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Daniel Martins de Barros

Se você tem estômago fraco, não leia esse post. Eu bem que não queria escrever sobre canibalismo, mas não tenho como fugir.

Para quem ainda não teve o desgosto de ouvir a narrativa do crime bizarro, trata-se de um homem, Jorge Negromonte da Silveira, que fundou uma seita chamada “Cartel” e vive com a esposa Isabel Cristina Torreão Pires da Silveira e a amante de Bruna Cristina Oliveira da Silva, com quem se envolveu quando ela tinha 16 anos, situação aceita pela esposa. Esse trio foi preso por homicídio de várias mulheres (as mortes podem chegar a oito, suspeita-se), cujos corpos foram consumidos como refeições rituais. Segundo Jorge existem duas entidades que falam com ele desde jovem, às quais ele chama de arcanjo e querubim, escolhem quem serão as vítimas, mortas em missões para eliminar mulheres do mal que estariam superpovoando a Terra, e o canibalismo completava o ritual de purificação. A carne estocada, além de consumida durante alguns dias, acabou sendo usada para rechear os salgados que Isabel vendia na cidade. Com eles morava ainda uma menor de idade, provavelmente filha de uma das vítimas, que também era inserida nas práticas canibais. Se não bastasse, há ainda um vídeo de Isabel contando alguns detalhes dos crimes, e um filme caseiro, chamdo Espírito, teria sido encontrado, no qual haveria cenas de homicídios e canibalismo.

Enauseante a história. Faço aqui uma pausa, para o leitor retomar o fôlego. O pior do relato já foi. Só faltou dizer que Jorge diz ser esquizofrênico, mas parou de tomar os remédios quando jovem e não acha que é louco, embora os outros digam o contrário. Ele mesmo registrou em cartório um livro com título “Revelações de um esquizofrênico”, no qual detalha sua seita e sua missão.

Mas seriam essas pessoas todas doentes mentais? Quais são as chances de três pessoas com o mesmo transtorno terem o mesmo tipo de delírio, a ponto de se reunirem nessa quadrilha macabra? Posso estar errado, mas avaliando a situação aqui de longe me parece ser um caso de transtorno psicótico induzido. Já conversamos sobre esse diagnóstico antes, quando um artigo nosso no British Journal of Psychiatry mostrou que a doença havia sido descrita num conto de Machado de Assis antes de sua descoberta (leia). Trata-se de um problema que se caracteriza pelo aparecimento de sintomas psicóticos coincidentes nos membros da família vivendo isolados e em estreita associação, pela transmissão de delírios de uma pessoa doente para uma ou mais pessoas saudáveis. Tenho a impressão que Jorge, que parece ser a pessoa mais articulada, desenvolveu essas crenças delirantes e as transmitiu para as suas mulheres.

Se for esse mesmo o caso, a situação jurídica do trio pode dar muito pano para manga. Mais de uma vez já se alegou transtorno psicótico induzido nos tribunais americanos, mas tem sido raro os sujeitos serem considerados inocentes por conta dele. Isso acontece porque é difícil delimitar, sobretudo em casos de seitas, onde termina uma crença mística e onde começa o delírio – ou seja, não é simples dizer que o sujeito deixou de ser apenas um fiel seguidor para se tornar um doente inimputável.

Sempre vale a pena ressaltar que a maioria esmagadora dos esquizofrênicos não comete crimes e lembrar que pacientes psiquiátricos são muito mais vítimas do que perpetradores de violência. Aliás, nem tenho certeza absoluta de que essas pessoas sejam doentes. Mas dessa vez acho que eu até prefiro acreditar que sim.

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Newman WJ, & Harbit MA (2010). Folie a deux and the courts. The journal of the American Academy of Psychiatry and the Law, 38 (3), 369-75 PMID: 20852223

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Vingança. Esse parecer ser o tema da semana. Ao nos aproximarmos do marco de um ano do massacre de Realengo temos notícia do crime em massa em Oakland, nos Estados Unidos. Enquanto isso, na ficção, o desejo por retaliação é a mola mestra da novela Avenida Brasil, que promete trazer a ambiguidade psicológica para a dramaturgia popular.

