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Daniel Martins de Barros

27.julho.2010 10:24:08

Só umas palmadinhas – evidências contra castigos físicos (Sobre a lei das palmadas)

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Quando soube do projeto de lei que ficou conhecido como “Lei da palmada”, minha primeira reação foi negativa: a forma de educar deveria ser privada, responsabilidade dos pais e livre da ingerência do Estado, pensei. Além do mais, não adianta nada fazer um lei em que as pessoas não acreditam – segundo pesquisa do Datafolha, 54% dos brasileiros são contra essa lei.

O que se faz nessas situações? Pesquisa. São nesses temas em que existe um conflito entre direitos individuais e dever do Estado que dão margem a mais confusões, proliferando as opiniões destituídas de embasamento.
E como é comum acontecer em ciência, a pesquisa desbancou minha hipótese, e mudei de opinião: agora sou favorável a lei. Explico.

Em 2002 foi publicada a maior revisão sistemática da literatura científica sobre o tema, na qual mais de 300 artigos e teses foram estudados, buscando correlacionar o uso de castigos físicos na educação infantil com 11 parâmetros comportamentais, 7 nas crianças (obediência imediata, internalização moral, agressão, comportamento delinquente, qualidade da relação pais-filho, saúde mental, vitimização de violência física) e 4 nos adultos (agressão, comportamento criminoso, saúde mental e violência contra filhos e esposa). O resultado é que os castigos físicos de fato aumentam a obediência imediata nas crianças (que é exatamente o objetivos das palmadas – ou seja, “funciona”), mas às custas de piora em todos os outros fatores: maior agressividade, mais comportamentos deliquentes, piora da saúde mental, piora no relacionamento, além de maiores riscos de espancamento, violência doméstica e comportamentos criminosos por parte dos pais. E ainda: menor internalização moral, ou seja, não educa.

Ok, o tema continua polêmico, pois se as evidências sugerem que o saldo das palmadas é ruim (e mais de 300 estudos pode ser considerado evidência suficiente), resta a dúvida se o Estado teria o direito de ferir a autonomia dos pais.

De saída me parece que sim, já que fere-se um direito (autonomia) em prol de um bem maior (saúde mental, proteção, melhor educação etc). Mas mais do que isso, um estudo sobre os países que aboliram legalmente os castigos físicos publicado esse ano, mostra que as 24 nações que assim procederam obtiveram ganhos interessantes: embora as leis sobre o tema sejam heterogêneas, em todos os lugares a população reduziu a tolerância aos castigos físicos após sua proibição oficial, o que se refletiu um maior proteção à integridade das crianças, melhores índices de saúde mental e melhora nos relacionamentos pai-filho. Ou seja, no geral é uma lei que muda a forma das pessoas pensarem, em benefício da sociedade.

Conclusão: mesmo que os brasileiros sejam contra a lei nesse momento, sua promulgação pode ajudar numa mudança cultural de menor aceitação dos castigos físicos; isso é interessante porque há evidências de que menos palmadas é melhor para todos. Ergo, mudo de opinião.

ResearchBlogging.org Gershoff, E. (2002). Corporal punishment by parents and associated child behaviors and experiences: A meta-analytic and theoretical review. Psychological Bulletin, 128 (4), 539-579 DOI: 10.1037//0033-2909.128.4.539
Zolotor, A., & Puzia, M. (2010). Bans against corporal punishment: a systematic review of the laws, changes in attitudes and behaviours Child Abuse Review, 19 (4), 229-247 DOI: 10.1002/car.1131
“Lei da Palmada” Projeto de lei nº 2654 /2003 (Da Senhora Maria do Rosário)

comentários (7) | comente

7 Comentários Comente também
  • 27/07/2010 - 11:25
    Enviado por: Paz

    Obrigada Dr. Daniel… tinha lah as minhas duvidas, sobre as¨palmadinhas¨ . Foi bom saber que existem estudos provando que sao prejudiciais. Assim mudo de opiniao tambem.

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  • 27/07/2010 - 17:22
    Enviado por: Gisele Mercado

    Querido Dan,

    Tenho acompanho os seus textos e tem sido muito agradável e divertido.

