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Daniel Martins de Barros

Se você usa o tempo que gastaria assistindo Big Brother Brasil para algo mais saudável, como ler jornais ou se manter informado, provavelmente deve ter se deparado, mesmo assim, com o infame BBB nos últimos dias. Uma grande polêmica se armou quando um dos integrantes foi acusado de, aproveitando-se da embriaguez de uma das moças da casa, ter relações sexuais enquanto ela estava inconsciente.

Segundo o código penal, estupro é “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso” (Art. 213). O artigo 217, descreve o estupro de vulnerável: “ter relações com alguém de menos de 14 anos”, e no parágrafo primeiro diz que “incorre na mesma pena quem pratica as ações com alguém que (…) por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência”. Ou seja, se de fato a moça estava dormindo sob efeito do álcool, incapaz de resistir ao ato sexual, este poderá ser considerado estupro.

É a típica situação em que surgem gritas de ambos os lados, uns culpando a vítima, que deveria saber que não se deve convidar um homem para passar a noite em sua cama após uma festa regada a álcool, outros linchando o rapaz como um estuprador em série. Arriscando-me a desagradar aos dois lados (mais uma vez), acho que cabem algumas ponderações.

Em geral, os homens percebem mais interesse sexual por parte das mulheres do que elas realmente demonstram: quase duas em cada três mulheres dizem que já foram mal interpretadas, quando rapazes confundiram amizade com interesse. A cantora Mariana Aydar mesmo já avisou na música Lá em casa: “Só não vá confundir/ Todo esse amor/ Se eu te dou carinho é só/ Pra ser bom/ Nunca passou de amizade”. É óbvio que só uma pequena minoria de pessoas irá ter “comportamentos impróprios”, para usar o termo da Globo, ao julgar erroneamente as intenções alheias, mas existem alguns fatores de risco que contribuem para isso: as características pessoais do sujeito, o comportamento dos envolvidos e o uso de álcool. E pelos menos dois deles estavam presentes nesse caso.

Quanto mais estereotipada a visão do homem sobre as mulheres, maior a chance de ele julgá-las mais interessadas do que estão. Não conheço a visão de mundo do acusado e portanto não sei se esse fator de risco estava presente. Já no quesito “comportamento dos envolvidos”, sabe-se que convidar para a cama é universalmente considerado um sinal de interesse sexual, não só para homens. A pista dada por ela aqui, convenhamos, não ajudou muito. E a situação fica mais embaralhada pelo uso do álcool por ao menos dois motivos: 1) ele dificulta a interpretação correta dos sinais dados pela outra pessoa; 2) e também interfere com a capacidade de uma das pessoas perceber que está sendo mal interpretada e corrigir os sinais que vem demonstrando. Tanto que seu uso é relatado em 30% das relações coercitivas, pelo homem, mulher ou ambos.

Tudo isso contribui para deixar o caso BBB bastante complexo: nada é claro, nem os sinais de interesse, nem o consentimento prévio, nem mesmo a materialidade da relação (perícias estão sendo feitas nas roupas íntimas, algo que não era notícia desde o caso Monica Lewinsky). Concordo que, se houve sexo sem consentimento, isso é sim problema e que não se pode culpar a vítima. Mas tendo em conta o contexto em que as coisas se deram, embora o rapaz tenha responsabilidade, não acho que demonizá-lo seja uma postura ponderada.

ResearchBlogging.org
Farris, C., Treat, T., Viken, R., & McFall, R. (2008). Sexual coercion and the misperception of sexual intent Clinical Psychology Review, 28 (1), 48-66 DOI: 10.1016/j.cpr.2007.03.002

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Está rolando nas redes sociais a campanha “troque o BBB por um livro”: pessoas indicam bons livros que estejam lendo e que achem valer mais a pena do que acompanhar o dia-a-dia dos futuros ex-famosos. Eu não creio que essa campanha convença ninguém a desligar a TV e abrir um livro, mas ainda assim vou dar minha pequena contribuição.

Em 2009 foi publicado um estudo que bisbilhotou as conversas de 79 pessoas durante 4 dias. Um gravador automático registrava os sons ambientes durante 30 segundos a cada 12,5 minutos, gerando mais de 20.000 clips, que mostravam desde silêncio até as conversas reservadas. Os pesquisadores então codificaram os momentos em solidão, conversas superficiais ou conversas significativas. As superficiais apenas tratavam de assuntos banais, sem troca de informações relevantes, enquanto as significativas revelavam algum envolvimento entre os interlocutores. Em dois momentos as pessoas tinham também que preencher questionários de satisfação com a vida e bem estar. Os resultados não deixam margem a dúvida: as pessoas que estavam mais tempo sozinhas são as mais infelizes – os mais satisfeitos passavam 25% menos tempo sozinhos e 70% mais tempo falando.

Mas onde entra o BBB nessa história?

Entra porque os resultados também mostraram que as pessoas mais felizes tinham dois terços a menos de conversas superficiais, engajando-se no dobro de conversas significativas. Falar banalidades, portanto, parece estar associado a menor satisfação com a vida e menos felicidade.

Os pesquisadores interpretaram os resultados pensando nos vínculos sociais que nos unem: papo furado e superficialidade não marcam relacionamentos verdadeiros; só com o envolvimento no mínimo um pouco além da trivialidade é que passamos a conversar sobre assuntos relevantes. E desde muito tempo se sabe que vínculos e amizades profundas são importantes para o bem estar das pessoas.

Assim, trocar o BBB por um livro não vai fazer de ninguém uma pessoa mais feliz. Mas conversar sobre a vinda da família real portuguesa ao Brasil ou sobre os usos da arte da guerra na empresa em vez de comentar as fofocas de terceiros pode ser um começo.

ResearchBlogging.org Mehl, M., Vazire, S., Holleran, S., & Clark, C. (2010). Eavesdropping on Happiness: Well-Being Is Related to Having Less Small Talk and More Substantive Conversations Psychological Science, 21 (4), 539-541 DOI: 10.1177/0956797610362675

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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