Os crimes como o de Realengo e de Oakland são classificados como crimes de vingança porque em sua maioria são motivados por uma sensação de injustiça acumulada ao longo do tempo. As vítimas não são escolhidas de forma casual, mas, ao menos na mente do perpetrador, são de alguma forma relacionadas ao sofrimento que ele passou. E é interessante notar que, mesmo não sendo improvisados (ao contrário, são bem planejados durante um bom tempo), tais eventos costumam acabar com a morte do assassino, ou no mínimo com sua prisão – eles praticamente nunca saem ilesos. A revanche, portanto, tem um preço que o perpetrador antevê mas opta por pagar.

E vingança é assim mesmo.

Para estudá-la melhor cientistas criaram o seguinte experimento: voluntários ganhavam 10 Unidades Monetárias (UM) cada um. O primeiro, chamemos de A, podia confiar no segundo, B, e dar toda sua quantia para ele. Se o fizesse, o pesquisador quadriplicava o total, deixando B com 50 UMs e A com zero. Depois disso B podia repartir seus 50 com A, como retribuição pela confiança, ou traí-lo ficar com tudo. Mas aí A podia impor uma pena pela traição; algumas vezes isso não custava nada mas em outras havia também um custo para A (A perderia uma UM para cada duas que cortasse de B). Os resultados não deixaram dúvida: o núcleo estriado do cérebro, área que sinaliza prazer e recompensa, era ativado quando A decidia punir B, mostrando que, para o cérebro, a vingança realmente é doce. Mesmo quando A sabia que a vingança teria um custo pessoal essa região do cérebro era ativada (nesse caso, junto com o córtex pré-frontal medial, região envolvida nos cálculos de custo e benefício). E quanto mais ativada fosse a área da recompensa do voluntário quando não havia custo pessoal, maior era a chance de ele retaliar quando houvesse. Ou seja, quanto maior a satisfação pela vingança, menos importância se dá ao preço a pagar.

Esse balanço entre o custo pessoal e a sensação de recompensa traz a ambiguidade de sentimentos envolvida nas situações de vingança. Na novela a protagonista abandona sua família, seu namorado e sua vida estável na Argentina para voltar ao Brasil tentar se vingar. Paga, portanto, um alto preço pessoal, e, segundo o autor, na expectativa de ter sua recompensa se tonará quase uma vilã nos próximos meses, passando a se questionar até que ponto vale a pena.

Nos assassinatos em massa, por outro lado, os sujeitos sabem de antemão que pagarão alto, possivelmente com suas próprias vidas. Mas talvez a realidade já tenha se tornado intolerável para eles, só restando a tênue promessa de uma recompensa na vingança. Claro que são casos que não têm causa única, originando-se de uma cadeia de fatores que culminam na tragédia. Mas se a variável vingança está quase sempre presente, imagino que se tratarmos os outros como queremos ser tratados e educarmos nossos filhos para fazer o mesmo, talvez possamos prevenir pelos menos parte desses crimes, trabalhando ao mesmo tempo por um mundo menos hostil.

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de Quervain, D. (2004). The Neural Basis of Altruistic Punishment Science, 305 (5688), 1254-1258 DOI: 10.1126/science.1100735

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Olha que boa notícia: você ganhou R$ 1.000,00. Não estava esperando esse dinheiro, não é? Então pense como pretende dividi-lo – temos quatro opções: 1) Comprar um presente bonito para uma alguém especial; 2) Investir numa previdência privada; 3) Fazer algo divertido e extravagante; 4) Colocar na conta corrente. Mas antes, pense em você mesmo com 70 anos. Imagine os cabelos brancos, a pele enrugada, as mãos menos firmes. Muda alguma coisa? Provavelmente muda pouco, porque nós não nos reconhecemos totalmente nos idosos que seremos – nossa imaginação é fraca para isso, e então produz certa descontinuidade entre quem somos e quem seremos, dando um pouco a impressão que o nosso eu futuro é outra pessoa. É como o Homer Simpson quando foi alertado pela Marge que teria um grande problema mais tarde se não fizesse nada naquela hora; “Esse é um problema para o Homer do futuro.” raciocinou ele “Caramba, eu não queria estar na pele desse cara!”, completou enquanto comia um pote inteiro de maionese. Em menor grau, somos todos um pouco assim.

