Se você tem estômago fraco, não leia esse post. Eu bem que não queria escrever sobre canibalismo, mas não tenho como fugir.
Para quem ainda não teve o desgosto de ouvir a narrativa do crime bizarro, trata-se de um homem, Jorge Negromonte da Silveira, que fundou uma seita chamada “Cartel” e vive com a esposa Isabel Cristina Torreão Pires da Silveira e a amante de Bruna Cristina Oliveira da Silva, com quem se envolveu quando ela tinha 16 anos, situação aceita pela esposa. Esse trio foi preso por homicídio de várias mulheres (as mortes podem chegar a oito, suspeita-se), cujos corpos foram consumidos como refeições rituais. Segundo Jorge existem duas entidades que falam com ele desde jovem, às quais ele chama de arcanjo e querubim, escolhem quem serão as vítimas, mortas em missões para eliminar mulheres do mal que estariam superpovoando a Terra, e o canibalismo completava o ritual de purificação. A carne estocada, além de consumida durante alguns dias, acabou sendo usada para rechear os salgados que Isabel vendia na cidade. Com eles morava ainda uma menor de idade, provavelmente filha de uma das vítimas, que também era inserida nas práticas canibais. Se não bastasse, há ainda um vídeo de Isabel contando alguns detalhes dos crimes, e um filme caseiro, chamdo Espírito, teria sido encontrado, no qual haveria cenas de homicídios e canibalismo.
Enauseante a história. Faço aqui uma pausa, para o leitor retomar o fôlego. O pior do relato já foi. Só faltou dizer que Jorge diz ser esquizofrênico, mas parou de tomar os remédios quando jovem e não acha que é louco, embora os outros digam o contrário. Ele mesmo registrou em cartório um livro com título “Revelações de um esquizofrênico”, no qual detalha sua seita e sua missão.
Mas seriam essas pessoas todas doentes mentais? Quais são as chances de três pessoas com o mesmo transtorno terem o mesmo tipo de delírio, a ponto de se reunirem nessa quadrilha macabra? Posso estar errado, mas avaliando a situação aqui de longe me parece ser um caso de transtorno psicótico induzido. Já conversamos sobre esse diagnóstico antes, quando um artigo nosso no British Journal of Psychiatry mostrou que a doença havia sido descrita num conto de Machado de Assis antes de sua descoberta (leia). Trata-se de um problema que se caracteriza pelo aparecimento de sintomas psicóticos coincidentes nos membros da família vivendo isolados e em estreita associação, pela transmissão de delírios de uma pessoa doente para uma ou mais pessoas saudáveis. Tenho a impressão que Jorge, que parece ser a pessoa mais articulada, desenvolveu essas crenças delirantes e as transmitiu para as suas mulheres.
Se for esse mesmo o caso, a situação jurídica do trio pode dar muito pano para manga. Mais de uma vez já se alegou transtorno psicótico induzido nos tribunais americanos, mas tem sido raro os sujeitos serem considerados inocentes por conta dele. Isso acontece porque é difícil delimitar, sobretudo em casos de seitas, onde termina uma crença mística e onde começa o delírio – ou seja, não é simples dizer que o sujeito deixou de ser apenas um fiel seguidor para se tornar um doente inimputável.
Sempre vale a pena ressaltar que a maioria esmagadora dos esquizofrênicos não comete crimes e lembrar que pacientes psiquiátricos são muito mais vítimas do que perpetradores de violência. Aliás, nem tenho certeza absoluta de que essas pessoas sejam doentes. Mas dessa vez acho que eu até prefiro acreditar que sim.
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Newman WJ, & Harbit MA (2010). Folie a deux and the courts. The journal of the American Academy of Psychiatry and the Law, 38 (3), 369-75 PMID: 20852223
Vingança. Esse parecer ser o tema da semana. Ao nos aproximarmos do marco de um ano do massacre de Realengo temos notícia do crime em massa em Oakland, nos Estados Unidos. Enquanto isso, na ficção, o desejo por retaliação é a mola mestra da novela Avenida Brasil, que promete trazer a ambiguidade psicológica para a dramaturgia popular.
Os crimes como o de Realengo e de Oakland são classificados como crimes de vingança porque em sua maioria são motivados por uma sensação de injustiça acumulada ao longo do tempo. As vítimas não são escolhidas de forma casual, mas, ao menos na mente do perpetrador, são de alguma forma relacionadas ao sofrimento que ele passou. E é interessante notar que, mesmo não sendo improvisados (ao contrário, são bem planejados durante um bom tempo), tais eventos costumam acabar com a morte do assassino, ou no mínimo com sua prisão – eles praticamente nunca saem ilesos. A revanche, portanto, tem um preço que o perpetrador antevê mas opta por pagar.
