Não vou comentar a entrevista da Xuxa. Não assisti, mas soube que ela disse ter sido abusada e sentido algo muito comum em vítimas de abuso: culpa. A experiência foi uma das causas de ela se tornar a rainha dos baixinhos. Quero aproveitar esse gancho improvável para conversarmos sobre a Comissão da Verdade.
Sim, porque esse sentimento não é exclusivo das vítimas de crimes sexuais. Em suas memórias, Pérsio Arida, torturado na época da ditadura, diz que se sentia envergonhado por isso: “Era um constrangimento por ter passado por uma experiência vexaminosa, como se, de alguma forma, fosse minha a culpa por tudo o que me aconteceu.(…) Minha vergonha era mais próxima àquela do estuprado, a vergonha por não ter sido capaz de se proteger da maldade do mundo.” O episódio mudou o rumo de seus estudos, ele foi para economia e acabou se tornando um dos pais do Plano Real.
Mas o que a Comissão da Verdade pode fazer diante desse sentimento? Pouco e muito.
Evidentemente trazer à luz a verdade dos fatos, o detalhe sobre as torturas, a realidade de o Estado ter imposto humilhação e desamparo inimagináveis não desfará o que foi feito. Por esse prisma, a Comissão pouco pode fazer.
Mas os seres humanos buscam reconciliação. Se pensamos de forma abstrata num mal-feito, imaginamos que adoraríamos nos vingar. Mas diante dos casos concretos as pessoas preferem a reconciliação – desde que se assumam os erros. Um caso famoso foi o do Hospital de Veteranos em Lexington, nos EUA. Até meados dos anos 80 esse era um dos hospitais da rede de veteranos que mais gastava com indenizações por erros médicos. Então, em 1987, após perder dois processos somando 1,5 milhão de dólares, a diretoria resolveu radicalizar, passando a assumir prontamente todo erro que ocorresse, mesmo que a família ou o paciente não notassem que houvera um problema. Uma reunião era convocada pela equipe com o paciente e o chefe do departamento de risco assumia a culpa, pedia desculpas formalmente e combinava o que poderia ser feito dali por diante. Em menos de uma década o hospital passou a ser um dos que menos gastava com processos. A raiva que sentiam as famílias diante da negação dos responsáveis, motivo de boa parte dos processos, deixava de ser um fator relevante na causa.
Desse ponto de vista a Comissão da Verdade pode contribuir muito, fazendo que responsabilidades sejam assumidas. Não por vingança. Mas porque quando um torturador diz “Sim, eu fiz”, ele mitiga a culpa que sente o torturado: “Foi ele, então; não fui eu”. E a raiva diminui. O filme “A morte e a donzela”, do Roman Polanski, ilustra com maestria essa situação. Nele a atriz Sigourney Weaver interpreta uma vítima de tortura num país recentemente redemocratizado. Certa noite ela e o esposo recebem a visita de um médico, interpretado brilhantemente por Ben Kingsley, cuja voz reconhece como sendo um de seus algozes. Ela consegue amarrá-lo a uma cadeira, mas o marido intervém tentando dissuadi-la de torturá-lo. Ela não quer se vingar, no entanto. Diz que pensou em estuprá-lo, em seviciá-lo, em humilhá-lo além da conta; mas quando se encontrou diante dele percebeu que só queria que ele falasse com ela, que assumisse o mal que praticara – se fizesse isso ela não só poderia deixá-lo viver, mas poderia ela mesma enfim seguir com sua vida.
Não se trata, pois, de revanchismo. Trata-se, isso sim, de finalmente deixar o passado no passado. E seguir em frente.
![]()
Cohen, J. (2000). Apology and Organizations: Exploring an Example from Medical Practice SSRN Electronic Journal DOI: 10.2139/ssrn.238330
Sabe todos os seus conceitos sobre como a memória funciona? Com o perdão do trocadilho, esqueça-os. Talvez não todos, mas provavelmente boa parte do que você imagina está errado. Duvida? Então diga se você concorda ou não com as quatro afirmações abaixo:
1) Quando uma pessoa sofre de amnésia, normalmente ela não consegue se lembrar de seu nome ou sua identidade.