Mas se pudermos nos ver no futuro – literalmente – isso pode mudar.

O cenário acima foi proposto para dois grupos de voluntários que se submeteram a uma experiência de realidade virtual. Antes de responder o que fariam com o dinheiro eles colocavam um daqueles óculos que imergem a pessoa num mundo gerado por computador, e tinham como tarefa olhar-se num espelho pendurado numa parede da casa virtual. Metade deles via um avatar com a sua cara, enquanto outra metade via a imagem de si mesmos com 70 anos, desenhada previamente por um algoritmo especialmente criado para envelhecer faces. Com isso o grupo que se viu mais velho alocou em média mais do que o dobro de dinheiro na previdência. Os pesquisadores modificaram de várias formas a experiência, expondo as pessoas a si mesmas ou a outras pessoas envelhecidas (novamente só que via a si mesmo velho é que poupava mais), e até sem o uso da realidade virtual – apenas mostrar uma foto do sujeito no presente ou no futuro (envelhecido), já foi suficiente para aumentar as atitudes menos voltadas para a recompensa imediata. Em todos os experimentos ver-se velho aumentou a sensação de continuidade entre o eu de hoje e o eu dos anos à frente, o que explica a mudança de comportamento.

Lembra o famoso Conto de Natal, um dos livros mais conhecidos de Charles Dickens, autor que vem sendo festejado por conta dos 200 anos de seu nascimento. A história já teve versões que vão do teatro às histórias em quadrinhos, passando por cinema e TV, com diferentes formatos e muitas releituras, mas todas guardam o espírito original – um velho sovina, Scrooge, só pensa em dinheiro e espalha o sofrimento ao seu redor por conta disso. Até que numa noite de Natal ele começa a receber a visita de diversos fantasmas. Um deles o leva de volta no tempo, mostrando as agruras que ele sofreu outrora; o segundo mostra o que está acontecendo à sua volta no tempo presente, os dramas que ele simplesmente ignora; e o último revela o que irá acontecer, a miséria de sua vida futura. E é só depois de se ver num futuro desolador que Scrooge se rende, implorando à assombração a chance de voltar para o presente, prometendo mudar: “Não serei o homem que teria sido se não houvesse passado por essa experiência.” (Spoiler alert: ele muda de fato).

Adiar gratificações nem sempre é fácil. E nem sempre necessário, convenhamos. O ideal é procurar o equilíbrio entre a poupança e o desfrute, sabendo, no entanto, que agir no presente em favor do futuro é a única maneira de melhorar aquilo que, um dia, será nosso passado.

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Hershfield, H., Goldstein, D., Sharpe, W., Fox, J., Yeykelis, L., Carstensen, L., & Bailenson, J. (2011). Increasing Saving Behavior Through Age-Progressed Renderings of the Future Self Journal of Marketing Research, 48 (SPL) DOI: 10.1509/jmkr.48.SPL.S23

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Por que as pessoas têm filhos? E, mais do que isso, por que gostam deles? Como se explica essa sensação única, que é sem paralelo na experiência humana? A fria ciência tem algumas respostas que, em princípio, nada têm a ver com o sublime amor paterno. Mas para mim isso não acaba com a poesia da história. No conto “Os nove bilhões de nomes de Deus”, de Arthur Clarke, quando a ciência descobre o verdadeiro nome do supremo criador as estrelas começam a se apagar uma a uma nos céus. Não sei se concordo. Não acho que a ciência retire o brilho das estrelas, como não creio que haver um fundo biológico para o amor aos filhos apague sua transcendência.

