema, mas pela lógica (e até prova em contrário) a presença de médicos em partos domiciliares não faz diferença.

Conclusão: é ético (com o sentido de bom, não de lícito) proibir os médicos de participarem dos partos domiciliares? Tendo a manter a opinião de que é. Se os riscos forem de fato maiores (o que não sabemos ao certo), o CREMERJ acerta ao não compactuar com a prática arriscada, com o que pode desencorajar outras pessoas a adotá-la. E se forem os mesmos, a presença do médico não parece fazer diferença na mortalidade, não trazendo qualquer prejuízo a sua ausência.

Entre uma prática potencialmente benéfica e outra aparentemente inócua, na ausência de mais dados, fico com a primeira. Pode não resolver o debate para os leitores, mas para mim, foi suficiente.

comentários (10) | comente

É coisa rara eu recomendar novela. A última vez que lembro de ter tratado do tema de forma empolgada foi na época em que Wagner Moura encarnava um executivo conflituosamente apaixonando-se por uma prostituta, interpretada pela Camila Pitanga. Se volto ao assunto é porque tenho visto novamente grandes talentos sendo usados em favor de personagens bem construídos. Já tinha falado de Avenida Brasil, mas gostaria de aprofundar dois aspectos da entrevista que dei para o Caderno 2 que fazem dela uma novela diferente.

Embora traga tramas paralelas que seguem a fórmula padrão, de conflitos que se arrastam ao longo da história toda, o núcleo da narrativa é muito mais ágil do que as novelas usuais, e os personagens mais complexos. A vilã é carola, e embora seja de péssimo caráter ama o filho com afeto genuíno. A mocinha é bondosa mas de uma frieza ímpar quando o que está em jogo é sua vingança, motivo pelo qual ela está disposta até mesmo a abrir mão do amor.

Além da velocidade de resolução dos conflitos, que não passam duas semanas sem ser resolvidos, a construção dos personagens e das histórias também é mais sofisticada. Não sou teórico das letras, mas arrisco uma comparação literária: as novelas brasileiras estão para os seriados americanos atuais como o romantismo estava para o realismo. Enquanto o primeiro trazia personagens idealizados e histórias menos complexas, o último abandonou tais convenções, substituindo os heróis por pessoas comuns, cujas contradições criavam cenários mais complicados.

Torço para que a dramaturgia brasileira siga nesse caminho de sofisticação. Não porque devemos imitar os americanos. Mas porque personagens nem totalmente bonzinhos nem cem por cento malévolos refletem a ambiguidade que existe em todos nós, e por isso conseguem gerar mais identificação. A empatia, afinal, pressupõe certa capacidade de identificação: o campo de estudo da “teoria da mente” afirma que a cognição e a interação social adequadas só são possíveis quando conseguimos atribuir estados mentais aos outros, imaginando o que eles estão pensando ou sentindo. E é mais fácil se identificar com desejos ruins que um personagem bom com raiva possa ter do que com heróis totalmente abnegados. E mesmo uma vilã que consegue amar é mais próxima das pessoas comuns do que alguém absolutamente incapaz de afetos.

Afinal de contas, nós mesmos estamos bem longe de ser personagens ideais.

ResearchBlogging.org
Brown EC, & Brüne M (2012). The role of prediction in social neuroscience. Frontiers in human neuroscience, 6 PMID: 22654749

comentários (3) | comente

Se você tem estômago fraco, não leia esse post. Eu bem que não queria escrever sobre canibalismo, mas não tenho como fugir.