2) A palavra de uma testemunha honesta, que tem certeza do que viu, poderia bastar para condenar alguém judicialmente.
3) A memória humana funciona aproximadamente como uma câmera, gravando sons e imagens do que acontece para que possamos posteriormente rever na memória.
4) Uma vez que algo tenha sido gravado na memória, essa lembrança não se modifica mais.
E então, qual o escore? Com quantas você concorda? Se acredita que qualquer uma delas está certa, errou. Todos os conceitos são incorretos. Talvez o único consolo é que você não está sozinho: entrevistados 1500 americanos, de todas as camadas sociais, 82,7% das pessoas acreditavam na primeira frase, 37,1% na segunda, 63% na terceira e 47,6% na quarta. E a ficção é em grande parte culpada por isso.
Poucos sintomas neuropsiquiátricos são tão caros ao cinema e à literatura como a amnésia, mas poucos são tão distorcidos. A história típica é a de uma pessoa que leva uma pancada na cabeça, esquece de tudo, inclusive de quem ela é, e só ao levar uma segunda pancada recupera a memória. Mas na verdade traumatismos cranianos raramente produzem essa amnésia total. Ela até pode acontecer diante de traumas psíquicos, mas é raríssima. E obviamente não pode ser revertida com outra pancada. Já a ideia de que temos uma filmadora na cabeça, registrando tudo e guardando em arquivos que podemos posteriormente acessar tem grande apelo justamente pela metáfora tecnológica. Mas não é assim que funciona: quando lembramos de algo nós reconstruímos a cena. Guardamos apenas alguns elementos chave, repletos de lacunas que só são preenchidas pelo cérebro na hora de reencenar a lembrança. Por isso mesmo existem muitas distorções: o contexto em que estamos, as dicas que usamos para lembrar, as expectativas envolvidas, tudo isso influencia nessa reconstrução, podendo levar até mesmo à formação de falsas memórias.
Estive pensando nisso enquanto lia o excelente livro Antes de Dormir (Editora Record), aclamado romance de estreia de S.J. Watson. Ele também usa um conceito incorreto sobre a memória: uma mulher acorda a cada dia sem se lembrar de nada. Exatamente como a Drew Barrymore em Como se fosse a primeira vez. Mas não se trata de uma comédia romântica, e sim de um suspense tão envolvente que percorri as quatrocentas páginas em quatro dias. A criativa estrutura do livro nos coloca na perspectiva da narradora, inicialmente no dia de hoje, quando ela recupera um diário que vinha fazendo há algumas semanas. A segunda parte se constrói toda sobre o diário, que lemos junto com a protagonista descobrindo com ela o que está acontecendo. Na última parte voltamos para o dia de hoje, após terminar de ler as anotações. Só que ao longo das páginas as dúvidas foram se acumulando, pois sem ter memórias sobre as quais construir o conhecimento, ficamos, narradora e leitores, à mercê do que os outros lhe contaram e ela conseguiu escrever. Nem tudo é o que parece, e ao comparar as versões ela vai depurando a história, construindo uma trama que não nos deixa fechar o livro antes do fim. Difícil falar mais alguma coisa sem estragar as surpresas.
Como muitas obras de ficção, esse livro abusa da liberdade poética para tecer sua história, cometendo alguns equívocos graves com relação à memória. Mas é tão bem escrito que, novamente com perdão do trocadilho, são falhas que vale a pena esquecer.
![]()
Simons DJ, & Chabris CF (2011). What people believe about how memory works: a representative survey of the U.S. population. PloS one, 6 (8) PMID: 21826204
Sexo, drogas e futebol. Ou música. Dois personagens resgatados nos últimos tempos que tiveram suas vidas marcadas pelo exagero desses elementos estão em cartaz em interpretações que vão marcar a história da dramaturgia nacional. Sem exagero.