A verdade é que as pessoas têm filhos porque fazem sexo. Muito. Repetidamente. Pensando bem, isso é óbvio: ao longo da evolução, quem fazia mais sexo tinha prole maior do que os outros. Assim como acontece com a comida, o sexo não surgiu para dar prazer, mas quem trazia nos genes mais gosto por tais atividades comia e se reproduzia mais, tendo por isso maiores chance de sobreviver e se reproduzir. Esse gosto foi sendo transmitido aos numerosos filhos, que por isso também tinham mais filhos e assim por diante.

Isso explica por que temos filhos, mas não por que gostamos deles.

A sociobiologia tem uma explicação muito boa para isso também: por nascerem frágeis e dependentes de cuidados, crianças humanas são um desafio muito difícil para os pais, requerendo deles privação de sono, gasto de energia, investimento de tempo, praticamente a fundo perdido. Imagine então fazer isso na idade da pedra, quando não havia lei das palmadas ou conselho tutelar para fiscalizar o comportamento paterno – só mesmo com muito amor. Fica claro que os sujeitos que nasciam com uma propensão maior para amar seus filhos investiam mais neles, cuidando melhor e aumentando suas taxas de sobrevivência. Uma das principais substâncias atuantes nessa criação de vínculos é o neuropeptídeo occitocina, que recentemente se comprovou aumentar ao longo das primeiras semanas de paternidade (tanto nas mães como nos pais) e se correlacionar diretamente com comportamentos como a incontrolável necessidade de acariciar os rebentos ou encará-los por horas a fio (no caso das mães), ou ficar sacudindo-os para cima e para baixo, balançando objetos na frente deles até cansar (no caso dos pais). O amor pelos filhos (assim como o gosto por encomendá-los) tem evidentes origens biológicas.

Mas em minha opinião isso em nada diminui a beleza desse sentimento. O impulso por comida, por exemplo, pode ser satisfeito com raízes cruas, mas nos seres humanos deu origem a complexos rituais gastronômicos. Também o amor pelos filhos poderia ser resumido a cuidar deles. Mas nos homens leva a uma real transformação – ao menos é o que tem acontecido comigo. Experimentar esse amor tem me mostrado outro lado da realidade, que até então me era oculto: a mera possibilidade de se importar tanto com alguém, desejando-lhe o bem com uma intensidade que nem me sabia capaz, fez-me ver, nos seus olhos ainda semicerrados, a beleza que pode existir no mundo. E sem saber, provocando em mim o impulso biológico de cuidar dele, meu filho, com cinco dias, me faz querer de forma ardente trabalhar para aprimorar a criação. Assim, quem sabe, ele possa um dia ver a beleza que tão claramente me fez vislumbrar.

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Gordon, I., Zagoory-Sharon, O., Leckman, J., & Feldman, R. (2010). Oxytocin and the Development of Parenting in Humans Biological Psychiatry, 68 (4), 377-382 DOI: 10.1016/j.biopsych.2010.02.005

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Se você usa o tempo que gastaria assistindo Big Brother Brasil para algo mais saudável, como ler jornais ou se manter informado, provavelmente deve ter se deparado, mesmo assim, com o infame BBB nos últimos dias. Uma grande polêmica se armou quando um dos integrantes foi acusado de, aproveitando-se da embriaguez de uma das moças da casa, ter relações sexuais enquanto ela estava inconsciente.

Segundo o código penal, estupro é “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso” (Art. 213). O artigo 217, descreve o estupro de vulnerável: “ter relações com alguém de menos de 14 anos”, e no parágrafo primeiro diz que “incorre na mesma pena quem pratica as ações com alguém que (…) por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência”. Ou seja, se de fato a moça estava dormindo sob efeito do álcool, incapaz de resistir ao ato sexual, este poderá ser considerado estupro.

