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Daniel Martins de Barros

Sempre que você entra numa livraria sofre o ataque de uma onda de livros que pulam diante dos seus olhos, exibindo-se como “Livros Que, Se Você Tivesse Mais Vidas Para Viver, Certamente Leria De Boa Vontade”; “Livros Que Tem A Intenção De Ler Mas Antes Deve Ler Outros”; “Livros Caros Que Podem Esperar Para Ser Comprados Quando Forem Revendidos Pela Metade do Preço”; “Livros Que Todo Mundo Leu E É Como Se Você Também Os Tivesse Lido”; e assim por diante. Essa descrição perfeita, que figura na introdução do romance “Se um viajante numa noite de inverno”, do escritor Ítalo Calvino, é seguida por uma ainda melhor, do sujeito lendo o livro no meio do trabalho: “isso não lhe parece uma falta de respeito? De respeito, entenda bem, não para com o trabalho (ninguém pretende julgar seu rendimento profissional; vamos pressupor que suas tarefas sejam regularmente inseridas no sistema das atividades improdutivas que ocupam boa parte da economia nacional e mundial) mas para com o livro”.

Essa sensação de “ah, então não é só comigo” que temos diante dessas passagens, além de atestarem a fina capacidade de observação do escritor, mostram como o trabalho é mal organizado de forma geral. Na maioria das vezes as pessoas são forçadas a cumprir horários rígidos, independente do que façam nesse tempo (imagine o que Calvino não escreveria em tempos de facebook e youtube), o que lhes engessa a vida e não contribui necessariamente para a produtividade das empresas.

Tentando extrair fatos a partir dessa percepção, um grupo de pesquisadores americanos propôs introduzir um modelo batizado de Ambiente de Trabalho Só de Resultados (Results Only Work Enviroment – ROWE) na sede da Best Buy. Seiscentos e cinquenta e nove empregados passaram a ser cobrados exclusivamente por sua produtividade, flexibilizando seus horários de trabalho, entrada e saída, desobrigando-os até mesmo de pedir para ir embora, se quisessem. Há muito tempo sabe-se que conferir autonomia às pessoas, mesmo que pequena, traz impacto psíquico positivo (e que reduzi-la é um dos fatores mais estressantes que existem), e de fato com tal mudança os funcionários passaram a ter menos conflitos trabalho-família, passaram a cuidar melhor de sua saúde e ganharam inclusive mais tempo de sono, apresentando aumento significativo em suas medidas de bem estar.

Agora, se já não resta dúvida de que permitir que as pessoas organizem seus próprios horários tendo em vista suas tarefas é positivo para os empregados, falta comprovar que também é bom para os empregadores. Supostamente eles faltarão menos e estarão mais motivados, mas os gestores querem ver os números, não palpites. Até que tais evidências surjam, portanto, ainda iremos nos dividir entre um daqueles “Livros Que Você Sempre Fingiu Ter Lido e Que Já Seria Hora De Se Decidir A Lê-los Realmente”, o novo clip da Lady Gaga e uma ou outra tarefa, enquanto não batem as dezoito horas.

ResearchBlogging.org
Moen, P., Kelly, E., Tranby, E., & Huang, Q. (2011). Changing Work, Changing Health: Can Real Work-Time Flexibility Promote Health Behaviors and Well-Being? Journal of Health and Social Behavior, 52 (4), 404-429 DOI: 10.1177/0022146511418979

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A prefeitura de São Paulo está disposta a retirar os usuários de crack das ruas, mesmo que seja à força, alegando, para tanto, que a dependência química é uma doença psiquiátrica, podendo justificar a internação involuntária desses indivíduos.

Embora sempre sujeitas a questionamentos por serem uma forma extra-judicial de restringir a liberdade de alguém, as internações involuntárias são uma das opções terapêuticas disponíveis em Psiquiatria, ainda que sejam medida de exceção. Os Estados de direito reconhecem a necessidade de legislar sobre a internação de pessoas que, em virtude de terem seu autocontrole ou sua capacidade racional prejudicadas por uma doença psiquiátrica reconhecida, coloquem em risco suas vidas ou a vida de terceiros. O que traz legitimidade a uma internação involuntária é a perda da autonomia do indivíduo, decorrente de uma condição médica que o impede de compreender e entender o caráter patológico de seu estado e, por isso, não consente com o tratamento. Quadros psicóticos graves que apresentem delírios ou depressão com risco de suicídio ilustram bem essa condição. Mas há quadros que, mesmo não apresentando quebra total com a realidade, não raras vezes colocam sujeitos em perigo e prejudicam a capacidade de consentimento dos pacientes; é o caso da anorexia com risco de morte ou de dependências químicas graves.