Em ordem cronológica, comecemos com Heleno de Freitas, jogador de futebol que foi um dos primeiros popstars dos gramados. Formado em Direito, vindo de família abastada, Heleno tinha a empáfia de quem sabe que é melhor do que os outros e uma arrogância que o impedia de disfarçar que sabia disso. Viciado em lança perfume e mulherengo, briguento e estourado, contraiu sífilis jovem e morreu aos 39 anos, quando a doença, atingindo seu cérebro, deixou-o – literalmente – louco. O filme Heleno, do diretor José Henrique Fonseca, traz Rodrigo Santoro no papel título do jogador, numa interpretação cuja força pode ser atestada na balança: para retratar a fase final de Heleno, internado num asilo em Barbacena, Santoro emagreceu doze quilos. Levando em conta que ele já estava em forma para interpretar um atleta de ponta, tem-se a dimensão da entrega ao personagem. É o tipo de sacrifício que o faria por as mãos no Oscar, fosse nos Estados Unidos. Ao fugir da caricatura e optar por mostrar o personagem como um todo, Santoro mergulhou no papel – estudou durante cinco anos para o filme – e voltou à tona com uma das melhores, se não a melhor interpretação de sua carreira.
Entrega semelhante pode ser vista na interpretação teatral que Tiago Abravanel faz de Tim Maia. Após ser aprovado para o papel do músico tijucano, Abravanel fez um laboratório intensivo de seis semanas, não só estudando a biografia de Tim, na qual o espetáculo se baseia, mas assistindo 20 horas de gravações do cantor. Seria injusto dizer que se trata de uma boa imitação. Muito mais do que isso, ele representa a vida de Tim Maia da juventude até a morte – com 55 anos – mudando não só o tamanho da barriga, mas a própria forma de cantar: é notável perceber como a voz límpida do início da carreira vai dando lugar à rouquidão com a decadência física do cantor. Como os grandes ícones da música mundial, a vida de Tim Maia foi vivida numa intensidade incompatível com a longevidade, com romances violentos e, sobretudo, excesso de drogas. Desde que foi introduzido ao mundo dos psicotrópicos não parou mais, experimentando muito de tudo, de maconha a LSD, de álcool a cocaína, por vezes tudo ao mesmo tempo. Os prejuízos não foram só na saúde, mas a carreira e a vida pessoal seguiram o mesmo rumo, história que a peça pontua com canções interpretadas com maestria por Tiago Abravanel em quase três horas de espetáculo.
Popstars morrem mais cedo mesmo. Não é mito: a vida extremada, o contínuo estresse pela performance, a disponibilidade de álcool e drogas, tudo isso faz com que os famosos, pelo menos do mundo da música, morram 70% a mais do que a população geral nos anos seguintes ao sucesso. Só após vinte e cinco anos do início da fama os índices de mortalidade voltam ao normal. Significativo é perceber que o risco era maior para os que estouraram antes de 1980 – do final do século para cá parece que as pessoas estão menos tresloucadas.
Alguns podem achar que é a caretice da nossa época, preocupada demais com a saúde e com o politicamente correto, e que só essa loucura produz verdadeiros talentos. Mas talvez seja o contrário. Heleno de Freitas teve que implorar para conseguir jogar uma só partida no Maracanã – que era seu sonho – por causa de sua decadência física, e Tim Maia viu seus shows rarearem e os discos encalharem depois que sua carreira desandou. Pode ser caretice, mas fico com a impressão que essa loucura toda mais atrapalhou do que ajudou, impedindo-os de brilhar ainda mais.