É a típica situação em que surgem gritas de ambos os lados, uns culpando a vítima, que deveria saber que não se deve convidar um homem para passar a noite em sua cama após uma festa regada a álcool, outros linchando o rapaz como um estuprador em série. Arriscando-me a desagradar aos dois lados (mais uma vez), acho que cabem algumas ponderações.

Em geral, os homens percebem mais interesse sexual por parte das mulheres do que elas realmente demonstram: quase duas em cada três mulheres dizem que já foram mal interpretadas, quando rapazes confundiram amizade com interesse. A cantora Mariana Aydar mesmo já avisou na música Lá em casa: “Só não vá confundir/ Todo esse amor/ Se eu te dou carinho é só/ Pra ser bom/ Nunca passou de amizade”. É óbvio que só uma pequena minoria de pessoas irá ter “comportamentos impróprios”, para usar o termo da Globo, ao julgar erroneamente as intenções alheias, mas existem alguns fatores de risco que contribuem para isso: as características pessoais do sujeito, o comportamento dos envolvidos e o uso de álcool. E pelos menos dois deles estavam presentes nesse caso.

Quanto mais estereotipada a visão do homem sobre as mulheres, maior a chance de ele julgá-las mais interessadas do que estão. Não conheço a visão de mundo do acusado e portanto não sei se esse fator de risco estava presente. Já no quesito “comportamento dos envolvidos”, sabe-se que convidar para a cama é universalmente considerado um sinal de interesse sexual, não só para homens. A pista dada por ela aqui, convenhamos, não ajudou muito. E a situação fica mais embaralhada pelo uso do álcool por ao menos dois motivos: 1) ele dificulta a interpretação correta dos sinais dados pela outra pessoa; 2) e também interfere com a capacidade de uma das pessoas perceber que está sendo mal interpretada e corrigir os sinais que vem demonstrando. Tanto que seu uso é relatado em 30% das relações coercitivas, pelo homem, mulher ou ambos.

Tudo isso contribui para deixar o caso BBB bastante complexo: nada é claro, nem os sinais de interesse, nem o consentimento prévio, nem mesmo a materialidade da relação (perícias estão sendo feitas nas roupas íntimas, algo que não era notícia desde o caso Monica Lewinsky). Concordo que, se houve sexo sem consentimento, isso é sim problema e que não se pode culpar a vítima. Mas tendo em conta o contexto em que as coisas se deram, embora o rapaz tenha responsabilidade, não acho que demonizá-lo seja uma postura ponderada.

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Farris, C., Treat, T., Viken, R., & McFall, R. (2008). Sexual coercion and the misperception of sexual intent Clinical Psychology Review, 28 (1), 48-66 DOI: 10.1016/j.cpr.2007.03.002

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Nem vou tentar fugir do tema natalino. Eu gosto de ritos, pessoalmente e profissionalmente, e o Natal tem tanta importância na nossa sociedade que vale a pena pensar um pouco sobre ele.

Duvido que você não se enquadre em pelo menos uma (senão em todas) as seguintes categorias, já que pesquisas indicam que existem sete principais atividades e experiências natalinas: 1) Passar tempo com a família; 2) Participar de atividades religiosas; 3) Manter tradições da época; 4) Gastar dinheiro com as pessoas comprando presentes; 5) Receber presentes das pessoas; 6) Ajudar os necessitados; 7) Desfrutar os prazeres da época, como as comidas típicas. Bateu?

Mas no meio da ambiguidade desse período, quando nós nos esforçamos para finalizar logo coisas que não queremos deixar para o ano seguinte ao mesmo tempo em que tentamos empurrar para o ano que vem aquilo que não queremos resolver já, é possível ter um Natal agradável.

Estudando quais dessas atividades apresentam maiores correlações com sentimentos positivos, sentimentos negativos, estresse e bem-estar geral, confirma-se o que o bom senso por si só já nos indica: são fatores associados ao bem-estar nessa época o envolvimento com a família e as atividades religiosas. Quem se preocupa principalmente com presentes tem menos bem-estar e mais sentimentos negativos, tanto faz se o foco é dar ou receber presentes. Já se concentrar nas tradições, banquetes ou voluntariado não demonstra alterar significativamente os estados emocionais natalinos.