Para quem ainda não teve o desgosto de ouvir a narrativa do crime bizarro, trata-se de um homem, Jorge Negromonte da Silveira, que fundou uma seita chamada “Cartel” e vive com a esposa Isabel Cristina Torreão Pires da Silveira e a amante de Bruna Cristina Oliveira da Silva, com quem se envolveu quando ela tinha 16 anos, situação aceita pela esposa. Esse trio foi preso por homicídio de várias mulheres (as mortes podem chegar a oito, suspeita-se), cujos corpos foram consumidos como refeições rituais. Segundo Jorge existem duas entidades que falam com ele desde jovem, às quais ele chama de arcanjo e querubim, escolhem quem serão as vítimas, mortas em missões para eliminar mulheres do mal que estariam superpovoando a Terra, e o canibalismo completava o ritual de purificação. A carne estocada, além de consumida durante alguns dias, acabou sendo usada para rechear os salgados que Isabel vendia na cidade. Com eles morava ainda uma menor de idade, provavelmente filha de uma das vítimas, que também era inserida nas práticas canibais. Se não bastasse, há ainda um vídeo de Isabel contando alguns detalhes dos crimes, e um filme caseiro, chamdo Espírito, teria sido encontrado, no qual haveria cenas de homicídios e canibalismo.

Enauseante a história. Faço aqui uma pausa, para o leitor retomar o fôlego. O pior do relato já foi. Só faltou dizer que Jorge diz ser esquizofrênico, mas parou de tomar os remédios quando jovem e não acha que é louco, embora os outros digam o contrário. Ele mesmo registrou em cartório um livro com título “Revelações de um esquizofrênico”, no qual detalha sua seita e sua missão.

Mas seriam essas pessoas todas doentes mentais? Quais são as chances de três pessoas com o mesmo transtorno terem o mesmo tipo de delírio, a ponto de se reunirem nessa quadrilha macabra? Posso estar errado, mas avaliando a situação aqui de longe me parece ser um caso de transtorno psicótico induzido. Já conversamos sobre esse diagnóstico antes, quando um artigo nosso no British Journal of Psychiatry mostrou que a doença havia sido descrita num conto de Machado de Assis antes de sua descoberta (leia). Trata-se de um problema que se caracteriza pelo aparecimento de sintomas psicóticos coincidentes nos membros da família vivendo isolados e em estreita associação, pela transmissão de delírios de uma pessoa doente para uma ou mais pessoas saudáveis. Tenho a impressão que Jorge, que parece ser a pessoa mais articulada, desenvolveu essas crenças delirantes e as transmitiu para as suas mulheres.

Se for esse mesmo o caso, a situação jurídica do trio pode dar muito pano para manga. Mais de uma vez já se alegou transtorno psicótico induzido nos tribunais americanos, mas tem sido raro os sujeitos serem considerados inocentes por conta dele. Isso acontece porque é difícil delimitar, sobretudo em casos de seitas, onde termina uma crença mística e onde começa o delírio – ou seja, não é simples dizer que o sujeito deixou de ser apenas um fiel seguidor para se tornar um doente inimputável.

Sempre vale a pena ressaltar que a maioria esmagadora dos esquizofrênicos não comete crimes e lembrar que pacientes psiquiátricos são muito mais vítimas do que perpetradores de violência. Aliás, nem tenho certeza absoluta de que essas pessoas sejam doentes. Mas dessa vez acho que eu até prefiro acreditar que sim.

ResearchBlogging.org
Newman WJ, & Harbit MA (2010). Folie a deux and the courts. The journal of the American Academy of Psychiatry and the Law, 38 (3), 369-75 PMID: 20852223

comentários (8) | comente

Vingança. Esse parecer ser o tema da semana. Ao nos aproximarmos do marco de um ano do massacre de Realengo temos notícia do crime em massa em Oakland, nos Estados Unidos. Enquanto isso, na ficção, o desejo por retaliação é a mola mestra da novela Avenida Brasil, que promete trazer a ambiguidade psicológica para a dramaturgia popular.