![]()
Bellis, M., Hennell, T., Lushey, C., Hughes, K., Tocque, K., & Ashton, J. (2007). Elvis to Eminem: quantifying the price of fame through early mortality of European and North American rock and pop stars Journal of Epidemiology & Community Health, 61 (10), 896-901 DOI: 10.1136/jech.2007.059915
Descobri que faz mais de sessenta anos que psicopatia vende bem. No filme clássico “Crepúsculo dos Deuses”, de 1950, há um diálogo entre dois personagens debatendo um roteiro em que estão trabalhando: “Para começar, acho que você deveria jogar fora toda essa coisa psicológica de explorar a mente doentia de um assassino.” ele diz, sendo imediatamente contestado por ela: “Mas psicopatas vendem como pão quente”.
O desprendimento que esses sujeitos aparentam, vivendo de acordo com seus impulsos sem se importar com a rede social de que fazem parte é, de alguma forma, sedutor – já imaginou, fazer o que bem entender, dane-se o mundo? Esse desprezo pelos outros me fez pensar: será que eles bocejam?
Uma pesquisa laureada com o prêmio IgNobel – uma paródia do prêmio Nobel para os trabalhos que fazem as pessoas primeiro rirem, depois pensarem (slogan que per se vale um post futuro) – mostrou que o famoso bocejo contagiante provavelmente depende de empatia, da capacidade de se colocar no lugar do outro, ou ao menos de um sentido de coletividade. Diversos animais sofrem desse contágio, e se você boceja na frente de alguém há 50% de chance de que ele venha a bocejar também. Seria isso um reflexo puro, automático, ou seria uma forma de interação social?
Para testar essa hipótese os bem-humorados cientistas escolheram um grupo de sete tartarugas, pois embora tenham um bom convívio social, sendo répteis elas carecem de empatia como nós definimos. Pacientemente treinaram uma delas para bocejar toda vez que via um quadrado vermelho, e a partir daí passaram a testar se o bocejo era contagioso entre as companheiras cascudas. Não era. Em diversos momentos, ao vivo ou em vídeo, nenhuma exposição ao bocejo da Alexandra (sim, elas tinham nomes) fez com que as outras bocejassem significativamente mais. Concluiu-se que o contágio do bocejo não pode ser considerado mero reflexo automático, dependendo no mínimo de um sentimento de coletividade (ainda que inconsciente) ou então da real capacidade de empatia.
Agora, se psicopatas têm déficit na capacidade de empatia, desprezo pela rede social que os cerca, podemos supor que, assim como as tartarugas, o bocejo não os contamine. Quem se propuser a testar essa hipótese tornar-se-á um forte candidato ao próximo IgNobel.
![]()
Anna WILKINSON, Natalie SEBANZ, Isabella MANDL, Ludwig HUBER (2011). No Evidence Of Contagious Yawning in the Red-Footed Tortoise Geochelone carbonaria Current Zoology (formerly Acta Zoologica Sinica), 57 (4), 477-484
Não sei se você já percebeu como os animais facilitam a conversa. Quando existe um cachorro presente raramente falta assunto para as pessoas, e as relações humanas parecem facilitadas. Se em vez de um cão forem duzentos animais selvagens, vários deles ameaçados de extinção, além de uma boa conversa isso pode render um bom filme.
Compramos um zoológico, filme do diretor Cameron Crowe com Matt Damon e Scarlett Johansson, retrata essa situação. É a história real do escritor americano Benjamin Mee que decidiu, junto com a mulher, dois filhos, o irmão e a mãe comprar um zoológico falido, mudando-se com a família para lá. Durante o processo, logo antes da inauguração, a esposa faleceu de um tumor cerebral, mas o projeto foi em frente, não apenas ressuscitando o zoo mas dando origem a um livro e posteriormente ao filme homônimo. No filme a história foi ligeiramente modificada, mas a “essência foi preservada”, de acordo com o próprio autor.
Matt Damon está mais velho e com cara de paizão (às vezes lembra o Philip Seymour Hoffman), e Scarlett Johansson está “tão feia quanto é possível”, como disse o crítico Luiz Carlos Merten. Melhor, porque assim presta-se menos atenção neles e mais nos personagens – pessoas comuns tendo que dar um jeito de lidar com crises universais: sobrecarga de trabalho, orçamento curto, frustrações familiares. É onde entram os bichos.