Celebrar a possibilidade de um mundo melhor, a começar por nossas famílias, é, acredito, o sentido do Natal. O título do post vem lembrar que o Papai Noel não deve tomar o lugar de Jesus mesmo para os não cristãos: até mesmo cientistas ateus convictos frequentam atividades religiosas, por motivos semelhantes aos que trazem alegria ao Natal – pela família e pela inserção numa comunidade, ainda que mantendo o ceticismo.

Assim, mesmo para quem não comemora o nascimento de Cristo, fico à vontade para desejar um Feliz Natal.

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Kasser, T., & Sheldon, K. (2002). WHAT MAKES FOR A MERRY CHRISTMAS? Journal of Happiness Studies, 3 (4), 313-329 DOI: 10.1023/A:1021516410457
Ecklund, E., & Lee, K. (2011). Atheists and Agnostics Negotiate Religion and Family Journal for the Scientific Study of Religion, 50 (4), 728-743 DOI: 10.1111/j.1468-5906.2011.01604.x

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Na semana que passou tive o grande prazer de assistir John Malkovich no Teatro Municipal de São Paulo na peça The infernal comedy. No papel de Johann Unterweger, Malkovich contracena com duas sopranos, que, cantando trechos de óperas famosas, pontuam seu monólogo de pouco menos de duas horas sobre as desventuras desse famoso serial killer. A peça é uma comédia a la Guilherme Arantes, na qual não é possível “sorrir sem um travo de amargura”.

Embora eu seja um crítico implacável da banalização do diagnóstico de psicopatia, hoje em dia utilizado levianamente como sinônimo de vilania ou maldade, acredito que Unterweger tenha sido mesmo um psicopata. Mas sua história ilustra dois aspectos dessas pessoas: há uma linha de estudo nova que procura diferenças entre os psicopatas bem e mal-sucedidos. E ele foi um pouco de cada.

Com uma carreira criminal de início precoce, passou a adolescência e início da idade adulta entrando e saindo de reformatórios e prisões, até ser preso por assassinar uma prostituta em Viena, estrangulando-a com seu próprio sutiã. Até aqui ele não se diferenciava dos psicopatas mal-sucedidos. Mas então ele começou a escrever. E seus artigos passaram a fazer sucesso entre a elite austríaca. Convenceu escritores e intelectuais de sua reabilitação e levou-os a interceder por ele junto à justiça, conseguindo finalmente uma condicional em sua sentença (originalmente prisão perpétua). Libertado, o que já seria por si só um sinal de sucesso, passou a escrever regularmente para revistas sobre prostituição e criminalidade, o que lhe dava acesso irrestrito (e insuspeito) a prostitutas, chegando a acompanhar diligências policiais em investigações de novos assassinatos. Foram necessários mais alguns anos para que se descobrisse que após sua libertação ele matara mais seis prostitutas em Viena, e outras três em Los Angeles, onde fora morar no ano seguinte, sempre estranguladas com seus sutiãs. Condenado, cometeu suicídio ao saber da sentença, usando uma corda feita de cadarços com nós idênticos aos utilizados no assassinato das suas vítimas.

Tem-se proposto que os psicopatas de sucesso são aqueles mais para manipuladores do que para violentos, muitas vezes conseguindo escapar das condenações, ao contrário dos mal-sucedidos, que são mais agressivos, impulsivos e que acabam por ser presos. Os primeiros resultados das pesquisas apontam para diferenças no funcionamento fisiológico e cognitivo, sendo os bem sucedidos menos prejudicados em termos de capacidade de planejamento, condicionamento pelo medo e mesmo empatia.