Os crimes como o de Realengo e de Oakland são classificados como crimes de vingança porque em sua maioria são motivados por uma sensação de injustiça acumulada ao longo do tempo. As vítimas não são escolhidas de forma casual, mas, ao menos na mente do perpetrador, são de alguma forma relacionadas ao sofrimento que ele passou. E é interessante notar que, mesmo não sendo improvisados (ao contrário, são bem planejados durante um bom tempo), tais eventos costumam acabar com a morte do assassino, ou no mínimo com sua prisão – eles praticamente nunca saem ilesos. A revanche, portanto, tem um preço que o perpetrador antevê mas opta por pagar.

E vingança é assim mesmo.

Para estudá-la melhor cientistas criaram o seguinte experimento: voluntários ganhavam 10 Unidades Monetárias (UM) cada um. O primeiro, chamemos de A, podia confiar no segundo, B, e dar toda sua quantia para ele. Se o fizesse, o pesquisador quadriplicava o total, deixando B com 50 UMs e A com zero. Depois disso B podia repartir seus 50 com A, como retribuição pela confiança, ou traí-lo ficar com tudo. Mas aí A podia impor uma pena pela traição; algumas vezes isso não custava nada mas em outras havia também um custo para A (A perderia uma UM para cada duas que cortasse de B). Os resultados não deixaram dúvida: o núcleo estriado do cérebro, área que sinaliza prazer e recompensa, era ativado quando A decidia punir B, mostrando que, para o cérebro, a vingança realmente é doce. Mesmo quando A sabia que a vingança teria um custo pessoal essa região do cérebro era ativada (nesse caso, junto com o córtex pré-frontal medial, região envolvida nos cálculos de custo e benefício). E quanto mais ativada fosse a área da recompensa do voluntário quando não havia custo pessoal, maior era a chance de ele retaliar quando houvesse. Ou seja, quanto maior a satisfação pela vingança, menos importância se dá ao preço a pagar.

Esse balanço entre o custo pessoal e a sensação de recompensa traz a ambiguidade de sentimentos envolvida nas situações de vingança. Na novela a protagonista abandona sua família, seu namorado e sua vida estável na Argentina para voltar ao Brasil tentar se vingar. Paga, portanto, um alto preço pessoal, e, segundo o autor, na expectativa de ter sua recompensa se tonará quase uma vilã nos próximos meses, passando a se questionar até que ponto vale a pena.

Nos assassinatos em massa, por outro lado, os sujeitos sabem de antemão que pagarão alto, possivelmente com suas próprias vidas. Mas talvez a realidade já tenha se tornado intolerável para eles, só restando a tênue promessa de uma recompensa na vingança. Claro que são casos que não têm causa única, originando-se de uma cadeia de fatores que culminam na tragédia. Mas se a variável vingança está quase sempre presente, imagino que se tratarmos os outros como queremos ser tratados e educarmos nossos filhos para fazer o mesmo, talvez possamos prevenir pelos menos parte desses crimes, trabalhando ao mesmo tempo por um mundo menos hostil.

ResearchBlogging.org
de Quervain, D. (2004). The Neural Basis of Altruistic Punishment Science, 305 (5688), 1254-1258 DOI: 10.1126/science.1100735

comentários (7) | comente

Olha que boa notícia: você ganhou R$ 1.000,00. Não estava esperando esse dinheiro, não é? Então pense como pretende dividi-lo – temos quatro opções: 1) Comprar um presente bonito para uma alguém especial; 2) Investir numa previdência privada; 3) Fazer algo divertido e extravagante; 4) Colocar na conta corrente. Mas antes, pense em você mesmo com 70 anos. Imagine os cabelos brancos, a pele enrugada, as mãos menos firmes. Muda alguma coisa? Provavelmente muda pouco, porque nós não nos reconhecemos totalmente nos idosos que seremos – nossa imaginação é fraca para isso, e então produz certa descontinuidade entre quem somos e quem seremos, dando um pouco a impressão que o nosso eu futuro é outra pessoa. É como o Homer Simpson quando foi alertado pela Marge que teria um grande problema mais tarde se não fizesse nada naquela hora; “Esse é um problema para o Homer do futuro.” raciocinou ele “Caramba, eu não queria estar na pele desse cara!”, completou enquanto comia um pote inteiro de maionese. Em menor grau, somos todos um pouco assim.