Embora o efeito terapêutico do contato com animais seja algo intuitivo, é uma área só recentemente estudada de forma científica. Os benefícios, no entanto, já vêm sendo estabelecidos, e não apenas para o convívio animais domésticos, mas também com animais de grande porte, sobretudo quando isso implica a aquisição de novas habilidades. Quatro mecanismos principais formam a base teórica para a eficácia dessas intervenções: 1) os animais atuam como mediadores sociais, facilitando a comunicação entre as pessoas; 2) aumentam a auto-confiança e eficácia, já que lidar com eles leva a necessidade de realizar tarefas específicas; 3) tornam-se objetos de afeto, ajudando a preencher a necessidade de ligação que todos têm; 4) promovem alterações fisiológicas, tendo sido demonstrado desde redução da pressão arterial até aumento de neurotransmissores.
Fora o item 4, todos os outros são explícitos em Compramos um zoológico. Com destaque para o papel dos animais na interação humana, na bela cena em que pai e filho, que passam o filme todo sem conseguir falar um com o outro, conseguem fazê-lo indiretamente, diante de um tigre à beira da morte.
Talvez não seja uma obra que entre para a história do cinema. Mas vale a visita por ser um filme que lida honestamente com o luto, a resiliência e as dificuldades e alegrias de ser gente, ambas amplificadas pelo monte de bichos em volta.
![]()
Bente Berget, & Bjarne Olai Braastad (2008). Theoretical Framework for Animal-Assisted Interventions – Implications for Practice therapeutic communities international journal of therapeutic communities, 29 (3), 323-337
Acho que não demora muito e começarão a aparecer relatos de pessoas que convulsionaram dentro dos cinemas brasileiros ao assistir o filme Amanhecer. A notícia de que um rapaz teve que ser levado às pressas para um hospital fazendo barulhos estranho e sem conseguir respirar após ver a cena do parto da protagonista foi logo seguida pela descoberta de outros casos semelhantes nos Estados Unidos. Ao que parece a sequência do parto é composta por um padrão alternante de luz branca, vermelha e preta, o que foi logo invocado como causa das “convulsões”.
Provavelmente o público-alvo da saga Crepúsculo não era nascido quando um episódio semelhante ocorreu no Japão, durante a transmissão do desenho Pokémon, febre nos anos noventa. Em 16 de dezembro de 1993 Pikachu, o monstro protagonista do desenho, usou seus poderes para disparar um “ataque elétrico”, o que foi representado por luzes piscando. Naquela noite a agência de defesa do Japão relatou que 618 crianças foram levas a pronto-socorros com sintomas variados, indo desde convulsões e desmaios a dores de cabeça e mal-estar. A mídia repercutiu o caso com grande intensidade e preocupação, reprisando a cena e levando a uma segunda onde de crises, cujos números são desconhecidos. Três dias depois, embora o número de crianças levadas a hospitais não fosse modificado, já se falava em cerca de 12.000 afetados com sintomas diversos.
Antes de desistir de ver o filme (por esse motivo), é preciso calma.
Em diversas análises retrospectivas de milhares de estudantes japoneses afetados, descobriu-se que uma parcela mínima deles apresentou de fato convulsões. Ocorre que existem casos de epilepsia sensíveis a certos padrões de estimulação luminosa, mas sua ocorrência é rara (estimada em 1/4.000, ou 0,025% da população), o que não explica a ocorrência maciça daqueles eventos. Levando em conta a grande diversidade de sintomas, a maioria inespecíficos e nada característicos de convulsões epilépticas, o mais provável é que tenha se tratado de um contágio psicológico, uma espécie de histeria coletiva, em grande parte alimentada por coberturas sensacionalistas.
Agora, pensando no sucesso esmagador da série Crepúsculo (praticamente metade de todas as salas de cinema do Brasil exibiram o filme Amanhecer na estreia, recorde absoluto), o alto grau de sugestionabilidade da faixa etária do público-alvo (na maioria adolescentes), e a velocidade de divulgação das notícias em tempos de rede social, imagino ser questão de horas até ouvirmos os primeiros relatos no país. Tomara que esteja errado.