Johann Unterweger transitou entre os dois universos – conseguiu manipular e fugir da justiça, mas não abandonou os crimes violentos que acabaram por condená-lo definitivamente. A explicação, no seu caso, pode ser menos neuropsiquiátrica e mais biográfica: como ele mesmo diz na peça (quando ressuscita para lançar sua autobiografia), antes de matar pela primeira vez ele era só mais um bandido. Depois do primeiro homicídio ganhou certo status, adquirindo respeito e mesmo uma identidade “respeitada”. A chave da resposta talvez esteja, portanto, seja sua própria frase: “Entre ser um assassino e ser ninguém, prefiro ser um assassino”.

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Gao, Y., & Raine, A. (2010). Successful and unsuccessful psychopaths: A neurobiological model Behavioral Sciences & the Law DOI: 10.1002/bsl.924

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Pelo visto o Rafinha Bastos não leu a Carta aberta aos comediantes brasileiros, que publiquei há pouco tempo. Depois de ser obrigado a pedir desculpas ao vivo para uma apresentadora, foi suspenso do CQC por piada feita com Wanessa Camargo. Isso poucos meses após ter que prestar depoimento à polícia por piada com estupro. É chato dizer, mas eu avisei.

Antes que leitores furiosos me acusem de censurar a liberdade de expressão, de não entender o humor, blábláblá, aviso: eu pouco ou nada sei sobre o que deve ser proibido, permitido, estimulado ou criminalizado. Só sei que piadas causam um impacto em quem as ouve. Claro que seria ridículo crer que alguém ouve uma piada sobre estupro e pensa: “Puxa, é mesmo. Nunca tinha visto por esse lado. Vou estuprar a primeira mulher que eu encontrar”. Mas independentemente de se “levar a sério” uma anedota, ela pode reforçar comportamentos indesejáveis.

O melhor estudo que conheço sobre o tema chama-se “Mais do que só uma piada: a função liberadora-de-preconceitos do humor sexista”, publicado em 2007. Setenta e três estudantes masculinos foram divididos entre os muito e pouco preconceituosos. A seguir os cientistas os separaram em três grupos: um leu piadas sexistas, outro piadas diversas, e outro frases sexistas sérias. Depois disso, mostraram uma falsa notícia de jornal pedindo doações financeiras para uma ONG atuante com direitos das mulheres, e perguntaram quanto os sujeitos dariam, entre nada e US$ 20. Os resultados mostraram os sexistas que tinham lido piadas dessa natureza eram os que menos doavam (menos até do que os preconceituosos que liam frases sérias com as quais em tese concordavam). Numa segunda etapa, outros 30 rapazes também foram separados entre mais ou menos preconceituosos, e assistiram vídeos cômicos com ou sem referência a estereótipos femininos. Informou-se então que a universidade iria ter que cortar 20% das verbas de associações de estudantes no ano seguinte e pediu-se a eles que distribuíssem os cortes entre cinco grupos, um deles voltado para questões de gênero. Embora todos cortassem homogeneamente 20% de cada associação, os mais preconceituosos que tinham assistido vídeos sexistas foram os únicos a cortar mais da associação envolvida com direitos femininos do que das outras. Para os pesquisadores, o humor não faz ninguém assumir posturas contrárias a suas crenças, mas tem o poder de criar um ambiente onde determinadas posturas preconceituosas parecem mais socialmente aceitas. E isso tem um impacto real no comportamento das pessoas.

É por conta disso que dizer “é só uma piada, não deve ser levada a sério”, não é um salvo conduto para se falar qualquer coisa. E, para descontentamento de muitos, é o problema central na propaganda de lingerie da Gisele Bündchen. Você pode pensar que não tem nada de mais, que é uma brincadeira, que os homens é que são ridicularizados ali. Eu, particularmente, também penso assim. Mas infelizmente os machões que acreditam que o principal papel da mulher é o sexual são muitos (lembram do Ciro Gomes?), e uma propaganda estimulando o riso coletivo sobre o tema tende a dizer-lhes que estão certos, dificultando o caminho para a quebra do preconceito.