E vingança é assim mesmo.
Para estudá-la melhor cientistas criaram o seguinte experimento: voluntários ganhavam 10 Unidades Monetárias (UM) cada um. O primeiro, chamemos de A, podia confiar no segundo, B, e dar toda sua quantia para ele. Se o fizesse, o pesquisador quadriplicava o total, deixando B com 50 UMs e A com zero. Depois disso B podia repartir seus 50 com A, como retribuição pela confiança, ou traí-lo ficar com tudo. Mas aí A podia impor uma pena pela traição; algumas vezes isso não custava nada mas em outras havia também um custo para A (A perderia uma UM para cada duas que cortasse de B). Os resultados não deixaram dúvida: o núcleo estriado do cérebro, área que sinaliza prazer e recompensa, era ativado quando A decidia punir B, mostrando que, para o cérebro, a vingança realmente é doce. Mesmo quando A sabia que a vingança teria um custo pessoal essa região do cérebro era ativada (nesse caso, junto com o córtex pré-frontal medial, região envolvida nos cálculos de custo e benefício). E quanto mais ativada fosse a área da recompensa do voluntário quando não havia custo pessoal, maior era a chance de ele retaliar quando houvesse. Ou seja, quanto maior a satisfação pela vingança, menos importância se dá ao preço a pagar.
Esse balanço entre o custo pessoal e a sensação de recompensa traz a ambiguidade de sentimentos envolvida nas situações de vingança. Na novela a protagonista abandona sua família, seu namorado e sua vida estável na Argentina para voltar ao Brasil tentar se vingar. Paga, portanto, um alto preço pessoal, e, segundo o autor, na expectativa de ter sua recompensa se tonará quase uma vilã nos próximos meses, passando a se questionar até que ponto vale a pena.
Nos assassinatos em massa, por outro lado, os sujeitos sabem de antemão que pagarão alto, possivelmente com suas próprias vidas. Mas talvez a realidade já tenha se tornado intolerável para eles, só restando a tênue promessa de uma recompensa na vingança. Claro que são casos que não têm causa única, originando-se de uma cadeia de fatores que culminam na tragédia. Mas se a variável vingança está quase sempre presente, imagino que se tratarmos os outros como queremos ser tratados e educarmos nossos filhos para fazer o mesmo, talvez possamos prevenir pelos menos parte desses crimes, trabalhando ao mesmo tempo por um mundo menos hostil.
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de Quervain, D. (2004). The Neural Basis of Altruistic Punishment Science, 305 (5688), 1254-1258 DOI: 10.1126/science.1100735
O Brasil ficou mais burro nos últimos dias. E menos bem-humorado. Bom humor e inteligência, afinal, são (ou deveriam ser) parceiros de trabalho.
Com a morte de Chico Anysio e de Millôr Fernandes calam-se duas vozes que mostravam como o humor pode ser fundamental para uma sociedade ao criticar comportamentos, expor os desvãos, confrontar-nos com nossos pecados e defeitos nos levando a repensar valores e atitudes. Para rir, afinal, somos obrigados a pensar.
A teoria clássica do riso, cujas raízes remetem à Grécia antiga, particularmente a Aristóteles, dizia que o riso é sempre fruto do desprezo, da humilhação. Como Cícero escreveria em seu livro sobre a oratória, “a causa principal, se não a única causa, da hilaridade são aqueles tipos de observações que mencionam ou distinguem, de uma maneira que em si mesma não é inconveniente, algo que é de algum modo inconveniente ou indigno”. Na Renascença, com a retomada das ideias do classicismo, essa visão se manteve até mesmo entre os médicos que recomendava o riso como uma meio de regular os humores corporais: Laurent Joubert, importante médico-cientista francês, dizia que o riso está associado à alegria mas nunca fica dissociado da tristeza, pois “Como tudo que é ridículo se origina da feiúra e da desonestidade (…) qualquer coisa ridícula nos dá um prazer e uma tristeza combinados”. Essas teorias foram se modificando ao longo do tempo, mas até os tempos atuais acredita-se que o humor traga consigo sempre algo de agressivo, de violação. Como dizia Hobbes, fazer graça “consiste em descobrir e mostrar à nossa mente, com elegância, alguns absurdos cometidos pelos outros”. É aí que reside o dom dos humoristas talentosos.