Radford B, & Bartholomew R (2001). Pokémon contagion: photosensitive epilepsy or mass psychogenic illness? Southern medical journal, 94 (2), 197-204 PMID: 11235034
O filme “Não me abandone jamais”, baseado no livro de Kazuo Ishiguro, é de 2010, mas passou pelos cinemas brasileiros no início desse ano e já está disponível em DVD. É a história de um triângulo amoroso num universo de ficção científica. Kathy e Tommy se amam, mas Tommy acaba namorando Ruth, que não queria ser deixada de lado. Ocorre que os três são clones humanos, destinados a doar seus órgãos num programa oficial do governo até que cheguem a suas conclusões, terminologia oficial para suas mortes.
A certa altura uma personagem responsável pelo serviço de educação dos doadores explica que “as pessoas” (excluindo os clones dessa categoria) não aceitariam voltar a um tempo em que as doenças eram fatais, recusando-se a abolir o programa de clonagem e doação. Elas nem sabem se os clones têm alma.
O filme é belíssimo e vai além disso, mas me fez pensar no aspecto da bioética que discute o enfoque holístico (total) versus o biológico do ser humano doente. Vejamos como é interessante o universo moral da medicina.
Investigando como os médicos lidam com tais questões, pesquisadores noruegueses observaram cerca de cem horas de atendimento de 15 médicos diferentes, perseguindo-os ao longo de seus dias de trabalho por onde quer que fossem, além de conduzir entrevistas com esses profissionais. O resultado foi que, independente da especialidade, os médicos tendiam a ouvir as histórias dos pacientes e recontá-las reduzindo-as a queixas, sinais e sintomas pertencentes ao universo biológico. Excluia-se qualquer significado subjetivo das situações (morais), focando apenas os aspectos funcionais dos indivíduos (biológicos). Menos do que uma falta ética, no entanto, essa desumanização pareceu ser resultado de os médicos se focarem apenas no princípio da beneficência, buscando fazer o bem para os pacientes, levando em conta apenas seus “organismos”. Os pesquisadores questionam mesmo se é factível uma medicina totalmente humanizada, dadas as demandas reais da prática clínica.
Uma coisa que o artigo não investigou, mas que acho relevante e faz ligação com o filme, é o que os pacientes pensam disso. Embora todos desejem um medicina ética, quando o que está em jogo é a vida ou a morte, surge uma zona cinzenta (sobre a qual já discutimos aqui), na qual parece que encarar o ser humano como uma máquina biológica que pode ser consertada muitas vezes pesa mais do que levar em conta que a realidade humana vai muito além do biológico, envolvendo aspectos subjetivos, tanto individuais como coletivos. Talvez nós mesmos prefiramos assim. É esse raciocínio estritamente biológico, afinal, que permitiu àquelas “pessoas” (morais, isto é, com alma) do filme aceitarem receber órgão de clones (biológicos, sem alma) considerados “não-pessoas”. E como uma delas diz, ninguém aceitaria voltar atrás.
Óbvio ululante que o programa do filme nos parece moralmente inaceitável. Mas o fato de aquela sociedade o aceitar moldou sua prática médica. Donde concluo duas coisas: os médicos são o que as pessoas esperam que sejam. E exatamente por isso, não há ética médica independente da sociedade.
Agledahl, K., Førde, R., & Wifstad, �. (2010). Clinical essentialising: a qualitative study of doctors’ medical and moral practice Medicine, Health Care and Philosophy, 13 (2), 107-113 DOI: 10.1007/s11019-009-9193-z
Por esses dias tenho visto no facebook uma mensagem exaltando a infância do “tempo em que eu era criança”, quando não existiam videogames, PCs e “a gente brincava na rua”. Depois falam que eu sou do contra, mas não dá para concordar com essa história.