ResearchBlogging.org Ford, T., Boxer, C., Armstrong, J., & Edel, J. (2007). More Than “Just a Joke”: The Prejudice-Releasing Function of Sexist Humor Personality and Social Psychology Bulletin, 34 (2), 159-170 DOI: 10.1177/0146167207310022

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Alguns episódios dos Simpsons me fazem rir sozinho. Em um desses Homer transforma sem querer sua torradeira numa máquina do tempo, e voltando à pré-história causa alterações bizarras no presente ao interferir minimamente no passado. Quando espirra na cara de um dinossauro causando a grande extinção da espécie, por exemplo, volta ao presente e encontra sua família milionária, os filhos educadíssimos, a esposa linda; mas ao descobrir que ninguém sabe o que são rosquinhas, se desespera e volta para arrumar aquele estrago. A essa altura eu já estava rindo, mas assim que ele sai a Marge comenta com naturalidade que estava chovendo de novo, e a cena mostra milhares de rosquinhas caindo do céu. Gargalhadas.

Ok, pode não ser tão engraçado assim quando eu conto (assista e depois me conte – é o episódio “A casa do horror V”, da sexta temporada). Mas não foi por isso que lembrei do episódio, e sim porque ele mostra a grande penetração na cultura pop dos conceitos da teoria do caos, segundo a qual nos sistemas caóticos mudanças infinitesimais nas condições iniciais levam a enormes alterações mais tarde.

Acabo de ler um livrinho interessante sobre o tema, “Introducing Chaos – a graphic guide“. Claro que isso não me fez um especialista no tema, mas pela primeira vez percebi com clareza que essa abordagem poderá ajudar a compreender algumas questões centrais das neurociências.

Como surge a mente? Ou seja, nossos pensamentos, emoções, o amor, a saudade, a lembrança da fórmula de Báscara e a aflição ao ouvir o motorzinho do dentista, tudo isso pode ser explicado apenas pelos impulsos elétricos viajando entre os neurônios? Tendemos a achar que não, pois são subjetivos, experimentados como não-materiais; como seriam explicados apenas pela matéria bruta, pouco mais de um quilo de miolos? Por outro lado, se não forem causados pelo cérebro, o que os causa? (Alma e espírito não estão em questão, por serem matéria de fé e não de ciência). Se no cérebro material não causa a mente imaterial, surgiria ela literalmente “do nada”?

A teoria do caos e dos sistemas complexos oferece uma possibilidade de explicar como o cérebro limitado causa a mente ilimitada, utilizando conceitos como não-linearidade e feedback.

Nos sistemas lineares, quando você sabe o estado atual é possível dizer exatamente qual será o próximo estado. Mas em sistemas não-lineares, é muito difícil prever o que irá acontecer no momento seguinte, mesmo conhecendo o presente – justamente porque ele não é linear. Já o feedback faz com que os resultados de um sistemas influenciem em seu funcionamento – como na microfonia, quando o microfone capta o som que ele mesmo gera no alto-falante.

O cérebro é um sistema complexo, já que nossos 100 bilhões de neurônios geram 100 trilhões de sinapses, estima-se. São muitas variáveis independentes (os neurônios), mas conectadas (as sinapses), produzindo um sistema não-linear que influencia a si mesmo de diversas maneiras. A mente, ou a consciência, pode então ser entendida como o resultado que emerge desse sistema. Ela pode, sim, ter uma causa física, mas ao se configurar como um sistema caótico, torna-se imprevisível e aparentemente aleatória, onde modificações imperceptíveis num momento podem levar a transformações radicas em outro. Tudo isso confere a ela sua característica essencial de imaterialidade.

É claro que a compreensão profunda das implicações da teoria do caos para a psiquiatria depende de muito mais matemática do que eu sou capaz sequer de imaginar. Mas se mesmo sabendo tão pouco tive um insight importante (para mim, pelo menos) sobre a relação mente-cérebro, nem imagino o que pode acontecer quando os neurocientistas se apropriarem desse conhecimento. Acho que é imprevisível.

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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