Mas se pudermos nos ver no futuro – literalmente – isso pode mudar.

O cenário acima foi proposto para dois grupos de voluntários que se submeteram a uma experiência de realidade virtual. Antes de responder o que fariam com o dinheiro eles colocavam um daqueles óculos que imergem a pessoa num mundo gerado por computador, e tinham como tarefa olhar-se num espelho pendurado numa parede da casa virtual. Metade deles via um avatar com a sua cara, enquanto outra metade via a imagem de si mesmos com 70 anos, desenhada previamente por um algoritmo especialmente criado para envelhecer faces. Com isso o grupo que se viu mais velho alocou em média mais do que o dobro de dinheiro na previdência. Os pesquisadores modificaram de várias formas a experiência, expondo as pessoas a si mesmas ou a outras pessoas envelhecidas (novamente só que via a si mesmo velho é que poupava mais), e até sem o uso da realidade virtual – apenas mostrar uma foto do sujeito no presente ou no futuro (envelhecido), já foi suficiente para aumentar as atitudes menos voltadas para a recompensa imediata. Em todos os experimentos ver-se velho aumentou a sensação de continuidade entre o eu de hoje e o eu dos anos à frente, o que explica a mudança de comportamento.

Lembra o famoso Conto de Natal, um dos livros mais conhecidos de Charles Dickens, autor que vem sendo festejado por conta dos 200 anos de seu nascimento. A história já teve versões que vão do teatro às histórias em quadrinhos, passando por cinema e TV, com diferentes formatos e muitas releituras, mas todas guardam o espírito original – um velho sovina, Scrooge, só pensa em dinheiro e espalha o sofrimento ao seu redor por conta disso. Até que numa noite de Natal ele começa a receber a visita de diversos fantasmas. Um deles o leva de volta no tempo, mostrando as agruras que ele sofreu outrora; o segundo mostra o que está acontecendo à sua volta no tempo presente, os dramas que ele simplesmente ignora; e o último revela o que irá acontecer, a miséria de sua vida futura. E é só depois de se ver num futuro desolador que Scrooge se rende, implorando à assombração a chance de voltar para o presente, prometendo mudar: “Não serei o homem que teria sido se não houvesse passado por essa experiência.” (Spoiler alert: ele muda de fato).

Adiar gratificações nem sempre é fácil. E nem sempre necessário, convenhamos. O ideal é procurar o equilíbrio entre a poupança e o desfrute, sabendo, no entanto, que agir no presente em favor do futuro é a única maneira de melhorar aquilo que, um dia, será nosso passado.

ResearchBlogging.org
Hershfield, H., Goldstein, D., Sharpe, W., Fox, J., Yeykelis, L., Carstensen, L., & Bailenson, J. (2011). Increasing Saving Behavior Through Age-Progressed Renderings of the Future Self Journal of Marketing Research, 48 (SPL) DOI: 10.1509/jmkr.48.SPL.S23

sem comentários | comente

  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

Comentários recentes

  • Mirian: Passa uma prova de mérito para eles! Mas não concede aumento, porque em relação a um professor eles...
  • Mauricio: Penso que todos os médicos (brasileiros) deveriam “passar por um processo de validação de seus...
  • Heitor: Boa reflexão Daniel. Contudo o próprio Georges Canguilhem não se aventura no campo da psiquiatria....
  • Incógnita: Se tu quer ser viado, que seja, mas não deixará de ser humano… Na verdade, NÃO sou contra a...
  • valdinéia: Bom Dia ! Toda essa discussão não levará a nada porque temos limitações,não consigo nem mesmo...

Arquivos

Todos os Blogs