A mania de achar que antigamente era melhor tem até nome, “rosy retrospection”, ou, numa tradução livre, lembrança cor-de-rosa: é a tendência que temos de avaliar as experiências passadas de forma exageradamente positiva. Até onde sei o termo foi cunhado num estudo seminal de 1997, no qual os pesquisadores fizeram o seguinte: distribuíram questionários para 21 americanos que iam viajar para Europa, para 77 estudantes que iriam ter uma semana de férias e para 28 colegas que iriam viajar de bicicleta pela Califórnia. Os sujeitos respondiam perguntas sobre seus sentimentos em três momentos: antes, durante e depois do passeio. Embora os métodos variassem um pouco, em todos o resultado foi o mesmo: as pessoas achavam que ia ser melhor do que acabava sendo de fato, confirmando o ditado de que o melhor da festa é esperar por ela. Mas quando perguntadas como a experiência tinha sido poucos dias depois, as pessoas também davam notas de satisfação maiores do que tinham dado na ocasião dos eventos. Esquecendo-se rapidamente de pequenas distrações e frustrações que na hora roubavam um pouco da satisfação, guardavam mais as lembranças cor-de-rosa.
É como no mais recente filme de Woody Allen, Meia-noite em Paris. O escritor Gil (Owen Wilson, interpretando com maestria o papel “Woody”) acha que os “anos dourados” de Paris tinham sido os anos 20. Num passe de mágica ele vai parar lá, e descobre que as pessoas da época achavam que a “idade de ouro” terminara mesmo foi com a virada do século. Só que quem vivia esse período imaginava que a Renascença é que tinha sido boa. Gil vê que as pessoas sempre acham sua época meio insatisfatória, mas que isso não é culpa da época, “a vida é um pouco insatisfatória”, conclui.
Por isso que não concordo com a campanha no facebook. Como diz o personagem do Woody Allen, o passado pode até ter sido bom, mas pelo menos hoje nós temos antibióticos.
Mitchell TR, Thompson L, Peterson E, & Cronk R (1997). Temporal Adjustments in the Evaluation of Events: The “Rosy View” Journal of experimental social psychology, 33 (4), 421-48 PMID: 9247371
[tweetmeme] Leio que o filme A Rede Social divide opiniões por onde passa. Mas não entre os que gostam e os que não gostam (a maioria concorda que o filme é bom – eu entre eles), e sim entre os que acham que Zuckerberg é infeliz e antiético e os que vêem nele um gênio que não perdeu a oportunidade que teve. Produtores e atores relatam que os mais jovens tendem a ser da segunda opinião, sendo os mais velhos que o julgam de maneira dura.
Acho difícil dizer. Aparentemente a ideia lhe foi sugerida realmente pelos irmãos Winklevoss. Ele não quis trabalhar com eles, fez sozinho. Foi roubo? Não sei. Parece também fato que o sócio brasileiro Eduardo Saverin foi prejudicado na reestruturação do Facebook. Aí penso que Zuckerberg pecou, no mínimo por omissão.
Mas creio que o que alimenta esse conflito de gerações são menos suas as ações do que suas reações, seu o jeito de lidar com as pessoas. Ele é retratado como indiferente aos outros, sempre alheio ao ambiente; e se isso dá a ele um ar arrogante, pode também inspirar pena por sua inaptidão social. Quando alguém se magoa com algo que fez, ele não se desculpa. Frieza e calculismo? Pode ser. Mas ao mesmo tempo ele parece ser incapaz sequer de entender os sentimentos alheios. Esse jeito peculiar aliado à genialidade e fixação na programação de computadores levou muitos a suspeitarem que, no fundo, ele tenha algum grau da Síndrome de Asperger.