    Parabéns por esse, em especial. Aconteceu o mesmo comigo. Logo que tomei conhecimento dessa lei, rejeitei-a, porque pensei micro. Mas, sem dúvida, considerando “the big picure”, ela é realmente benéfica, útil e necessária. Claro que mesmo sendo tudo isso, pessoas podem vir a tirar proveito de potenciais brechas, e com isso causar sofrimento para outras pessoas, mas isso é uma outra história…

    Um bjo grande,

    Gi, Alf e Pedro

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  • 27/07/2010 - 18:29
    Enviado por: Francisco Boni

    O modelo parental participativo-democrático é realmente o melhor modelo de internalização moral e desenvolvimento psiquico e físico geral.

    Quem apanhou quando criança e defende a ‘porrada pedagógica’ sofre de Síndrome de Estocolmo. Síndrome de Estocolmo é o fenômeno psicológico em que reféns de coerção física ou psicológica expressam adulação ou tem sentimentos positivos para com seus algozes, que são irracionais ou arracionais à luz da coerção física ou psicológica que sofreram [1].

    Evidência científica de que coerção física ou psicológica, dor ou medo, servem como estresse negativo para o desenvolvimento cognitivo da criança e o aprendizado em geral?

    Altos níveis altos de hormônios do estresse, particularmente os corticosteroides, expõem circuitos de medo e emoções negativas, que previnem (i) os efeitos de normalização de atividade desses hormônios e (ii) seus efeitos facilitadores em extinguir padrões fixos, mal-adaptatados, de aprendizado. Isso dá enfâse à importância dos hormônios do estresse para manutenção de um sistema de aprendizado e memória eficiente [2].

    Altos níveis de cortisol não só são contra-producentes no processo de aprendizado e memorização, mas também estão correlacionados positivamente com baixos níveis de saúde mental, de saúde física e de baixos níveis socioeconômicos. Indivíduos com níveis altos de problemas mentais, físicos e de níveis socioeconômicos menores reportam exposição à níveis maiores de eventos estressantes [3].

    [1] ‘Stockholm syndrome’: psychiatric diagnosis or urban myth? Namnyak M, Tufton N, Szekely R, Toal M, Worboys S, Sampson EL.Department of Psychiatry and Behavioural Sciences, Hampstead Campus, Royal Free and University College Medical School, London, UK. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18028254
    [2]: Learning under stress: how does it work?
    Joëls M, Pu Z, Wiegert O, Oitzl MS, Krugers HJ. SILS-CNS, University of Amsterdam, The Netherlands. http://njc.rockefeller.edu/PDF_BN08/Topic%204JoelsTiCSfinal.pdf
    [3]: Can poverty get under your skin? basal cortisol levels and cognitive function in children from low and high socioeconomic status. Lupie SJ, King S, Meaney MJ, McEwen BS. Laboratory of Human Psychoneuroendocrine Research, Douglas Hospital/McGill University, Lasalle, Montréal, Canada. http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11523853

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  • 12/08/2010 - 17:25
    Enviado por: bields84

    Belo blog sobre psicologia!

    Frequentarei aqui mais vezes!

    Esse post realmente tem a ver com o que eu procuro sobre psicologia!

    se quiser que eu publique algo de sua autoria, é só falar que eu coloco no meu blog com sua identificação e endereço do blog!

    da uma olhada no http://psicologiaparatodos.16mb.com

    abraços!

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  • 20/08/2010 - 14:34
    Enviado por: Isabela Cristina Monteiro

    legal, assim eu não vou ter que apanhar mais.
    uhuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu…

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  • 21/10/2010 - 01:01
    Enviado por: Andre Bressan

    Daniel,

    Sei que não é o canal, mas postei um artigo em meu blog (http://www.pediatraemcasa.com/2010/10/o-projeto-mentor.html), e gostaria de saber se você tem algo sobre esse tipo de análise… Vc poderia comentar e enriquecer a questão(ou no blog, ou diretamente com meu e-mail)?

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  • 25/01/2012 - 13:28
    Enviado por: paulo cesar

    Vivemos tempos em que existe uma enorme banalização pela vida, tempos de violência expressas diariamente nos noticiários, e isto vai cada vez mais se tornando uma coisa normal na mente dos menos favorecidos de entendimento, se não houver um freio onde isto vai parar, vemos hoje crianças que tem suas mãos queimadas pelos pais e outros castigos cruéis. Possivelmente estes pais que cometem castigos tão crueis contra seus filhos começaram com uma palmadinha,e foram aumentando a crueldade dos castigos por acharem uma coisa normal, que ocorre diariamente e que não é punida, por isso sou a favor da referida lei.

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    Daniel de Barros

    Daniel de Barros é psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), onde atua como coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica (Nufor). Doutor em ciências e bacharel em filosofia, ambos pela USP.

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