No Brasil, a Lei Federal 10.216/2001 se dispõe a proteger os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais. Com relação às internações psiquiátricas, no artigo 6º, parágrafo único define internação involuntária: aquela que se dá sem o consentimento escrito do usuário e a pedido de terceiro. Assim, embora a autonomia seja um dos pilares da atuação ética na assistência à saúde, há ocasiões em que a capacidade de decidir autonomamente do indivíduo está prejudicada, como pode ser o caso de dependentes químicos em estágios avançados. O grande risco é utilizar essa justificativa médica simplesmente como medida higienista, independente da real necessidade psiquiátrica de internação.

Cabe à sociedade em geral, e aos médicos em particular, a atenção para não deixar que isso ocorra.

ResearchBlogging.org Barros, Daniel Martins de, & Serafim, Antonio de Pádua. (2009). Parâmetros legais para a internação involuntária no Brasil Revista de Psiquiatria Clínica, 36 (4), 168-170

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Você já esteve num incêndio? Eu já – há poucos dias. Acredite: a experiência é aterradora. Para mim, mais do que o medo da morte, a sensação de perda de controle foi o mais angustiante.

Sábado à tarde estava com minha esposa vendo um filme quando senti um cheiro de queimado. Não parecia vir de casa, então fui olhar pela janela do apartamento. Assustei-me com a quantidade de fumaça vinda do primeiro andar e resolvi checar. Pedi à minha esposa que esperasse e desci pela escada, mas lá pelo terceiro andar vi que situação era grave: a fumaça espessa já dominava a escada de emergência, e embora o calor não fosse intenso percebi que se tratava de um incêndio. Corri escada acima para buscar minha esposa e pegar panos molhados para cobrir o rosto. Tarde demais: ao tentarmos descer novamente a fumaça já impedia a visão e a respiração na escada toda, nos cegando e sufocando. “Não há mais o que fazer” pensei “Vamos para a sacada”. Voltamos para o apartamento, e da janela pude ver que a fumaça, pelo menos do lado de fora, diminuíra. Em alguns minutos vimos jatos de água saindo do primeiro andar (funcionários do condomínio conseguiram invadir o apartamento e acionar a mangueira de incêndio). Soubemos depois que a causa do incêndio foi um aquecedor de ambiente, e que ao desligarem a energia do andar para combater o fogo, inadvertidamente o exaustor da escada foi também desligado, transformando-a numa caixa de fumaça.

O ser humano tem a necessidade de se sentir no controle das situações, mesmo que não esteja. Num estudo de revisão muito bom sobre o assunto os cientistas mostraram que essa necessidade é detectável já em crianças pequenas, e mesmo os animais claramente preferem situações de autonomia, mesmo que a possibilidade de escolha não traga ganhos reais. Em situações de estresse, até mesmo a ilusão de haver possibilidade de escolhas reduz o sofrimento psíquico, provavelmente por atuação dos centros de recompensa do cérebro, que diante da mera ilusão de autonomia já produzem sensação de bem estar. Finalmente, todos os estudos confirmam que retirar de alguém a autonomia é um fator de enorme desgaste emocional e sofrimento mental. Provavelmente o gosto intenso pelo poder de escolha é adaptativo, fincado em nosso cérebro pois sem ele tenderíamos à passividade total, ficando (ainda mais) à mercê do acaso.

Acho que foi por isso que o momento mais angustiante do incêndio, para mim, foi quando me vi sem escolha, sem alternativa alguma a não ser voltar para meu apartamento e esperar. A falta de controle mostrou todo seu poder estressor.

E se no final das contas ninguém se feriu, isso só ocorreu graças aos seres humanos que exerceram seu poder de escolha, enfrentaram o fogo e – felizmente para nós e para seus cérebros – controlaram a situação.

ResearchBlogging.org Leotti, L., Iyengar, S., & Ochsner, K. (2010). Born to choose: the origins and value of the need for control Trends in Cognitive Sciences, 14 (10), 457-463 DOI: 10.1016/j.tics.2010.08.001

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  • Quem faz

    Quem faz

    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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