Há uma revisão breve mas muito precisa disponível gratuitamente sobre ela (I). Trata-se de uma forma de autismo, na qual uma grande dificuldade de estabelecer relações sociais adequadas é muitas vezes acompanhada de interesses excêntricos e habilidades superiores em áreas como cálculo, música ou lógica. As causas são desconhecidas, e a forma adulta inclui dificuldade de compreender emoções vivenciadas por seus pares e tendência a trazer qualquer conversa para si mesmo ou seus tópicos de interesse (preste atenção ao primeiro diálogo do filme). A gravidade varia, e nem todas as pessoas precisam de tratamento formal, nem sempre sendo consideradas doentes.
Zuckerberg tem Asperger? Não sei, não; sempre desconfio das explicações psiquiátricas para os fenômenos sociais (tantos os bons como os ruins). Mas não se pode negar que os tempos atuais são favoráveis a essas pessoas: juntos, habilidade em cálculo e lógica e fixação em temas excêntricos são quase super-poderes nas mãos de um programador nerd. Lisbeth Salander, a hacker protagonista da Trilogia Millenium (thriller político-tecnológico que é uma das obras adultas de maior sucesso das últimas décadas) consegue dar um fim útil ao seus sintomas, mas assim como Zuckerberg gera amores e ódios.
Talvez as gerações mais jovens, nascidas num mundo informatizado, aceitem melhor o poder que um programador tem de mudar o mundo (ou alguns de seus aspectos) e por isso sejam mais compreensivas com Zuckerberg. As gerações mais velhas já não lidam tão bem com essas mudanças, sendo menos condescendentes. Ainda mais quando, como o próprio Zuckerberg diz do Facebook, ainda não sabemos o que isso será.
(I) Roy M, Dillo W, Emrich HM, & Ohlmeier MD (2009). Asperger’s syndrome in adulthood. Deutsches Arzteblatt international, 106 (5), 59-64 PMID: 19562011
[tweetmeme]
Acho que alguns leitores podem ficar indignados, mas não consigo deixar de comentar a matéria de capa da Veja da semana passada, Luciano Huck e Angélica mostrando a nova cara do bom-mocismo para um mundo politicamente correto.
Mas o quê nosso blog tem a ver com isso? Tem a ver na medida em que a mídia é uma fonte de modelos mentais para a sociedade, e o modelo apresentado ali é, no mínimo, parcial. É claro que eu torço pela felicidade dos apresentadores (aliás, torço para a felicidade geral das nações), mas pintar a vida como uma comédia romântica, na qual os protagonistas passam por diversos desencontros até finalmente se unir e se tornarem felizes para sempre já se provou uma fórmula prejudicial para a saúde emocional das pessoas.
Para citar apenas um estudo de muitos, numa pesquisa com quase 300 estudantes universitários, encontrou-se uma clara correlação entre a preferência por mídias de conteúdo romântico, como seriados, filmes e revistas, e crenças absolutamente disfuncionais no que se refere a relacionamentos reais, como acreditar que o destino apresentará um parceiro ideal que será imediatamente reconhecido, ou esperar que o parceiro tenha a percepção imediata das necessidades do outro, como se dotado fosse da capacidade de ler sua mente. Nós somos seres sociais, tendemos a nos espelhar no outro, e portanto somos mais sugestionáveis do que gostaríamos. Quando fontes de informação massificam mensagens superficiais e, por que não, mentirosas, acabamos por acreditar naquilo e por viver grandes frustrações.
A matéria da Veja é como os adesivos de carro que viraram moda nos últimos meses: mostram uma família arrumadinha e sorridente, puerilmente retratada como se tudo fossem flores. Claro, ninguém quer colar no seu carro uma cena mostrando a briga com a sogra no almoço de domingo, assim como não seria de se esperar uma reportagem sobre as discussões conjugais de Huck e Angélica. Só quero lembrar que, no dia-a-dia, ser feliz até é possível, mas é mais difícil do que se quer crer e custa um bocado de contrariedades.
Bjarne M. Holmes (2007). In Search of My “One-and-Only”: Romance-Oriented Media and Beliefs in Romantic Relationship Destiny Electronic Journal of Communication, 7 (3)
2012
2011
2010