Homens dotados de enorme inteligência, Chico e Millôr eram capazes de nos mostrar problemas sem perder a elegância, fazendo piadas, como recomendava Cícero, “de uma maneira que em si mesma não é inconveniente”. Eles sabiam que os defeitos e vícios que denunciavam, quer em textos, desenhos ou personagens, faziam rir não por agredir indivíduos, mas por se utilizar da possibilidade de um “riso não ofensivo” que o próprio Hobbes achava possível – aquele que ocorre quando rimos “dos absurdos e dos defeitos que abstraímos das pessoas, em situações nas quais todos podem rir em conjunto”.
Embora Chico Anysio dissesse que no humor ninguém é substituível, torço para que outros comediantes ocupem o nicho da crítica elegante, que faz pensar e rir ao mesmo tempo. Esse lugar fica praticamente desocupado quando comediantes voltam-se para ofensas pessoais em espetáculos “proibidões”. Como o stand-up, que vem dando o tom do humor no país, é novo por aqui (apesar de iniciativas isoladas anteriores, como do próprio Chico e alguns outros), acho que ele está passando por uma espécie de adolescência, fazendo da rebeldia gratuita sua bandeira e desqualificando como babacas quem levanta objeções. Tomara isso passe. Pois se virar adulto, quem sabe esse humor também trocará o ímpeto pela reflexão, como acontece quando amadurecemos, ganhando elegância e desenvolvendo a inteligência que sofre tanto com a partida de Chico e Millôr.
Na semana que passou tive o grande prazer de assistir John Malkovich no Teatro Municipal de São Paulo na peça The infernal comedy. No papel de Johann Unterweger, Malkovich contracena com duas sopranos, que, cantando trechos de óperas famosas, pontuam seu monólogo de pouco menos de duas horas sobre as desventuras desse famoso serial killer. A peça é uma comédia a la Guilherme Arantes, na qual não é possível “sorrir sem um travo de amargura”.
Embora eu seja um crítico implacável da banalização do diagnóstico de psicopatia, hoje em dia utilizado levianamente como sinônimo de vilania ou maldade, acredito que Unterweger tenha sido mesmo um psicopata. Mas sua história ilustra dois aspectos dessas pessoas: há uma linha de estudo nova que procura diferenças entre os psicopatas bem e mal-sucedidos. E ele foi um pouco de cada.
Com uma carreira criminal de início precoce, passou a adolescência e início da idade adulta entrando e saindo de reformatórios e prisões, até ser preso por assassinar uma prostituta em Viena, estrangulando-a com seu próprio sutiã. Até aqui ele não se diferenciava dos psicopatas mal-sucedidos. Mas então ele começou a escrever. E seus artigos passaram a fazer sucesso entre a elite austríaca. Convenceu escritores e intelectuais de sua reabilitação e levou-os a interceder por ele junto à justiça, conseguindo finalmente uma condicional em sua sentença (originalmente prisão perpétua). Libertado, o que já seria por si só um sinal de sucesso, passou a escrever regularmente para revistas sobre prostituição e criminalidade, o que lhe dava acesso irrestrito (e insuspeito) a prostitutas, chegando a acompanhar diligências policiais em investigações de novos assassinatos. Foram necessários mais alguns anos para que se descobrisse que após sua libertação ele matara mais seis prostitutas em Viena, e outras três em Los Angeles, onde fora morar no ano seguinte, sempre estranguladas com seus sutiãs. Condenado, cometeu suicídio ao saber da sentença, usando uma corda feita de cadarços com nós idênticos aos utilizados no assassinato das suas vítimas.
Tem-se proposto que os psicopatas de sucesso são aqueles mais para manipuladores do que para violentos, muitas vezes conseguindo escapar das condenações, ao contrário dos mal-sucedidos, que são mais agressivos, impulsivos e que acabam por ser presos. Os primeiros resultados das pesquisas apontam para diferenças no funcionamento fisiológico e cognitivo, sendo os bem sucedidos menos prejudicados em termos de capacidade de planejamento, condicionamento pelo medo e mesmo empatia.
Johann Unterweger transitou entre os dois universos – conseguiu manipular e fugir da justiça, mas não abandonou os crimes violentos que acabaram por condená-lo definitivamente. A explicação, no seu caso, pode ser menos neuropsiquiátrica e mais biográfica: como ele mesmo diz na peça (quando ressuscita para lançar sua autobiografia), antes de matar pela primeira vez ele era só mais um bandido. Depois do primeiro homicídio ganhou certo status, adquirindo respeito e mesmo uma identidade “respeitada”. A chave da resposta talvez esteja, portanto, seja sua própria frase: “Entre ser um assassino e ser ninguém, prefiro ser um assassino”.
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Gao, Y., & Raine, A. (2010). Successful and unsuccessful psychopaths: A neurobiological model Behavioral Sciences & the Law DOI: 10.1002/bsl.924
“Tomei um porre de uísque e Rivotril”, disse o cantor Luciano em entrevista gravada no programa do Jô Soares. Para quem não sabe do que estamos falando, trata-se de um episódio recente na história dos dois filhos de Francisco, no qual Zezé di Camargo subiu ao palco sozinho, dizendo ter havido um desentendimento com o irmão no camarim e que por isso faria o show sozinho. Minutos depois Luciano apareceu, disse que cantaria até o final do ano e depois Zezé seguiria carreira solo. “Quando subi no palco, ainda no ímpeto da discussão, falei que ia parar e Zezé seguiria sozinho. Eu tava certo de que queria fazer isso”, confessou Luciano. Agora ambos declaram que a dupla não terminará e aparentemente está tudo bem.
Pelo visto, Luciano estava na fase do leão.
Reza uma lenda judaica que Noé estava plantando uma vinha quando satã se aproximou, curioso sobre aquelas uvas. “Delas sairá uma bebida que alegrará o coração dos homens”, disse Noé. O diabo ofereceu-se para ser sócio naquela empreitada, e tendo sido aceito, sacrificou ali um cordeiro, um macaco, um leão e um porco, espalhando o sangue deles sobre a plantação. Assim fazendo, fez com que as pessoas passassem a consumir o sangue desses animais quando bebiam o vinho, com consequências claras: inicialmente são tranquilas como o cordeiro, mas conforme bebem mais, tornam-se desinibidas e falantes, gracejando como um macaco; depois vão ficando confusas e perdem o medo, ganhando coragem como um leão; e por fim perdem o controle de si mesmas, rolando em sua própria sujeira como um porco. Tudo isso teria acontecido com o pobre Noé.
Embora sejam calmantes, e portanto sirvam para acalmar, os benzodiazepínicos podem levar a reações chamadas paradoxais, quando, em vez de fazer o sujeito se tranquilizar torna-o irritado, agitado, ansioso e por vezes agressivo. Estima-se que tal efeito seja raro, provavelmente menor do que 1%, mas isso pode não ser pouco se pensarmos que esses remédios estão entre os mais consumidos do mundo (o Rivotril sozinho é o segundo remédio mais vendido do Brasil). Não se sabe exatamente por que tal agitação ocorre, mas as principais hipóteses são de que, ao inibir a atividade cerebral de forma global, esses medicamentos inibem também as regiões responsáveis pelo autocontrole; além disso, a menor capacidade de atenção e percepção dos sinais sociais tornaria as pessoas mais propensas a reações exageradas em momentos de discussão ou hostilidade. O consumo concomitante de álcool é um fator de risco para essas reações paradoxais, e elas geralmente ocorrem em reposta a provocações e são percebidas pelos outros, mas não pela própria pessoa.
Então, fica a dica: se beber, não tome Rivotril. O codeiro pode virar leão e acabar a noite como porco, mais rápido do que se imagina.
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Paton, C. (2002). Benzodiazepines and disinhibition: a review Psychiatric Bulletin, 26 (12), 460-462 DOI: 10.1192/pb.26.12.460
Caros comediantes brasileiros,
Analisar o humor é como dissecar um sapo, poucas pessoas se interessam e no final o sapo morre, disse o escritor E.B.White. Tudo bem, mas sem querer ensinar o padre a rezar a missa, acho que a ciência poderia ajudar vocês a evitarem alguns problemas judiciais sem perder – muito – a graça.
Tenho visto nos últimos tempos algumas polêmicas envolvendo piadas feitas por vocês. Isso acontece – vocês sabem – porque alguns temas são mais sensíveis do que outros, e não adianta reclamar do patrulhamento do politicamente correto, porque os tabus sempre existiram e vão continuar a existir. Por mais que a graça para uns dependa muitas vezes da desgraça de outros (Groucho Marx dizia que um comediante amador acha engraçado vestir um ator de velhinha e jogá-lo escada abaixo, mas um profissional sabe que isso só tem graça se for feito com uma velhinha de verdade) a arte do insulto consiste em dosar essa agressividade inerente ao humor.
Hoje em dia uma teoria que está na moda postula que as coisas são engraçadas quando provocam violações benignas. Primeiro porque desde Aristóteles o cômico está associado à agressão ou alguma outra forma de violação; segundo, e aparentemente contraditório, porque a graça também depende da percepção de certa segurança, garantindo a inocência da brincadeira. Assim, a teoria da violação benigna propõe que essas duas condições devam ser satisfeitas ao mesmo tempo. Para que a agressividade seja percebida como inocente – e portanto engraçada em vez de ofensiva – ao menos uma das seguintes condições deve ser preenchidas: 1) a regra violada deve ser contraditória com outra regra, que fica preservada, gerando uma contradição; 2) a regra violada é fraca, pouco importante para as pessoas; ou 3) a violação é psicologicamente distante do público. Essas características tornam a violação mais “aceitável”, garantindo que as pessoas se divirtam mais do que se enraiveçam.
Fica mais fácil de entender o porquê dos recentes protestos contra os senhores, não é mesmo? Fazer piada com estupro só teria graça talvez se a vítima fosse a Cleópatra ou a Mona Lisa, psicologicamente muito distantes das pessoas (afinal, comédia é tragédia mais tempo, como se diz). E pela imensidão do sofrimento causado, o holocausto só poderia eventualmente ser tema de piada para uma civilização alienígena.
Caros comediantes, despeço-me lembrando que o bobo da corte era o único que podia dizer certas verdades a respeito do rei e do reino, porque o fazia na forma de piada. Assim, desejo que vocês continuem sendo os bobos da corte modernos, mas que não se esqueçam que se ele errasse na mão e ofendesse o rei, acabava no calabouço ou sem cabeça.
Saudações.
McGraw AP, & Warren C (2010). Benign violations: making immoral behavior funny. Psychological science, 21 (8), 1141-9 PMID: 20587696
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Uns jogam objetos voadores não identificados na cabeça do candidato, outros atiram bexigas d’água na carreata da candidata: a violência surgiu nas ruas nesse segundo turno após o tom agressivo aparecer nas interações entre Serra e Dilma. Seria coincidência? Acho que não.
Um fato que detestamos admitir é que a televisão tem um enorme poder sobre nós e nossos comportamentos. Gostamos de pensar que estamos acima dessa influência, mas os trabalhos do cientista Albert Bandura estão aí para nos desmentir.
Na década de 60 ele ficou famoso com um experimento no qual crianças entre três e seis anos eram apresentadas a uma situação de agressão: eles viam um adulto agredir um boneco “joão-bobo” de forma propositalmente mais intensa do que o esperado para o brinquedo – além de socos, havia chutes, marretadas, seguidos de frases agressivas, como “Soque-o no nariz!” etc. O estímulo foi feito de três maneiras: ao vivo ou por meio de um vídeo, que mostrava ou a mesma agressão ou um adulto vestido de gato, como nos parques de diversão, enquanto um grupo controle não via tais cenas. No segundo momento as crianças eram levadas a uma sala de brinquedos e observava-se se elas teriam comportamentos agressivos e em que medida imitariam o adulto. Não surpreende que as crianças submetidas ao estímulo foram muito mais agressivas do que as no grupo controle. Surpreendeu, contudo, que o estímulo que mais as levou a comportamentos imitativos foi ver o vídeo dos adultos agressivos.
Acho que já comentei aqui, mas vale a pena citar novamente uma declaração do Woody Allen que disse conhecer diversas pessoas frustradas por não terem a vida que viam nos filmes, como se aquele fosse um gabarito com qual medir o sucesso real dos indivíduos. O problema é que nós somos seres necessariamente influenciáveis, e imitamos inconscientemente o comportamento alheio para decidir o que fazer. Somos programados para isso, pois é mais rápido e econômico do que pensar a todo momento em cada decisão individual. Na sociedade atual a televisão potencializa esse efeito, e nela nos espelhamos – em maior ou menor grau, queiramos ou não – para pautar nosso comportamento.
Proponho duas soluções: em primeiro, tendo conhecimento disso, ficarmos mais atentos àquilo que nos influencia. E em segundo, nos inspirarmos em Groucho Marx, que dizia achar a TV muito educativa, já que sempre que alguém ligava o aparelho ia para biblioteca ler um livro.
Bandura, A., Ross, D., & Ross, S. (1963). Imitation of film-mediated aggressive models. The Journal of Abnormal and Social Psychology, 66 (1), 3-11 DOI: 10.1037/h0048687
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